O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 61 de 119

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O Conde de Monte Cristo

2. O testamento

— Sim, quero um notário — exprimiu o velho, fechando os olhos com uma expressão de desafio como se dissesse: “Vamos ver se ele se atreve a me negar o que quero.”

— Teremos um notário, já que o deseja a qualquer custo; mas vou me desculpar junto a ele e o senhor mesmo se desculpará, pois a cena será mais que ridícula.

— Não interessa — disse Barrois —, vou chamá-lo assim mesmo. E o velho criado saiu, triunfante.

2. O testamento

Quando Barrois saiu, Noirtier olhou para Valentine com o interesse malicioso que tantas coisas anuncia. A moça compreendeu aquele olhar e Villefort também, pois ficou taciturno e franziu o cenho.

Tomou um assento, instalou-se no quarto do paralítico e esperou.

Noirtier fitava-o completamente indiferente; porém, com o canto do olho, ordenara a Valentine que não se preocupasse e ficasse também.

Quarenta e cinco minutos depois, o criado voltou com o notário.

— Cavalheiro — disse Villefort após os cumprimentos iniciais —, o senhor foi convocado pelo sr. Noirtier de Villefort, que aqui está. Uma paralisia geral lhe confiscou o uso dos membros e da voz, e somente nós, com grande dificuldade, conseguimos captar alguns farrapos de seus pensamentos.

Noirtier lançou um olhar de clamor para Valentine, clamor tão grave e imperativo que ela respondeu prontamente:

— Da minha parte, cavalheiro, compreendo tudo que meu avô quer dizer.

— É verdade — acrescentou Barrois —, tudo, absolutamente tudo, como eu dizia ao cavalheiro no caminho.

— Com licença, senhor, e a senhorita também — interveio o notário, dirigindo-se a Villefort e a Valentine —, este é um caso em que o funcionário público não pode proceder inconseqüentemente sem assumir uma responsabilidade temerária. O primeiro critério, para que um documento seja válido, é que o notário esteja efetivamente convencido de que interpretou fielmente a vontade daquele que a dita. Ora, não posso ter certeza da autorização ou desautorização de um cliente que não fala. Como o objeto de seus desejos e repugnâncias, considerando seu mutismo, não me pode ser provado claramente, meu Ministério é mais que inútil e seria ilegalmente exercido.

O notário deu um passo para se retirar. Um imperceptível sorriso de triunfo desenhou-se nos lábios do procurador do rei. Por sua vez, Noirtier olhou para Valentine com tamanha expressão de sofrimento que ela se interpôs no caminho do notário.

— Senhor — ela disse —, a língua que falo com o meu avô é uma língua fácil de ser aprendida; da mesma forma que o compreendo, posso em

poucos minutos fazer com que o compreenda também. Ora, meu senhor, do que mais precisa para ficar em perfeita paz com sua consciência?

— Daquilo que faz com que nossos papéis tenham validade, senhorita

— respondeu o notário —, isto é, a certeza da autorização ou desautorização. É possível fazer-se um testamento doente de corpo, mas é imperioso fazê-lo mentalmente são.

— Pois bem, cavalheiro, com dois sinais o senhor ficará persuadido de que meu avô nunca desfrutou tanto da plenitude de sua inteligência. O sr.

Noirtier, privado da voz, privado do movimento, fecha os olhos quando quer dizer sim e pisca diversas vezes quando quer dizer não. Agora o senhor sabe o suficiente para conversar com o sr. Noirtier, experimente.

O olhar que o velho dirigiu para Valentine era tão úmido de ternura e gratidão que foi compreendido pelo próprio notário.

— Ouviu e compreendeu o que sua neta disse, senhor? — perguntou o notário.

Noirtier fechou lentamente os olhos e os reabriu após um instante.

— E concorda com o que ela diz? Isto é, que os sinais indicados por ela são efetivamente aqueles com a ajuda dos quais o senhor transmite seu pensamento?

— Sim — fez novamente o velho.

— Foi o senhor que mandou me chamar?

— Sim.

— Para fazer seu testamento?

— Sim.

— E não quer que eu me retire sem ter feito esse testamento? O

paralítico piscou os olhos com vivacidade e várias vezes.

— Ótimo! Está vendo, senhor? — perguntou a moça. — Agora terá a consciência tranqüila?

Mas antes que o notário pudesse responder, Villefort puxou-o à parte.

— Cavalheiro — disse ele —, acredita que um homem consiga suportar impunemente um choque físico tão terrível quanto o que sofreu o sr.

Noirtier de Villefort sem que o próprio lado moral tenha sido gravemente atingido?

— Não é precisamente isso que me preocupa, senhor — respondeu o notário —, mas me pergunto como conseguiremos adivinhar seus pensamentos, a fim de provocar suas respostas.

— Como vê, é impossível — disse Villefort.

Valentine e o velho ouviam essa conversa. Noirtier deteve seu olhar inflexível em Valentine, olhar que evidentemente pedia uma reação.

— Não se preocupe com isso, cavalheiro — ela interveio. — Por mais difícil que seja, ou que assim lhe pareça, penetrar o pensamento do meu avô, eu o revelarei de maneira a dissipar todas as dúvidas nesse sentido. Já se vão seis anos que estou junto ao sr. Noirtier, e, ele próprio pode confirmar, nestes seis anos, que nem um único de seus desejos permaneceu sepultado em seu coração por ele não conseguir me transmitir...

— Sim — fez o velho.

— Vamos tentar, então — disse o notário. — Aceita a senhorita como sua intérprete?

O paralítico fez sinal que sim.

— Bem, vejamos, cavalheiro, que deseja de mim e que ato deseja perpetrar? Valentine enunciou todas as letras do alfabeto até a letra T.

A essa letra, o eloqüente olhar de Noirtier a deteve.

— É a letra T que o cavalheiro pede — disse o notário. — É visível.

— Espere — disse Valentine, voltando-se para o avô. — Ta... te... O

velho interrompeu-a na segunda dessas sílabas.

Então Valentine pegou o dicionário e, aos olhos do atento notário, folheou suas páginas.

— Testamento — disse seu dedo parado pelo olhar de Noirtier.

— Testamento! — exclamou o notário. — A coisa é visível, o cavalheiro quer testar.

— Sim — fez Noirtier diversas vezes.

— Isso é maravilhoso, senhor, há de convir — disse o notário a Villefort, estupefato.

— Com efeito — replicou —, e mais maravilhoso ainda seria esse testamento, pois, cá entre nós, não acredito que os artigos venham a se organizar no papel, palavra por palavra, sem a inteligente inspiração da minha filha. Ora, talvez os interesses de Valentine nesse testamento a impeçam de ser a intérprete apropriada das obscuras vontades do sr.

Noirtier de Villefort.

— Não, não! — fez o paralítico.

— Como! — espantou-se o sr. de Villefort. — Valentine não é parte interessada em seu testamento?

— Não — fez Noirtier.

— Cavalheiro — disse o notário, que, encantado com a experiência, prometia a si mesmo contar na sociedade os detalhes daquele pitoresco episódio —, nada me parece mais fácil agora que aquilo que ainda há pouco eu via como coisa impossível, e esse testamento será simplesmente um testamento místico, isto é, previsto e autorizado pela lei na condição de ser lido perante sete testemunhas, ratificado pelo testador perante elas e fechado pelo notário, sempre perante elas. No que se refere ao prazo, levará um pouco mais de tempo que um testamento comum; em primeiro lugar, há as fórmulas de praxe que são sempre as mesmas e, quanto aos detalhes, a maioria será fornecida pela própria situação dos negócios do testador e pelo senhor, que, por tê-los administrado, conhece-os. Além disso, para que esse ato seja inatacável, vamos autenticá-lo de forma cabal; um dos meus colegas ficará ao meu lado e, contrariando a tradição, assistirá ao ditado. Está satisfeito, cavalheiro? — emendou o notário, dirigindo-se ao velho.

Então Valentine pegou o dicionário...

— Sim — respondeu Noirtier, radiante por ter sido compreendido.

“O que será que ele vai fazer?”, perguntou-se Villefort, cuja posição elevada exigia certa reserva e que, para piorar, não conseguia adivinhar o objetivo do pai.

Voltou-se então para mandar trazerem o segundo notário designado pelo primeiro; mas Barrois, que ouvira tudo e adivinhara o desejo do patrão, já partira.

Em seguida o procurador do rei mandou chamar sua mulher.

Quinze minutos depois, estavam todos reunidos no quarto do paralítico, e o segundo notário chegara.

Com poucas palavras, os dois funcionários ministeriais acertaram o procedimento. Foi lida para Noirtier uma fórmula de testamento vaga, banal; então, para começar, por assim dizer, a perícia de sua sanidade, o primeiro notário, voltando-se para ele, disse:

— Uma vez que faremos o seu testamento, senhor, é em benefício de alguém.

— Sim — fez Noirtier.

— Tem alguma idéia da cifra a que monta sua fortuna?

— Sim.

— Vou pronunciar números que irão subindo sucessivamente; o senhor me interromperá quando eu tiver alcançado o que julga o seu.

— Sim.

Havia nesse interrogatório uma espécie de solenidade: aliás, talvez nunca a luta da inteligência contra a matéria tenha se mostrado tão visível; se não era sublime, como íamos dizer, era no mínimo um espetáculo curioso.

Formara-se um círculo em torno de Noirtier; o segundo notário estava sentado a uma mesa, pronto para escrever; o primeiro notário mantinha-se de pé à sua frente e o interrogava.

— Sua fortuna ultrapassa trezentos mil francos, não é mesmo? —

perguntou.

Noirtier fez sinal de que sim.

— Possui quatrocentos mil francos? — perguntou o notário. Noirter permaneceu imóvel.

— Quinhentos mil? Mesma imobilidade.

— Seiscentos mil? Setecentos mil? Oitocentos mil? Novecentos mil?

Noirtier fez sinal de que sim.

— Possui novecentos mil francos?

— Sim.

— Em imóveis? — perguntou o notário. Noirtier fez sinal de que não.

— Em títulos?

Noirtier fez sinal de que sim.

— Esses títulos estão em suas mãos?

Um relance dirigido a Barrois fez com que o velho criado saísse e retornasse um instante depois com uma caixinha.

— Autoriza abrirmos essa caixinha? — perguntou o notário. Noirtier fez sinal de que sim.

Abriram a caixinha e encontraram novecentos mil francos em títulos.

O primeiro notário passou sucessivamente cada título a seu colega; a conta batia, como Noirtier assinalara.

— É isso mesmo — ele disse —, evidente que sua inteligência está na plenitude de sua força e extensão.

Em seguida, voltando-se ao paralítico:

— Quer dizer — indagou — que o senhor possui novecentos mil francos de capital, os quais, pela forma como foram aplicados, devem proporcionarlhe cerca de quarenta mil francos de renda?

— Sim — fez Noirtier.

— Para quem deseja legar essa fortuna?

— Oh — disse a sra. de Villefort —, isso é cristalino; o sr. Noirtier ama apenas a sua neta, a srta. Valentine de Villefort. É ela quem cuida dele há seis anos; com seus cuidados assíduos, soube cativar a afeição do avô, eu diria quase sua gratidão; logo, nada mais justo que ela receba uma recompensa por essa dedicação.

O olhar de Noirtier lançou um raio como para mostrar que não se iludia diante do falso assentimento dado pela sra. de Villefort às intenções que esta lhe supunha.

— É então para a srta. Valentine de Villefort que o senhor deixa esses novecentos mil francos? — perguntou o notário, que julgava ter de registrar tão-somente essa cláusula, mas que não obstante fazia questão de se certificar do assentimento de Noirtier, pretendendo que todas as testemunhas dessa estranha cena constatassem aquele assentimento.

Valentine deu um passo atrás e chorava com os olhos baixos. O ancião olhou-a por um instante com uma expressão de profunda ternura; em seguida, voltando-se para o notário, piscou os olhos da maneira mais significativa.

— Não? — disse o notário. — Como? Não é a srta. Valentine de Villefort que o senhor institui como sua legatária universal?

Noirtier fez sinal de que não.

— Não está enganado? — exclamou o notário, perplexo. — Está de fato dizendo não?

— Não! — repetiu Noirtier. — Não!

Valentine ergueu a cabeça. Estava estupefata não com seu deserdamento, mas por ter provocado o sentimento que dita em geral atos daquele tipo.

Mas Noirtier fitou-a com uma expressão de ternura tão profunda que ela exclamou:

— Oh, vovô; percebo muito bem, é apenas sua fortuna que o senhor me confisca, seu coração continua meu...

— Oh, sim, claro que sim — disseram os olhos do paralítico, fechandose com uma expressão que não podia fazer Valentine pensar outra coisa.

— Obrigado! Obrigado! — murmurou a rapariga.

Entretanto, essa recusa fizera nascer uma esperança inesperada no coração da sra. de Villefort. Ela se aproximou do ancião.

— Então é ao seu neto Édouard de Villefort que o senhor lega sua fortuna, querido sr. Noirtier? — perguntou a mãe.

O piscar dos olhos foi terrível: exprimia quase ódio.

— Não — constatou o notário. — Então é ao senhor seu filho aqui presente?

— Não — replicou o velho.

Os dois notários entreolharam-se estupefatos; Villefort e sua mulher coravam, um de vergonha, a outra de raiva.

— Mas o que lhe fizemos então, vovô? — disse Valentine. — Então não nos ama mais?

O olhar do velho passou rapidamente pelo filho e pela nora, detendo-se em Valentine com uma expressão de profunda ternura.

— Se é assim — disse ela —, se me ama, vovô, tente aliar esse amor ao que está fazendo neste momento. O senhor me conhece, sabe que nunca pensei na sua fortuna; a bem da verdade, fui informada de que, pelo lado de minha mãe, sou rica, riquíssima; então, explique-se.

Noirtier fixou seu olhar ardente na mão de Valentine.

— Minha mão? — ela disse.

— Sim — fez Noirtier.

— Sua mão! — repetiram todos os presentes.

— Ah, senhores, como vêem, é tudo inútil, meu desafortunado pai está louco — disse Villefort.

— Oh — exclamou subitamente Valentine —, compreendo! Meu casamento, não é, vovô?

— Sim, sim, sim — repetiu três vezes o paralítico lançando um raio a cada vez que sua pálpebra se erguia.

— O senhor nos censura pelo casamento, não é?

— Sim.

— Mas isso é um absurdo — disse Villefort.

— Perdão, cavalheiro — disse o notário —, tudo isso, ao contrário, é bastante lógico e me parece concatenar perfeitamente.

— Não quer que eu me case com o sr. Franz d’Épinay?

— Não, não quero — exprimiu o olhar do velho.

— E deserda sua neta — exclamou o notário — porque ela faz um casamento que o contraria?

— Sim — respondeu Noirtier.

— De modo que, sem esse casamento, ela seria sua herdeira?

— Sim.

Fez-se então um profundo silêncio em torno do ancião.

Os dois notários consultavam-se; Valentine, com as mãos juntas, olhava para o avô com um sorriso de gratidão; Villefort mordia os lábios finos; a sra. de Villefort não conseguia reprimir um sentimento de alegria que, à sua revelia, espalhava-se pelo seu rosto.

— Ora — disse finalmente Villefort, rompendo esse silêncio —, parece que sou o único juiz das conveniências que falam a favor dessa união.

Único senhor da mão da minha filha, quero que ela se case com o sr. Franz d’Épinay, e assim será.

Valentine desabou chorando numa poltrona.

— Senhor — disse o notário ao velho —, que pretende fazer com sua fortuna no caso de a srta. Valentine desposar o sr. Franz?

O velho permaneceu imóvel.

— Pretende dispor dela, não obstante?

— Sim — fez Noirtier.

— Em benefício de alguém de sua família?

— Não.

— Em benefício dos pobres, por acaso?

— Sim.

— Mas — disse o notário —, o senhor sabe que a lei o proíbe de alienar inteiramente seu filho?

— Sim.

— O senhor disporá então da parte que a lei o autoriza a distribuir.

Noirtier permaneceu imóvel.

— Continua a querer dispor de tudo?

— Sim.

— Mas seu testamento não seria atacado depois da sua morte?

— Não.

— Meu pai me conhece, cavalheiro — disse o sr. de Villefort —, sabe que sua vontade será sagrada para mim; sabe, além disso, que não posso processar os pobres na minha posição.

O olhar de Noirtier exprimiu seu triunfo.

— Que decide, senhor? — perguntou o notário a Villefort.

— Nada, cavalheiro, é uma decisão pessoal de meu pai e sei que meu pai não muda de decisão. Portanto, estou resignado. Esses novecentos mil francos sairão da família para enriquecer os hospitais; mas não cederei a um capricho senil e agirei segundo minha consciência.