O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 92 de 119

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O Conde de Monte Cristo

13. O encontro

— Edmond — ela continuou —, irei provar-lhe que, se a fronte empalideceu, se os olhos se apagaram, se a beleza se perdeu, se Mercedes, enfim, não se parece mais com ela mesma pelos traços do rosto, irei provar-lhe que o coração continua o mesmo... Adeus, então, Edmond; não tenho mais nada a pedir aos céus... Reencontro-o tão nobre e generoso quanto antes. Adeus, Edmond... adeus e obrigado.

Mas o conde não respondeu.

Mercedes abriu a porta do gabinete e desapareceu antes que ele se recobrasse do devaneio doloroso e profundo em que o mergulhara sua vingança perdida.

Dava uma hora no relógio dos Invalides, quando o coche que levava a sra. de Morcerf, deslizando pelo calçamento dos Champs-Élysées, fez a cabeça do conde de Monte Cristo levantar.

— Que louco eu fui — ele exclamou — de não ter arrancado meu coração no dia em que jurei me vingar!

1 “Segue-me” : Guilherme Tell, ato II, cena 2, “Se a pátria foi posta a ferros/ Quebremo-los com nossa lança;/ Os caminhos de Altdorf estão abertos/ Segue-me.”

2 Gusarate e Ofir: regiões do mundo antigo das quais o rei Salomão, de Israel, cujo reinado é estimado entre 1009 e 922 a.C., e o rei mítico fenício Hiram, citado no primeiro Livro dos Reis, cap.5, ambos parceiros comerciais, mandavam extrair ouro, marfim e pedras preciosas.

13. O encontro

Após a partida de Mercedes, tudo recaiu na penumbra na casa de Monte Cristo.

À sua volta e dentro de si, seu pensamento estancou. Seu espírito enérgico adormeceu como faz o corpo após um supremo cansaço.

— O quê!? — dizia-se ele, enquanto a lâmpada e as velas se consumiam tristemente e os criados esperavam com impaciência na antecâmara. — O

quê!? Eis o edifício tão lentamente preparado, erigido com tantos sofrimentos e cuidados, demolido por um único golpe, uma única palavra, um sopro de ar! E agora!? Aquele eu que eu julgava alguma coisa, aquele de quem tanto orgulho eu tinha, aquele que eu vira tão pequeno nas masmorras do castelo de If e que soubera fazer tão grande, talvez amanhã venha a ser um punhado de pó! Que tristeza! Não é em absoluto a morte do corpo que lastimo. Essa destruição do princípio vital não seria o repouso para onde tudo tende, a que todo desgraçado aspira, a calma da matéria pela qual suspirei por tanto tempo, ao encontro da qual eu caminhava pela estrada dolorosa da fome, quando Faria apareceu na minha masmorra? O

que é a morte? Um grau a mais na calma e dois talvez no silêncio. Não, não é a vida que irei lastimar, é a ruína dos meus planos tão lentamente elaborados, tão laboriosamente construídos. Logo, a Providência, que eu julgava a favor deles, estava contra eles! Logo, Deus não queria que eles se consumassem!

“Esse fardo que ergui, quase tão pesado quanto um mundo e que eu julgava carregar até o fim, refletia meu desejo e não minha força, minha vontade e não meu poder, e terei que largá-lo ainda na metade do caminho.

Oh, voltarei então a ser fatalista, eu, que catorze anos de desespero e dez anos de esperança haviam tornado um ser da Providência.

“E tudo isso, meu Deus, porque o meu coração, que eu julgava morto, estava apenas entorpecido. Porque ele despertou, porque pulsou, porque cedi à dor dessa pulsação, despertada do fundo do meu peito pela voz de uma mulher!

“E no entanto — continuou o conde, afundando cada vez mais nas previsões desse dia seguinte terrível que Mercedes aceitara —, no entanto, é impossível que essa mulher, que é um coração tão nobre, tenha assim, por egoísmo, consentido em me deixar matar, eu, cheio de força e vida! É

impossível que leve a esse ponto o amor, ou melhor, o delírio materno! Há

virtudes cujo exagero é um crime. Não, ela terá imaginado alguma cena patética, virá lançar-se entre as espadas, e será ridículo na arena o que era sublime aqui.”

E o rubor do orgulho invadia as faces do conde.

— Ridículo — repetiu —, e o ridículo recairá sobre mim... Eu, ridículo!

Nunca! Prefiro morrer.

E em virtude de exagerar antecipadamente as desventuras do dia seguinte, às quais se condenara ao prometer a Mercedes deixar seu filho viver, o conde chegou a se dizer:

— Tolice, tolice, tolice! Ser generoso desse jeito, colocando-se como alvo inerte na mira da pistola desse moço! Ele nunca acreditará que a minha morte é um suicídio, mas, apesar disso, é importante que o acredite para a honra da minha memória... Não é questão de vaidade, não é, meu Deus? Apenas um justo orgulho, só isso. É importante para a honra da minha memória que o mundo saiba que eu mesmo aceitei, de livre e espontânea vontade, deter meu braço já erguido para golpear e que com esse braço, tão poderosamente armado contra os outros, golpeei a mim mesmo: é preciso, farei.

Então, pegando de uma pena, retirou um papel da gaveta secreta de sua escrivaninha e traçou no rodapé desse papel, que não era outra coisa senão seu testamento, feito desde a sua chegada a Paris, uma espécie de codicilo no qual explicava sua morte às pessoas menos perspicazes.

— Faço isso, meu Deus — disse ele, com os olhos erguidos para os céus

—, tanto pela Vossa honra quanto pela minha. Há dez anos considero-me, ó Deus, o emissário de Vossa vingança, e não posso permitir que outros miseráveis como esse Morcerf, um Danglars, um Villefort, não posso permitir que sequer esse próprio Morcerf imaginem que o acaso os livrou de seu inimigo. Que saibam, ao contrário, que a Providência, que já decretara sua punição, foi desviada exclusivamente pelo poder da minha vontade; que o castigo evitado neste mundo os espera no outro, e que apenas trocaram o tempo pela eternidade.

Enquanto flutuava por essas sombrias incertezas, vivendo o pesadelo de um homem acordado pelo sofrimento, o dia veio clarear as vidraças e iluminar sob suas mãos o pálido papel azul no qual acabava de traçar a suprema justificação da Providência.

Eram cinco da manhã.

De repente, um leve ruído chegou a seus ouvidos. Monte Cristo julgou ter escutado algo como um suspiro abafado; voltou a cabeça, olhou ao redor e não viu ninguém. Entretanto, o ruído repetiu-se muito claramente para que à dúvida sucedesse a certeza.

O conde então levantou-se, abriu lentamente a porta do salão e, numa poltrona, com os braços pendentes, a bela cabeça pálida e inclinada para trás, viu Haydée, que se colocara atravessada na porta a fim de que ele não pudesse sair sem vê-la, mas a quem o sono, tão poderoso contra a juventude, surpreendera após o cansaço de tão longa vigília.

O barulho que a porta fez ao se abrir não foi capaz de arrancar Haydée de seu descanso.

Monte Cristo deteve sobre ela um olhar cheio de ternura e arrependimento.

— Ela lembrou que tinha um filho — disse ele —, e eu esqueci que tinha uma filha!

Depois, balançando tristemente a cabeça:

— Pobre Haydée! — disse Monte Cristo —, quis me ver, falar comigo, receou ou pressentiu alguma coisa... Oh, não posso partir sem dizer-lhe adeus, não posso morrer sem confiá-la a alguém.

E voltou lentamente a seu lugar e escreveu sob as primeiras linhas: Lego a Maximilien Morrel, capitão dos spahis e filho do meu ex-patrão, Pierre Morrel, armador em Marselha, a soma de vinte milhões, da qual uma parte será oferecida por ele à sua irmã Julie e seu cunhado Emmanuel, se todavia ele não julgar que tal excesso de fortuna vá prejudicar sua felicidade. Esses vinte milhões estão enterrados na minha caverna de Monte Cristo, cujo segredo é conhecido por Bertuccio.

Se o seu coração estiver livre e ele quiser desposar Haydée, filha de Ali, paxá de Janina, que criei com o amor de um pai e que teve por mim a ternura de uma filha, ele realizará, não direi minha última vontade, mas meu último desejo.

O presente testamento já tornou Haydée herdeira do restante da minha fortuna — que consiste em terras, rendas na Inglaterra, Áustria e Holanda, no mobiliário de meus diversos palácios e casas —, a qual, afora esses vinte milhões, bem como os diversos legados que faço aos meus servidores, ainda deve totalizar uns sessenta milhões.

Quando terminava de escrever esta última linha, um grito, deflagrado atrás de si, fez-lhe cair a pena das mãos.

— Haydée — disse ele —, você leu?

Com efeito, a moça, despertada pelo dia que fustigara suas pálpebras, levantara-se e aproximara-se do conde sem que seus passos diáfanos, abafados pelo tapete, fossem percebidos.

— Oh, meu amo — disse ela, juntando as mãos —, por que escreve assim a uma hora dessas? Por que me lega toda a sua fortuna, meu amo?

 

Isso significa que está me abandonando?

— Você leu?

— Vou fazer uma viagem, meu anjo — respondeu Monte Cristo, com uma expressão de melancolia e tristeza infinitas. — Se por infelicidade....

O conde estacou.

— Continue... — exigiu a moça, num tom de autoridade que o conde não conhecia e o fez estremecer.

— Pois bem! Se me acontecer uma desgraça — continuou Monte Cristo

—, desejo que minha filha seja feliz.

Haydée sorriu tristemente, balançando a cabeça.

— Pensa em morrer, meu amo? — perguntou ela.

— É um pensamento salutar, minha filha, já dizia o sábio.

— Pois bem, se morrer — disse ela —, legue sua fortuna para outros, pois, se morrer... não precisarei de mais nada.

E, pegando o papel, rasgou-o em quatro pedaços, que atirou no meio do salão. Em seguida, esgotadas as forças dessa energia tão incomum numa

escrava, ela tombou, não mais adormecida dessa vez, mas desfalecida, no chão.

Monte Cristo debruçou-se sobre ela, ergueu-a em seus braços; e, vendo aquela bela tez empalidecida, aqueles belos olhos fechados, o belo corpo inanimado e como que abandonado, ocorreu-lhe pela primeira vez a possibilidade de ela o amar de uma maneira diferente da que uma filha ama a um pai.

— Ai de mim! — murmurou ele, profundamente desencorajado. — Eu ainda poderia ser feliz!

Em seguida, carregou Haydée até os seus aposentos, deixando-a, ainda desmaiada, nas mãos de suas aias. De volta a seu gabinete, que dessa vez fechou energicamente atrás de si, copiou o testamento destruído.

Quando terminava, ouviu-se o barulho de um cabriolé entrando no pátio.

Monte Cristo aproximou-se da janela e viu Maximilien e Emmanuel descerem.

— Perfeito — disse ele —, bem na hora! E lacrou seu testamento três vezes.

Um instante depois ouviu um barulho de passos no salão, e foi abrir pessoalmente. Morrel apareceu no umbral.

Estava adiantado cerca de vinte minutos.

— Talvez eu tenha chegado cedo demais, sr. conde — disse ele. — Mas confesso francamente que não consegui pregar o olho e que foi a mesma coisa na casa toda. Eu precisava muito estar diante de sua corajosa autoconfiança para me recobrar.

Monte Cristo não foi capaz de resistir a essa prova de afeição, e não foi a mão que estendeu ao rapaz, mas seus dois braços que se abriram para ele.

— Morrel — disse com uma voz comovida —, é um belo dia para mim este em que me sinto amado por um homem como você. Bom dia, senhor Emmanuel. Então me acompanha, Maximilien?

— Meu Deus! — exclamou o jovem capitão. — E chegou a duvidar disso?

— Mas e se eu estivesse errado...

— Escute, observei-o ontem durante toda a cena da provocação, pensei em sua autoconfiança a noite inteira, e disse comigo que ou a justiça estava do seu lado ou eu não devia mais fiar-me na fisionomia dos homens.

— Por outro lado, Morrel, Albert é seu amigo.

— Um simples conhecido, conde.

— Você conheceu-o no mesmo dia em que me conheceu.

— É verdade, mas, o que posso fazer? É preciso o senhor dizê-lo isso para que eu me lembre deste fato.

— Obrigado, Morrel.

Depois, dando um toque no gongo:

— Pegue — disse a Ali, que surgiu instantaneamente —, mande levar isso ao meu tabelião. É o meu testamento, Morrel. Eu morto, você tomará conhecimento dele.

— Como! — exclamou Morrel. — O senhor, morto?

— Ora! Temos que prever tudo, caro amigo... Mas, que fez ontem depois que nos despedimos?

— Fui no Tortoni, onde, como esperava, encontrei Beauchamp e ChâteauRenaud. Confesso que estava atrás deles.

— Para quê, uma vez que já estava tudo estipulado?

— Escute, conde, o caso é grave, inevitável.

— Duvidava disso?

— Não. A ofensa foi pública, e todos já comentavam.

— E daí?

— E daí! Eu esperava mudar as armas, substituir a pistola pela espada.

A pistola é cega.

— Conseguiu? — perguntou vivamente o conde, com um imperceptível fulgor de esperança.

— Não, pois conhecem sua força na espada.

— Não diga! Quem pode ter me traído?

— Os mestres-de-armas que o senhor sobrepujou.

— Então você fracassou?

— Recusaram taxativamente.

— Morrel — disse o conde — já me viu atirar com a pistola?

— Nunca.

— Pois bem, temos tempo, observe.

Monte Cristo pegou as pistolas que segurava quando Mercedes entrara e, colando um ás de paus no painel, com três disparos arrancou sucessivamente os três ramos do trevo.

A cada disparo Morrel empalidecia.

 

Examinou as balas com que Monte Cristo realizava aquela façanha, e viu que não eram maiores que chumbinhos.

— É assustador — disse ele. — Vê, Emmanuel? Depois, voltando-se para Monte Cristo:

— Conde — ele disse —, em nome dos céus, não mate Albert! O infeliz tem mãe!

— Está certo — disse Monte Cristo —, enquanto eu não tenho.

Estas palavras foram pronunciadas num tom que deixou Morrel arrepiado.

— O senhor é o ofendido, conde.

— Provavelmente; que importância tem isso?

— Isso quer dizer que o senhor atira em primeiro lugar.

— Atiro antes?

— Oh, isso eu consegui, ou melhor, exigi; fizemo-lhes suficientes concessões para que não nos fizessem esta.

— E a quantos passos?

— Vinte.

Um sorriso assustador atravessou os lábios do conde.

Monte Cristo pegou as pistolas e com três disparos arrancou sucessivamente os três ramos do trevo.

— Morrel — disse ele —, não se esqueça do que acaba de presenciar.

— Quer dizer — disse o rapaz — que conto apenas com sua emoção para salvar Albert.

— Eu, emocionado? — disse Monte Cristo.

— Ou com sua generosidade, meu amigo. Com a confiança que demonstra em sua habilidade, eu posso dizer-lhe uma coisa que seria ridícula se eu dissesse a qualquer outro.

— O que é?

— Quebre-lhe um braço, fira-o, mas não o mate.

— Morrel, escute mais uma coisa — disse o conde —, não preciso ser encorajado a poupar o sr. de Morcerf. O sr. de Morcerf, anuncio-lhe antecipadamente, será tão bem tratado que voltará tranqüilamente com seus dois amigos, enquanto eu...

— O senhor...

— Oh, será diferente, os senhores terão de me carregar.

— Que idéia! — exclamou Morcerf, fora de si.

— É como lhe digo, meu caro Morrel. O sr. de Morcerf me matará.

Morrel olhou para o conde sem entender nada.

— O que lhe aconteceu desde ontem, conde?

— O que aconteceu a Brutus na véspera da batalha de Filipos1: vi um fantasma.

— E esse fantasma...

— Esse fantasma, Morrel, me disse que já vivi demais.

Maximilien e Emmanuel entreolharam-se. Monte Cristo sacou seu relógio.

— Vamos — disse —, são sete horas e cinco minutos, e nosso compromisso é às oito em ponto.

Um coche já atrelado os esperava. Monte Cristo entrou com suas duas testemunhas.

Ao atravessar o corredor, Monte Cristo parara para escutar a uma porta.

Maximilien e Emmanuel, que, por discrição, haviam dado alguns passos adiante, julgaram ouvir um suspiro a responder a um soluço.

Às oito em ponto estavam no local combinado.

— Aqui estamos — disse Morrel, passando a cabeça pela portinhola —, e somos os primeiros.

— O senhor vai me desculpar — disse Baptistin, que acompanhara o patrão num terror indizível —, mas creio perceber um coche sob as árvores.

— É verdade — concordou Emmanuel —, vejo dois jovens que passeiam e parecem à espera de alguma coisa.

Monte Cristo pulou do coche com agilidade e deu a mão a Emmanuel e Maximilien para ajudá-los a descer.

Maximilien reteve a mão do conde entre as suas.

— Graças a Deus — disse ele —, eis uma mão como gosto de ver num homem cuja vida repousa na bondade de sua causa.

— Com efeito — disse Emmanuel —, vejo dois rapazes caminhando a esmo e que parecem esperar.

Monte Cristo puxou Morrel, não à parte, mas um ou dois passos atrás de seu cunhado.

— Maximilien — perguntou-lhe —, está com o coração livre? Morrel olhou para Monte Cristo com espanto.

— Não lhe peço uma confidência, caro amigo, apenas dirijo-lhe uma pergunta. Responda sim ou não, é tudo que lhe peço.

— Amo uma moça, conde.

— Ama-a muito?

— Mais que a minha vida.

— Tudo bem — disse Monte Cristo —, lá se vai mais uma esperança minha.

Depois, com um suspiro:

— Pobre Haydée! — murmurou.

— Na verdade, conde — exclamou Morrel —, se eu o conhecesse menos, o julgaria menos corajoso do que é!

— Porque penso em alguém que vou abandonar, e por quem suspiro!

Tem razão, Morrel, pode um soldado comportar-se tão mal na batalha?

Será a vida, que lamento deixar? Que me importa, a mim, que passei vinte anos entre a vida e a morte, viver ou morrer? Aliás, fique tranqüilo, Morrel, essa fraqueza, se for uma, mostro-a apenas a você. Sei que o mundo é um salão do qual é preciso sair educada e honestamente, isto é, cumprimentando e pagando suas dívidas de jogo.

— Ainda bem — disse Morrel —, isso é que é falar. A propósito, trouxe suas armas?

— Eu! Para fazer o quê? Espero sinceramente que esses cavalheiros tenham trazido as suas.

— Vou me informar — disse Morrel.

— Sim, mas nada de negociações, compreende?

— Oh, fique tranqüilo!

Morrel foi em direção a Beauchamp e Château-Renaud. Estes, percebendo a movimentação de Maximilien, deram alguns passos à frente.

Os três rapazes cumprimentaram-se, se não com afabilidade, pelo menos com cortesia.

— Perdão, senhores — disse Morrel —, mas não vejo o sr. de Morcerf!

— Esta manhã — respondeu Château-Renaud —, ele mandou nos avisar que se encontraria conosco apenas no local.

— Ah! — fez Morrel. Beauchamp sacou seu relógio.

— Oito e cinco; ele ainda não está atrasado, sr. Morrel — disse ele.

— Oh — respondeu Maximilien —, não era com essa intenção que eu falava!

— Aliás — interrompeu Château-Renaud —, aí vem um coche?

Com efeito, um carro avançava a galope por uma das alamedas que desembocava na encruzilhada onde estavam.

— Senhores — disse Morrel —, espero que tenham trazido pistolas. O

sr. de Monte Cristo declara renunciar ao direito que tinha de usar as suas.

— Previmos essa delicadeza da parte do conde, sr. Morrel — respondeu Beauchamp —, e trouxe armas, que comprei há oito ou dez dias, acreditando precisar delas para um caso semelhante. São absolutamente novas e ninguém as utilizou. Deseja examiná-las?

— Oh, sr. Beauchamp — respondeu Morrel, inclinando-se —, quando me dá garantias de que o sr. de Morcerf não conhece essas armas, não acha que sua palavra me basta?

— Cavalheiros — disse Château-Renaud —, não é Morcerf que está no coche, são, caramba, são Franz e Debray.

De fato, os dois anunciados se apresentaram.

— Os senhores aqui, cavalheiros! — estranhou Château-Renaud, trocando um aperto de mão com cada um —, e por que motivo?

— Porque esta manhã Albert nos pediu que estivéssemos presentes —

explicou Debray.

Beauchamp e Château-Renaud entreolharam-se com um ar perplexo.

— Cavalheiros — disse Morrel —, julgo entender.

— Fale!

— Ontem à tarde recebi uma carta do sr. de Morcerf, pedindo-me para encontrá-lo no Opéra.

— Eu também — disse Debray.

— Eu também — disse Franz.

— E nós também — disseram Château-Renaud e Beauchamp.

— Ele queria que estivéssemos presentes à provocação — disse Morrel

—, quer que estejamos presentes à luta.

— Sim — disseram os rapazes —, é isso, sr. Maximilien. Segundo todas as probabilidades, o senhor adivinhou certo.

— Mas, com tudo isso — murmurou Château-Renaud —, Albert não chega; está dez minutos atrasado.

— Aí vem ele — disse Beauchamp —, está a cavalo. Veja, galopa a toda brida, seguido pelo criado.

— Que imprudência — disse Château-Renaud —, apresentar-se a cavalo para duelar com a pistola! Não adiantou nada ensinar-lhe como é que se faz!

— E depois, veja — disse Beauchamp —, com um nó de gravata, de paletó aberto, com um colete branco. Por que ele não mandou desenhar um alvo no estômago? Teria sido mais simples e terminado mais rápido!

Enquanto isso, Albert chegara a dez passos do grupo formado pelos cinco rapazes. Parou seu cavalo, apeou e jogou a rédea no braço do criado.

Albert aproximou-se.

Estava pálido, seus olhos, vermelhos e injetados. Via-se que não dormira a noite toda.

Exibia, espalhada por toda a sua fisionomia, uma nuance de gravidade triste que não lhe era habitual.

— Aí vem ele, está a cavalo; veja, galopa a toda brida.

— Obrigado, cavalheiros — disse ele —, pela gentileza de aceitarem meu convite. Saibam da minha eterna gratidão por essa marca de amizade.

Morrel, à aproximação de Morcerf, dera uns dez passos para trás e mantinha-se distante.

— E ao senhor também, sr. Morrel — disse Albert —, meus agradecimentos o abrangem. Aproxime-se então, não é um intruso.

— Cavalheiro — disse Maximilien —, talvez ignore que sou testemunha do sr. de Monte Cristo...

— Não tinha certeza, mas desconfiava. Melhor assim, quanto mais homens honrados aqui, mas ficarei satisfeito.

— Sr. Morrel — disse Château-Renaud —, pode anunciar ao sr. conde de Monte Cristo que o sr. de Morcerf chegou e que estamos à disposição.

Morrel encaminhou-se para executar sua missão.

Beauchamp, ao mesmo tempo, retirava do coche a caixa de pistolas.

— Esperem, senhores — disse Albert —, tenho duas palavras a dizer ao sr. conde de Monte Cristo.

— Em particular? — perguntou Morrel.

— Não, senhor, na presença de todos.

As testemunhas de Albert entreolharam-se surpresas. Franz e Debray trocaram algumas palavras em voz baixa, e Morrel, alegre com aquele incidente inesperado, foi chamar o conde, que caminhava por outra aléia com Emmanuel.

— O que será que ele quer de mim? — perguntou Monte Cristo.

— Ignoro, mas quer falar com o senhor.

— Oh — disse Monte Cristo —, que ele não tente a Deus com um novo ultraje!

— Não creio ser essa sua intenção — disse Morrel.

O conde avançou, acompanhado por Maximilien e Emmanuel. Sua fisionomia calma e cheia de serenidade fazia um estranho contraste com a fisionomia transtornada de Albert, que se aproximava, por sua vez, seguido pelos quatro rapazes.

Quando estavam a três passos um do outro, Albert e o conde estancaram.

— Cavalheiros — disse Albert —, aproximem-se, não quero que percam uma palavra do que terei a honra de dizer ao sr. conde de Monte Cristo, pois o que terei a honra de dizer-lhe deve ser repetido pelos senhores a quem quiser ouvir, por mais estranho que pareça meu discurso.

— Estou esperando, cavalheiro — disse o conde.

— Senhor — principiou Albert, com uma voz trêmula, mas que aos poucos se firmou —, eu o reprovei por ter divulgado a conduta do sr. de Morcerf no Épiro, pois, por mais culpado que ele fosse, eu não julgava estar o senhor no direito de puni-lo. Mas, hoje, cavalheiro, sei que esse direito lhe cabe. Não é em absoluto a traição de Fernand Mondego a Ali Paxá que me faz tão solícito em justificá-lo, é a traição do pescador Fernand ao senhor, são os inauditos infortúnios que resultaram dessa traição. Portanto, digo-lhe, proclamo em alto e bom som: sim, cavalheiro, o senhor tinha razão para vingar-se do meu pai, e eu, seu filho, agradeço-lhe por não ter feito mais!

Um raio caído no meio dos espectadores dessa cena inesperada não os teria deixado mais perplexos que essa declaração de Albert.

Quanto a Monte Cristo, seus olhos se haviam erguido lentamente para o céu com uma expressão de gratidão infinita, e ele não se cansava de admirar como a natureza fogosa de Albert, cuja coragem ele conhecera o suficiente em meio aos bandoleiros romanos, dobrara-se àquela súbita humilhação. Reconheceu igualmente a influência de Mercedes, e

compreendeu porque seu nobre coração não se opusera ao sacrifício que ela sabia antecipadamente inútil.

— Agora, cavalheiro — disse Albert —, se julga que as desculpas que acabo de lhe pedir são suficientes, sua mão, por favor. Deixando de lado o mérito tão raro da infalibilidade que parece ser a sua, o primeiro de todos os méritos, em minha opinião, é saber reconhecer os próprios erros. Mas esse reconhecimento diz respeito apenas a mim. Meu comportamento pautouse pelo dos homens, enquanto o seu pautava-se por Deus. Apenas um anjo podia salvar um de nós da morte, e o anjo desceu do céu, se não para fazer de nós dois amigos, ai de mim!, a fatalidade torna isso impossível, pelo menos dois homens que se estimam.

Monte Cristo, de olhos úmidos, o peito arfante, a boca entreaberta, estendeu a Albert uma mão que este pegou e apertou com um sentimento semelhante a um respeitoso pavor.

— Cavalheiros — disse ele —, o sr. de Monte Cristo faz a fineza de aceitar minhas desculpas. Agi precipitadamente para com ele. A precipitação é má conselheira: agi mal. Agora meu erro está reparado.

Espero sinceramente que a sociedade não me considere um covarde por ter feito o que minha consciência me ditou. Porém, de qualquer forma, caso se equivoquem a meu respeito — acrescentou o rapaz, levantando a cabeça com altivez e como se lançasse um desafio tanto aos amigos quanto aos inimigos —, tentarei mudar essa opinião.

Monte Cristo estendeu a Albert uma mão que este pegou e apertou com um respeitoso pavor.

— O que terá acontecido esta noite? — perguntou Beauchamp a ChâteauRenaud. — Parece que representamos um triste papel.

— Realmente, o que Albert acaba de fazer ou é muito considerável ou muito bonito — respondeu o barão.

— E essa agora, que significa isso? — perguntou Debray a Franz. — O

quê! O conde de Monte Cristo desonra o sr. de Morcerf e está com a razão aos olhos do filho! Ora, se eu tivesse dez Janina na minha família, só me julgaria obrigado a uma coisa: a duelar dez vezes. Quanto a Monte Cristo, a cabeça inclinada para frente, os braços inertes, esmagado sob o peso de vinte e quatro anos de lembranças, não pensava nem em Albert, nem em Beauchamp, nem em Château-Renaud, nem em nenhum daqueles que ali se encontravam. Pensava naquela corajosa mulher que viera pedir-lhe a vida do filho, a quem ele oferecera a sua e que acabava de salvá-la, pela confissão terrível de um segredo de família, capaz de matar para sempre naquele moço o sentimento da devoção filial.