O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 58 de 119

Páginas do PDF

O Conde de Monte Cristo

18. Andrea Cavalcanti

— Claro, claro, claro! — disse o major, que ia de deslumbre em deslumbre.

— E agora — disse Monte Cristo — que seu coração está encouraçado contra as emoções muito vivas, prepare-se, caro sr. Cavalcanti, para rever seu filho Andrea.

E fazendo uma saudação encantadora ao homem de Lucca, embevecido em êxtase, Monte Cristo desapareceu atrás do reposteiro.

1 Fiesole: comuna italiana da região da Toscana, província de Florença.

18. Andrea Cavalcanti

O conde de Monte Cristo entrou no salão contíguo ao que Baptistin designara como salão azul e onde acabava de precedê-lo um rapaz de aspecto desenvolto, muito elegantemente vestido, que um cabriolé de praça deixara, meia hora antes, à porta do palacete. Baptistin não tivera dificuldade em identificá-lo: era de fato aquele rapaz alto de cabelos louros, barba ruiva, olhos negros, cuja tez esmaltada e pele deslumbrante de brancura lhe haviam sido descritas por seu patrão.

Quando o conde entrou no salão, o jovem estava displicentemente estendido num sofá, golpeando distraidamente sua bota com um pequeno rebenque de junco com castão de ouro.

Ao avistar Monte Cristo, ele se levantou imediatamente e perguntou:

— Conde de Monte Cristo?

— Sim, senhor — respondeu este —, e tenho a honra de falar, creio, com o sr. visconde Andrea Cavalcanti.

— Visconde Andrea Cavalcanti — repetiu o rapaz, emprestando às palavras uma saudação cheia de desembaraço.

— O senhor tem uma carta que o credencia junto a mim? — inquiriu Monte Cristo.

— Não falei sobre isso em virtude da assinatura, que me pareceu estranha.

— Simbad, o marujo, não é?

— Justamente. Ora, como nunca conheci outro marujo Simbad sem ser o das Mil e uma noites...

— Pois bem! É um descendente dele, um amigo meu, muito rico, um inglês mais que original, quase louco, cujo verdadeiro nome é lorde Wilmore.

— Ah, isso explica tudo! — disse Andrea. — Então tudo corre às mil maravilhas. Foi esse mesmo inglês que eu conheci... em... Sim, ótimo! Sr.

conde, estou às suas ordens.

— Se o que me dá a honra de dizer é verdade — replicou o conde, sorrindo —, espero que seja suficientemente generoso para me fornecer alguns detalhes sobre o senhor e sua família.

— Com todo o prazer, sr. conde — respondeu o rapaz, com uma disponibilidade que demonstrava a solidez de sua memória. — Sou, como o senhor disse, o visconde Andrea Cavalcanti, filho do major Bartolomeo

Cavalcanti, descendente dos Cavalcanti inscritos no Livro de Ouro de Florença. Nossa família, apesar de ainda muito rica, pois meu pai possui meio milhão de renda, passou por muitas desgraças, e eu mesmo, senhor, aos cinco ou seis anos, fui raptado por um preceptor desleal; de maneira que há quinze anos não vejo o autor dos meus dias. Procuro-o desde que alcancei a idade da razão, desde que sou livre e senhor dos meus passos, mas em vão. Para concluir, essa carta do seu amigo Simbad, o marujo, me anuncia que ele está em Paris e me autoriza a procurar o senhor para obter notícias.

— Na verdade, tudo que o senhor conta é muito interessante — disse o conde, olhando com uma sombria satisfação aquele semblante despreocupado, marcado por uma beleza semelhante à do anjo mau —, e o senhor fez muito bem em obedecer em todos os pontos ao convite do meu amigo Simbad, pois seu pai está de fato aqui e o procura.

O conde, após sua entrada no salão, não havia perdido de vista o rapaz.

Admirara a segurança do seu olhar e a firmeza de sua voz; mas a estas palavras tão espontâneas: Seu pai está de fato aqui e o procura, o jovem Andrea deu um pulo, exclamando:

— Meu pai! Meu pai aqui?

— Exatamente — respondeu Monte Cristo —, seu pai, o major Bartolomeo Cavalcanti.

A impressão de terror espalhada nos traços do rapaz logo se extinguiu.

— Ah, sim, é verdade — disse ele —, o major Bartolomeo Cavalcanti. E

está me dizendo, senhor conde, que ele está aqui, esse querido pai?

— Sim, senhor. Acrescento inclusive que o deixei há pouco. A história que ele me contou desse filho querido, perdido em outros tempos, me tocou muito; na verdade, seus sofrimentos, seus temores, suas esperanças a esse respeito comporiam um poema comovente. Um dia, afinal, ele recebeu notícias anunciando-lhe que os raptores de seu filho propunham-se a entregá-lo, ou a indicar seu paradeiro, mediante uma soma bem alta.

Nada deteve esse bondoso pai; a soma foi enviada à fronteira do Piemonte, bem como um passaporte com visto para a Itália. O senhor estava no sul da França, creio...

— Sim, senhor — respondeu Andrea, todo atrapalhado —, sim, eu estava no sul da França.

— Um coche não ia esperá-lo em Nice?

— Exatamente, senhor; nele, fiz o trajeto Nice-Gênova, Gênova-Turim, Turim-Chambéry, Chambéry-Pont de Beauvoisin e Pont de Beauvoisin-Paris.

— Formidável! Ele ainda tinha esperanças de encontrá-lo no caminho, pois era a mesma estrada que ele próprio percorria; eis por que seu itinerário foi assim traçado.

— Mas — disse Andrea —, se esse querido pai tivesse me encontrado, duvido que me reconhecesse; mudei um pouco desde que o perdi de vista.

— Oh, a voz do sangue! — disse Monte Cristo.

— Ah, é, é verdade — balbuciou o rapaz —, eu não pensava na voz do sangue.

— Agora — prosseguiu Monte Cristo —, uma única coisa preocupa o marquês Cavalcanti, é o que o senhor fez enquanto esteve afastado dele; de que maneira o senhor foi tratado por seus perseguidores; se obedeceram, de acordo com sua origem, todos os respeitos que lhe eram devidos; enfim, se não subsistiu desse sofrimento moral ao qual o senhor foi exposto, sofrimento cem vezes pior que o sofrimento físico, alguma seqüela nas faculdades de que a natureza tão generosamente o dotou; e se o senhor acredita de fato que pode recuperar e sustentar dignamente na sociedade o status que lhe pertence.

— Senhor — balbuciou o rapaz aturdido —, espero que nenhum relato falso...

— Ainda não terminei! Ouvi falar do senhor pela primeira vez por intermédio do meu amigo Wilmore, o filantropo. Soube que ele o encontrara numa situação desagradável, ignoro qual, e não lhe fiz perguntas: não sou curioso. Seus infortúnios o interessaram; logo, o senhor é interessante. Ele me disse que gostaria de devolver-lhe a posição que o senhor perdera na sociedade, que procuraria o seu pai, que o encontraria; procurou-o e, segundo parece, encontrou, uma vez que ele cá está; em suma, o abade Busoni me avisou ontem da sua chegada, dando-me ainda algumas outras instruções relativas à sua fortuna; isso é tudo. Sei que meu amigo Wilmore é excêntrico, mas ao mesmo tempo, como homem estabelecido, rico feito uma mina de ouro, e que, por conseguinte, pode manter suas excentricidades sem que elas o arruínem, prometi seguir suas instruções. Agora, senhor, não se incomode com minha pergunta: como serei obrigado a patrociná-lo um pouco, gostaria de saber se os infortúnios de que foi vítima, todos alheios à sua vontade e que não diminuem em

absoluto a consideração que lhe dispenso, não o distanciaram desse mundo aonde sua fortuna e seu nome o impelem a fazer tão boa figura.

— Senhor — respondeu o rapaz, recuperando o desembaraço à medida que o conde falava —, tranqüilize-se quanto a esse ponto: os raptores que me afastaram de meu pai, e que, provavelmente, tinham como objetivo me vender mais tarde, como de fato aconteceu, calcularam, para tirar bom partido de mim, que era preciso preservar todo meu valor pessoal e até mesmo aumentá-lo ainda mais, se fosse possível; recebi então uma excelente educação, e fui tratado pelos ladrões de crianças assim como o eram, na Ásia Menor, os escravos dos quais seus amos faziam gramáticos, médicos e filósofos, para vendê-los mais caros no mercado de Roma.

Monte Cristo sorriu com satisfação; não havia esperado tanto, ao que parece, do sr. Andrea Cavalcanti.

— A propósito — continuou o rapaz —, se houvesse em mim alguma falha de educação, ou antes, de desembaraço social, esta seria facilmente perdoável, em consideração aos infortúnios que acompanharam meu nascimento e persistiram em minha mocidade.

— Ótimo — disse displicentemente Monte Cristo —, trate este assunto como bem lhe aprouver, visconde, pois o senhor é o patrão, e isso lhe diz respeito; mas, pelo amor de Deus, em contrapartida, eu não diria uma palavra sobre todas essas aventuras. A sua história é um romance, e a sociedade, que adora os romances espremidos entre duas capas de papelão, desconfia estranhamente daqueles que vê encapados num pergaminho vivo, ainda que dourado, como o senhor. Eis a dificuldade que eu me permitiria lhe assinalar, sr. visconde; assim que tiver contado a alguém sua história comovente, ela correrá na sociedade completamente desvirtuada.

O senhor será obrigado a se fazer de Antony1, e o tempo dos Antony já passou. Talvez faça sucesso pela curiosidade, mas nem todo mundo gosta de ser o centro das atenções e o alvo dos comentários. Pode ser que isso o canse.

— Creio que tem razão, sr. conde — disse o rapaz, empalidecendo à sua revelia diante do olhar inflexível de Monte Cristo. — Este é um grande inconveniente.

— Oh, também não precisa exagerar — abrandou Monte Cristo —, pois, ao evitar um erro, podemos cair na loucura. Não, é um simples plano de conduta a definir; e, para um homem inteligente como o senhor, esse plano é ainda mais fácil de adotar, na medida em que corresponde a seus interesses. Será preciso lutar, com testemunhos e amizades honradas, contra tudo que seu passado pode ter de obscuro.

Andrea perdeu visivelmente a pose.

— Decerto eu me ofereceria ao senhor como avalista e aval — disse Monte Cristo —, mas na minha terra é um hábito moral duvidar dos meus melhores amigos, e uma necessidade procurar fazer os outros duvidarem; dessa forma eu desempenharia um papel fora do meu uso, como dizem os atores das tragédias, e me arriscaria a ser vaiado, o que é inútil.

— Entretanto, senhor conde — disse Andrea com audácia —. em consideração a lorde Wilmore, que me recomendou ao senhor...

— Sim, perfeitamente — concordou Monte Cristo —, mas lorde Wilmore não me deixou ignorar, caro sr. Andrea, que o senhor tivera uma juventude um tanto tempestuosa. Oh — disse o conde, percebendo o gesto esboçado por Andrea —, não peço uma confissão; aliás, foi para que o senhor não precisasse de ninguém que fizeram o sr. marquês Cavalcanti, seu pai, vir de Lucca. Vai vê-lo, está um pouco hirto, um pouco afetado; mas é um problema de farda e, quando souberem que está no exército da Áustria há dezoito anos, tudo será desculpado; em geral, não somos exigentes em relação aos austríacos. Em suma, asseguro-lhe que é um pai bastante aceitável.

— Ah, fique tranqüilo, cavalheiro; já não o vejo há tanto tempo que não guardo nenhuma lembrança.

— Além disso, há de convir, uma grande fortuna faz a gente suportar muitas coisas.

— Então meu pai é realmente rico, cavalheiro?

— Milionário... quinhentos mil francos de renda.

— Quer dizer — perguntou o rapaz com ansiedade — que vou me achar numa posição... agradável?

— Das mais agradáveis, meu caro senhor; ele lhe dará cinqüenta mil libras de renda por ano, durante todo o tempo que o senhor permanecer em Paris.

— Ora, nesse caso, fico para sempre.

— Calma! Quem pode responder pelas circunstâncias, meu caro senhor?

O homem põe e Deus dispõe...

Andrea soltou um suspiro.

— Mas, enfim — ele disse —, o tempo todo que eu ficar em Paris, e...

se nenhuma circunstância daqui me arrancar, esse dinheiro que acabou de

mencionar está garantido?

— Oh, completamente.

— Pelo meu pai? — perguntou Andrea, preocupado.

— Sim, mas avalizado por lorde Wilmore, que abriu para o senhor, a pedido do seu pai, um crédito de cinco mil francos por mês junto ao sr.

Danglars, um dos banqueiros mas sólidos de Paris.

— E meu pai pretende permanecer muito tempo em Paris? — perguntou Andrea com inquietude.

— Apenas alguns dias — respondeu Monte Cristo —, o serviço dele não lhe permite ausentar-se mais de duas ou três semanas.

— Oh, querido pai! — disse Andrea, visivelmente encantado com aquela partida iminente.

— Sendo assim — disse Monte Cristo, fingindo se iludir pelo tom dessas palavras —, não quero retardar nem por um instante a hora do encontro dos senhores. Está preparado para abraçar esse digno sr.

Cavalcanti?

— Espero que não duvide disso...

— Ótimo! Nesse caso, entre no salão, caro amigo, onde encontrará um pai à sua espera.

Andrea saudou com ênfase o conde e entrou no salão.

O conde seguiu-o com os olhos e, ao vê-lo desaparecer, empurrou uma mola fixada num quadro, o qual, afastando-se da moldura, permitia que seu olhar, por um interstício habilmente arquitetado, penetrasse no salão.

Andrea fechou a porta atrás de si e avançou na direção do major, que se levantou assim que ouviu o barulho de passos se aproximando.

— Ah, cavalheiro e querido pai — disse Andrea em voz alta, de maneira a que o conde o ouvisse através da porta fechada —, é realmente o senhor?

— Bom-dia, querido filho — respondeu o major com gravidade.

— Após tantos anos de separação — disse Andrea, continuando a olhar para o lado da porta —, que felicidade reencontrá-lo!

— De fato, a separação foi longa.

— Não vamos nos abraçar, senhor? — replicou Andrea.

— Como quiser, meu filho — disse o major.

E os dois homens se abraçaram como se abraça no Théâtre Français, isto é, passando a cabeça por cima do ombro.

— Então, aqui estamos reunidos! — exclamou Andrea.

— Aqui estamos reunidos — repetiu o major.

— Para nunca mais nos separar?

— Naturalmente; penso, querido filho, que agora que você vê a França como uma segunda pátria...

— O fato é — disse o rapaz — que eu ficaria desesperado se tivesse que sair de Paris.

— Quanto a mim, compreenda, não saberia viver fora de Lucca. Voltarei para a Itália assim que puder.

— Mas antes de partir, caríssimo pai, sem dúvida o senhor me entregará documentos que me ajudem a legitimar o sangue que me corre nas veias.

— Sem dúvida nenhuma, pois vim expressamente com esse intuito; tive muita dificuldade em localizá-lo para poder entregar-lhe estes documentos; se tivéssemos que recomeçar nossa procura um pelo outro, isso tomaria a última parte da minha vida.

— E os documentos?

— Aqui estão.

Andrea agarrou sofregamente a certidão de casamento do seu pai, sua própria certidão de batismo e, após ter aberto tudo com uma avidez típica de um bom filho, percorreu os dois papéis numa velocidade e desenvoltura que denotavam o golpe de vista mais afiado, bem como o mais vivo interesse.

Quando terminou, uma indefinível expressão de alegria brilhou em sua fronte. Observando o major com um sorriso estranho, disse, em excelente toscano:

 

E os dois homens se abraçaram como se abraça no Théâtre Français, isto é, passando a cabeça por cima do ombro.

— Dá para acreditar?! Quer dizer que não há galés na Itália...? O major aprumou-se.

— E por que isso agora? — perguntou.

— Então lá é permitido forjar documentos desse tipo? Na França, pela metade disso, meu caríssimo pai, seríamos mandados para

pegar um ar em Toulon2 por cinco anos.

— Está contente? — disse o homem de Lucca, tentando assumir uma expressão majestosa.

— Meu caro sr. Cavalcanti — disse Andrea, apertando o braço do major

—, quanto está recebendo para ser meu pai?

O major fez menção de falar.

— Schhh! — disse Andrea baixando a voz —, vou me antecipar para lhe inspirar confiança; estou recebendo cinqüenta mil francos por ano para ser seu filho: portanto pode compreender que não serei eu a negar que o senhor seja meu pai.

O major olhou à sua volta com preocupação.

— Ei! Fique tranqüilo, estamos sozinhos — disse Andrea. — Além do mais, estamos falando italiano.

— Pois muito bem! A mim — disse o homem de Lucca —, vão dar cinqüenta mil francos, pagos de uma só vez.

— Senhor Cavalcanti — disse Andrea —, acredita em conto de fadas?

— Não, antigamente não, mas agora vejo-me obrigado a acreditar.

— Então teve provas?

O major puxou da algibeira um punhado de ouro.

— Palpáveis, como pode ver.

— Então acha que posso acreditar nas promessas que me fizeram?

— É a minha opinião.

— E que esse conde magnífico as cumprirá?

— Ponto por ponto; mas, compreenda, para atingir esse objetivo, temos que desempenhar o nosso papel.

— Como assim...?

— Eu, o de pai carinhoso...

— Eu, o de filho respeitoso.

— Já que eles querem que o senhor descenda de mim...

— Eles, quem?

— Ora, não sei de nada, os que lhe escreveram; não recebeu uma carta?

— Exatamente.

— Como eu.

— De quem?

— De um tal abade Busoni.

— Que o senhor não conhece...

— Que nunca vi.

— Que dizia ele nessa carta?

— Não vai me trair?

— Claro que não, nossos interesses são os mesmos.

— Então leia.

E o major passou uma carta para o rapaz. Andrea leu em voz baixa: O senhor é pobre, uma desditosa velhice o aguarda. Quer ficar, se não rico, pelo menos independente?

Parta imediatamente rumo a Paris e vá reivindicar ao senhor conde de Monte Cristo, avenida dos Champs-Élysées no30, o filho que teve com a marquesa de Corsinari e que foi raptado aos cinco anos de idade.

Esse filho chama-se Andrea Cavalcanti.

Para que não ponha em dúvida a disposição que o abaixo assinado tem de lhe ser agradável, encontrará em anexo:

1o Um título de duas mil e quatrocentas libras toscanas, que podem ser sacadas no estabelecimento do sr. Gozzi, em Florença:

2o Uma carta de apresentação para o sr. conde de Monte Cristo, junto a quem abrirei um crédito de quarenta e oito mil francos em seu nome.

Esteja na casa do conde no dia 26 de maio às sete horas da noite.

assinado: ABADE BUSONI

— É isso.

— Como é isso!? Que quer dizer? — perguntou o major.

— Que recebi mais ou menos a mesma coisa.

— O senhor?

— Sim, eu.

— Do abade Busoni?

— Não.

— De quem então?

— De um inglês, um tal de lorde Wilmore, que usa o nome de Simbad, o marujo.

— E que o senhor não conhece, assim como tampouco eu conheço o abade Busoni?

— Exatamente; porém, estou mais avançado que o senhor.

— Esteve com ele?

— Sim, uma vez.

— Onde?

— Ah! Isso é justamente o que não posso lhe dizer; o senhor saberia tanto quanto eu, e isso é inútil.

— E essa carta lhe dizia...?

— Leia.

O senhor é pobre e um futuro miserável é o que lhe resta: quer ter um nome, ser livre, ser rico?

— Veja só! — exclamou o rapaz, balançando nos saltos dos sapatos —

como se essa pergunta fosse possível!

Saia de Nice pela porta de Gênova e embarque na carruagem que encontrará atrelada. Passe por Turim, Chambéry e Pont-de-Beauvoisin. Apresente-se na casa do senhor conde de Monte

Cristo, avenida dos Champs-Élysées, no dia 26 de maio, às sete horas da noite, e pergunte pelo seu pai.

O senhor é filho do marquês Bartolomeo Cavalcanti e da marquesa Oliva Corsinari, como comprovarão os papéis que lhe serão entregues pelo marquês, os quais lhe permitirão apresentar-se com esse nome na sociedade parisiense.

Quanto a seu status, uma renda de cinqüenta mil francos por ano lhe permitirá sustentá-lo.

Em anexo, um título de cinco mil libras, a serem sacadas junto ao sr. Ferrea, banqueiro em Nice, e uma carta de apresentação para o conde de Monte Cristo, encarregado de prover suas necessidades.

Simbad, o marujo

— Hum! — disse o major —, que coisa linda!

— Não é mesmo?

— Esteve com o conde?

— Acabo de vê-lo.

— E ele confirmou?

— Tudo.

— Compreende alguma coisa dessa história?

— Claro que não.

— Há um trouxa nesse negócio...

— De toda forma, não sou nem eu nem o senhor...

— Não, certamente.

— Então, e daí?!

— Tanto faz para nós, não é mesmo?

— Exatamente, era o que eu queria dizer; vamos até o fim e atuemos em conjunto.

— De acordo; verá que sou digno de ser seu parceiro.

— Não duvidei disso um só instante, querido pai.

— O senhor me lisonjeia, querido filho.

Monte Cristo escolheu esse momento para entrar no salão. Ao ouvirem o barulho de seus passos, os dois homens atiraram-se nos braços um do outro; o conde os encontrou abraçados.

— Excelente, sr. marquês! — disse Monte Cristo. — Parece que encontrou um filho que corresponde às suas expectativas.

— Ah, sr. conde, estou sufocado de alegria!

— E o senhor, meu rapaz?

— Ah, sr. conde, arrebento de felicidade!

— Ditoso pai! Ditosa criança! — exclamou o conde.

— Apenas uma coisa me entristece — disse o major —, a necessidade em que me vejo de deixar Paris tão prontamente.

— Oh, caro sr. Cavalcanti — disse Monte Cristo —, o senhor não irá, espero, até que eu lhe apresente alguns amigos.

— Estou às ordens do sr. conde — disse o major.

— Agora, vamos, rapaz, confesse.

— A quem?

— Ao senhor seu pai; diga-lhe algumas palavras sobre suas finanças.

— Ah, maldição! — praguejou Andrea. — O senhor está tocando uma corda sensível.

— Está ouvindo, major? — perguntou Monte Cristo.

— Claro que estou.

— Sim, mas compreende?

— Perfeitamente.

— Seu querido filho diz que precisa de dinheiro.

— Que quer que eu faça?

— Que lhe dê algum, ora!

— Eu?

— Sim, o senhor.

Monte Cristo passou entre os dois homens.

— Tome! — disse a Andrea, enfiando-lhe um maço de cédulas na mão.

— Que é isso?

— A resposta do seu pai.

— Do meu pai?

— Sim. Não acabou de dar a entender que precisava de dinheiro?

— Sim. E daí?

— Pois bem! Ele me encarrega de lhe entregar isso.

— Um adiantamento sobre as minhas rendas?

— Não, para suas despesas de instalação.

— Oh, querido pai!

— Silêncio — disse Monte Cristo —, está vendo claramente que ele não quer que eu revele que isso provém dele.

— Aprecio essa delicadeza — disse Andrea, enfiando as cédulas na algibeira de sua calça.

— Ótimo — disse Monte Cristo —, agora vão!

— E quando teremos a honra de rever o sr. conde? — perguntou Cavalcanti.

 

— Ah, sim — repetiu Andrea —, quando teremos essa honra?

— Sábado, se quiserem... sim... pronto... sábado. Ofereço um jantar na minha casa de Auteuil, rua de la Fontaine no28, várias pessoas estão convidadas, entre elas o sr. Danglars, seu banqueiro, vou apresentá-los, convém de fato que ele conheça os senhores para descontar seu dinheiro.

— Traje de gala? — perguntou o major a meia voz.

— Traje de gala: uniforme, cruz, culotes curtos.

— E eu?

— Oh, o senhor, com grande simplicidade: calça preta, botas de verniz, colete branco, casaco preto ou azul, gravata longa; pegue

Blain ou Vérenique3 para vesti-lo. Se não sabe seus endereços, Baptistin sabe.

Quanto menos afetar pretensão em seu traje, sendo rico como é, melhor efeito causará.

Se comprar cavalos, vá no Devédeux; se comprar um faeton, vá no Baptiste.

— A que horas podemos nos apresentar?

— Por volta das seis e meia.

— Muito bem, lá estaremos — disse o major, levando a mão ao chapéu.

Os dois Cavalcanti cumprimentaram o conde e saíram.

O conde aproximou-se da janela e viu ambos atravessando o pátio, de braços dados.

— Na verdade — disse ele —, eis dois grandes miseráveis. Pena que não sejam efetivamente pai e filho!

Após um instante de sombria reflexão:

— Vamos à casa dos Morrel — disse ele. — Creio que o asco me enjoa mais do que o ódio.