O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 4 de 119

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O Conde de Monte Cristo

2. O pai e o filho

— Até breve, sr. Morrel, e mil vezes obrigado.

— Até breve, meu caro Edmond, e boa sorte!

O jovem marujo pulou no bote, sentou-se na popa e deu ordens para aportar na Canebière. Dois marinheiros vergaram-se sobre os remos e a embarcação deslizou tão rapidamente quanto é possível fazê-lo em meio às mil barcaças que obstruem a espécie de rua estreita que conduz, entre dois renques de navios, da entrada do porto ao cais de Orléans.

O armador seguiu-o sorrindo com os olhos até a beira-mar, viu-o pular para as lajes do cais e logo se perder no meio da multidão colorida que, de cinco da manhã às nove da noite, entope essa famosa rua da Canebière, da qual os fócidos modernos têm tanto orgulho que chegam a dizer com a maior seriedade do mundo, e com o sotaque que dá tanto caráter ao que dizem: “Se Paris tivesse a Canebière, Paris seria uma pequena Marselha.”

Ao se voltar, o armador encontrou Danglars, aparentemente esperando suas ordens, mas, na realidade, acompanhando como ele o jovem marujo com o olhar.

Havia, porém, uma grande diferença na expressão do duplo olhar que seguia o mesmo homem.

1 Fócida: uma das divisões geográficas da Grécia clássica; nela situa-se o famoso monte Parnaso, com seus quase 2.500 metros de altitude, bem como o santuário de Delfos, conhecido pelo famoso oráculo. Marselha foi fundada por colonizadores fócidos em c.600 a.C.

2 Chi ha compagne ha padrone: Literalmente, “quem tem companheiro, tem patrão.”

2. O pai e o filho Deixemos Danglars, às voltas com o gênio do ódio, tentando soprar contra seu companheiro alguma maligna suposição no ouvido do armador, e acompanhemos Dantès, que, após ter percorrido a Canebière em todo o seu comprimento, envereda pela rua de Noailles, entra num prediozinho situado no lado esquerdo da rua das Alleés de Meilhan, sobe ansiosamente os quatro andares de uma escada humilde e, segurando o corrimão com uma das mãos e com a outra comprimindo as batidas do coração, pára em frente a uma porta entreaberta, que deixa ver até o fundo de um quartinho.

Aquele era o quarto onde morava o pai de Dantès.

A notícia da chegada do Pharaon ainda não alcançara o velho, que se ocupava, empoleirado numa cadeira, em trançar com uma mão trêmula algumas capuchinhas misturadas a clematites, que subiam escalando a treliça da janela.

De repente sentiu-se agarrado pela cintura e uma voz bem conhecida exclamou atrás dele:

— Meu pai, meu pai querido!

O velho soltou um grito e se voltou; então, ao ver o filho, abandonou-se em seus braços, todo trêmulo e pálido.

— O que você tem, pai? — exclamou o rapaz, preocupado. — Está doente?

— Não, não, querido Edmond, meu filho, minha criança, não; mas não o esperava, e a alegria, a felicidade ao vê-lo assim de surpresa... Ah! Meu Deus! Acho que vou morrer!

— Pois então ressuscite, pai! Sou eu, sou eu de verdade! Dizem que alegria não faz mal, por isso entrei sem avisar. Vamos, sorria para mim, em vez de me olhar desse jeito, com dois olhos esbugalhados. Estou de volta e vamos ser felizes.

— Ah, que ótimo, filho! — disse o velho. — Mas como vamos ser felizes? Não vai mais me deixar? Partilhe sua felicidade comigo!

— Que o Senhor me perdoe — disse o rapaz — de me regozijar com uma felicidade trazida pelo luto de uma família! Mas Deus sabe que não desejei essa felicidade; ela chega e não tenho por que me afligir. O bravo capitão Leclère está morto, meu pai, e é provável que, graças à proteção do sr. Morrel, eu ocupe seu posto. Compreende, pai? Capitão aos vinte e um

anos! Com cem luíses de salário e uma parte nos lucros! Não é bem mais do que um simples marujo como eu poderia esperar?

— Sim, meu filho, sim, realmente — disse o velho — é uma felicidade.

— Assim, o primeiro dinheiro que entrar será para comprar uma casinha com jardim, onde o senhor poderá plantar suas clematites, suas capuchinhas e suas madressilvas... Mas o que há, pai? Não está se sentindo bem?

— Paciência, paciência! Não há de ser nada. E, sem forças, o velho caiu para trás.

— Calma! calma! — disse o rapaz. — Um copo de vinho irá reanimá-lo, pai. Onde guarda o vinho?

— Não, obrigado, não se dê ao trabalho; não preciso de vinho — disse o velho, tentando segurar o filho.

— Claro que precisa, pai, claro, mostre-me o lugar. E abriu dois ou três armários.

— Não adianta... — disse o velho. — O vinho acabou.

— Como?! O vinho acabou? — estranhou Dantès, agora ele próprio empalidecendo e olhando alternadamente as faces escalavradas e lívidas do velho e os armários vazios. — Como pode ter acabado? Estava sem dinheiro, meu pai?

— Nada me faltou, pois você está aqui — disse o velho.

— Entretanto — balbuciou Dantès, enxugando o suor que caía da testa

—, eu lhe deixei duzentos francos quando parti, há três meses.

— Sim, sim, Edmond, é verdade; mas, ao partir, você esqueceu uma dividazinha com o vizinho Caderousse; ele me lembrou, dizendo que se eu não pagasse por você ele iria cobrar do sr. Morrel. Então, você compreende, com medo que isso lhe causasse problemas...

— E então?

— E então! Paguei, ora...

— Mas — exclamou Dantès — eram cento e quarenta francos que eu devia a Caderousse!

— Sim — balbuciou o velho.

— E tirou essa quantia dos duzentos francos que eu tinha deixado? O

velho fez um sinal com a cabeça.

— De maneira que viveu três meses com sessenta francos! —

murmurou o rapaz.

— Você sabe que não preciso de muita coisa — disse o velho.

— Oh! Meu Deus, meu Deus, perdão! — exclamou Edmond, atirandose de joelhos diante do bom homem.

— Que está fazendo?

— Oh! O senhor partiu meu coração.

— Bobagem! Você está aqui — disse o velho sorrindo —, agora está tudo esquecido, pois tudo vai bem.

— Sim, aqui estou — disse o rapaz —, aqui estou com um belo futuro e algum dinheiro. Pegue, pai — disse —, pegue, pegue e mande comprar alguma coisa imediatamente.

E esvaziou os bolsos sobre a mesa, os quais continham uma dúzia de moedas de ouro, cinco ou seis escudos de cinco francos e dinheiro miúdo.

O rosto do velho Dantès se iluminou.

— A quem pertence isso? — perguntou.

— A mim, ora essa! A você! A nós! Pegue, compre comida, seja feliz, amanhã haverá mais.

— Devagar, devagar — disse o velho sorrindo. — Com a sua permissão, farei um uso moderado da sua bolsa. Se me vissem comprar muitas coisas ao mesmo tempo, achariam que fui obrigado a esperar o seu retorno para comprá-las.

— Faça como quiser, mas, antes de qualquer coisa, contrate uma criada, pai, não quero mais o senhor sozinho. Tenho café de contrabando e excelente tabaco numa pequena arca no porão do barco, o senhor os terá a partir de amanhã. Mas schhh! Está chegando alguém...

— É Caderousse, que soube da sua chegada e provavelmente vem lhe dar as boas-vindas.

— Bom, mais uma boca que diz uma coisa enquanto o coração pensa outra — murmurou Edmond. — Mas não importa, é um vizinho que nos foi prestativo algumas vezes, que seja bem-vindo. Com efeito, no momento em que Edmond terminava a frase em voz baixa, aparecia, emoldurada pela porta do corredor, a cabeça escura e hirsuta de Caderousse. Era um homem de vinte e cinco, vinte e seis anos; tinha na mão um pedaço de pano, que, como alfaiate, ia transformar num forro de roupa.

— Ora! Está de volta, Edmond? — disse ele, com um sotaque marselhês dos mais pronunciados e um largo sorriso, que revelava dentes brancos feito marfim.

 

— Como vê, vizinho Caderousse, e ao seu dispor para o que for preciso

— respondeu Dantès, mal dissimulando sua frieza sob aquela oferta de favor.

Caderousse.

— Obrigado, obrigado, felizmente não preciso de nada; volta e meia, na verdade, são os outros que precisam de mim. — Dantès fez um gesto. —

Não digo isso pensando em você, rapaz; emprestei-lhe dinheiro, você me pagou; assim se comportam dois bons vizinhos, e estamos quites.

— Nunca estamos quites com os nossos credores — disse Dantès —, pois, quando não lhes devemos mais dinheiro, lhes devemos a gratidão.

— Para que tocar nesse assunto! O que passou, passou. Falemos do seu feliz retorno, rapaz. Eu estava a caminho do porto para me abastecer de tecido marrom e encontrei o amigo Danglars.

“— Você em Marselha?

— Pois é, que remédio” — ele me respondeu.

“— Eu o julgava em Esmirna.

— Poderia estar lá, pois de lá retorno.

— E Edmond, onde está o menino?

— Na casa do pai, provavelmente” — respondeu Danglars. E aqui estou

— continuou Caderousse — para ter o prazer de apertar a mão de um amigo!

— Esse bom e velho Caderousse gosta tanto de nós... — disse o velho.

— Claro que sim, e de uma maneira especial, uma vez que gente honesta é coisa rara! Mas o mocinho, parece, ficou rico... — continuou o alfaiate, relanceando o punhado de ouro e prata que Dantès pusera sobre a mesa.

O rapaz observou o brilho de cobiça cintilando nos olhos negros do vizinho.

— Imagine! — disse ele displicentemente. — Esse dinheiro não é meu; eu dizia ao meu pai do medo que tive de lhe faltar alguma coisa na minha ausência, e, para me tranqüilizar, ele esvaziou sua bolsa na mesa. Vamos, pai — continuou Dantès —, guarde esse dinheiro no mealheiro; a menos que o vizinho Caderousse esteja precisando, pois nesse caso está ao seu dispor.

— Não, rapaz — disse Caderousse —, não preciso de nada, e, graças a Deus, a profissão alimenta o homem. Guarde seu dinheiro, guarde: nunca é demais; o que não impede que eu lhe seja grato pela sua oferta como se a aceitasse.

— Foi de coração — disse Dantès.

— Não duvido. Nossa! Quer dizer então que caiu nas boas graças do sr.

Morrel? Quanta sedução...

— O sr. Morrel sempre foi muito bom para mim — respondeu Dantès.

— Nesse caso, você está errado em recusar-lhe o jantar.

— Como, recusar-lhe o jantar? — interveio o velho Dantès. — Ele então o convidou para jantar?

— Sim, meu pai — respondeu Edmond, sorrindo do espanto que causava ao pai o excesso de honra de que era objeto.

— E por que recusou, filho? — perguntou o velho.

— Para voltar mais cedo para perto do senhor, meu pai — respondeu o rapaz —, estava ansioso para vê-lo.

— Isso deve ter contrariado o bondoso sr. Morrel — voltou à carga Caderousse. — Quando se pretende o posto de capitão, é um erro

contrariar o seu armador.

— Expliquei-lhe o motivo da minha recusa — replicou Dantès —, e ele entendeu, espero.

— Ah! É que para ser capitão é recomendável bajular um pouco o patrão.

— Espero ser capitão sem isso — respondeu Dantès.

— Tanto melhor, tanto melhor! Fará a alegria de todos os velhos amigos, e sei de alguém em algum lugar, atrás da cidadela de SaintNicolas, que também não ficará zangada com isso.

— Mercedes? — perguntou o velho.

— Sim, meu pai — disse Dantès —, e, com a sua permissão, agora que já o vi, agora que sei que está bem de saúde e que tem tudo de que precisa, peço licença para ir visitar os catalães.

— Vá, meu filho — disse o velho Dantès —, e que Deus o abençoe com sua mulher como me abençoou com meu filho.

— Sua mulher! — disse Caderousse. — Como vai rápido, seu Dantès!

Parece-me que ela ainda não o é.

— Não, mas, segundo todas as probabilidades — respondeu Edmond —, não tardará a sê-lo.

— Em todo caso — disse Caderousse —, você fez bem em se apressar, rapaz.

— Ora, mas por quê?

— Porque Mercedes é uma moça bonita e às moças bonitas não faltam pretendentes; ainda mais ela, que é assediada por dezenas.

— É verdade — admitiu Edmond, com um sorriso que deixava

transparecer uma ponta de preocupação.

— Oh, sim! — continuou Caderousse. — E bons partidos inclusive; mas, fique tranqüilo, você vai ser capitão, não vai passar pela cabeça de ninguém recusá-lo.

— O que significa — continuou Dantès, com um sorriso que mal

dissimulava a preocupação — que se eu não fosse capitão...

— Ei, ei! — exclamou Caderousse.

— Vamos, vamos — disse o rapaz —, faço uma opinião melhor das mulheres em geral, e de Mercedes em particular. Estou convencido, venha ou não a ser capitão, da sua fidelidade.

— Ótimo! Ótimo! — disse Caderousse. — É sempre uma boa coisa ter confiança quando vamos casar; mas, por favor, acredite em mim,

mocinho, não perca tempo, vá anunciar sua chegada e dividir com ela suas esperanças.

— Estou de saída — disse Edmond.

Beijou o pai, cumprimentou Caderousse com um aceno e saiu.

Caderousse ficou ainda por um instante. Em seguida, despedindo-se do velho Dantès, desceu por sua vez e foi ao encontro de Danglars, que o esperava na esquina da rua Sénac.

— E aí — perguntou Danglars —, esteve com ele?

— Acabo de me despedir.

— E ele manifestou esperanças de ser capitão?

— Fala como se já o fosse.

— Quanta afobação! — exclamou Danglars. — Acho que ele está com um pouquinho de pressa demais.

— Diabos! Parece que a coisa foi prometida pessoalmente pelo sr.

Morrel.

— Quer dizer que ele está feliz da vida?

— Eu diria até insolente; já me ofereceu seus préstimos como se fosse um grande personagem; quis me emprestar dinheiro como se fosse um banqueiro.

— E você recusou?

— Exatamente; embora eu tivesse muito bem podido aceitar, visto que fui eu quem coloquei em suas mãos os primeiros retalhos brancos que ele manipulou. Mas agora Dantès não vai precisar de mais ninguém, vai ser capitão.

— Bah! — fez Danglars. — Mas ainda não o é.

— Pois seria muito bem feito que ele não o fosse — disse Caderousse

—, caso contrário, não teremos mais como falar com ele.

— Se nos empenharmos — disse Danglars —, Edmond continuará a ser o que é, e quem sabe torne-se até menos do que é.

— O que foi que disse?

— Nada, estou falando sozinho. E ele continua apaixonado pela bela catalã?

— Loucamente apaixonado. Foi visitá-la; mas, ou muito me engano, ou ele terá problemas desse lado.

— Explique-se.

— Para quê?

— É mais importante do que você pensa. Por acaso gosta de Dantès?

— Não gosto dos arrogantes.

— Pois então! Conte-me o que sabe a respeito da catalã.

— Não sei nada de muito concreto; apenas vi coisas que me fazem crer, como eu disse, que o futuro capitão terá problemas nas

cercanias do caminho das Vieilles-Infirmeries1.

— O que viu? Vamos, conte.

— Ora, vi que todas as vezes que Mercedes vem à cidade ela chega acompanhada de um catalão alto e másculo, de olho escuro, pele vermelha, muito moreno e fogoso, a quem ela chama de meu primo.

— Verdade? E acha que esse primo a corteja?

— É o que suponho: que diabos pode fazer um rapagão de vinte e um anos com uma bela garota de dezessete?

— E você disse que Dantès foi até os catalães?

— Vi com meus olhos.

— Poderíamos ir para o mesmo lado, sentar no La Réserve e, enquanto tomamos um copo de vinho de Málaga, aguardar as notícias.