O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 39 de 119

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O Conde de Monte Cristo

16. As catacumbas de São Sebastião

7 Bajocco: em francês barroco, moeda dos Estados romanos.

8 “Didier ou Antony”: protagonistas, respectivamente, dos dramas em cinco atos Marion Delorme (1831), de Victor Hugo, e Antony, do próprio Dumas.

9 Gregório XVI: nome adotado pelo papa Bartolomeu Alberto Cappellari (1765-1846), quando eleito em 1831. Recebeu o escritor Alexandre Dumas no Vaticano, em 1835.

10 “do mezzo cito” : da classe média.

11 “morou na Itália durante cinco ou seis anos” : o autor exagera seu tempo de permanência no país. Todas somadas, as passagens de Alexandre Dumas pela Itália giram em torno de dois anos.

12 Barberi: tipo de cavalo originário da África do Norte.

13 Facchino: em italiano, o porteiro.

14 Éolo: na mitologia grega, o deus dos ventos.

15 Aquiles: guerreiro mitológico grego, morto na guerra de Tróia. Na Antigüidade, o modelo de herói por excelência, simultaneamente belo, robusto e corajoso, sempre buscando estar acima da sua condição de mortal.

16. As catacumbas de São Sebastião

Franz possivelmente nunca sentira uma impressão mais contrastante em sua vida, uma passagem tão brusca da alegria para a tristeza, quanto naquele momento; poderia se dizer que Roma, ao sopro mágico de algum demônio noturno, acabava de se transformar num vasto sepulcro. Por um acaso que só fazia aumentar a intensidade das trevas, a lua, que estava minguante, não deveria aparecer antes das onze horas da noite; as ruas que o rapaz atravessava estavam mergulhadas assim na mais profunda escuridão. O trajeto, pelo menos, era curto; ao cabo de dez minutos, seu coche, ou melhor, o do conde, parou em frente ao Hotel de Londres O

jantar estava servido; porém, como Albert avisara que não devia chegar tão cedo, Franz pôs-se à mesa sem ele.

Mestre Pastrini, acostumado a vê-los jantar juntos, indagou sobre as causas de sua ausência; Franz limitou-se a responder que Albert recebera um convite na antevéspera e o aceitara. O súbito apagar dos moccoletti, a penumbra que substituíra a luz, o silêncio que sucedera o barulho, deixaram no espírito de Franz uma certa tristeza, não isenta de preocupação. Jantou portanto em profundo silêncio, a despeito da obsequiosa solicitude do hoteleiro, que entrou duas ou três vezes para saber se ele não precisava de nada.

Franz estava decidido a esperar Albert até a última hora. Por isso, pediu o coche apenas para as onze horas, rogando a mestre Pastrini que o avisasse imediatamente se Albert porventura reaparecesse no hotel. Às onze horas Albert não regressara. Franz se vestiu e partiu, avisando ao hoteleiro que passaria a noite na casa do duque de Bracciano.

Esta é uma das casas mais encantadoras de Roma; sua dona, uma das últimas herdeiras dos Colona, fazia todas as honras à perfeição. Daí resulta que as festas que o duque promove gozam de fama por toda a Europa.

Franz e Albert haviam chegado à cidade com cartas de recomendação para ele; assim, a primeira pergunta que dirigiu a Franz foi acerca do paradeiro de seu companheiro de viagem. Franz respondeu-lhe que, no momento em que os moccoli estavam sendo apagados, ele o perdera de vista na Tomacelli.

— Então ele não voltou? — perguntou o duque.

— Esperei-o até agora — respondeu Franz.

— E sabe aonde ele ia?

— Não, precisamente; entretanto, creio que se tratava de alguma coisa como um encontro amoroso.

— Diabos! — disse o duque. — Hoje não é um bom dia, ou melhor, é uma noite ruim para se atrasar, não é mesmo, sra. condessa?

Estas últimas palavras dirigiam-se à condessa G..., que acabava de

chegar e que desfilava de braços dados ao sr. Torlonia1, irmão do duque.

— Ao contrário, penso que é uma noite encantadora — respondeu a condessa. — Os que estão aqui não se queixarão senão de uma coisa, é de que ela passará muito rápido.

— Ora — replicou o duque sorrindo —, não falo das pessoas que estão aqui; estas não correm outro perigo a não ser, os homens, de se apaixonarem pela senhora, as mulheres, de ficarem doentes de inveja ao vê-la tão bela; falo dos que andam pelas ruas de Roma.

— Mas, meu bom Deus — perguntou a duquesa —, quem anda pelas ruas de Roma a uma hora dessas a não ser para vir ao baile?

— Nosso amigo Albert de Morcerf, sra. condessa, que deixei no encalço de uma desconhecida por volta das sete horas da noite — disse Franz —, e que não vi mais desde então.

— Como! E não sabe onde ele está?

— Não faço a mínima idéia.

— E ele está armado?

— Está fantasiado de palhaço.

— Não deveria tê-lo deixado ir — disse o duque a Franz —, o senhor, que conhece Roma melhor que ele.

— Oh, claro! Seria o mesmo que tentar parar o número três dos barberi que venceu a corrida hoje — respondeu Franz. — E depois, o que acha que pode lhe acontecer?

— Quem sabe?! A noite está muito escura, e o Tibre fica bem próximo à rua Tomacelli.

Franz sentiu um calafrio percorrer-lhe as veias ao perceber o estado de espírito do duque e da condessa tão em acordo com suas próprias preocupações pessoais.

— Comuniquei ao hotel que tinha a honra de passar a noite em sua casa, sr. duque — disse Franz —, e pedi que me avisassem quando ele voltasse.

— A propósito — disse o duque —, creio que um de meus criados está à sua procura.

O duque não estava errado; ao avistar Franz, o criado aproximou-se dele.

— Excelência — disse o serviçal —, o dono do Hotel de Londres manda avisá-lo que um homem está à sua espera com uma carta do visconde de Morcerf.

— Com uma carta do visconde! — exclamou Franz.

— Sim.

— E quem é esse homem?

— Ignoro.

— Por que ele não trouxe a carta aqui?

— O mensageiro não me deu nenhuma explicação.

— E onde está o mensageiro?

— Foi embora assim que me viu entrar no salão de baile para preveni-lo.

— Oh, meu Deus! — a condessa disse a Franz. — Corra; coitado, talvez tenha sofrido um acidente qualquer.

— Vou já para lá — disse Franz.

— Voltará para nos dar notícias? — perguntou a condessa.

— Sim, se a coisa não for grave; de outra forma, eu mesmo não sei o que irei fazer.

— Em todo caso, prudência — disse a condessa.

— Oh, fique tranqüila.

Franz pegou seu chapéu e saiu a toda pressa. Havia dispensado o coche, pedindo que voltasse dali a duas horas; mas, felizmente, o Palácio Bracciano, do qual um dos lados dá para a rua do Corso e o outro para a praça dos Santos Apóstolos, fica aproximadamente a dez minutos de caminhada do Hotel de Londres. Ao se aproximar do hotel, Franz viu um homem de pé no meio da rua; não teve a menor dúvida de ser ele o mensageiro de Albert. O homem estava embrulhado num grande sobretudo. Veio em sua direção; porém, para grande espanto de Franz, foi o homem que lhe dirigiu a palavra em primeiro lugar.

— Que quer de mim, Excelência? — disse ele, dando um passo atrás como alguém que deseja ficar de sobreaviso.

— Não é o senhor — perguntou Franz — que tem uma carta do visconde Morcerf para mim?

— É Vossa Excelência que está hospedada no hotel do Pastrini?

— Sim.

— É Vossa Excelência que é o companheiro de viagem do visconde?

— Sim.

— Qual é o nome de Vossa Excelência?

— Barão Franz d’Épinay.

— É de fato à Vossa Excelência que essa carta é destinada.

— Devo responder? — perguntou Franz, tomando-lhe a carta das mãos.

— Sim, pelo menos é o que espera o seu amigo.

— Suba até o meu quarto, então, para que eu lhe dê a resposta.

— Prefiro aguardar aqui — replicou o mensageiro, rindo.

— Por que isso?

— Vossa Excelência compreenderá quando tiver lido a carta.

— Então eu o reencontrarei aqui?

— Sem dúvida alguma.

Franz entrou; na escada, encontrou mestre Pastrini.

— E então? — este lhe perguntou.

— E então o quê? — retrucou Franz.

— Esteve com o homem que desejava lhe falar da parte do seu amigo?

— Sim, estive — respondeu Franz —, e ele me entregou esta carta. Peça para iluminarem o meu quarto, por favor.

O hoteleiro deu ordens a um criado para que precedesse Franz com uma vela. O rapaz percebera uma expressão preocupada em mestre Pastrini, e essa expressão deu-lhe ainda mais vontade de ler a carta do colega: aproximou-se da vela assim que esta foi acesa e desdobrou o papel. A carta era escrita com a letra de Albert e assinada por ele. Franz releu-a duas vezes, tão inesperado era o que continha.

Ei-la, textualmente reproduzida.

Caro amigo, assim que receber a presente faça a gentileza de pegar na minha carteira, que encontrará na gaveta quadrada da escrivaninha, a carta de crédito; junte-lhe a sua se ela não for suficiente. Corra até os Torlonia, pegue lá agora mesmo quatro mil piastras e entregue-as ao portador. É urgente que essa soma me seja enviada sem delongas.

Não insisto mais, contando com você como você poderia contar comigo.

PS. I belive now the italian banditti 2.

Seu amigo,

ALBERT DE MORCERF

Embaixo dessas linhas, encontravam-se as seguintes palavras em italiano:

Se alle sei della mattina le quattro mile piastre non sono nelle mie

mani, alla sette il conte Alberto avia cessato di vevere.3

LUIGI VAMPA

Esta segunda assinatura esclareceu tudo para Franz, que compreendeu a relutância do mensageiro em subir até o seu quarto; a rua parecia-lhe mais segura que o quarto de Franz. Albert caíra nas mãos do famoso chefe dos bandidos em cuja existência por tanto tempo se recusara a acreditar.

Não havia tempo a perder. Franz correu para a escrivaninha, abriu-a, na gaveta indicada encontrou a carteira e na carteira a carta de crédito: esta montava a seis mil piastras, porém, dessas seis mil piastras, Albert já gastara três mil. Quanto a Franz, não possuía nenhuma carta de crédito; como morava em Florença e só viera a Roma para passar sete ou oito dias, trouxera consigo uma centena de luíses, e desses cem luíses restavam-lhe no máximo cinqüenta.

Faltavam, portanto, entre setecentas e oitocentas piastras para que Franz e Albert, juntos, dispusessem da soma exigida. É verdade que Franz podia contar, num caso como aquele, com a gentileza dos srs. Torlonia.

Preparava-se então para voltar ao Palácio Bracciano sem perder um instante quando subitamente teve uma idéia.

Pensou no conde de Monte Cristo. Franz ia dar ordens para que chamassem mestre Pastrini quando o viu aparecer em pessoa na soleira da porta.

— Meu caro sr. Pastrini — disse-lhe vivamente —, acha que o conde está em seus aposentos?

— Sim, Excelência, voltou há pouco.

— Tempo suficiente para que já tenha se deitado?

— Duvido.

— Então bata à sua porta, por favor, e peça-lhe permissão para eu me apresentar.

Mestre Pastrini foi imediatamente cumprir as instruções que lhe davam; cinco minutos depois, estava de volta.

— O conde aguarda Vossa Excelência — disse ele.

Franz atravessou o corredor, um criado introduziu-o nos aposentos do conde. Ele estava num pequeno gabinete rodeado por divãs, que Franz ainda não conhecia. O conde foi em sua direção.

— Ora, que bons ventos o trazem a uma hora dessas — disse-lhe. —

Teria vindo partilhar uma ceia, por acaso? Seria, lhe asseguro, muita amabilidade de sua parte.

— Não, venho lhe falar de um incidente grave.

— Um incidente! — disse o conde, encarando Franz com o olhar profundo que lhe era costumeiro. — E que incidente é esse?

— Estamos a sós?

O conde foi até a porta e voltou.

— Inteiramente a sós — respondeu ele. Franz apresentou-lhe a carta de Albert.

— Leia — disse-lhe. O conde leu a carta.

— Ah, ah! — fez ele.

— Viu o post-scriptum?

— Sim — disse ele —, aqui está:

Se alle sei della mattina le quattro mile piastre non sono nelle mie mani, alla sette il conte Alberto avia cessato di vevere.

LUIGI VAMPA

— Que acha disso? — perguntou Franz.

— Tem a soma exigida?

— Sim, menos oitocentas piastras.

O conde foi à sua escrivaninha, abriu-a e, deslizando uma gaveta cheia de ouro, disse a Franz:

— Espero que não me faça a ofensa de recorrer a outro além de mim.

— Ao contrário, como pode ver, vim direto ao senhor — disse Franz.

— E lhe agradeço por isso; tome.

E fez sinal a Franz para se servir na gaveta.

— Será de fato necessário mandar essa soma para Luigi Vampa? —

perguntou o rapaz, também olhando o conde fixamente.

— O que acha?! — exclamou. — Julgue por si mesmo, o post-scriptum é claro.

— Parece-me que, se o senhor se desse ao trabalho de procurar, encontraria um meio de simplificar muito a negociação — disse Franz.

— E qual seria? — perguntou o conde, espantado.

— Por exemplo, se fôssemos juntos procurar Luigi Vampa, tenho certeza de que ele não nos recusaria a liberdade de Albert...

— Por minha causa? E que influência o senhor presume que eu tenha sobre esse bandido?

— Não acaba de lhe prestar um desses favores inesquecíveis?

— E qual?

— Não acaba de salvar a vida de Peppino?

— Ah, ah! Quem disse isso?

— Que importa? Eu sei.

O conde ficou por um instante mudo e com o cenho franzido.

— E se eu fosse ao encontro de Vampa, o senhor me acompanharia?

— Se a minha companhia não fosse por demais desagradável.

— Pois bem! Que seja; o tempo está bonito, um passeio pelos arredores de Roma só pode nos fazer bem.

— Precisamos levar armas?

— Para quê?

— Ou dinheiro?

— É inútil. Onde está o homem que trouxe este bilhete?

— Na rua.

— À espera da resposta?

— Sim.

— Precisamos ter alguma idéia de aonde estamos indo; vou chamá-lo.

— Não adianta, ele não quis subir.

— Ao seu quarto, talvez; aos meus aposentos, não criará dificuldade.

O conde foi até a janela do gabinete que dava para a rua e assobiou de determinada maneira. O homem do casaco desgrudou-se da parede e avançou até o meio da rua.

— Salite4! — disse o conde, no mesmo tom com que teria dado uma ordem a seu criado.

O mensageiro obedeceu sem demora, sem hesitação, com presteza até, e, transpondo os quatro degraus da escada da frente, entrou no hotel. Cinco segundos depois, estava à porta do gabinete.

— Ah, é você, Peppino! — disse o conde.

Mas Peppino, em vez de responder, jogou-se de joelhos, pegou a mão do conde e nela colou seus lábios diversas vezes.

— Ah, ah! — disse o conde. — Ainda não esqueceu que lhe salvei a vida! É estranho, pois já se passou uma semana.

— Não, Excelência, e jamais esquecerei — respondeu Peppino, com profunda gratidão em sua voz.

— Jamais é muito tempo! Mas, enfim, já é alguma coisa você acreditar nisso. Levante-se e responda.

Peppino deu uma olhadela preocupada na direção de Franz.

— Oh, pode falar perante Sua Excelência — disse ele —, é um amigo meu. — Peço licença para lhe dar esse título — disse o conde em francês, voltando-se para Franz —, isso é necessário para estimular a confiança deste homem.

— Pode falar na minha frente — repetiu Franz —, sou amigo do conde.

— Então está bem — disse Peppino, voltando-se para o conde. — Que Vossa Excelência me interrogue, e eu responderei.

— Como o visconde Albert caiu nas garras de Luigi?

— Excelência, a caleche do francês cruzou por diversas vezes com a caleche de Teresa.

— A namorada do chefe?

— Sim. O francês se engraçou para ela, Teresa entrou na brincadeira; o francês atirou-lhe buquês, ela os jogou de volta para ele; tudo isso, naturalmente, com o consentimento do chefe, que estava na mesma caleche.

— Como! — exclamou Franz. — Luigi Vampa estava na caleche das camponesas romanas?

— Era ele que a conduzia, disfarçado de cocheiro — respondeu Peppino.

— E depois? — perguntou o conde.

— Pois bem! Depois, o francês tirou a máscara; Teresa, ainda com o consentimento do chefe, fez o mesmo; o francês solicitou um encontro, Teresa concedeu o encontro solicitado; só que, em vez de Teresa, era Beppo quem estava nos degraus da igreja San Giacomo.

— Como?! — interrompeu Franz mais uma vez. — Aquela camponesa que lhe arrancou o moccoletto...?

— Era um garoto de quinze anos — respondeu Peppino. — Mas seu amigo não deve sentir vergonha de ter sido ludibriado; Beppo enganou muitos outros, acredite.

— E Beppo o levou para fora dos muros? – perguntou o conde.

— Exatamente; uma caleche esperava-os no fim da Tomacelli; Beppo entrou, convidando o francês a segui-lo; este não esperou duas vezes.

Ofereceu galantemente a mão direita a Beppo e instalou-se junto a ele.

Beppo disse então que ia levá-lo até uma villa situada a quatro quilômetros de Roma. O francês assegurou a Beppo que estava disposto a

segui-lo até o fim do mundo. O cocheiro subiu prontamente a rua di Ripetta e atravessou a porta San Paolo; e, ao enveredarem pelos campos, como o francês se assanhou muito, que diabo, Beppo encostou-lhe um par de pistolas na garganta; incontinenti o cocheiro parou os cavalos, voltou-se em seu assento e fez a mesma coisa. Ao mesmo tempo, quatro dos nossos, que estavam escondidos nas margens do Almo, precipitaram-se para as portinholas. O francês bem que tentou se defender, chegou a estrangular um pouco Beppo, pelo que ouvi dizer, mas não havia nada a ser feito contra seis homens armados. Foi obrigado a se render; fizeram-no descer do coche, acompanharam as margens do ribeirão e o levaram até Teresa e Luigi, que o esperavam nas catacumbas de São

Sebastião5.

— Muito bem! Mas — disse o conde virando-se para Franz —, essa história é ridícula. Que me diz sobre ela, o senhor que é um perito?

— Digo que a julgaria engraçadíssima — respondeu Franz — se tivesse acontecido a outra pessoa que não o pobre Albert.

— O fato é — disse o conde — que se o senhor não houvesse me encontrado aqui, a boa sorte teria custado um pouco caro ao seu amigo; mas, acalme-se, ele pagará apenas com o medo.

— E ainda vamos atrás de Albert? — perguntou Franz.

— O que acha?! Ainda mais que ele está num lugar bastante pitoresco.

Conhece as catacumbas de São Sebastião?

— Não, nunca desci lá, mas me prometi que um dia o faria.

— Ótimo! Eis que a oportunidade se apresenta, e seria difícil encontrar outra melhor. Está com seu coche?

— Não.

— Não importa; eles têm o hábito de manter um atrelado para mim, noite e dia.

— Atrelado?

— Sim, sou um homem cheio de caprichos; convém lhe dizer que às vezes, levantando-me no fim do jantar, no meio da noite, sinto vontade de partir para um ponto qualquer do mundo, e parto.

O conde deu um toque na campainha, seu criado de quarto apareceu.

— Mande sair o coche extra — disse o conde — e retire as pistolas que estão nas bolsas; não é necessário acordar o cocheiro, Ali conduzirá.

No fim de um instante, ouviu-se o barulho do coche parando diante da porta.

O conde puxou seu relógio.

— Meia-noite e meia — disse. — Poderíamos partir às cinco da manhã e ainda chegar a tempo; mas talvez essa demora faça o seu companheiro passar uma péssima noite, melhor então irmos correndo tirá-lo das mãos dos infiéis. Continua disposto a me acompanhar?

— Mais que nunca.

— Ótimo! Então venha.

Franz e o conde saíram, seguidos por Peppino.

Na porta, encontraram o coche. Ali estava na boléia. Franz reconheceu o escravo mudo da caverna de Monte Cristo.

Franz e o conde subiram no coche, que era um cupê; Peppino instalou-se ao lado de Ali, e partiram no galope. Ali recebera ordens prévias, pois tomou a rua do Corso, atravessou o Campo Caccino, subiu a estrada San Gregorio e chegou à porta São Sebastião; lá o guarda quis criar algumas dificuldades, mas o conde de Monte Cristo apresentou uma autorização do chefe de polícia de Roma para entrar e sair da cidade a qualquer hora do dia ou da noite; a cancela foi então erguida, o guarda recebeu um luís por se dar a esse trabalho, e eles passaram.

A estrada percorrida pelo coche era a antiga via Ápia, toda margeada por túmulos. De vez em quando, à luz da lua que despontava, parecia a Franz ver como uma sentinela destacar-se de uma ruína; mas sem demora, a um sinal trocado entre Peppino e essa sentinela, esta voltou a entrar na sombra e desapareceu.

Um pouco antes do circo de Caracala6, o coche parou. Peppino foi abrir a portinhola e o conde e Franz desceram.

— Chegaremos em dez minutos — disse o conde ao seu companheiro.

Em seguida chamou Peppino à parte, deu-lhe uma ordem baixinho, e Peppino partiu após se ter munido de um archote retirado da cabine do coche.

Cinco minutos ainda se passaram, durante os quais Franz viu o pastor se enfiar por um pequeno atalho, em meio aos acidentes de terreno que formam o solo convulsionado da planície de Roma, e desaparecer pelos altos arbustos avermelhados que parecem a juba eriçada de um leão gigantesco.

— Agora — disse o conde —, vamos atrás dele.

Franz e o conde enveredaram por sua vez pelo mesmo atalho, que, ao longo de cem passos, os conduziu por um declive até o fundo de uma ravina.

Logo perceberam dois homens conversando na penumbra.

— Devemos continuar a avançar? — perguntou Franz ao conde. — Ou é melhor esperarmos?

— Vamos; Peppino deve ter avisado a sentinela da nossa chegada.

Com efeito, um daqueles dois homens era Peppino, o outro era um bandoleiro na função de vigia.

Franz e o conde se aproximaram; o bandoleiro fez uma saudação.

— Excelência — disse Peppino, dirigindo-se ao conde —, se quiser me seguir, a entrada das catacumbas fica a dois passos daqui.

— Tudo bem — disse o conde —, caminhe na frente.

Atrás de um aglomerado de arbustos, em meio a algumas pedras, oferecia-se um vão pelo qual um homem mal podia passar.

Peppino foi o primeiro a escorregar pela fenda; porém, assim que deu alguns passos, a passagem subterrânea se alargou. Então ele parou, acendeu o archote e voltou-se para ver se estava sendo seguido.

O conde se enfiara na frente por uma espécie de respiradouro, e Franz o acompanhava.

O terreno entranhava-se por um declive suave e alargava-se à medida que avançavam; enquanto isso, porém, Franz e o conde continuavam obrigados a caminhar curvados, mal conseguindo andar lado a lado. Deram ainda cinqüenta passos dessa maneira, sendo então detidos pelo grito:

“Quem vem lá ? ”.

Ao mesmo tempo, em meio à escuridão, viram brilhar, no cano de uma carabina, o reflexo de seu próprio archote.

— Amigo! — disse Peppino.

Ele avançou sozinho e disse algumas palavras em voz baixa a essa segunda sentinela, que, como a primeira, saudou fazendo sinal para os visitantes noturnos de que podiam seguir adiante.

Atrás da sentinela havia uma escada de uns vinte degraus; Franz e o conde desceram os vinte degraus e viram-se numa espécie de encruzilhada mortuária. Cinco acessos divergiam como os raios de uma estrela, e as paredes das muralhas, com nichos superpostos escavados na forma de caixões, indicavam que entravam finalmente nas catacumbas.

Numa dessas cavidades, cuja extensão era impossível precisar, via-se, de dia, alguns reflexos luminosos.

O conde colocou a mão no ombro de Franz.

— Quer ver um acampamento de foras-da-lei em repouso? —

perguntou.

— Certamente — respondeu Franz.

— Muito bem! Venha comigo... Peppino, apague o archote.

Peppino obedeceu, e Franz e o conde se acharam na mais profunda escuridão; entretanto, a cerca de uns cinqüenta metros à frente, continuaram a dançar ao longo das paredes alguns fulgores avermelhados mais visíveis ainda depois que Peppino apagara seu archote.

Avançaram silenciosamente, o conde guiando Franz como se detivesse a singular faculdade de enxergar nas trevas. De toda forma, o próprio Franz distinguia com mais facilidade seu caminho à medida que se aproximava daqueles reflexos que lhes serviam de referência.

Três arcadas, a do meio servindo de porta, davam-lhes passagem. Essas arcadas abriam-se de um lado para a galeria onde estavam o conde e Franz e, do outro, para uma grande câmara quadrada toda rodeada por nichos semelhantes aos já citados. No centro dessa câmara erigiam-se quatro pedras que outrora haviam servido de altar, como indicava a cruz que ainda as encimava.

Uma única lamparina, instalada sobre um fuste de coluna, iluminava com uma luz pálida e vacilante a estranha cena que se oferecia aos olhos dos dois visitantes escondidos na penumbra.

 

Era o chefe do bando, Luigi Vampa.

Um homem estava sentado, o cotovelo apoiado nessa coluna e lia, dando as costas para as arcadas por cujo vão os recém-chegados o observavam.

Era o chefe do bando, Luigi Vampa.

Ao redor dele, agrupados ao seu bel-prazer, deitados em seus casacos ou recostados numa espécie de banco de pedra, que reinava ao redor de todo o mausoléu, distinguiam-se uns vinte bandoleiros, cada um com sua carabina ao alcance da mão.

Ao fundo, silenciosa, quase invisível e igual a uma sombra, uma sentinela passeava de um lado para o outro diante de uma espécie de abertura, apenas perceptível porque as trevas pareciam mais densas naquele lugar.

Quando o conde julgou os olhos de Franz suficientemente deleitados com esse quadro pitoresco, levou o dedo aos lábios para lhe recomendar silêncio e, subindo os três degraus que levavam da galeria ao mausoléu, entrou na câmara pela arcada central e avançou em direção a Vampa, que estava tão profundamente mergulhado em sua leitura que não ouviu o ruído de seus passos.

— Quem vem lá? — gritou a sentinela mais ociosa, que viu, à luz de uma lamparina, uma espécie de sombra crescendo atrás do seu chefe.

A esse grito Vampa levantou-se rapidamente, puxando simultaneamente uma pistola do cinto.

E num instante todos os bandidos ficaram de pé e vinte canos de carabina apontaram para o conde.

— Excelente! — disse este com a voz mais tranqüila do mundo, sem mexer um único músculo do rosto. — Excelente! Quanta gentileza para receber um amigo, caro Vampa!

— Abaixar armas! — gritou o chefe, fazendo um sinal imperativo com uma das mãos, enquanto com a outra tirava respeitosamente o chapéu.

Em seguida, voltando-se para o singular personagem que dominava a cena, disse-lhe:

— Desculpe, sr. conde, mas eu estava tão longe de esperar a honra de sua visita que não o reconheci.

— Você parece ter a memória curta para muitas coisas, Vampa — disse o conde —, e não apenas se esquece do rosto das pessoas, como das condições estabelecidas com elas.

— E de que condições me esqueci, sr. conde? — perguntou o bandoleiro, feito alguém que, se cometeu um erro, não pede mais que repará-lo.

— Não foi combinado — lembrou o conde — que não apenas a minha pessoa, como a dos meus amigos, seria sagrada para você?

— E em que descumpri o trato, Excelência?

— Esta noite você raptou e transportou para cá o visconde Albert de Morcerf. Pois bem! — continuou o conde, num tom que causou calafrios em Franz.

— Esse rapaz é um dos meus amigos, esse rapaz está hospedado no mesmo hotel que eu, esse rapaz fez o Corso durante uma semana na minha caleche e, não obstante, repito, você o raptou, transportou para cá e —

acrescentou o conde, sacando a carta do bolso — pediu resgate por ele como se fosse qualquer um.

— Por que não me avisaram, vocês aí? — irritou-se o chefe, dirigindo-se a seus homens, que recuaram todos diante do seu olhar. — Por que me expuseram assim a faltar com a minha palavra para com um homem como o sr. conde, que tem a vida de todos aqui em suas mãos? Pelo sangue de Cristo! Se eu descobrisse que algum de vocês sabia que o rapaz era amigo de Sua Excelência, eu estouraria seus miolos pessoalmente.

— Vê? — disse o conde, voltando-se para onde estava Franz. — Eu lhe disse que devia haver algum engano.

— Não está sozinho? — perguntou Vampa, inquieto.

— Estou com a pessoa a quem essa carta se destinava e à qual eu quis provar que Luigi Vampa era um homem de palavra. Venha, Excelência —

ele disse a Franz —, aqui está Luigi Vampa, ele vai dizer-lhe pessoalmente o quanto está inconsolável pelo erro que acaba de cometer.

Franz aproximou-se; o chefe deu alguns passos na direção de Franz.

— Seja bem-vindo entre nós, Excelência — disse-lhe Vampa. — O

senhor ouviu o que acaba de dizer o conde, e o que lhe respondi: acrescento que não era minha intenção, pelas quatro mil piastras em que fixei o resgate do seu amigo, que isso acontecesse.

— Mas — disse Franz, preocupado olhando em volta — onde está o prisioneiro? Não o vejo.

— Nada lhe aconteceu, espero... — disse o conde, franzindo o cenho.

— O prisioneiro está ali — disse Vampa, indicando com a mão a reentrância diante da qual desfilava o bandido de plantão —, e vou pessoalmente anunciar-lhe que está livre.

O chefe avançou para o lugar por ele apontado como a prisão de Albert, e Franz e o conde o seguiram.

— Que faz o prisioneiro? — perguntou Vampa à sentinela.

— Juro que não sei — respondeu este —, não faço idéia; há mais de uma hora que não ouço nada.

— Venha, Excelência! — disse Vampa.

O conde e Franz subiram sete ou oito degraus, sempre precedidos pelo chefe, que puxou um ferrolho e empurrou uma porta.

Então, à luz de uma lamparina semelhante à que iluminava o mausoléu, pôde-se ver Albert, envolvido num casaco emprestado por um dos bandidos, deitado num canto e dormindo um sono profundo.

– Ora! — gracejou o conde, dando o sorriso que lhe era tão peculiar.

— Nada mal para um homem que devia ser fuzilado às sete da manhã.

Vampa olhou para o adormecido Albert com uma certa admiração; viase que não era insensível àquela prova de coragem — Tem razão, sr. conde —

admitiu ele —, este homem deve ser um dos seus amigos.

Em seguida, aproximando-se de Albert e tocando em seu ombro:

— Excelência! — disse ele. — Poderia fazer a gentileza de despertar?

Albert se espreguiçou, esfregou as pálpebras e abriu os olhos.

— Ah, ah! — disse ele. — É o senhor, capitão! Por Deus, deveria ter me deixado dormir; estava tendo um sonho delicioso: eu dançava o galope na casa de Torlonia com a condessa G...!

Puxou seu relógio, que conservara consigo para calcular o tempo transcorrido.

— Uma e meia da manhã! — exclamou. — Mas por que diabos está me acordando a uma hora dessas?

— Para lhe dizer que está livre, Excelência.

— Meu caro — replicou Albert totalmente à vontade —, guarde bem para o futuro esta máxima de Napoleão, o Grande: “Só me acorde para as más notícias.” Se tivesse me deixado dormir, eu teria terminado o meu galope e lhe teria sido grato por toda a vida... Então pagaram o meu resgate?

— Não, Excelência.

— Ora essa! Como então estou livre?

— Alguém, a quem nada posso recusar, veio reclamá-lo.

— Veio até aqui?

— Até aqui.

— Minha nossa! Esse alguém é muito amável.

Albert olhou à sua volta e percebeu Franz. Então perguntou:

— Como pôde, meu caro Franz, levar a amizade a esse ponto?

— Não fui eu — explicou Franz —, mas o nosso vizinho, o sr. conde de Monte Cristo.

— Ah, minha nossa! Sr. conde — disse alegremente Albert, arrumando o lenço que tinha no pescoço e os punhos de sua roupa —, o senhor é de fato um homem especial, espero que me considere seu eterno devedor, primeiro pelo episódio do coche, agora por este aqui! — e estendeu a mão ao conde, que sentiu um calafrio ao lhe estender a sua, mas que não obstante a estendeu.

O fora-da-lei olhava toda essa cena com uma expressão estupefata; era evidente que estava acostumado a ver seus prisioneiros tremerem diante de sua figura, e eis que havia um cujo humor sarcástico não sofrera alteração. Quanto a Franz, estava encantado por Albert haver defendido, ainda que perante um bandido, a honra nacional.

— Meu caro Albert — disse-lhe ele —, se fizer a gentileza de se apressar, ainda teremos tempo de terminar a noite na casa de Torlonia; você pegará o galope no ponto em que o havia interrompido e, dessa

forma, não guardará nenhum rancor do signor Luigi, que se comportou, em todo esse episódio, como homem galante.

— É mesmo — concordou ele —, tem razão, e poderemos estar lá às duas horas. Signor Luigi — continuou Albert —, há alguma outra formalidade a ser cumprida para nos despedirmos de Vossa Excelência?

— Nenhuma, cavalheiro — respondeu o fora-da-lei —, e o senhor está livre como o ar.

— Nesse caso, desejo-lhe uma vida boa e alegre; venham, senhores, venham!

E Albert, seguido por Franz e pelo conde, desceu a escada e atravessou o salão quadrado; todos os bandidos estavam de pé, com os chapéus nas mãos.

— Peppino — disse o chefe —, dê-me o archote.

— Ora, o que está fazendo? — perguntou o conde.

— Vou acompanhá-los — disse o capitão. — É a menor homenagem que posso prestar à Vossa Excelência.

E, arrebatando o archote aceso das mãos do pastor, passou à frente de seus convidados, não como um valete em atitude servil, mas como um rei que precede a embaixadores.

Ao chegar à porta, inclinou-se.

— E agora, sr. conde — disse ele —, renovo minhas desculpas e espero que não guarde nenhum ressentimento pelo que acaba de acontecer.

— Não, meu caro Vampa — agradeceu o conde. — Aliás, você redime seus erros de forma tão galante que somos quase tentados a nos regozijar por havê-los cometido.

— Senhores! — disse o chefe, voltando-se para o lado dos rapazes. —

Talvez a oferta não lhes pareça atraente; mas, se um dia sentirem vontade de me fazer uma segunda visita, serão bem-vindos onde quer que eu esteja.

Franz e Albert saudaram-no. O conde saiu primeiro, Albert em seguida, Franz deixou-se ficar por último.

— Vossa Excelência tem algo a me pedir? — perguntou Vampa sorrindo.

— Sim, admito — respondeu Franz —, tenho curiosidade em saber qual era o livro que o senhor lia com tanta atenção à nossa chegada.

— Os Comentários de César — disse o fora-da-lei. — É o meu livro de cabeceira.

— E então! Não vem? — perguntou Albert.

— É para já — respondeu Franz —, aqui estou! E foi a sua vez de sair pelo respiradouro.

Deram alguns passos na planície.

— Ah, perdão! — disse Albert, voltando-se. — Pode fazer a gentileza, capitão?

E acendeu seu charuto no archote de Vampa.

— Agora, sr. conde — disse ele —, a maior ligeireza possível! Faço questão de terminar a noite na casa do duque de Bracciano. Encontraram o coche onde o haviam deixado; o conde disse uma única palavra, em árabe, a Ali, e os cavalos partiram em disparada.

O relógio de Albert marcava duas horas em ponto quando os dois amigos entraram novamente no salão de baile.

Seu retorno causou sensação; porém, como voltavam juntos, todas as preocupações relativas a Albert cessaram instantaneamente.

— Condessa — disse o visconde de Morcerf, andando em sua direção

—, ontem a senhora teve a bondade de me prometer um galope, chego um pouco tarde para reivindicar essa graciosa promessa; mas aqui está o meu amigo, de quem a senhora conhece a sinceridade, que lhe dirá que a culpa não foi minha.

E, como nesse momento a música dava o sinal da valsa, Albert passou o braço em torno da cintura da condessa e desapareceu com ela no turbilhão dos dançarinos.

Enquanto isso, Franz pensou no singular arrepio que percorrera o corpo do conde de Monte Cristo quando este se vira de certa forma obrigado a apertar a mão de Albert.

1 Torlonia: família romana excepcionalmente rica nos sécs.XVIII e XIX, quando sua casa bancária administrava os bens do Vaticano.

2 I believe now the italian banditti: “Agora acredito em bandidos italianos.”

3 Se alle sei della ... cessato di vevere: “Se às seis horas da manhã as quatro mil piastras não estiverem em minhas mãos, às sete horas o visconde Albert de Morcerf terá deixado de existir.”

(Nota do Autor.)

4 Salite!: “Suba!”