O Conde de Monte Cristo
8. O cemitério Père-Lachaise
1 Creso: último rei da Lídia (morto em 560 a.C.), famoso por sua riqueza, proveniente da exploração das areias auríferas do rio Pactolo, rio afluente do Hermo no qual, segundo a lenda, se banhara Midas, rei que transformava em ouro tudo o que tocava.
2 São Tomé: um dos doze apóstolos originalmente escolhidos por Jesus, cuja aparição mais famosa no Novo Testamento está no Evangelho segundo são João, XX, 24-29, quando duvida da ressurreição de Jesus e exige tocar suas chagas para se convencer. Essa passagem é a origem da
expressão “ver pra crer”. Após ver Jesus vivo (a Bíblia nunca afirma ter Tomé de fato tocado suas chagas), Tomé professa sua fé Nele e, a partir de então, é considerado Tomé, o Crente.
3 “Frédérick em Robert Macaire”: Robert Macaire, ou Chevalier Macaire, era um famoso assassino que, ao ser utilizado como personagem em livros e peças de teatro, tornou-se a figura arquetípica do vilão na cultura francesa da época. Aqui a referência é ao drama estreado em 1823, O albergue dos Adrets, do dramaturgo francês Benjamin Antier (1787-1870), no qual o ator Frédérick Lemaître (1800-76) desempenhava o papel do vilão.
8. O cemitério Père-Lachaise
O sr. de Boville havia de fato cruzado com o cortejo fúnebre que conduzia Valentine à sua última morada.
O tempo estava escuro e nublado. Um vento ainda quente, mas já mortal para as folhas amarelas, arrancava-as dos galhos pouco a pouco despidos, fazendo-as rodopiar acima da imensa multidão que entupia as avenidas.
O sr. de Villefort, autêntico parisiense, via o cemitério Père-Lachaise como o único digno de receber os despojos mortais de uma família parisiense. Os demais pareciam-lhe cemitérios rurais, albergues ocupados pela morte. Somente no Père-Lachaise podiam instalar-se defuntos da alta sociedade.
Villefort comprara ali, como vimos, o jazigo perpétuo sobre o qual erigia-se o monumento tão abruptamente ocupado por todos os membros de sua família.
Lia-se no frontão do mausoléu: FAMÍLIA SAINT-MÉRAN E VILLEFORT, pois esta havia sido a última vontade da desventurada Renée, mãe de Valentine.
Era então para o Père-Lachaise que se encaminhava o pomposo cortejo proveniente do faubourg Saint-Honoré. Após atravessar Paris, ele enveredou pelo faubourg du Temple, depois pelos bulevares externos, até chegar ao cemitério. Mais de cinqüenta coches particulares seguiam vinte coches enlutados, e atrás desses cinqüenta coches, mais de quinhentas pessoas caminhavam.
Eram quase todos rapazes que a morte de Valentine atingira como um raio e que, a despeito da atmosfera glacial do século e do prosaísmo da época, sofriam a influência poética daquela bela, daquela casta, daquela adorável rapariga ceifada em sua flor.
Na saída de Paris, viu-se chegar uma rápida carruagem de quatro cavalos que pararam repentinamente, enrijecendo seus jarretes nervosos como molas de aço: era o sr. de Monte Cristo.
O conde apeou e foi misturar-se à multidão, que seguia a pé o coche fúnebre.
Château-Renaud avistou-o e também saiu de seu cupê, indo juntar-se a ele. Beauchamp imitou-o e deixou o fiacre no qual se achava.
O conde observava atentamente por todos os interstícios da massa.
Visivelmente, procurava alguém. Por fim, não se conteve.
— Onde está Morrel? — perguntou. — Algum dos senhores sabe onde ele está?
— Já nos fizemos essa pergunta no local do velório — disse ChâteauRenaud —, nenhum de nós o viu.
O conde se calou, mas continuou a olhar em volta. Finalmente chegaram ao cemitério.
O olhar penetrante de Monte Cristo vasculhou num relance os bosques de teixos e pinheiros, logo se despreocupando, pois uma sombra deslizara sob os escuros bordos. Ele sem dúvida avistara o que procurava.
Sabemos o que é um enterro nessa magnífica necrópole: grupos de preto disseminados pelas brancas aléias, o silêncio do céu e da terra rompido pelo estalo de alguns galhos quebrados, de alguma sebe plantada em volta de um túmulo; depois, o canto melancólico dos padres, ao qual se mistura, aqui e ali, um soluço saído de uma touceira de flores, atrás da qual vemos uma mulher, destroçada e com as mãos postas para a reza.
A sombra que Monte Cristo avistara atravessou rapidamente o
jardim geométrico do túmulo de Heloísa e Abelardo1, foi instalar-se, com os coveiros, à frente dos cavalos que puxavam o corpo e, no mesmo ritmo, chegou ao local escolhido para a sepultura.
Todos olhavam para alguma coisa.
Monte Cristo olhava apenas para aquela sombra, praticamente ignorada pelos que se achavam próximos a ela.
Por duas vezes o conde abandonou suas fileiras para verificar se as mãos daquele homem não procuravam alguma arma escondida nas roupas.
A sombra, quando o cortejo se deteve, foi identificada como sendo Morrel, que, com seu redingote preto abotoado até em cima, sua fronte lívida, suas faces escavadas, seu chapéu amarrotado por mãos convulsivas, recostara-se a uma árvore situada sobre um outeiro que dominava o mausoléu, de maneira a não perder nenhum dos detalhes da cerimônia fúnebre prestes a se realizar.
Tudo se passou conforme a tradição. Alguns homens, e como sempre os menos abalados, pronunciaram discursos. Uns lastimavam aquela morte prematura, outros alongavam-se acerca do sofrimento do pai. Houve os bem engenhosos para descobrir que, mais de uma vez, a moça pedira ao sr.
de Villefort que tivesse piedade dos culpados sobre os quais ele mantinha alçado o gládio da justiça. Em suma, esgotaram-se as metáforas floridas e
as frases tortuosas, citando canhestramente as estrofes de
Malherbe para du Périer2.
Monte Cristo não escutava nada, não via nada, ou melhor, via somente Morrel, cuja calma e imobilidade formavam um espetáculo apavorante para o único capaz de ler o que se passava no fundo do coração do jovem oficial.
— Ora essa — disse de repente Beauchamp a Debray —, lá está o Morrel! Onde diabos ele havia se enfiado?
E o apontaram para Château-Renaud, que, estremecendo, constatou:
— Como está pálido!
— Está com frio — replicou Debray.
— Nada disso — disse lentamente Château-Renaud. — Acho que está perturbado. Maximilien é um homem muito impressionável.
— Ora! — disse Debray. — Ele mal conhecia a srta. de Villefort. Você mesmo disse isso.
— É verdade. Entretanto, lembro-me de que, no baile na casa da sra. de Morcerf, ele dançou três vezes com ela. Aquele baile, conde, no qual o senhor foi a sensação.
— Não me lembro — respondeu Monte Cristo, sem sequer saber a que nem a quem respondia, pois estava ocupado em vigiar Morrel, cujas faces afogueavam, como acontece com aqueles que prendem ou represam a respiração.
— Os discursos terminaram, até logo, senhores — disse bruscamente o conde.
E deu sinal de partida, desaparecendo sem que se soubesse por onde passara.
A cerimônia fúnebre estava encerrada, todos tomaram de volta o caminho de Paris.
Apenas Château-Renaud procurou Morrel por um instante com os olhos.
Contudo, enquanto seguia com o olhar o conde se afastando, Morrel deixara seu lugar, e Château-Renaud, após tê-lo procurado em vão, partiu atrás de Debray e Beauchamp.
Monte Cristo embrenhara-se num arvoredo e, escondido atrás de um grande túmulo, espreitava todos os movimentos de Morrel, o qual, pouco a pouco, aproximara-se do mausoléu abandonado primeiro pelos curiosos, depois pelos operários.
Morrel olhou lenta e vagamente ao seu redor, porém, no momento em que seu olhar abraçava a porção do círculo oposta à sua, Monte Cristo aproximou-se mais uma dezena de passos sem ser percebido.
O rapaz ajoelhou-se.
O conde, pescoço esticado, olho fixo e dilatado, pernas retesadas como para se lançar ao primeiro sinal, continuava a aproximar-se de Morrel.
O rapaz inclinou a cabeça até a lápide, abraçou a grade com as duas mãos e murmurou:
— Oh, Valentine!
A explosão dessas duas palavras partiu o coração do conde, que deu outro passo e, batendo no ombro de Morrel, saudou-o:
— É o senhor, querido amigo! Estava à sua procura!
Monte Cristo viera prevenido para um escândalo, uma repreensão, uma recriminação, mas havia se enganado.
Morrel voltou-se para o lado e, com uma calma aparente, disse:
— Como vê, eu estava rezando!
E o olhar penetrante do conde percorreu o rapaz dos pés à cabeça.
Depois dessa inspeção, pareceu mais tranqüilo.
— Quer que eu o leve de volta a Paris? — perguntou ele.
— Não, obrigado.
— Mas não há nada que eu possa fazer por você?
— Deixe-me rezar.
O conde afastou-se sem fazer uma única objeção, mas foi para ocupar um novo posto de observação, de onde não perdia um único gesto de Morrel, que finalmente se reergueu, espanou os joelhos embranquecidos pela pedra e, sem voltar a cabeça uma única vez, tomou novamente o caminho de Paris.
— Oh, Valentine!
Desceu lentamente a rua de la Roquette.
Dispensando seu coche estacionado no Père-Lachaise, o conde seguiu-o a cem passos. Maximilien atravessou o canal e entrou na rua Meslay pelos bulevares.
Cinco minutos depois de se fechar para Morrel, o portão voltou a se abrir para Monte Cristo.
Julie estava na entrada do jardim, onde observava, com a mais profunda atenção, mestre Penelon, que, levando a profissão de jardineiro a sério, preparava mudas de roseiras.
— Ah, sr. conde de Monte Cristo! — ela exclamou com a mesma alegria que todos os membros da família expressavam quando Monte Cristo visitava a rua Meslay.
— Maximilien acaba de chegar, não é, senhora?
— Sim, acho que o vi passar — respondeu a moça. — Mas, por favor, chame Emmanuel.
— Sinto muito, senhora, mas devo ir imediatamente ao quarto de Maximilien — replicou Monte Cristo —, tenho algo de suma importância para lhe falar.
— Vá então — fez ela, acompanhando-o com seu sorriso encantador até ele desaparecer na escada.
Monte Cristo logo transpôs os dois andares que separavam o rés-dochão dos aposentos de Maximilien. Ao chegar ao corredor, pôs-se à escuta: nenhum barulho.
Como na maioria das casas antigas, habitadas por um único proprietário, a entrada do quarto consistia numa simples porta de vidro.
O detalhe é que essa porta de vidro não tinha chave. Maximilien estava no quarto, mas era impossível ver além da porta, pois havia um cortinado de seda vermelha adensando os vidros.
A ansiedade do conde traduziu-se num vivo rubor, sintoma de emoção pouco comum naquele homem impassível.
— Que fazer? — murmurou. E refletiu um instante.
— Tocar? — continuou. — Oh, não! Muitas vezes o barulho de uma campainha, isto é, de uma visita, acelera a decisão daqueles que se encontram na situação em que Maximilien deve estar neste momento, e então ao disparo da campainha responde outro disparo. Monte Cristo ficou arrepiado dos pés à cabeça e, como nele a decisão tinha a rapidez do raio, deu uma cotovelada numa das vidraças da porta de vidro, estilhaçando-o. Então levantou o cortinado e viu Morrel, que, sentado à escrivaninha, uma pena na mão, acabava de pular na cadeira, reagindo ao estrépito dos cacos de vidro.
— Não foi nada — disse o conde —, mil perdões, querido amigo!
Escorreguei e, ao escorregar, dei com o cotovelo na vidraça. Já que está quebrada, vou aproveitar para entrar. Fique à vontade, fique à vontade.
E, passando o braço pelo vidro quebrado, o conde abriu a porta.
Morrel levantou-se, visivelmente contrariado, e foi até Monte Cristo, menos para recebê-lo que para obstruir-lhe a passagem.
— Acredite, é culpa dos seus criados — disse Monte Cristo, esfregando o cotovelo —, seus assoalhos são lisos como espelhos.
— Machucou-se, senhor? — perguntou friamente Morrel.
— Não sei. Mas o que fazia? Escrevia?
— Eu?
— Está com os dedos sujos de tinta.
— É verdade — respondeu Morrel —, escrevia. Isso me acontece às vezes, por mais militar que eu seja.
Monte Cristo deu alguns passos quarto adentro. Obrigado a deixá-lo passar, Morrel o seguiu.
— Escrevia? — repetiu Monte Cristo, com um olhar fatigante de fixidez.
— Já tive a honra de lhe dizer que sim — respondeu Morrel. O conde lançou um olhar em volta.
— Suas pistolas estão na escrivaninha! — disse ele, com o dedo apontando para Morrel as armas sobre o tampo.
— Estou de partida para uma viagem — respondeu Maximilien.
— Meu amigo! — disse Monte Cristo, com uma voz infinitamente meiga.
— Senhor!
— Meu amigo, meu querido Maximilien, nada de decisões radicais, eu lhe suplico!
— Eu, decisões radicais? — disse Morrel dando de ombros. — E em quê, por favor, uma viagem é uma decisão radical?
— Maximilien — disse Monte Cristo —, deixemos de lado, cada um de nós, as máscaras que usamos. Maximilien, você não me engana com essa calma de encomenda, como tampouco eu a você com a minha frívola solicitude. Você compreende, não é?, que para ter feito o que fiz, para ter arrebentado os vidros, violado o sigilo do quarto de um amigo, compreende, enfim, que, para ter feito tudo isso, eu precisava estar muito preocupado, ou então com uma terrível convicção. Morrel, você pretendia se matar!
— Eu! — estremeceu Morrel. — Como pode pensar uma coisa dessas, sr. conde?
— Repito que pretendia se matar! — continuou o conde com o mesmo tom de voz. — E aqui está a prova disso.
E, aproximando-se da escrivaninha, ergueu a folha branca que o rapaz lançara sobre uma carta iniciada, e pegou a carta.
Morrel arrojou-se para arrancá-la de suas mãos.
Mas Monte Cristo previra tal movimento e se antecipou, agarrando Maximilien pelo pulso e detendo-o como a corrente de aço detém a mola no meio de sua evolução.
— É evidente que pretendia matar-se, Morrel — disse o conde —, está escrito!
— Pois muito bem! — exclamou Morrel, passando sem transição da calma aparente à violência manifesta. — Pois muito bem! Quando eu decidir apontar o cano dessa pistola para minha cabeça, quem irá me impedir?
“Quem terá coragem para me impedir? Quando eu disser: ‘Todas as minhas esperanças estão arruinadas, meu coração está despedaçado, minha vida, extinta, não há nada além de luto e amargura à minha volta; a terra virou cinza; toda voz humana me dilacera.’ Quando eu disser: ‘Permitir que eu morra é compaixão, pois, se me impedir, perderei a razão, enlouquecerei.’ Vamos, fale, cavalheiro, quando eu disser isto, quando virem que o digo com as angústias e as lágrimas do meu coração, será que ouvirei como resposta:
‘Você está errado?’ Será que alguém irá impedir-me de romper com a condição do mais infeliz dos homens? Fale, cavalheiro, fale, é o senhor quem terá essa coragem?”
— Sim, Morrel — disse Monte Cristo, com uma voz cuja calma contrastava estranhamente com a exaltação do rapaz. — Sim, serei eu.
— O senhor! — indignou-se Morrel, com uma expressão crescente de cólera e censura. — O senhor, que me ludibriou com uma esperança absurda, que me acolheu, embalou, adormeceu com vãs promessas, quando eu teria sido capaz, por meio de algum lampejo, por meio de alguma resolução extrema, de salvá-la ou pelo menos vê-la morrer em meus braços. O senhor, que se arroga todos os recursos da inteligência, todas as forças da matéria, que exerce, ou melhor, finge exercer o papel da Providência, e que sequer tem o poder de ministrar um contraveneno a uma jovem envenenada! Ah, para falar a verdade, cavalheiro, o senhor me daria pena se não me provocasse horror!
— Morrel...
— Sim, o senhor disse para tirarmos a máscara. Pois bem, fique satisfeito, já tirei a minha. Sim, quando o senhor me seguiu até o cemitério, ainda lhe respondi, pois meu coração é generoso. Quando o senhor entrou, deixei que viesse até aqui... Mas, uma vez que o senhor abusa, uma vez que vem afrontarme até neste quarto onde eu me refugiara como no meu túmulo, uma vez que me proporciona uma nova tortura, a mim, que julgava haver a todas esgotado, conde de Monte Cristo, meu
pretenso benfeitor, conde de Monte Cristo, salvador universal, fique satisfeito, verá seu amigo morrer!
E Morrel, com o riso da loucura nos lábios, precipitou-se uma segunda vez para as pistolas.
Monte Cristo, pálido como um espectro, mas o olho dardejando clarões, estendeu a mão para as armas e disse ao insensato:
— E eu repito que o senhor não se matará!
— Impeça-me então! — rebateu Morrel num último impulso, que, como o primeiro, veio chocar-se contra o braço férreo do conde.
— É o que farei!
— Mas afinal quem é o senhor para atribuir-se tal direito tirânico sobre criaturas livres e pensantes? — exclamou Maximilien.
— Quem sou eu? — repetiu Monte Cristo. — Preste atenção: sou o único homem no mundo com o direito de lhe dizer: “Morrel, não quero que o filho do seu pai morra hoje!”
E Monte Cristo, majestoso, transfigurado, sublime, avançou com os braços cruzados para o rapaz arfante, que, vencido à sua revelia pela quase divindade daquele homem, recuou um passo.
— Por que está falando do meu pai? — balbuciou. — Por que misturar a lembrança do meu pai com o que me acontece hoje?
— Porque sou aquele que já salvou a vida do seu pai, um dia em que ele queria matar-se como você quer matar-se hoje. Porque sou o homem que enviou a bolsa à sua jovem irmã e o Pharaon a Morrel. Porque sou Edmond Dantès, em cujo colo, criança, você brincou!
Morrel deu mais um passo para trás, vacilante, sem ar, ofegante, esmagado. Em seguida, suas forças o abandonaram e, com um grande grito, ele caiu prosternado aos pés de Monte Cristo.
Então, de repente, naquela admirável natureza deu-se um movimento de regeneração súbita e completa. Ele se reergueu, pulou para fora do quarto e precipitou-se na escada gritando com toda a potência de sua voz:
— Julie! Julie! Emmanuel! Emmanuel!
Monte Cristo quis precipitar-se por sua vez, mas Maximilien teria preferido morrer a deixar o umbral da porta, a qual ele empurrava sobre o conde.
Aos gritos de Maximilien, Julie, Emmanuel, Penelon e alguns criados acorreram apavorados.
Morrel segurou suas mãos e, abrindo a porta:
— De joelhos! — exclamou com uma voz estrangulada pelas lágrimas.
— De joelhos! É o benfeitor, é o salvador do nosso pai! É...
Ia dizer: É Edmond Dantès!
O conde interrompeu-o, agarrando-lhe o braço.
Julie lançou-se para a mão do conde, Emmanuel beijou-o como um deus tutelar. Morrel caiu pela segunda vez de joelhos, batendo a testa no assoalho.
Então o homem de bronze sentiu seu coração dilatar-se no peito, um jato de chama devorador irromper de sua garganta para os seus olhos. Ele inclinou a cabeça e chorou.
Reinou nesse quarto, durante alguns instantes, um concerto de lágrimas e gemidos sublimes que deve ter parecido harmonioso até para os anjos mais amados pelo Senhor!
Julie, mal refeita da emoção profunda que acabava de sentir, lançou-se para fora do quarto, desceu um andar, correu ao salão com uma alegria infantil e levantou a redoma de cristal que protegia a bolsa dada pelo desconhecido na rua das Allées de Meilhan.
Enquanto isso, Emmanuel dizia ao conde com uma voz entrecortada:
— Oh, sr. conde, ouvindo-nos falar tantas vezes do nosso benfeitor desconhecido, vendo-nos cercar uma lembrança com tanta gratidão e adoração, como esperou até hoje para se dar a conhecer? Oh, foi uma crueldade conosco, e eu quase me atreveria a dizer, sr. conde, com o senhor mesmo.
— Escute, meu amigo — disse o conde —, e posso chamá-lo assim, pois sem dúvida, o senhor é meu amigo há dez anos; a descoberta desse segredo foi provocada por um grande acontecimento, que provavelmente o senhor ignora. Deus é testemunha de que eu desejava enterrá-lo eternamente no fundo da alma. Seu irmão Maximilien conseguiu arrancá-lo de mim por meio de uma violência, da qual se arrepende, tenho certeza.
— De joelhos! É o benfeitor, é o salvador do nosso pai! É...
Ao ver que Maximilien jogara-se de lado numa poltrona, permanecendo contudo de joelhos:
— Cuide dele — acrescentou baixinho Monte Cristo, apertando de maneira significativa a mão de Emmanuel.
— O que há? — perguntou o rapaz, assustado.
— Não posso dizer, mas cuide dele.
Emmanuel abraçou o quarto com um olhar e percebeu as pistolas de Morrel.
Seus olhos detiveram-se aterrados sobre as armas, que ele apontou para Monte Cristo erguendo lentamente o dedo à altura deles.
Monte Cristo inclinou a cabeça.
Emmanuel fez um movimento em direção às pistolas.
— Deixe — disse o conde.
Então, indo até Morrel, pegou-lhe a mão. Os arroubos intempestivos que haviam por um instante abalado o coração do rapaz haviam dado lugar a um estupor profundo.
Julie subiu novamente, tinha na mão a bolsa de seda e duas lágrimas brilhantes e alegres rolavam sobre suas faces, como duas gotas do sereno da madrugada.
— Eis a relíquia — disse ela. — Não pense que seja menos querida depois que o salvador nos foi revelado.
— Minha filha — respondeu Monte Cristo, ruborizando —, permita-me pegar de volta essa bolsa. Agora que conhece os traços do meu rosto, quero que lembre-se de mim tão-somente pela afeição que lhe peço que me conceda.
— Oh — disse Julie, apertando a bolsa contra o coração —, não, não, suplico-lhe, pois um dia o senhor poderia deixar-nos, pois um dia infelizmente irá deixar-nos, não é verdade?
— Adivinhou — respondeu Monte Cristo, sorrindo. — Daqui a uma semana terei deixado este país, onde tantas pessoas que haviam merecido a vingança dos céus viviam felizes, enquanto meu pai expirava de fome e de dor.
Ao anunciar sua partida próxima, Monte Cristo mantinha os olhos fixos em Morrel, e observou que as palavras “terei deixado este país” haviam passado sem tirar Morrel da letargia. Compreendeu que precisaria travar uma última luta com a dor de seu amigo e, pegando as mãos de Julie e de Emmanuel, que uniu às suas, disse-lhes, com a meiga autoridade de um pai:
— Meus bons amigos, por favor, deixem-me a sós com Maximilien.
Era uma oportunidade para Julie levar aquela valiosa relíquia, de que Monte Cristo já se esquecera.
Ela arrastou impetuosamente o marido.
— Vamos deixá-los — disse ela.
O conde ficou sozinho com Morrel, que permanecia imóvel como uma estátua.
— Vejamos — disse o conde, tocando-lhe o ombro com seu dedo de fogo. — Está finalmente voltando a ser um homem, Maximilien?
— Sim, pois recomeço a sofrer.
A testa do conde franziu, pois ele parecia entregue a uma sombria hesitação.
— Maximilien! Maximilien! — disse Monte Cristo. — Essas idéias que o arrebatam são indignas de um cristão.
— Oh, fique tranqüilo, meu amigo — disse Morrel, levantando a cabeça e mostrando ao conde um sorriso marcado por uma tristeza inefável. —
Não sou mais eu que irei procurar a morte.
— Então — disse Monte Cristo —, basta de armas, basta de desespero.
— Na verdade, tenho coisa melhor, para curar a minha dor, que o cano de uma pistola ou a ponta de uma faca.
— Perdeu o juízo! O que tem?
— Tenho minha dor, e ela me matará.
— Amigo — disse Monte Cristo com igual melancolia. — Escute: um dia, num momento de desespero igual ao seu, uma vez que acarretava decisão semelhante, quis matar-me como você; um dia, seu pai, igualmente desesperado, quis matar-se também. Se houvessem dito a seu pai, no momento em que ele dirigia o cano da pistola para a cabeça; se houvessem me dito, no momento em que eu me privava o pão de recluso, no qual já não tocava havia três dias, se nos houvessem dito, a nós dois, naquele momento supremo: “Vivam! Dia virá em que serão felizes e em que abençoarão a vida”; viesse de que lado fosse, teríamos recebido isso com o sorriso da dúvida ou a angústia da incredulidade, e, entretanto, quantas vezes, ao beijá-lo, seu pai abençoou a vida, quantas vezes eu mesmo...
— Ah — exclamou Morrel, interrompendo o conde —, o senhor havia perdido somente sua liberdade, meu pai não perdera senão sua fortuna, enquanto eu, perdi Valentine.
— Olhe nos meus olhos, Morrel — ordenou Monte Cristo, com aquela solenidade que o fazia tão persuasivo em certas ocasiões —, olhe nos meus olhos, não tenho nem lágrimas nos olhos, nem febre nas veias, nem palpitações fúnebres no coração, entretanto vejo-o sofrer, Maximilien, você a quem amo como amaria a um filho. Pois bem! Isso não lhe diz, Morrel, que a dor é como a vida e que há sempre alguma coisa desconhecida além? Ora, se lhe peço, se lhe ordeno que viva, Morrel, é na convicção de que um dia você venha a me agradecer por ter preservado sua vida.
— Meu Deus! — exclamou o rapaz. — Meu Deus! O que está dizendo, conde? Preste bem atenção! Será que já amou um dia?
— Criança! — respondeu o conde.
— De amor — repetiu Morrel —, eu posso falar. Quanto a mim, veja, sou soldado desde que sou homem. Cheguei aos vinte anos sem amar, pois nenhum dos sentimentos que experimentara até então merecia o nome de amor. Pois bem! Aos vinte e nove anos, conheci Valentine. Logo, faz quase dois anos que a amo, quase dois anos que pude ler as virtudes da moça e da mulher escritas pela própria mão do Senhor naquele coração que abri como a um livro. Conde, reinava para mim, com Valentine, uma felicidade infinita, imensa, desconhecida, uma felicidade grande demais, divina demais para este mundo. Se este mundo privou-me dela, conde, isso significa que, sem Valentine, não há senão desespero e desolação sobre a terra.
— Eu lhe disse para ter esperanças, Morrel — repetiu o conde.
— Cuidado, então, repito eu também — disse Morrel —, pois está tentando me persuadir e, se me persuadir, me fará perder a razão, pois me fará acreditar que posso rever Valentine.
O conde sorriu.
— Meu amigo, meu pai! — exclamou um exaltado Morrel. — Cuidado, repito pela terceira vez, pois a influência que o senhor exerce em mim apavora-me. Cuidado com o sentido de suas palavras, pois eis que meus olhos ganham vida, eis que meu coração se reacende e renasce. Cuidado, pois me faria acreditar em coisas sobrenaturais. Se me ordenasse a levantar a pedra do
sepulcro que cobre a filha de Jairo3, eu obedeceria; se me fizesse um sinal para caminhar sobre as ondas, eu caminharia sobre as ondas como o apóstolo. Cuidado, eu obedeceria.
— Não perca as esperanças, amigo — repetiu o conde.
— Ah! — disse Morrel, caindo de toda a altitude de sua exaltação no abismo da tristeza. — Está zombando de mim. Faz como uma boa mãe, ou melhor, como essas mães egoístas que acalmam com palavras melífluas a dor da criança, porque seus gritos as cansam. Não, meu amigo, eu estava errado em lhe dizer para tomar cuidado. Não, não tema nada, enterrarei minha dor com grande desvelo no fundo do meu peito e a tornarei tão obscura, tão secreta, que o senhor não cogitará sequer em se compadecer.
Adeus, meu amigo! Adeus!
— Ao contrário — disse o conde —, a partir deste momento, Maximilien, você viverá ao meu lado e comigo, não me deixará mais.
Daqui a uma semana, teremos deixado a França para trás.
— E continua a me dizer para ter esperança?
— Digo para ter esperança porque conheço um meio de curá-lo.
— Conde, o senhor me entristece ainda mais, se é que isso é possível.
Vê, como resultado do golpe que me atinge, apenas uma dor banal, e acredita consolar-me com um recurso banal, a viagem.
E Morrel balançou a cabeça com desdenhosa incredulidade.
— Que quer que eu lhe diga? — perguntou Monte Cristo. — Tenho fé nas minhas promessas, deixe-me realizar o experimento.
— Está prolongando minha agonia, conde, só isso.
— Quer dizer — replicou o conde —, coração fraco, que não tem forças para dar a seu amigo alguns dias em nome do experimento que ele almeja!
Ora, sabe do que é capaz o conde de Monte Cristo? Sabe que ele comanda muitas forças terrenas? Sabe que ele tem a fé necessária em Deus para obter milagres daquele que disse que com a fé o homem move montanhas?
Pois bem! Aguarde o milagre em que deposito esperança ou então... — Ou então... — repetiu Morrel.
— Ou então, cuidado, Morrel, irei considerá-lo um ingrato.
— Tenha pena de mim, conde.
— Tenho tanta pena de você, Maximilien, escute, tanta pena que, se dentro de um mês, dia por dia, hora por hora, eu não o curar, guarde bem minhas palavras, Morrel, eu mesmo irei instalá-lo diante dessas pistolas carregadas e de uma taça do mais infalível veneno da Itália, um veneno mais infalível e instantâneo, creia, que o que matou Valentine.
— Promete?
— Sim, pois sou homem, pois, eu também, como lhe disse, quis morrer, e muitas vezes, mesmo depois que a desgraça afastara-se de mim, sonhei com as delícias do sono eterno.
— Oh, está me prometendo isso, conde?
— Não lhe prometo, juro — disse Monte Cristo, estendendo a mão.
— Dentro de um mês, pela sua honra, se eu não estiver consolado, poderei fazer o que quiser da minha vida e não me chamará de ingrato?
— Dentro de um mês, dia por dia; dentro de um mês, hora por hora. E a data é sagrada, Maximilien, não sei se percebeu: hoje é dia 5 de setembro.
Há dez anos salvei seu pai, que desejava morrer.
Morrel agarrou as mãos do conde e as beijou. O conde permitiu, como se compreendesse que aquela adoração lhe era devida.
— Dentro de um mês — continuou Monte Cristo —, você terá, sobre a mesa diante da qual nós dois estaremos sentados, boas armas e uma morte doce. Mas, em contrapartida, promete esperar-me até lá e viver?
— Oh! De minha parte — exclamou Morrel —, eu juro também! Monte Cristo puxou o rapaz para si e o abraçou longamente.
— E agora — disse-lhe —, a partir de hoje você vai morar comigo.
Ocupará os aposentos de Haydée, e minha filha pelo menos será substituída pelo meu filho.
— Haydée! — disse Morrel. — O que houve com Haydée?
— Partiu esta noite.
— Foi embora?
— Foi esperar-me... Prepare-se, portanto, para ir comigo para minha casa em Champs-Élysées, e faça com que eu saia daqui sem me verem.
Maximilien abaixou a cabeça e obedeceu como uma criança, ou um apóstolo.
1 Heloísa e Abelardo: o romance entre Heloísa e o filósofo Pedro Abelardo (1079-1142), registrado em sua História das minhas calamidades, é um episódio famoso da cultura medieval.
Abelardo era um jovem filósofo e Heloísa (1101-64), sua aluna. Seu amor enfrentou toda a sorte de preconceitos religiosos e morais, mas os dois chegaram a se casar. O tio e tutor de Heloísa, no entanto, contratou dois carrascos para que invadissem o quarto de Abelardo durante a noite e o castrassem. Abelardo e Heloísa jamais voltaram a se falar. Ela ingressou num convento. Para tentar amenizar a dor que sentiam pela falta um do outro, ambos passaram a dedicar-se exclusivamente ao trabalho. Abelardo construiu uma escolamosteiro ao lado da escola-convento de Heloísa. Viam-se diariamente, mas não se falavam nunca. Apenas trocavam cartas apaixonadas. Abelardo morreu em 1142, com sessenta e três anos, e Heloísa ergueu um grande sepulcro em sua homenagem; quando faleceu, foi, por iniciativa de suas alunas, sepultada ao lado de Abelardo.