O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 83 de 119

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O Conde de Monte Cristo

4. O quarto do padeiro aposentado

1 Locusta e Agripina: Locusta era uma envenenadora profissional em Roma, que viveu durante o séc.I d.C. e era conhecida por beber um pouco de veneno todos os dias, assim tornando-se imune a todos os venenos do mundo; Agripina Maior (14 d.C.-33 d.C.) era uma das matronas mais populares do início do império romano, conhecida pela sua virtude e respeito às tradições. Caída em desgraça por conspirar contra o império, teve o dia do seu aniversário oficialmente considerado nefasto.

2 Brunhilda e Fredegunda: Brunhilda (c.543-613), rainha dos francos, que reinou na Europa Central e que, embora inicialmente tida como liberal, logo tornou-se famosa por sua avareza e crueldade; Fredegunda (?-597), originalmente serva e, após o assassinato da irmã de Brunhilda, esposa do rei franco Chilpérico I (539-584), tendo sido ela própria responsável pelo assassinato de Sigisberto I (535-575) e de ter atentado contra a vida de, entre outros, Brunhilda.

3 Polônio: personagem do Hamlet, de Shakespeare, em que desempenha o papel do principal conselheiro do rei Cláudio. Através de uma cortina, Polônio é esfaqueado e morto por Hamlet, que, sem ver o rosto de sua vítima, julga estar assassinando o tio, ato III, cena 4.

4. O quarto do padeiro aposentado

Na mesma noite do dia em que o conde de Morcerf saíra da casa de Danglars com uma vergonha e uma raiva que a frieza do banqueiro torna concebíveis, o sr. Andrea Cavalcanti, com cabelos frisados e brilhantes, bigodes aparados e luvas brancas desenhando as unhas, entrara, quase de pé em seu faeton, no pátio do banqueiro da Chaussée d’Antin.

Ao fim de dez minutos de conversa no salão, dera um jeito de levar Danglars até uma janela, e ali, após um hábil preâmbulo, expusera os tormentos de sua vida desde a partida de seu nobre pai. Após essa partida, dizia ele, encontrara, na família do banqueiro, onde foi recebido como um filho, todas as garantias de felicidade que um homem sempre deve buscar antes dos caprichos da paixão, e, quanto à paixão em si, tivera a felicidade de encontrá-la nos belos olhos da srta. Danglars.

Danglars escutava com a atenção mais profunda, já havia dois ou três dias que esperava essa declaração e, quando ela finalmente chegou, seu olho se dilatou tanto quanto se velara e escurecera ao escutar Morcerf.

Entretanto, não quis acolher assim a proposta de um rapaz sem lhe fazer algumas conscienciosas observações.

— Sr. Andrea — disse-lhe —, não é demasiado jovem para pensar em casamento?

— De forma alguma, senhor — respondeu Cavalcanti —, pelo menos assim não me julgo: na Itália, os fidalgos em geral casam-se cedo; é um costume lógico. A vida é tão imprevisível que, quando a felicidade bate à nossa porta, temos de agarrá-la.

— Agora, senhor — disse Danglars —, admitindo que suas propostas, para mim muito honrosas, sejam acolhidas por minha mulher e minha filha, com quem debateríamos o aspecto financeiro? Esta é, me parece, uma negociação importante, que apenas os pais sabem tratar convenientemente, tendo em vista a felicidade de seus filhos.

— Cavalheiro, meu pai é um homem sábio, precavido e sensato. Ele previu a circunstância provável que faria eu desejar estabelecer-me na França. Assim, deixou comigo, ao partir, junto com todos os documentos que atestam minha identidade, uma carta na qual me concede, no caso de eu fazer uma escolha que lhe agrade, cento e cinqüenta mil libras de renda a partir do dia do meu casamento. É, na medida em que posso julgar, um quarto das rendas do meu pai.

— Da minha parte — disse Danglars —, tenho a firme intenção de dar à minha filha quinhentos mil francos ao casá-la. A propósito, ela é a minha única herdeira.

— Ótimo! — exclamou Andrea. — Como vê, a coisa tem tudo para dar certo, supondo que meu pedido não seja rechaçado pela sra. baronesa Danglars e pela srta. Eugénie. Estamos à frente de cento e setenta e cinco mil libras de renda. Vamos supor uma coisa: eu obtendo junto ao marquês que, em vez de me pagar a renda, ele me dê o capital; isso não seria fácil, sei muito bem, mas, enfim, não deixa de ser possível; o senhor valorizaria esses dois ou três milhões, e esses dois ou três milhões, em mãos hábeis, podem sempre render dez por cento.

— Não consigo nunca mais de quatro — disse o banqueiro —, às vezes até três e meio. Mas, para o meu genro, vou conseguir cinco, e dividiremos o lucro.

— Perfeito! Magnífico, sogro! — comemorou Cavalcanti, deixando-se levar pela natureza um tanto vulgar que, de tempos em tempos, apesar de seus esforços, rachava o verniz de aristocracia com que tentava encobri-la.

Porém, recobrando-se prontamente, disse:

— Oh, perdão, senhor, como vê, se a mera esperança quase me enlouquece. Que será de mim quando ela se tornar realidade?

— Por outro lado — disse Danglars, que, por sua vez, não percebia como esta conversa, a princípio desinteressada, acabava no balcão de negócios —, decerto há uma parte de sua fortuna que seu pai não lhe poderá recusar...

— Qual? — perguntou o rapaz.

— A que vem de sua mãe.

— Ora, mas claro, a que vem da minha mãe, Oliva Corsinari.

— E a quanto pode montar essa fortuna?

— Puxa — disse Andrea —, juro, senhor, que nunca me detive nesse aspecto da questão, mas estimo que no mínimo a dois milhões.

Danglars foi tomado por aquela espécie de asfixia alegre que sentem ou o avaro que descobre um tesouro perdido, ou um homem prestes a se afogar que toca seus pés na terra firme em vez de no vazio que iria engoli-lo.

— E então, senhor — disse Andrea, saudando o banqueiro com uma mesura afável —, posso ter esperanças...

— Sr. Andrea — disse Danglars —, tenha paciência, não arrefeça, e creia que, se nenhum obstáculo de sua parte interromper a marcha desse negócio, ele está fechado. Mas — estranhou Danglars, refletindo —, como é possível que o sr. de Monte Cristo, seu patrono neste mundo parisiense, não tenha vindo com o senhor nos fazer esse pedido?

Andrea corou imperceptivelmente.

— Estou vindo da casa do conde, senhor — ele disse. — É

incontestavelmente um homem encantador, mas de uma originalidade inconcebível. Aprovou meus planos com entusiasmo, afirmou inclusive não acreditar que meu pai hesite um instante em me dar o capital em vez da renda e prometeume sua influência para me ajudar a obter isso dele; em contrapartida, declarou que, pessoalmente, nunca assumira e nunca assumiria a responsabilidade de fazer um pedido de casamento. Porém, devo fazer-lhe justiça, dignou-se a acrescentar que, se um dia vencesse essa repugnância, seria comigo, pois julgava que a união planejada seria feliz e apropriada. Em todo caso, se não quer fazer nada oficialmente, reserva-se o direito de conversar consigo, ele me disse, quando o senhor tocar no assunto.

— Ah! Muito bem.

— Agora — disse Andrea, com seu sorriso mais sedutor —, paro de falar ao sogro e me dirijo ao banqueiro.

— Então, vejamos o que deseja? — disse rindo Danglars por sua vez.

— É depois de amanhã que tenho alguma coisa como quatro mil francos a receber em seu estabelecimento. No entanto, o conde compreendeu que o mês no qual eu ia entrar talvez trouxesse despesas extras, para as quais meu pequeno salário de solteiro não bastaria, e aqui está uma promissória de vinte mil francos que ele, eu não diria me deu, mas me ofereceu. Está assinada pelo seu punho, como pode ver; isso lhe convém?

— Traga-me uma dessas de um milhão que eu pago — disse Danglars, colocando a promissória no bolso. — Diga-me qual seria uma boa hora para amanhã, e meu garoto da tesouraria passará em sua casa com um recibo de vinte e quatro mil francos.

— Às dez da manhã, por gentileza; quanto mais cedo, melhor: gostaria de passear pelo campo amanhã.

— Que seja, às dez; continua no Hotel des Princes?

— Isso mesmo.

No dia seguinte, com uma exatidão que fazia honra à pontualidade do banqueiro, os vinte e quatro mil francos estavam na casa do rapaz, que saiu efetivamente, deixando duzentos francos para Caderousse.

Essa saída tinha como objetivo principal, da parte de Andrea, evitar seu perigoso amigo; assim, voltou à noite, o mais tarde possível.

Porém, logo que pôs o pé no calçamento do pátio, encontrou à sua frente o porteiro do hotel, que o aguardava de quepe na mão.

— Senhor — ele disse —, aquele homem veio.

— Que homem? — perguntou distraidamente Andrea, como se houvesse esquecido daquele de quem, ao contrário, lembrava-se muito bem.

— Aquele a quem Vossa Excelência oferece uma pequena doação mensal.

— Ah, sim — disse Andrea —, aquele ex-criado do meu pai. Muito bem! Entregou-lhe os duzentos francos que deixei para ele?

— Sim, Excelência, precisamente.

Andrea exigia ser chamado de Excelência.

— Mas — continuou o porteiro —, ele não quis pegá-los.

Andrea empalideceu; entretanto, como era noite, ninguém o viu empalidecer.

— Como! Não quis pegá-los? — indagou ele, com uma voz ligeiramente perturbada.

— Não! Queria falar com Vossa Excelência. Respondi que o senhor havia saído, ele insistiu. Mas afinal pareceu se convencer, e entregou-me esta carta, que trouxera toda lacrada.

— Vejamos — disse Andrea.

Leu, à luz do farol do seu faeton: “Você sabe onde moro; espero-o amanhã às nove da manhã.”

Andrea interrogou o lacre para ver se tinha sido violado e se olhares indiscretos teriam podido bisbilhotar o teor da carta; mas ela estava dobrada de tal maneira, com tal profusão de losangos e ângulos, que para lê-la teria sido preciso romper o lacre; ora, o lacre estava absolutamente intacto.

— Muito bem — disse ele. — Pobre-diabo! É uma excelente criatura.

E deixou o porteiro edificado com essas palavras e não sabendo qual dos dois devia admirar mais, se o jovem senhor ou o velho criado.

— Desatrele rápido, e venha aos meus aposentos — disse Andrea ao seu groom.

Em dois pulos Cavalcanti estava no quarto, queimando a carta de Caderousse, da qual fez desaparecer até as cinzas.

Terminava esta operação quando o criado entrou.

— Você tem a minha altura, Tom — disse-lhe.

— Tenho essa honra, Excelência — respondeu o valete.

— Não recebeu uma libré nova ontem?

— Sim, senhor.

— Tenho um caso com uma empregadinha a quem não quero revelar meu título nem minha condição. Empreste-me sua libré e traga-me seus documentos a fim de que eu possa, se preciso for, dormir numa pousada.

Tom obedeceu.

Cinco minutos depois, Andrea, completamente disfarçado, saía do hotel sem ser reconhecido, pegava um cabriolé e se fazia conduzir à Estalagem do Cavalo Vermelho, em Picpus.

No dia seguinte, saiu da Estalagem do Cavalo Vermelho como saíra do Hotel des Princes, isto é, sem ser notado, desceu o faubourg Saint-Antoine, enveredou pelo bulevar até a rua Ménilmontant e, parando à porta da terceira casa à esquerda, procurou, na ausência do porteiro, a quem poderia pedir informações.

— O que procura, belo rapaz? — perguntou a fruteira que ficava logo em frente.

— O sr. Pailletin, por favor, gorda mamãe... — respondeu Andrea.

— O padeiro aposentado? — perguntou novamente a fruteira.

— Ele mesmo.

— No fim do pátio à esquerda, no terceiro andar.

Andrea seguiu o caminho indicado e, no terceiro andar, encontrou uma pata de coelho que agitou mal-humorado, o que se fez perceber pelo movimento precipitado da campainha.

Um segundo depois, o rosto de Caderousse apareceu na gradinha da porta.

— Ah! Chegou na hora! — ele disse. E puxou o ferrolho.

— Com os demônios! — praguejou Andrea, entrando.

E atirou à sua frente o quepe da libré, que, errando a cadeira, foi cair no chão, dando a volta no quarto e girando sobre sua circunferência.

— Vamos, vamos — disse Caderousse —, não se zangue, mocinho. Ora, veja, pensei em você, dê uma olhadinha no belo almoço que teremos!

Nada como as coisas que a gente gosta, com mil raios!

Andrea de fato sentiu, ao respirar, um cheiro de cozinha a cujos aromas grosseiros não faltava certo encanto para um estômago faminto. Era aquela mistura de banha fresca e alho que marca a cozinha provençal de ordem inferior; era, além disso, o gosto de peixe gratinado, depois, por cima de tudo, o perfume ácido da noz-moscada e do cravo-da-índia. Tudo isso emanava de duas travessas cobertas, dispostas sobre dois fornos de lenha, e de uma panela que murmurejava na labareda de um fogão de ferro.

No quarto ao lado, Andrea avistou ainda uma mesa bem limpa, com dois couverts já servidos, duas garrafas de vinho lacradas, uma verde, outra amarela, uma boa parcela de aguardente num garrafão, e uma macedônia de frutas numa ampla folha de couve, disposta com arte sobre uma bandeja de porcelana.

— Que lhe parece, mocinho? — disse Caderousse. — Hein? Que fragrância! Puxa vida, sabe, eu era bom cozinheiro lá: lembra como todos lambiam os dedos com meus pratos? E você era o primeiro; você provou todos os meus molhos, e não os desprezava, ao que me lembre.

E Caderousse começou a descascar um suplemento de cebolas.

— Muito bonito! Muito bonito! — ironizou Andrea. — Isso é coisa que se faça? Se foi para almoçar comigo que me importunou, o diabo que o carregue!

— Meu filho — respondeu sentenciosamente Caderousse —, enquanto comemos, falamos. Ingrato como é, não está contente de ver um pouco seu amigo? Quanto a mim, choro de alegria.

Caderousse, com efeito, chorava. Entretanto, teria sido difícil dizer se era a alegria ou as cebolas que atuavam sobre a glândula lacrimal do ex-estalajadeiro da Ponte do Gard.

— Cale-se, hipócrita — ordenou Andrea —, quer dizer que me ama?

— Sim, amo-o, que o diabo realmente me carregue se estiver mentindo.

É uma fraqueza — disse Caderousse —, sei muito bem disso, mas é mais forte que eu.

— O que não impede de me haver feito vir aqui por alguma perfídia.

— Imagine! — disse Caderousse, limpando o facão em seu avental. —

Se eu não o amasse, será que eu suportaria a vida miserável que você me proporciona? Preste atenção, você tem no lombo a roupa do seu criado.

Logo, você tem um criado. Quanto a mim, como não tenho um, sou obrigado a descascar eu mesmo os legumes. Você menospreza minha

culinária porque janta no restaurante do Hotel des Princes ou no Café de Paris. Olhe só para mim! Eu também poderia ter um criado, eu também poderia ter um tílburi, eu também poderia jantar onde quisesse. Pois bem!

Por que me privo disso? Para não arrumar confusão para o meu queridinho Benedetto. Vamos, pelo menos admita que eu poderia, hein?

E um olhar perfeitamente claro de Caderousse terminou o sentido da frase.

— Bom — disse Andrea —, vamos admitir que gosta de mim: então por que exige que eu venha almoçar com você?

— Ora, para vê-lo, mocinho.

— Me ver para quê, uma vez que estabelecemos previamente todas as nossas condições?

— Meu, caro amigo — disse Caderousse —, existem testamentos sem codicilos? Mas você veio para almoçar primeiro, não é? Ótimo! Vamos, sentese e comecemos por essas sardinhas e essa manteiga fresca, que coloquei sobre folhas de parreira pensando em você, malvado. Ah, sim, está olhando o meu quarto, minhas quatro cadeiras de palha, minhas imagens de três francos a moldura. Ora! O que posso fazer? Isso aqui não é o Hotel des Princes.

— Quer dizer que agora está magoado? Não está mais feliz, você, cujo único pedido era viver como um padeiro aposentado.

Caderousse soltou um suspiro.

— Muito bem, o que tem a dizer? Você viu este sonho se realizar.

— Tenho a dizer que é um sonho. Um padeiro aposentado, meu querido Benedetto, é rico, tem rendas.

— Ora bolas, você tem rendas.

— Eu?

— Sim, uma vez que lhe trago seus duzentos francos. Caderousse balançou os ombros.

— É humilhante — disse ele — receber assim dinheiro dado a contragosto, dinheiro efêmero, que pode me faltar de hoje para amanhã.

Pode ver claramente que sou obrigado a fazer economias para o caso de a sua prosperidade não durar muito. Ora, meu amigo! A

fortuna é inconstante, como dizia o esmoler... do regimento1. Sei muito bem que sua prosperidade é imensa, celerado. Você vai casar com a filha de Danglars.

— Como assim! De Danglars?

— Isso mesmo, de Danglars! Ou preciso dizer barão Danglars? É como se eu dissesse conde Benedetto. Danglars era um amigo e, se não tivesse a memória tão fraca, deveria me convidar para esse casamento...

considerando que ele foi ao meu... sim, sim, sim, ao meu! Caramba! Ele não era tão orgulhoso naquela época. Era um contadorzinho na firma do bondoso sr. Morrel. Jantei mais de uma vez com ele e o conde de Morcerf... Como vê, tenho belas relações e, se eu me dispusesse a cultivá-las um pouco, freqüentaríamos os mesmos salões.

— Vá com calma, sua inveja está lhe dando alucinações, Caderousse.

— Você que pensa, Benedetto mio, sei o que digo. Quem sabe um dia também venhamos a vestir sua roupa de domingo para, antes de entrarmos com nosso coche em uma garagem, comandarmos: “A campainha, por favor!” Enquanto isso, sente-se e vamos comer.

Caderousse deu o exemplo e começou a almoçar com apetite, elogiando todos os pratos que servia a seu convidado.

Este pareceu seguir seu conselho, abriu com valentia as garrafas e atacou a bouillabaisse e o bacalhau gratinado no alho e no azeite.

— Ah — disse Caderousse —, o compadre então está voltando às boas com seu antigo profissional de hotelaria?

— Ora, mas claro — respondeu Andrea. Na casa de qualquer um, jovem e forte como ele era, seu apetite prevalecia temporariamente sobre qualquer outra coisa.

— E está gostando da comida, malandro?

— Tanto que não entendo como um homem que cozinha e come coisas tão boas pode achar a vida ruim.

— Para você ver... — disse Caderousse. — É que toda a minha felicidade é estragada por um único pensamento.

— Qual?

— É que vivo às custas de um amigo; eu, que sempre ganhei a vida honestamente.

— Oh, não seja por isso — disse Andrea —, tenho o suficiente para dois, não se preocupe.

— Não, é sério. Acredite se quiser, mas todo fim de mês sinto remorsos.

— Bom Caderousse!

— A ponto de ontem ter me negado a pegar os duzentos francos.

— Sei, você queria falar comigo. Mas será mesmo remorso? Vejamos...

— O autêntico remorso; e depois tive uma idéia.

Andrea estremeceu. Estremecia sempre diante das idéias de Caderousse, que continuou.

— É uma miséria, veja bem, ficar sempre à espera do fim do mês.

— É verdade! — concordou Andrea, filosoficamente, decidido a obrigar seu companheiro a agir. — A vida não é uma eterna espera? Eu, por exemplo, será que faço outra coisa? E, no entanto, tenho paciência, concorda?

— Sim, porque, em vez de esperar duzentos miseráveis francos, você espera cinco ou seis mil, talvez dez, quem sabe doze mesmo. Você é um fingido: lá em casa você tinha sempre uns cofrinhos, uma poupança que tentava esconder desse pobre amigo Caderousse. Felizmente ele tinha o faro apurado, o amigo Caderousse em questão.

— Pronto, agora você começa a divagar — disse Andrea —, a falar e falar do passado! Mas para que remoer desse jeito, eu lhe pergunto?

— Ah! Você tem vinte e um anos e pode esquecer o passado. Eu tenho cinqüenta, sou obrigado a me lembrar. Mas isso não interessa, voltemos aos negócios.

— Sim.

— Eu queria dizer que, se estivesse no seu lugar...

— Você...?

— Eu pegaria...

— Como assim! Você pegaria...

— Sim, eu pediria um semestre adiantado, invocando meu desejo de me tornar elegível e, para tanto, de arrendar uma fazenda. Depois, com meu semestre no bolso, eu sumiria do mapa.

— Ora, ora, ora — ponderou Andrea —, talvez isso não seja má idéia.

— Querido amigo — disse Caderousse —, coma da minha comida e siga meus conselhos; você não vai se sentir mal, nem física nem moralmente.

— Muito bem! — disse Andrea. — Mas por que você mesmo não segue o conselho que me dá? Por que não pega um semestre, quem sabe um ano, e não vai para a Bruxelas? Em vez de parecer um padeiro aposentado, você pareceria um falido no exercício de suas funções: vai pegar bem.

— Mas como, diabos, quer que eu me aposente com duzentos francos?

— Quantas exigências, Caderousse! — disse Andrea. — Há dois meses você morria de fome.

— É a comida que abre o apetite — disse Caderousse, mostrando os dentes como um macaco que ri ou um tigre que ruge. — Além disso —,

acrescentou, cortando com esses mesmos dentes, tão brancos e pontiagudos a despeito da idade, uma enorme côdea de pão —, tenho um plano.

Os planos de Caderousse apavoravam Andrea ainda mais que suas idéias; as idéias eram apenas o germe, o plano era a realização.

— Vejamos esse plano — disse o jovem —, deve ser um espetáculo!

— Por que não? De quem foi o plano graças ao qual deixamos o estabelecimento do sr. Chose, hein? Meu, suponho; e não era de todo ruim, me parece, uma vez que estamos aqui!

— Não estou dizendo isso — respondeu Andrea —, às vezes você acerta. Mas, enfim, examinemos seu plano.

— Vejamos — continuou Caderousse —, será que consegue, você, sem desembolsar um tostão, me arranjar quinze mil francos? Não, quinze mil francos não é o bastante, não quero ser homem honesto por menos de trinta mil francos...

— Não — respondeu Andrea secamente —, não, não consigo.

— Você não compreendeu, ao que parece — respondeu friamente Caderousse, com a fisionomia calma. — Eu disse sem desembolsar um tostão.

— Quer que eu roube para estragar todo o meu negócio, e o seu junto com o meu, e que nos peguem de novo?

— Oh, da minha parte... — disse Caderousse. — Para mim tanto faz que me peguem outra vez; sou um cara esquisito, sabe? Às vezes entedio-me com meus amigos. Não sou como você, sem coração, que gostaria de nunca mais revê-los.

Andrea fez mais que estremecer dessa vez, empalideceu.

— Calma, Caderousse, nada de tolices — recomendou ele.

— Claro que não, fique tranqüilo, meu querido Benedetto. Mas aponteme então um jeitinho de ganhar esses trinta mil francos sem ser obrigado a me intrometer na sua vida. É só deixar eu fazer, só isso!

— Muito bem! Verei, tentarei — disse Andrea.

— Mas, nesse meio-tempo você aumentará minha mensalidade para quinhentos francos. Tenho um capricho: queria uma empregada!

— Pois bem! Terá seus quinhentos francos — aceitou Andrea. — Mas isso é pesado para mim, querido Caderousse... você está abusando...

— Ora, ora — disse Caderousse —, considerando que você bebe em cofres sem fundo.

Andrea parecia esperar que seu companheiro dissesse isto, pois seu olho disparou uma centelha, a qual, é verdade, logo se apagou.

— Isso é um fato — respondeu Andrea —, e meu protetor é generosíssimo comigo.

— Adorado protetor! — brincou Caderousse. — Então ele lhe dá por mês...?

— Cinco mil francos — disse Andrea.

— Os mesmos milhares de que você me dá centenas — emendou Caderousse. — Na verdade, só os bastardos para serem felizes... Cinco mil francos por mês... Que diabos é possível fazer com tudo isso?

— Ih, meu Deus, gastar é fácil; eu também queria, como você, ter um capital.

— Um capital... sim... compreendo... todo mundo quer ter um capital.

— Pois bem, terei um de fato.

— E quem vai lhe dar? O seu príncipe?

— Sim, o meu príncipe. Infelizmente, preciso esperar.

— Esperar o quê? — perguntou Caderousse.

— Sua morte.

— A morte do seu príncipe?

— É.

— Por quê?

— Porque ele me incluiu em seu testamento.

— Sério?

— Palavra de honra!

— Qual é o montante?

— Quinhentos mil.

— Nada menos que isso? Até parece.

— É como lhe digo.

— Vamos, não é possível!

— Caderousse, você é meu amigo?

— Ora essa! Na vida e na morte.

— Muito bem, vou lhe contar um segredo.

— Conte.

— Escute.

— E como! Estou mudo feito uma carpa.

— Muito bem! Acho...

Andrea parou, olhando à sua volta.

— Você acha...? Não tenha medo, caramba, estamos a sós.

— Acho que encontrei o meu pai.

— Seu pai verdadeiro?

— Sim...

— Sem ser o pai Cavalcanti.

— É, uma vez que este foi embora. O verdadeiro, como você diz.

— E esse pai é...

— Muito bem, Caderousse, é o conde de Monte Cristo.

— Bah!

— Acredite, é assim que tudo se explica. Ele não pode me confessar em voz alta, ao que parece, mas fez com que o sr. Cavalcanti me reconhecesse, dando-lhe cinqüenta mil francos por isso.

— Cinqüenta mil francos para ser seu pai! Eu teria aceito pela metade do preço, por vinte mil, quinze mil... Como não pensou em mim, ingrato?

— E eu lá sabia disso? Afinal, tudo não foi providenciado enquanto estávamos presos?

— Ah, é verdade. E você diz que, por testamento ...?

— Ele me deixa quinhentas mil libras.

— Tem certeza disso?

— Ele me mostrou; mas isso não é tudo.

— Há um codicilo, como eu lhe dizia há pouco?

— Provavelmente.

— E nesse codicilo...?

— Ele me reconhece.

— Oh, o bondoso pai, o corajoso pai, o honestíssimo pai! — disse Caderousse, fazendo rodopiar no ar um prato que amparou com ambas as mãos.

— Pronto! Diga de novo que tenho segredos para você!

— Não, e sua confiança o enobrece aos meus olhos. Quer dizer que seu pai príncipe é rico, riquíssimo?

— Acredito piamente. Ele não conhece a fortuna que tem.

— Será possível?

— E como não! Eu sei do que estou falando, eu, que sou recebido a qualquer hora em sua casa! Outro dia, era um contínuo de banco levando-lhe cinqüenta mil francos numa carteira grossa como o seu guardanapo.

Ontem, era um banqueiro levando cem mil francos em ouro.

Caderousse estava perplexo; parecia-lhe que as palavras do rapaz tinham o som do metal e que ele ouvia rolarem cascatas de luíses.

— E você freqüenta essa casa? — exclamou com ingenuidade.

— Quando me apraz.

Caderousse permaneceu pensativo por um instante. Era fácil ver que revolvia em seu espírito algum pensamento profundo.

Depois, de repente:

— Como eu gostaria de ver tudo isso! — exclamou. — E como tudo isso deve ser belo!

— Realmente — disse Andrea — é magnífico!

— Ele mora na avenida dos Champs-Élysées, não é?

— Número 30.

— Ah! — disse Caderousse. — No 30?

— Sim, uma bela casa isolada, entre o pátio e o jardim, como manda o figurino.

— Pode ser; mas não é com o exterior que me preocupo, é com o interior: a esplendorosa mobília! Hein, o que ele tem lá dentro?

— Você já viu alguma vez as Tulherias?

— Não.

— Pois bem! É mais bonito.

— Cá entre nós, Andrea, não é bom se abaixar quando esse bondoso Monte Cristo deixa a bolsa cair?

— Oh, meu Deus! Não vale a pena esperar por esse momento — disse Andrea —, o dinheiro se espalha por aquela casa como frutas num pomar.

— Puxa vida, você podia me levar até lá um dia.

— Mas como?! Por que motivo?

— Tem razão; mas você me deixou com água na boca. Preciso ver isso de qualquer maneira; vou dar um jeito.

— Nada de tolices, Caderousse!

— Vou me apresentar como esfregador de chão.

— Há tapetes por toda parte.

— Ai, minha nossa! Então preciso me contentar em ver isso na imaginação.

— É o melhor que você faz, acredite-me.

— Tente pelo menos me explicar como é.

— Como posso...?

— Nada mais fácil. É grande?

— Nem muito grande nem muito pequeno.

— Mas como é distribuído?

—Puxa! Eu precisaria de tinta e papel para fazer uma planta.

— Aqui está! — disse Caderousse prontamente.

E foi pegar numa velha escrivaninha uma folha de papel branco, tinta e uma pena.

— Agora — disse Caderousse —, desenhe tudo isso no papel, meu filho.

Andrea tomou da pena com um sorriso imperceptível, e começou.

— A casa, como eu lhe disse, fica entre o pátio e o jardim. Observe, deste jeito.

E Andrea fez o contorno do jardim, do pátio e da casa.

— Os muros são altos?

— Não, dois metros e meio ou três no máximo.

— Não é prudente — disse Caderousse.

— No pátio, canteiros de laranjeiras, gramados, arbustos de flores.

— E sem armadilhas de lobos?

— Nenhuma.

— As cavalariças?

— Dos dois lados da grade, aqui, como pode ver. E Andrea continuou sua planta.

— Vejamos o térreo — disse Caderousse.

 

— Agora, desenhe tudo isso no papel, meu filho.

— No térreo, sala de jantar, dois salões, sala de bilhar, uma escada no vestíbulo e uma pequena escada reservada.

— Janelas...?

— Janelas magníficas, tão belas, tão amplas que, juro, sim, creio que um homem do seu tamanho passaria por cada um de seus vãos.

— Para que diabos precisamos de escadas quando temos janelas assim?

— Que quer?! É o luxo.

— Mas, postigos?

— Sim, postigos, que nunca são usados, contudo. Um excêntrico, esse conde de Monte Cristo, que gosta de ver o céu mesmo durante a noite!

— E os criados, onde dormem?

— Oh, têm suas dependências. Imagine um bonito galpão à direita da entrada, onde as escadas se encontram. Pois bem! Sobre esse galpão há uma série de quartos para os criados, cada um com sua respectiva campainha.

— Ah, diabos! Campainhas!

— O que disse?

— Eu? Nada. Estava pensando que campainha é uma coisa cara de instalar; e para que serve, eu lhe pergunto?

— Antigamente, havia um cão que ficava no pátio à noite, mas ele foi levado para a casa de Auteuil, sabe, aquela onde você esteve?

— Sei.

— Ainda ontem eu dizia a ele: “Isso é imprudente da sua parte, sr.

conde; pois, quando vai a Auteuil e leva seus criados, a casa fica vazia.

“— Sim, e daí? — ele perguntou.

“— E daí que um belo dia pode ser roubado.”

— E o que ele respondeu?

— O que ele respondeu?

— Sim.

— Ele respondeu: “E acha que vou me preocupar com isso?”

— Andrea, deve haver alguma escrivaninha mecânica.

— Como assim?

— É, que prende o ladrão numa gaiola e toca uma música. Disseram-me que havia uma engenhoca dessas na última exposição.

— Há simplesmente uma escrivaninha de madeira acaju, cuja chave está sempre à vista.

— E não a roubam?

— Não, todos seus serviçais lhe são fiéis.

— Deve ter coisa nessa escrivaninha, hein! Dinheiro?

— Talvez... é impossível saber o que tem.

— E onde ela fica?

— No andar de cima.

— Faça então uma planta do primeiro andar, meu filho, como você fez do térreo.

— É fácil.

E Andrea pegou novamente da pena.

— No primeiro andar, veja, tem o vestíbulo e o salão; à direita do salão, a biblioteca e o gabinete de trabalho; à esquerda do salão, um quarto e um toucador. É nesse toucador que fica a famosa escrivaninha.

— E há uma janela no toucador?

— Duas, aqui e aqui.

E Andrea desenhou duas janelas no cômodo, que, na planta, ocupava um ângulo e aparecia como um quadrado menor acrescentado ao retângulo do

quarto.

Caderousse ficou pensativo.

— E ele vai muito a Auteuil? — perguntou.

— Duas ou três vezes por semana; amanhã, por exemplo, deve ir passar o dia e a noite.

— Tem certeza disso?

— Ele me convidou para jantar lá.

— Bendito seja Deus! Isso é que é vida — disse Caderousse. — Casa na cidade, casa no campo!

— Isso é que é ser rico.

— E você irá jantar?

— Provavelmente.

— Quando você janta lá, dorme lá?

— Quando me convém. A casa do conde é como se fosse a minha casa.

Caderousse olhou para o rapaz como para arrancar a verdade do fundo do seu coração. Mas Andrea puxou um estojo de charutos do bolso, escolheu um havana, acendeu-o tranqüilamente e começou a fumá-lo sem afetação.

— Quando quer os quinhentos francos? — perguntou ele a Caderousse.

— Ora, imediatamente, se os tiver consigo. Andrea tirou vinte e cinco luíses do bolso.

— Douradinhas — disse Caderousse. — Não, obrigado!

— Quer dizer que as despreza?

— Ao contrário, gosto delas; mas não quero.

— Faça o câmbio, imbecil: o ouro vale vinte e cinco cêntimos.

— Exatamente, e depois o cambista vai seguir o amigo Caderousse, e vão prendê-lo, e ele será obrigado a dizer quais são os fazendeiros que lhe pagam seu salário em ouro. Nada de tolices, mocinho: dinheiro apenas, moedas redondas com a efígie de um monarca qualquer. Qualquer um pode ter uma moeda de cinco francos.

— Você há de compreender que não tenho quinhentos francos comigo.

Eu deveria ter contratado um despachante.

— Ora! Deixe-os na sua casa, com seu porteiro, é um homem honesto, irei pegá-los.

— Hoje?

— Não, amanhã; hoje não tenho tempo.

— Está certo! Amanhã, antes de ir para Auteuil, deixo o dinheiro lá.

— Posso contar com isso?

— Perfeitamente.

— É que não vou contratar minha empregada antecipadamente, compreende?

— Contrate. Mas depois terminou, hein? Vai parar de me atormentar?

— Para sempre.

Caderousse ficara tão taciturno que Andrea receou ser obrigado a constatar aquela mudança. Redobrou então sua alegria e sua despreocupação.

— Como está bem-disposto! — disse Caderousse. — Até parece que já recebeu a herança!

— Não, infelizmente não! Mas quando esse dia chegar...

— E aí?

— Aí lembraremos dos amigos; é o que posso dizer.

— E como você tem excelente memória!

— Que remédio... Eu achava que você queria me extorquir.

— Eu! Oh, que idéia! Ao contrário, vou lhe dar um conselho de amigo.

— Que conselho?

— Deixar aqui o diamante que você tem no dedo. Assim não é possível!

Quer que sejamos presos? É então para nos levar à perdição que comete essas tolices?

— Por que eu deixaria? — perguntou Andrea.

— Como! Você pega uma libré, se disfarça de criado e mantém no dedo um diamante de quatro a cinco mil francos!

— Caramba! Você está certo! Por que não vira policial?

— A questão é que entendo de diamantes; já tive um.

— Meus parabéns — disse Andrea, que, sem se indignar com essa nova extorsão, como temia Caderousse, entregou pacificamente o anel.

Caderousse examinou-o tão de perto que ficou claro para Andrea que ele checava se as arestas do corte estavam bem vivas.

— É um diamante falso — afirmou Caderousse.

— Ora vamos — reagiu Andrea —, você está brincando?

— Oh, não se zangue! Podemos verificar.

E Caderousse foi até a janela e fez o diamante deslizar na vidraça; ouviuse o vidro guinchar.

— Confiteor2! — disse Caderousse, enfiando o diamante em seu dedo mínimo. — Eu estava enganado; mas esses joalheiros ladrões imitam tão

bem as pedras que não nos atrevemos mais a roubar nas joalherias. É outro ramo da indústria paralisado.

 

— E agora? — disse Andrea. — Terminou? Ainda tem algo a me pedir?

Quer o meu uniforme? Quer o meu quepe? Aproveite a ocasião e não se faça de rogado.

— Não, você é um bom companheiro, no fundo. Não irei segurá-lo mais e tentarei curar minha ambição.

— Mas cuidado para, ao vender esse diamante, não lhe acontecer o que você temia que acontecesse por causa do ouro.

— Não irei vendê-lo, fique tranqüilo.

“Não, pelo menos não de hoje para amanhã” — pensou o rapaz.

— Malandro de sorte! — disse Caderousse. — Vai voltar para os seus lacaios, seus cavalos, seu coche e sua noiva.

E Caderousse foi até a janela e fez o diamante deslizar na vidraça.

— Naturalmente — disse Andrea.

— Preste atenção: espero de você um belo presente de núpcias, no dia em que se casar com a filha do meu amigo Danglars.

— Já lhe disse que isso é uma fantasia que você enfiou na cabeça.

— Quanto de dote?

— Mas estou lhe dizendo...

— Um milhão?

Andrea deu de ombros.

— Fiquemos com um milhão — especulou Caderousse. — Você nunca terá tanto quanto desejo para si.

— Obrigado — agradeceu o rapaz.

— Oh, é de coração! — acrescentou Caderousse, rindo sua risada gorda.

— Espere, vou acompanhá-lo.

— Não é preciso.

— Claro que sim.

— Por que isso?

— Oh, porque tenho um segredinho na porta. É uma medida de precaução que julguei por bem adotar: fechadura Huret e Fichet, revista e corrigida por Gaspard Caderousse. Farei uma igual para você quando se tornar um capitalista.