O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 47 de 119

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O Conde de Monte Cristo

7. A chuva de sangue

3 Bastia e Corte: cidades que distam, respectivamente, quarenta e três e cento e treze quilômetros de Rogliano.

7. A chuva de sangue

Ao entrar, o joalheiro lançou um olhar indagador à sua volta; mas, caso não tivesse suspeitas, nada parecia despertá-las; caso as tivesse, nada parecia confirmá-las. “Caderousse continuava a segurar, com as duas mãos, seus títulos bancários e seu ouro.

A Carconte sorria para o hóspede o mais simpaticamente que podia.

“— Ah, ah! — disse o joalheiro. — Parece que estavam com medo de não terem recebido a quantia certa, que recontavam seu tesouro depois que saí.

“— Não — disse Caderousse. — Mas o episódio que nos fez seu possuidor é tão inesperado que nos parece inacreditável, e se não temos a prova material diante dos nossos olhos, ainda julgamos estar sonhando.

“O joalheiro sorriu.

“— Há forasteiros hospedados em sua estalagem? — perguntou. “—

Não — respondeu Caderousse —, não oferecemos pernoite; estamos muito perto da cidade e ninguém pára aqui. “— Então vou incomodá-lo horrivelmente?

“— Nos incomodar, o senhor, meu caro! — disse graciosamente a Carconte. — De forma alguma, juro.

“— Vejamos, aonde irão me instalar? “— No quarto de cima.

“— Mas não é o seu quarto?

“— Oh, não faz mal: temos uma segunda cama no cômodo ao lado.

“Caderousse, perplexo, observava sua mulher. O joalheiro cantarolou uma melodia despretensiosa, aquecendo as costas num feixe de gravetos que a Carconte acabava de acender na lareira para secar o seu hóspede.

“Nesse ínterim, ela trazia para um canto da mesa, sobre a qual estendera uma toalha, os restos magros de um jantar, a que acrescentou dois ou três ovos cozidos.

“Caderousse guardara novamente o dinheiro em sua pasta, o ouro na bolsa e as duas coisas no armário. Andava de um lado para o outro, sombrio e pensativo, erguendo de vez em quando a cabeça para o joalheiro, que se quedava fumando no átrio e que, à medida que se secava de um lado, virava do outro.

“— Acabei — disse a Carconte, colocando uma garrafa de vinho na mesa —, quando quiser comer, está pronto. “— E vocês? — perguntou Joannès.

“— Eu não vou comer — respondeu Caderousse.

“— Jantamos muito tarde — apressou-se a dizer a Carconte. “— Então comerei sozinho? — indagou o joalheiro.

“— Vamos servi-lo — respondeu a Carconte, com uma solicitude que não era habitual, nem com seus hóspedes pagantes.

“De vez em quando, Caderousse lançava-lhe um olhar rápido como um raio.

“A tempestade não diminuía.

“— Está ouvindo, está ouvindo? — agitou-se a Carconte. — O senhor fez bem em voltar, por Deus.

“— O que não me impede, se o furacão melhorar durante a ceia, de seguir viagem — disse o joalheiro.

“— É o mistral — disse Caderousse, balançando a cabeça —, e só deve parar amanhã.

“E soltou um suspiro.

“— Nossa! — exclamou o joalheiro, sentando-se à mesa. — Coitado de quem está lá fora.

“— Pois é — emendou a Carconte —, vai ter uma péssima noite.

“O joalheiro começou a comer e a Carconte continuou a lhe dispensar todas as amabilidades de uma anfitriã zelosa; ela, em geral tão mal-humorada e intratável, tornara-se um modelo de gentileza e cortesia. Se o joalheiro a tivesse conhecido antes, tão grande mudança decerto o teria surpreendido e lhe inspirado alguma suspeita. Quanto a Caderousse, não dizia palavra, continuava seu vaivém, parecendo inclusive hesitante em fitar o seu hóspede.

“Quando a ceia chegou ao fim, o próprio Caderousse foi abrir a porta.

“— Acho que a tempestade está se acalmando — disse.

“Nesse momento, porém, como que para desmenti-lo, uma trovoada terrível sacudiu a casa, e uma rajada de vento e chuva entrou e apagou a lamparina.

“Caderousse fechou novamente a porta; sua mulher acendeu uma vela no braseiro agonizante.

“— Agora — disse ela ao joalheiro —, o senhor deve estar cansado; já fiz sua cama, suba para se deitar e durma bem.

“Joannès ainda ficou por um instante, assegurando-se de que a tempestade realmente não diminuía, e, quando teve certeza de que os trovões e a chuva só faziam aumentar, desejou boa-noite aos seus anfitriões e subiu a escada.

“Ele passou por cima da minha cabeça, e ouvi o rangido de cada degrau sob seus passos.

“A Carconte seguiu-o com um olhar ávido, enquanto Caderousse, ao contrário, dava-lhe as costas e sequer olhava em sua direção.

“Todos esses detalhes, que fui lembrar mais tarde, não me impressionaram em nada no momento em que desfilavam sob meus olhos; afinal de contas, nada ali parecia fora do normal, e, com exceção da história do diamante, que me soava um tanto inverossímil, tudo me parecia dentro do figurino. Então, como estava morto de cansaço e pretendia aproveitar a primeira trégua que a tempestade desse aos elementos, resolvi dormir algumas horas e ir embora no meio da noite.

“No cômodo de cima eu ouvia o joalheiro, que tomava, por sua vez, todas as providências para passar a melhor noite possível. Não demorou e a cama estalou embaixo dele, que acabava de se deitar.

“Senti meus olhos fechando-se por conta própria e, como não desconfiara de nada, nem tentei lutar contra o sono; lancei um último olhar para o interior da cozinha. Caderousse estava sentado ao lado de uma mesa comprida, num daqueles bancos de madeira que, nas estalagens de aldeia, substituem as cadeiras; estava de costas para mim, de modo que eu não conseguia ver sua fisionomia; aliás, ainda que estivesse na posição oposta, isso me teria sido impossível, na medida em que ele estava com a cabeça afundada nas duas mãos.

“A Carconte observou-o por um tempo, deu de ombros e foi sentar-se à sua frente.

“Nesse momento a chama agonizante alcançou um resto de lenha seca por ela esquecido; uma luminosidade um pouco mais intensa iluminou a sala escura. A Carconte mantinha os olhos pregados no marido, que continuava na mesma posição, e vi-a estendendo para ele sua mão adunca e tocando-o na testa.

“Caderousse estremeceu. Achei que a mulher mexia os lábios, mas, fosse porque falasse baixinho, fosse porque meus sentidos já estivessem entorpecidos pelo cansaço, os sons de sua fala não chegaram aos meus ouvidos. Eu não enxergava mais senão através de uma bruma, naquela vacilação precursora do sono durante a qual nos julgamos no início de um

sonho. Finalmente meus olhos se fecharam e perdi a consciência de mim mesmo.

“Eu estava num sono profundo quando fui acordado por um disparo de pistola, seguido de um grito terrível. Alguns passos cambaleantes ressoaram no assoalho do quarto e uma massa inerte veio desabar na escada, bem em cima da minha cabeça.

“Eu ainda não estava plenamente lúcido. Ouvia gemidos, depois gritos abafados, como os que acompanham uma luta.

“Um último grito, mais prolongado que os outros e que degenerou em gemidos, veio me tirar completamente da letargia.

“Apoei-me sobre um de meus braços, abri os olhos, que não enxergaram nada no escuro, e levei a mão à testa, sobre a qual parecia gotejar, através das tábuas da escada, uma chuva morna e abundante.

“O mais profundo silêncio sucedeu àqueles sons terríveis. Ouvi passos de homem andando acima da minha cabeça; esses passos fizeram a escada estalar. O homem desceu à sala térrea, aproximou-se da lareira e acendeu uma vela.

“Esse homem era Caderousse; tinha o rosto pálido e a camisa toda ensangüentada.

“Acesa a vela, ele subiu novamente a escada, e novamente ouvi seus passos rápidos e inquietos.

“Um instante depois, tornou a descer. Tinha nas mãos o pequeno estojo preto; certificou-se de que o diamante estava efetivamente lá, hesitou por um momento em qual dos bolsos o guardaria; então, possivelmente julgando um bolso esconderijo insuficientemente seguro, enrolou-o em seu lenço vermelho, que amarrou em volta do pescoço.

“Em seguida correu até o armário, tirou dali seus títulos bancários e seu ouro, guardou os primeiros na algibeira de sua calça, o último no bolso do casaco, pegou duas ou três camisas e, lançando-se em direção à porta, desapareceu na escuridão. Foi quando tudo ficou claro para mim; censurei-me pelo que acabava de acontecer como se tivesse sido o verdadeiro culpado. Pareceu-me ouvir gemidos: o desafortunado joalheiro podia não estar morto; talvez estivesse ao meu alcance, prestando-lhe socorro, reparar uma parte do mal que eu não praticara, mas permitira que houvessem praticado. Forcei com os ombros uma das tábuas mal encaixadas que separavam da sala a espécie de tambor dentro do qual eu estava deitado; as tábuas cederam e eu entrei na casa.

“Corri até a vela e me lancei pela escada; um corpo atravessado a obstruía, era o cadáver da Carconte.

“O disparo de pistola que eu ouvira havia sido desferido sobre ela: tinha a garganta atravessada de lado a lado e, além do duplo ferimento que sangrava aos borbotões, vomitava sangue pela boca. Estava certamente morta. Passei a perna por cima do corpo e segui em frente.

“Dentro do cômodo reinava a mais terrível desordem. Dois ou três móveis haviam sido derrubados; os lençóis, aos quais o infeliz joalheiro se agarrara, encontravam-se espalhados pelo aposento. Quanto a ele, estava deitado no chão, a cabeça recostada na parede, chafurdando numa onda de sangue que escorria de três grandes ferimentos recebidos no peito.

“No quarto ferimento restara uma faca comprida de cozinha, da qual não se via senão o cabo.

“Andei até a segunda pistola, que não disparara, a pólvora estando provavelmente molhada.

“Aproximei-me do joalheiro; com efeito, ainda não dera o último suspiro. Com o barulho que fiz, e sobretudo pelo tremor do assoalho, reabriu olhos esbugalhados, conseguiu fixá-los por um instante sobre mim, mexeu os lábios como se quisesse falar e expirou.

“Esse espetáculo pavoroso me deixara quase louco; a partir do momento em que eu não podia mais socorrer ninguém, sentia apenas uma necessidade, a de fugir. Precipitei-me pela escada, enfiando as mãos no cabelo e soltando um rugido de terror.

“Na sala de baixo havia cinco ou seis agentes da alfândega e dois ou três policiais, um exército inteiro armado.

“Fui preso; sequer tentei opor resistência, não era mais senhor dos meus sentidos. Tentei falar, emiti uns gritos desarticulados, foi só.

“Percebi que os agentes alfandegários e os policiais apontavam o dedo para mim; abaixei os olhos e vi que estava coberto de sangue. Aquela chuva tépida que eu sentira cair sobre mim através das tábuas da escada era o sangue da Carconte.

“Apontei para o lugar onde eu estava escondido.

“— O que ele está querendo dizer? — perguntou um policial. “Um agente alfandegário foi verificar.

“— Ele quer dizer que passou por ali — respondeu.

“E mostrou o buraco pelo qual eu efetivamente passara.

“Compreendi então que me tomavam pelo assassino. Recuperei a voz, recuperei a força; desvencilhei-me das mãos dos dois homens que me seguravam, exclamando:

 

“— Não fui eu! Não fui seu!

“Dois policiais encostaram suas carabinas no meu rosto.

“— Se fizer um movimento — disseram —, é um homem morto. “—

Mas — exclamei —, estou dizendo que não fui eu!

“— Conte sua historinha para os juízes de Nîmes — responderam.

Enquanto isso, siga-nos; e, se quiser ouvir um conselho, não resista.

“Não era mesmo a minha intenção resistir, pois estava abalado pelo espanto e pelo terror. Fui posto em algemas, amarraram-me às ancas de um cavalo e levaram-me até Nîmes.

“Eu havia sido seguido por um agente da alfândega; ele me perdera de vista nas cercanias da casa e desconfiara que eu passaria a noite ali; fora avisar seus companheiros, que haviam chegado justamente a tempo de ouvir o tiro da pistola e me flagrar em meio àquelas evidências de culpa; compreendi imediatamente a dificuldade que teria para provar minha inocência.

— ... mexeu os lábios como se quisesse falar e expirou.

“Dessa forma, agarrei-me apenas a uma coisa: a primeira solicitação que fiz ao juiz foi que mandasse procurar por toda parte um tal de abade Busoni, que naquele mesmo dia passara pela estalagem da Ponte do Gard.

Se Caderousse houvesse inventado a história, se aquele abade não existisse, era evidente que eu estava perdido, a menos que Caderousse também fosse preso e confessasse tudo.

“Dois meses se passaram, durante os quais, devo dizê-lo em favor do meu juiz, todas as buscas foram feitas para encontrar aquele a quem procurava. Eu já tinha perdido as esperanças. Caderousse não fora preso.

Eu seria julgado na primeira sessão, quando, no dia 8 de setembro, ou seja, três meses e cinco dias depois do ocorrido, o abade Busoni, com quem eu já não contava mais, apresentou-se na cadeia, dizendo que soubera que um prisioneiro queria falar com ele. Isso chegara aos seus ouvidos em Marselha, disse ele, e correra para realizar a minha vontade. “Pode imaginar com que ardor o recebi; contei-lhe tudo de que fora testemunha, abordei com preocupação a história do diamante; contra toda minha expectativa, ela era ponto por ponto verdadeira; ainda contra minha expectativa, ele acreditou em tudo que lhe contei. Foi então que, arrebatado pela sua generosa caridade, percebendo nele um profundo conhecimento dos costumes da minha terra, pensando que o perdão para o único crime que cometi na vida talvez pudesse brotar de seus lábios tão benevolentes, contei-lhe, sob o sigilo da confissão, a aventura de Auteuil em todos os seus detalhes. O que fiz estouvadamente obteve o mesmo resultado que se o tivesse feito por cálculo; a confissão desse primeiro assassinato, que nada me obrigava a revelar, provou-lhe que eu não cometera o segundo, e ele se despediu ordenando-me que esperasse e prometendo fazer tudo ao seu alcance para convencer os juízes da minha inocência.

“Tive a prova de que ele efetivamente tentava me ajudar quando vi minha prisão abrandar-se gradualmente e soube que iria ser julgado após a sessão em curso.

“Nesse intervalo, a Providência permitiu que Caderousse fosse capturado no estrangeiro e trazido para a França. Confessou tudo, negando a premeditação e sobretudo que houvesse instigado a mulher. Foi condenado, até à morte, às galés e eu fui posto em liberdade.”

— E então — disse Monte Cristo — o senhor se apresentou a mim, portador de uma carta do abade Busoni?

— Sim, Excelência, ele realmente demonstrou interesse por mim.

“— Seu ofício de contrabandista vai levá-lo à perdição — o abade me disse. — Se sair daqui, abandone-o.

“— Mas, padre — perguntei-lhe —, como quer que eu viva e faça minha pobre cunhada viver?

“— Um dos meus penitentes — ele me respondeu — tem grande estima por mim e encarregou-me de lhe arranjar um homem de confiança. Quer ser esse homem? Posso recomendá-lo.

“— Oh, padre! — exclamei. — Quanta bondade! “— Mas jura que não vou me arrepender por isso? “Estendi a mão para jurar.

“— Não é necessário — disse ele —, conheço e aprecio os corsos, eis a minha recomendação.

“E escreveu as poucas linhas que lhe entreguei e que fizeram Vossa Excelência ter a bondade de me aceitar em seu serviço. Agora, pergunto com orgulho à Vossa Excelência: já teve do que se queixar de mim?

— Não — respondeu o conde. — E, reconheço com satisfação, o senhor é um bom servidor, Bertuccio, embora lhe falte confiança.

— A mim, sr. conde!?

— Sim, ao sr. Como pode ter uma cunhada e um filho adotivo e nunca ter me falado deles antes?

— Ai de mim, Excelência, é que ainda falta lhe contar a parte mais triste da minha vida. Fui para a Córsega. Tinha pressa, o senhor compreende, de rever e consolar minha pobre cunhada; porém, ao chegar a Rogliano, encontrei a casa de luto; acontecera uma cena horrível, da qual os vizinhos ainda guardam lembrança! Minha pobre cunhada, seguindo meus conselhos, resistia às exigências de Benedetto, que, insistentemente, queria apoderar-se de todo o dinheiro existente na casa. Certa manhã, ameaçou-a e sumiu pelo resto do dia. Ela chorou, pois a querida Assunta era uma mãe para o miserável. Veio a noite, ela o esperou acordada.

Quando, às onze horas, ele voltou com dois amigos, companheiros habituais de todas as suas loucuras, ela lhe estendeu os braços; mas eles a dominaram e um dos três, receio deveras que tenha sido esse garoto infernal, um dos três bradou:

“— Vamos direto à questão, e é bom que ela confesse logo onde está o dinheiro.

“Coincidentemente, o vizinho Wasilio estava em Bastia; apenas sua mulher ficara na casa. Ninguém, exceto ela, podia ver ou escutar o que acontecia na casa de minha cunhada. Dois deles agarraram a pobre Assunta que, sem acreditar na possibilidade daquele crime, sorria para os que viriam a ser seus carrascos; o terceiro foi armar barricadas nas portas e janelas; quando voltou, os três juntos, abafando os gritos de terror que ela dava diante daqueles preparativos mais sérios, aproximaram os pés de Assunta do braseiro, com o que esperavam fazê-la confessar onde estava escondido nosso pequeno tesouro; porém, durante a luta, o fogo alastrou-se para a roupa dela; eles então largaram a vítima, para não se queimarem.

Toda em chamas, ela correu para a porta, mas a porta estava fechada.

“Ela se precipitou para a janela; mas a janela estava obstruída. Então a vizinha ouviu gritos hediondos: era Assunta pedindo socorro. Logo sua voz foi abafada; os gritos transformaram-se em gemidos e, no dia seguinte, após uma noite de terror e angústia, quando a mulher de Wasilio atreveu-se a sair de sua casa e conseguiu que o juiz abrisse a nossa, encontraram Assunta com metade do corpo queimado, mas ainda respirando, os armários arrombados, o dinheiro desaparecido. Quanto a Benedetto, deixara Rogliano para nunca mais voltar; depois desse dia, não foi mais visto e nunca mais ouvi sequer falar dele.

“Foi após receber essa triste notícia — continuou Bertuccio — que procurei Sua Excelência. Não tinha o que lhe dizer sobre Benedetto, pois ele desaparecera, e nem de minha cunhada, pois ela estava morta.”

— E o que pensou acerca desse episódio? — perguntou Monte Cristo.

— Que era o castigo pelo crime que eu tinha cometido — respondeu Bertuccio. — Ah, esses Villefort são uma raça maldita!

— Concordo — murmurou o conde num tom lúgubre.

— E agora — prosseguiu Bertuccio —, Vossa Excelência compreende, não é mesmo?, por que esta casa, em que não ponho os pés desde essa época, por que este jardim, onde subitamente me vi, por que este lugar, onde matei um homem, causaram-me essas sombrias emoções cuja fonte Vossa Excelência quis conhecer; afinal de contas é muito possível que aqui, aos meus pés, o sr. de Villefort esteja deitado na cova que abrira para o seu filho.

— Com efeito, tudo é possível — disse Monte Cristo, levantando-se do banco em que estava sentado. — Inclusive — acrescentou baixinho —, que o procurador do rei não esteja morto. O abade Busoni agiu bem ao

encaminhá-lo a mim. O senhor também agiu bem ao me contar sua história, pois não pensarei errado a seu respeito. Quanto a esse

Benedetto, tão mal batizado1, nunca tentou descobrir seu rastro? Nunca procurou saber seu paradeiro?

— Nunca, se soubesse onde estava, em vez de ir ao seu encontro, teria fugido como de um monstro. Não, felizmente, nunca mais ouvi falar dele pela boca de ninguém neste mundo; espero que tenha morrido.

— Não espere isso, Bertuccio — disse o conde. — Os maus não morrem assim, pois Deus parece tomá-los sob sua proteção para usá-los como instrumento de suas vinganças.

— Que seja — disse Bertuccio. — Só peço aos céus é para nunca mais vê-lo de novo. Agora — continuou o intendente, abaixando a cabeça —, o sr. conde sabe tudo; o senhor é meu juiz aqui na Terra como Deus o será nas alturas; não me dirá algumas palavras de consolo?

— Tem razão, com efeito, e posso lhe dizer o que lhe diria o abade Busoni: aquele que o senhor golpeou, o tal Villefort, merecia um castigo pelo que fizera com o senhor e talvez por outra coisa ainda. Benedetto, se estiver vivo, será instrumento, como lhe disse, de alguma vingança divina, depois receberá a sua punição. Quanto ao senhor, tem na realidade apenas uma censura a se fazer: pergunte-se por que, depois de arrancar essa criança da morte, não a entregou à mãe: eis o crime, Bertuccio.

— Sim, senhor, eis o crime e o verdadeiro crime, pois nesse ponto fui um covarde; eu restituíra a vida à criança, só tinha uma coisa a fazer, como o senhor disse: devolver a criança à mãe. Mas, para isso, precisava fazer buscas, chamar a atenção, talvez me entregar; não quis morrer, agarrava-me à vida em nome da minha cunhada, do amor-próprio inato que nos impele a permanecer inteiros e vitoriosos em nossa vingança; e talvez, quem sabe, eu me agarrasse à vida simplesmente pelo amor à vida.

Oh, não sou um bravo como o meu desafortunado irmão!

Bertuccio escondeu o rosto entre as mãos, enquanto Monte Cristo dirigiu-lhe um longo e indefinível olhar.

Em seguida, após um instante de silêncio, tornado mais solene ainda pela hora e pelo lugar:

— Para terminar dignamente essa conversa, que será a última sobre essas aventuras, sr. Bertuccio — disse o conde, num tom melancólico que não lhe era habitual —, guarde bem minhas palavras, que ouvi muitas vezes o próprio abade Busoni pronunciar: “Para todos os males, há dois

remédios: o tempo e o silêncio.” Agora, sr. Bertuccio, permita-me passear um pouco por esse jardim. O que é uma emoção violenta para o senhor, ator neste palco, será para mim uma sensação quase delicada e que dobrará o valor dessa propriedade. As árvores, veja, sr. Bertuccio, só dão prazer porque dão sombra, e mesmo a sombra só dá prazer porque traz devaneios e visões. Eis que comprei um jardim julgando comprar um simples terreno cercado de muros e, ao contrário, de repente esse terreno verifica-se um jardim povoado por fantasmas, os quais não estavam mencionados no contrato. Ora, amo os fantasmas; nunca ouvi dizer que os mortos tivessem feito em seis mil anos o mal que os vivos fazem em um dia. Entre então, sr. Bertuccio, e durma em paz. Se o seu confessor, no momento supremo, for menos indulgente que o abade Busoni, mande me chamar; se eu ainda estiver neste mundo, encontrarei palavras que embalarão suavemente sua alma no momento em que ela estiver preparada para fazer essa rude viagem que chamamos de eternidade.

Bertuccio inclinou-se respeitosamente e se afastou dando um suspiro.

Monte Cristo ficou só, e deu quatro passos à frente:

— Aqui, perto desse plátano — murmurou —, a cova em que a criança foi depositada; ali, o portão pelo qual se entra no jardim; nesse canto, a escada dissimulada que leva ao quarto de dormir. Não vejo necessidade de anotar tudo isso na minha caderneta, pois eis diante dos meus olhos, à minha volta, sob os meus pés, o mapa em relevo, o mapa vivo.

E o conde, após uma última volta naquele jardim, foi reencontrar o seu coche. Bertuccio, que o vira pensativo, subiu no assento ao lado do cocheiro, sem nada dizer.

Tomaram o caminho de volta a Paris.

Naquela mesma noite, ao chegar à casa dos Champs-Élysées, o conde de Monte Cristo visitou toda a residência como o teria feito um homem familiarizado com ela há longos anos; embora caminhasse na frente, não abriu uma única vez uma porta em lugar de outra, e tampouco percorreu escada ou corredor que não o conduzisse diretamente aonde pretendia ir.

Ali acompanhava-o nessa vistoria noturna. O conde deu diversas ordens a Bertuccio, relativas à decoração ou à nova distribuição dos aposentos, e, tirando o relógio do bolso, disse ao prestativo núbio:

— São onze e meia, Haydée não deve demorar. As mulheres francesas foram avisadas?

Ali apontou para o apartamento destinado à bela grega, tão isolado que, com a porta dissimulada por um reposteiro, podia-se visitar a casa inteira sem desconfiar que ali houvesse um salão e dois quartos habitados; Ali, íamos dizendo, estendeu a mão na direção do apartamento, fez o número três com sua mão esquerda e, sobre essa mesma mão, espalmada na horizontal, apoiando a cabeça, fechou os olhos e fingiu estar dormindo.

— Ah! — disse Monte Cristo, habituado àquela linguagem. — Há três esperando no quarto, não é?

— Sim — fez Ali, sacudindo a cabeça de cima para baixo.

— A senhora estará cansada hoje à noite — continuou Monte Cristo — e provavelmente vai querer dormir. Que não a façam falar: as damas de companhia francesas devem apenas saudar sua nova senhora e se retirar; cuide para que a aia grega não se comunique com as francesas.

Ali inclinou-se.

Logo se ouviu o brado do porteiro; o portão gradeado se abriu, um coche deslizou pela aléia e parou em frente à escada. O conde desceu para recebê-la; a portinhola já estava aberta; ele estendeu a mão a uma jovem mulher, envolvida numa manta de seda verde, toda bordada em fios de ouro, que lhe cobria a cabeça.

A moça tomou a mão que lhe era estendida, beijou-a com um misto de amor e respeito, e algumas palavras foram trocadas, carinhosas da parte da mulher e com uma suave gravidade da parte do conde, nessa língua sonora que o velho Homero pôs na boca de seus deuses.

Então, precedida por Ali, que carregava uma grande vela de cera cor-derosa, a moça, que não era outra senão a bela grega companheira assídua de Monte Cristo na Itália, foi levada até seu apartamento, e o conde recolheu-se ao pavilhão que reservara para seu próprio uso.

À meia-noite e meia todas as luzes estavam apagadas na casa, levando a crer que todos dormiam.