O Conde de Monte Cristo
12. A noite
— Ótimo! É tudo que preciso. Amanhã, sete da manhã na minha casa, confirmado?
— Estaremos lá.
— Schh! A cortina vai abrir, escutemos. Tenho o hábito de não perder uma nota desta ópera; que música deliciosa a de Guilherme Tell!
1 “Duprez ... minh’alma”: Gilbert Duprez, tenor, que representava Arnold na ópera Guilherme Tell, de Gioacchino Rossini (1792-1868), cujo par romântico era a personagem Mathilde. Dumas viu-o no papel em 1835, durante uma viagem à Itália.
12. A noite
O sr. de Monte Cristo esperou, como era seu costume, que Duprez
tivesse cantado seu famoso “Segue-me!” 1 e, só então, levantou e saiu.
Na porta, Morrel despediu-se, renovando a promessa de estar em sua casa, com Emmanuel, na manhã seguinte às sete em ponto. Em seguida, o conde entrou no seu cupê, sempre calmo e sorridente. Cinco minutos depois, estava em casa. Apesar de tudo, seria preciso não conhecê-lo para se deixar enganar pela expressão com que disse, ao entrar:
— Ali, minhas pistolas com cabo de marfim!
Ali trouxe a caixa para o seu amo, e este começou a examinar as armas com uma solicitude bastante natural para um homem que vai confiar sua vida a um punhado de ferro e chumbo. Eram pistolas especiais, que Monte Cristo mandara fazer para praticar tiro ao alvo em seus aposentos. Uma cápsula bastava para expulsar a bala, e do quarto ao lado era impossível não perceber que o conde, como se diz no jargão do tiro, estava ocupado
“acertando a mão”.
Ele estava prestes a encaixar a arma na mão, e procurar o ponto de mira sobre uma plaquinha de ferro que servia de alvo, quando a porta do gabinete se abriu e Baptistin entrou.
Ali trouxe a caixa para o seu amo.
Porém, antes mesmo de abrir a boca, o conde percebeu na porta, que permanecera aberta, uma mulher com um véu, de pé, na penumbra da sala contígua, e que seguira Baptistin.
Ela percebera o conde com a pistola na mão, viu duas espadas sobre uma mesa e se precipitou.
Baptistin consultava o patrão com o olhar. O conde fez um sinal, Baptistin saiu e fechou a porta atrás de si.
— Quem é a senhora? — perguntou o conde à mulher de véu.
A desconhecida lançou um olhar ao redor para certificar-se de estar realmente a sós, depois, inclinando-se como se quisesse ajoelhar-se, juntando as mãos com a ênfase do desespero, ela disse:
— Edmond, você não matará o meu filho!
O conde deu um passo para trás, deixou escapar um grito débil e soltou a arma que segurava.
— Que nome a senhora pronunciou, sra. de Morcerf? — ele perguntou.
— O seu! — ela exclamou, puxando o véu —, o seu que talvez apenas eu não tenha esquecido. Edmond, não é a sra. de Morcerf que vem
procurá-lo, é Mercedes.
— Mercedes está morta, senhora — disse Monte Cristo —, e não conheço mais ninguém com esse nome.
— Mercedes está viva, cavalheiro, e Mercedes se lembra, pois apenas ela o reconheceu quando o viu, e nem precisava ver, pela sua voz, Edmond, apenas pelo tom de sua voz. Desde aquela época Mercedes segue seus passos, espreita-o, teme-o; da mesma forma, ela não precisou procurar a mão de onde partia o golpe desferido contra o sr. de Morcerf.
— Fernand, a senhora quer dizer — replicou Monte Cristo, com uma ironia amarga. — Já que estamos nos lembrando dos nossos nomes, vamos nos lembrar de todos.
E Monte Cristo pronunciara o nome Fernand com tal expressão de ódio que Mercedes sentiu um arrepio de pavor percorrer o seu corpo — Como pode ver, Edmond, não me enganei! — exclamou Mercedes.
— E tenho razão para lhe pedir: “Poupe o meu filho!”
— E quem lhe disse, senhora, que tenho algo contra seu filho?
— Ninguém, meu Deus! Mas uma mãe é dotada de um sexto sentido.
Pressenti tudo. Segui-o até o Opéra esta noite e, escondida numa frisa, vi tudo.
— Então, se viu tudo, senhora, não viu que o filho de Fernand insultoume publicamente? — indagou Monte Cristo, com uma calma terrível.
— Oh, por piedade!
— Viu — continuou o conde — que ele teria atirado a luva em minha cara, se um de meus amigos, o sr. de Morrel, não tivesse agarrado seu braço.
— Escute. Meu filho também intuiu quem era o senhor. Atribui-lhe todos os infortúnios que golpeiam seu pai.
— Senhora — disse Monte Cristo —, está confundindo. Não são infortúnios, é um castigo. Não sou eu quem golpeio o sr. de Morcerf, é a Providência que o castiga.
— E por que toma o lugar da Providência? — exclamou Mercedes. —
Por que se lembra quando ela se esquece? Que importam, a você, Edmond, Janina e seu vizir? Que prejuízo causou-lhe Fernand Mondego ao trair Ali Tebelin?
— Perfeito, senhora — respondeu Monte Cristo —, isso tudo é assunto entre o capitão francês e a filha de Vasiliki. Isso não me diz absolutamente
respeito, tem razão. Se jurei me vingar, não foi do capitão francês, nem do conde de Morcerf: foi do pescador Fernand, marido da catalã Mercedes.
— Ah, senhor! — exclamou a condessa. — Que terrível vingança por um erro que a fatalidade me fez cometer! Pois a culpada sou eu, Edmond, e se tem que se vingar de alguém é de mim, que não tive forças para suportar sua ausência e meu isolamento.
— Mas — exclamou Monte Cristo —, por que eu estava ausente? Por que a senhora estava isolada?
— Porque você foi preso, Edmond, porque você foi feito prisioneiro.
— E por que fui preso? Por que fui feito prisioneiro?
— Ignoro — disse Mercedes.
— Sim, a senhora ignora, é o mínimo que espero. Pois bem! Vou lhe dizer, eu. Fui preso, fui feito prisioneiro, porque, sob o caramanchão do La Réserve, na própria véspera do dia em que eu devia me casar com a senhora, um homem, chamado Danglars, havia escrito esta carta, que o pescador Fernand encarregou-se pessoalmente de postar.
E Monte Cristo, dirigindo-se até uma escrivaninha, abriu uma gaveta da qual retirou um papel que perdera a cor original e cuja tinta tornara-se cor de ferrugem, que pôs sob os olhos de Mercedes.
Era a carta de Danglars ao procurador do rei, a qual, no dia em que pagara os duzentos mil francos ao sr. de Boville, o conde de Monte Cristo, disfarçado de representante da Casa Thomson & French, subtraíra do dossiê sobre Edmond Dantès.
Mercedes leu com pavor as seguinte linhas:
O sr. procurador do rei fica avisado, por um amigo do trono e da religião, que o assim chamado Edmond Dantès, imediato do navio Pharaon, chegado de Esmirna esta manhã, antes de fazer escalas em Nápoles e Porto Ferraio, foi encarregado, por Murat, de uma carta para o usurpador, e pelo usurpador, de uma carta para o comitê bonapartista de Paris.
A prova de seu crime pode ser obtida com sua detenção, pois a carta será encontrada com ele, ou na casa de seu pai, ou em sua cabine a bordo do Pharaon.
— Oh, meu Deus! — gritou Mercedes, passando a mão na testa molhada de suor. — E essa carta...
— Comprei-a por duzentos mil francos, senhora — disse Monte Cristo.
— Mas ainda foi barato, pois ela permite que eu me justifique hoje a seus olhos.
— E o resultado dessa carta?
— A senhora sabe, foi a minha prisão. Mas o que não sabe, senhora, é o tempo que essa prisão durou. O que não sabe é que fiquei catorze anos a dois quilômetros da senhora, numa masmorra do castelo de If. O que não sabe é que todos os dias desses catorze anos renovei o voto de vingança que fizera no primeiro dia, e entretanto ignorava que a senhora se casara com Fernand, meu acusador, e que meu pai estava morto, e morto de fome!
— Santo Deus! — exclamou Mercedes, vacilante.
— Pois foi o que soube ao sair da prisão, catorze anos depois de entrar, e o que fez com que, por Mercedes viva e pelo meu pai morto, eu jurasse me vingar de Fernand, e... estou me vingando.
— Tem certeza absoluta de que Fernand fez isso?
— Pela minha alma, senhora, e o fez como eu lhe disse. Aliás, isso não é muito mais odioso do que, francês por adoção, ter passado para o lado dos in gleses; espanhol de nascimento, ter lutado contra os espanhóis; estipendiário de Ali, ter traído e assassinado Ali. Diante de coisas como essas, o que é a carta que acaba de ler? Uma mistificação galante que deve ser perdoada, reconheço e compreendo, pela mulher que se casou com esse homem, mas que não é perdoada pelo noivo com quem ela devia se casar.
Pois bem! Os franceses não se vingaram do traidor, os espanhóis não fuzilaram o traidor, Ali, deitado em seu túmulo, deixou o traidor impune; mas eu, traído, assassinado, também atirado num túmulo, saí desse túmulo pela graça de Deus, e devo-lhe essa vingança. Ele me envia para isso, e aqui estou.
Murat.
A pobre mulher deixou a cabeça cair entre as mãos; suas pernas vergaram sob si e ela caiu de joelhos.
— Perdoe, Edmond — disse ela —, perdoe por mim, a quem você ainda ama.
A dignidade da esposa deteve o impulso da amante e da mãe. Sua testa inclinou-se, quase tocando o tapete.
O conde lançou-se à frente dela e a reergueu.
Então, sentada numa poltrona, ela pôde, por entre suas lágrimas, observar o semblante viril de Monte Cristo, no qual dor e ódio imprimiam um caráter ameaçador.
— Não esmagar essa raça maldita — murmurou ele —, desobedecer a Deus, que me despertou para sua punição! Impossível, senhora, impossível!
— Edmond — disse a mãe desesperada, apelando a todos os seus recursos —, meu Deus, por que não me chama de Mercedes quando lhe chamo de Edmond?
— Mercedes — repetiu Monte Cristo —, Mercedes! Ótimo! Sim, tem razão, ainda é agradável pronunciar esse nome, e esta é primeira vez, há muito tempo, que ele soa tão claramente ao sair dos meus lábios. Oh, Mercedes, pronunciei seu nome com os suspiros da melancolia, com os gemidos do sofrimento, com o estertor do desespero. Pronunciei-o gelado de frio, de cócoras na enxerga da minha masmorra; pronunciei-o devorado pelo calor, rolando sobre as lajes de pedra da minha prisão. Mercedes, preciso me vingar, pois sofri catorze anos, por catorze anos chorei, amaldiçoei. Agora, estou lhe dizendo, Mercedes, preciso me vingar!
E o conde, receando ceder às súplicas daquela a quem tanto amara, chamava suas lembranças em socorro ao seu ódio.
— Vingue-se, Edmond! — exclamou a pobre mãe. — Mas vingue-se sobre os culpados, vingue-se sobre mim, mas não se vingue sobre meu filho...
— Está escrito no Livro Sagrado — respondeu Monte Cristo. — “Os erros dos pais recairão nos filhos até a terceira e quarta gerações.” Uma vez que Deus ditou essas palavras a seu profeta, por que seria eu mais generoso que Deus?
— Por que Deus tem o tempo e a eternidade, essas duas coisas que escapam aos homens.
Monte Cristo deu um suspiro semelhante a um rugido, e agarrou suas belas madeixas com as duas mãos.
— Edmond — continuou Mercedes, com os braços estendidos para o conde —, Edmond, assim que o conheci adorei o seu nome, respeite sua memória. Edmond, meu amigo, não me obrigue a manchar essa imagem nobre e pura incessantemente refletida no espelho do meu coração.
Edmond, se soubesse todas as preces que dirigi a Deus pedindo por você, o tanto que o esperei vivo e depois que o julguei morto, sim, morto, ai de mim! Eu julgava seu cadáver sepultado no fundo de uma torre escura qualquer; julgava seu corpo precipitado no fundo de algum desses abismos onde os carcereiros deixam rolar os prisioneiros mortos, e eu chorava!
Mas o que eu podia fazer por você, Edmond, senão rezar ou chorar?
Escute, durante dez anos tive o mesmo sonho todas as noites. Ouvi dizer que você tinha querido fugir, que havia tomado o lugar de um prisioneiro, que se enfiara no sudário de um defunto e que então lançaram o cadáver vivo do alto do castelo de If; e que só o grito que você soltara quebrando-se nas pedras revelara a substituição aos seus embalsamadores, que
haviam se tornado seus carrascos. Pois bem, Edmond, juro pela cabeça desse filho em nome do qual lhe imploro, Edmond, durante dez anos vi todas as noites homens balançando alguma coisa informe e desconhecida no alto de um rochedo. Durante dez anos ouvi, todas as noites, um grito terrível que me acordava trêmula e gelada. E eu também, Edmond, oh, acredite, tão culpada quanto fui, oh, sim, eu também, sofri muito.
— Sentiu seu pai morrer na sua ausência? — exclamou Monte Cristo, enfiando as mãos nos cabelos. Viu a mulher que amava estender a mão para o seu rival, enquanto você morria no fundo do abismo...?
— Não — interrompeu Mercedes —, mas vejo aquele que eu amava disposto a se tornar o assassino do meu filho!
Mercedes pronunciou essas palavras com uma dor tão aguda, uma ênfase tão desesperada, que, a essas palavras e a essa ênfase, um soluço rasgou a garganta do conde.
O leão estava domado; o vencedor estava vencido.
— O que me pede? — disse ele. — Que seu filho viva? Muito bem! Ele viverá!
Mercedes lançou um grito que fez saírem duas lágrimas das pálpebras de Monte Cristo, mas essas duas lágrimas desapareceram quase imediatamente, pois sem dúvida Deus enviara algum anjo para recolhê-las, muito mais preciosas que eram
aos olhos do Senhor que as mais ricas pérolas de Gusarate e Ofir2.
— Oh! — exclamou ela, agarrando a mão do conde e levando-a aos seus lábios. — Obrigado, obrigado, Edmond! Este é você como sempre sonhei, você como sempre amei. Oh, agora posso falar isso.
— Ainda mais — respondeu Monte Cristo — que o desventurado Edmond não terá muito tempo para ser amado pela senhora. A morte voltará para o túmulo, o fantasma voltará para a noite.
— Que está dizendo, Edmond?
— Estou dizendo que, uma vez que ordena, Mercedes, será preciso morrer.
— Morrer! E quem disse uma coisa dessas? Quem está falando em morrer? De onde vêm essas idéias de morte?
— A senhora não supõe que, ultrajado publicamente perante todo um teatro, na presença dos meus amigos e dos de seu filho, provocado por uma criança que será glorificada pelo meu perdão como por uma vitória, não supõe, eu dizia, que eu tenha por um instante o desejo de viver. O que
mais amei depois da senhora, Mercedes, fui eu mesmo, isto é, minha dignidade, essa força que me fazia superior aos outros homens. Essa força era minha vida. Com uma palavra, a senhora a despedaça. Vou morrer.
— Mas esse duelo não irá acontecer, Edmond, uma vez que você o perdoa.
— Acontecerá, senhora — disse solenemente Monte Cristo. — Só que, em vez do sangue do seu filho a ser bebido pela terra, será o meu que correrá.
Mercedes soltou um grito e arrojou-se em direção a Monte Cristo. Mas, de repente, se deteve.
— Edmond — disse ela —, há um Deus acima de nós, pois você está vivo, pois eu o revi, e confio Nele do fundo do meu coração. Apoiando-me Nele, fico descansada com a sua palavra. Você disse que meu filho viveria; ele viverá, não é?
— Ele viverá, sim, senhora — disse Monte Cristo, espantado que, sem outra exclamação, sem outro alarme, Mercedes aceitasse o heróico sacrifício que ele lhe fazia.
Mercedes estendeu a mão para o conde.
— Edmond — ela disse, enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas, olhando para aquele a quem dirigia a palavra —, como é bonito da sua parte, como é grande o que acaba de fazer, como é sublime ter piedade de uma pobre mulher que veio a você com todas as probabilidades contra ela!
Ai de mim! Envelheci mais pelos sofrimentos que pela idade, e não consigo sequer evocar para o meu Edmond, por um sorriso, por um olhar, aquela Mercedes que outrora ele passou tantas horas a contemplar. Ah, acredite em mim, Edmond, eu lhe disse que também sofri. Repito, é lúgubre ver sua vida passar sem se lembrar de uma única alegria, sem preservar uma única esperança, mas isso prova que nem tudo está terminado na Terra. Não! Nem tudo está terminado, sinto-o pelo que ainda me resta no coração. Oh, repito, Edmond, é bonito, é grandioso, é sublime perdoar como acaba de fazer.
— A senhora diz isso; que diria então se soubesse a extensão do sacrifício que lhe faço? Suponha que o Senhor supremo, após criar o mundo, após fertilizar o caos, houvesse se detido a um terço de sua criação para poupar a um anjo as lágrimas que nossos crimes deviam fazer correr um dia de seus olhos imortais; suponha que, após haver tudo preparado, tudo moldado, tudo fecundado, no momento de admirar sua obra, Deus
houvesse extinguido o sol e rechaçado o mundo para a noite eterna; fará então uma idéia, não, ainda não poderá ter noção do que deixo de ganhar, perdendo a vida neste momento.
Mercedes olhou para o conde com uma expressão que esboçava ao mesmo tempo perplexidade, admiração e gratidão.
Monte Cristo apoiou a cabeça em suas mãos ardentes, como se ela não fosse mais capaz de carregar sozinha o peso de seus pensamentos.
— Edmond — disse Mercedes —, tenho apenas mais uma palavra a lhe dizer.
O conde sorriu amargamente.