O Conde de Monte Cristo
15. O Carnaval de Roma
7 Karl Moor: personagem criado por Friedrich Shiller (1759-1805), na peça Os salteadores, ato I, cena 2.
15. O Carnaval de Roma
Quando Franz voltou a si, viu Albert bebendo um copo d’água, do qual sua palidez indicava ter grande necessidade, e o conde, já vestindo sua fantasia de palhaço. Lançou mecanicamente os olhos para a praça; tudo havia desaparecido, cadafalso, carrascos, vítimas; só restava o povo, ruidoso, atarefado, alegre; o sino do monte Citorio, que não dobra senão pela morte do papa e para a abertura da mascherata, badalava incessantemente.
— E então! — perguntou ele ao conde. — O que aconteceu?
— Nada, absolutamente nada — disse este —, como pode ver; apenas o Carnaval começou, e precisamos nos vestir.
— Com efeito — respondeu Franz —, de toda aquela cena horrível não resta senão o vestígio de um sonho.
— É porque foi apenas um sonho, um pesadelo, que o senhor teve.
— Sim, eu; mas e o condenado?
— É um sonho também; a única diferença é que ele continuou dormindo, ao passo que o senhor acordou; e quem pode dizer qual dos dois é o maior beneficiado?
— Mas, e Peppino — perguntou Franz —, aonde foi parar?
— Peppino é um rapaz sensato destituído de qualquer amor-próprio, que, contrariando radicalmente o hábito dos homens, sempre furiosos quando não estão em primeiro plano, ficou encantado ao ver que a atenção geral dirigia-se ao seu companheiro; em conseqüência disso, aproveitou-se dessa distração para, sem sequer agradecer aos dignos padres que o haviam acompanhado, misturar-se à multidão e desaparecer.
Decididamente, o homem é um animal muito ingrato e muito egoísta...
Mas vista sua fantasia; siga o exemplo do sr. de Morcerf.
Com efeito, Albert enfiava mecanicamente sua calça de tafetá por cima de sua calça preta e suas botas de verniz.
— E então, Albert, sente-se disposto a entrar nessa festa louca? —
perguntou Franz. — Vamos, responda com franqueza.
— Não — ele disse —, na verdade, depois de ter visto uma coisa dessas, sinto-me calmo e compreendo o que dizia o sr. conde: uma vez habituados a esse espetáculo, é o único que ainda nos proporciona emoções.
— Sem contar que apenas nesses momentos podemos fazer estudos psicológicos — disse o conde. — No primeiro degrau do cadafalso, a
morte arranca a máscara que carregamos a vida inteira e o verdadeiro rosto aparece. Temos que concordar, o de Andrea não era bonito de se ver...
Canalha hediondo! Vamos nos fantasiar, cavalheiros, vamos nos fantasiar!
Teria sido ridículo para Franz desempenhar o papel de menino sensível e não seguir o exemplo dado por seus companheiros. Vestiu então sua fantasia e pôs sua máscara, evidentemente menos pálida que seu rosto.
Concluída a toalete, desceram. O coche aguardava na porta, enfeitado com confete e buquês de flores.
Entraram na fila.
Difícil imaginar reviravolta mais completa do que a que acabava de se operar. No lugar do espetáculo de morte, soturno e silencioso, a praça del Popolo apresentava o aspecto de uma orgia louca e frenética. Uma profusão de máscaras surgia, transbordando de todos os lados, escapando pelas portas, descendo pelas janelas; os coches desembocavam em todas as esquinas, carregados de pierrôs, arlequins, dominós, marqueses, trasteverinos, personagens grotescos, cavaleiros, camponeses: todos gritando, gesticulando, atirando ovos cheios de farinha, confete, buquês; atingindo com gritos e projéteis a amigos e estrangeiros, conhecidos e desconhecidos, sem que ninguém tivesse o direito de se insurgir, sem que ninguém fizesse outra coisa senão rir.
Franz e Albert eram como homens levados a uma orgia a fim de esquecerem uma mágoa profunda; à medida que bebem e se embriagam, sentem o adensamento do véu entre o passado e o presente. Viam sempre, ou melhor, continuavam a sentir neles o reflexo do que tinham visto. Mas, pouco a pouco, a embriaguez geral os contagiou; pareceu-lhes que sua razão vacilante iria abandoná-los; sentiam uma necessidade estranha de participar daquela algazarra, daquele movimento, daquela vertigem. Um punhado de confete lançado em Morcerf de um coche vizinho, e que, cobrindo-o de poeira, bem como a seus dois companheiros, espetou seu pescoço e toda a área do rosto não protegida pela máscara, como se lhe tivessem lançado uma centena de alfinetes, terminou de empurrá-lo para a luta generalizada já em curso entre todas as máscaras nas quais esbarravam. Levantou-se por sua vez no coche, enfiou as mãos abertas nos sacos e, com todo o vigor e habilidade de que era capaz, arremessou por sua vez ovos e balas aos seus vizinhos.
Com isso, a guerra estava declarada. A lembrança do que tinham visto meia hora antes apagou-se completamente no espírito dos dois rapazes, tanto o espetáculo multicolorido, móvel e insensato que tinham sob os olhos os distraíra. Quanto ao conde de Monte Cristo, como dissemos, não parecera nem por um instante impressionado.
Com efeito, imaginemos essa grande e bela rua do Corso, de uma ponta a outra ladeada por palácios de quatro ou cinco andares, com todas as sacadas enfeitadas com tapeçarias, com todas as janelas drapejadas; nessas sacadas e janelas, trezentos mil espectadores, romanos, italianos, estrangeiros vindos dos quatro cantos do mundo — todas as aristocracias reunidas, aristocracias de berço, de dinheiro, de talento; mulheres sedutoras, que, sofrendo elas próprias a influência desse espetáculo, debruçam-se nas sacadas, penduram-se para fora das janelas, fazem chover sobre os coches que passam uma geada de confete, a qual lhes é retribuída com buquês; a densa atmosfera de balas que descem e flores que sobem; depois, no chão das ruas, uma multidão alegre, incansável, enlouquecida, com fantasias das mais extravagantes: couves gigantescas desfilando, cabeças de búfalos mugindo sobre corpos de homens, cães que parecem andar nas patas de trás; em meio a tudo isso, uma máscara que se ergue, e, nessa tentação de santo
Antão sonhada por Callot1, alguma Astartéia2
mostrando um rosto deslumbrante, a quem desejaríamos seguir e de quem estamos separados por uma espécie de demônios iguais aos que vemos em sonhos —, e teremos uma tênue idéia do que é o Carnaval de Roma.
... com todo o vigor e habilidade de que era capaz, arremessou por sua vez ovos e balas aos seus vizinhos.
Na segunda volta, o conde ordenou que parassem o coche e pediu permissão aos companheiros para se despedir, deixando seu coche à disposição deles. Franz olhou para cima: estavam em frente ao Palácio Ruspoli e, na janela do meio, guarnecida com um tecido de
damasco branco com uma cruz vermelha, achava-se um dominó3 azul, sob o qual a imaginação de Franz concebeu, sem dificuldade, a bela grega do Teatro Argentina.
— Cavalheiros — disse o conde saltando do coche —, quando estiverem cansados de ser atores e quiserem voltar a ser espectadores, saibam que dispõem de um lugar nas minhas janelas. Enquanto isso, disponham do meu cocheiro, do meu coche e dos meus criados.
Esquecemos de dizer que o cocheiro do conde estava gravemente vestido com uma pele de urso negro, exatamente igual à de Odry em O
urso e o paxá4, e que os dois lacaios de pé atrás da caleche vestiam fantasias de macacos verdes, coladas em seus corpos, e máscaras com molas, as quais usavam para fazer caretas aos passantes.
Franz agradeceu ao conde sua gentil oferta: quanto a Albert, flertava com um coche abarrotado de camponesas romanas, estacionado, como o do conde, numa daquelas pausas tão comuns nas filas, e esmagava buquês.
Infelizmente para ele, a fila voltou a andar e, enquanto ele descia para a praça del Popolo, o coche que atraíra sua atenção subia novamente em direção ao Palácio de Veneza.
— Ah, meu caro! — disse ele a Franz. — Não viu...?
— O quê? — perguntou Franz.
— Ora, aquela caleche repleta de camponesas romanas.
— Não.
— Pois tenho certeza de que são mulheres maravilhosas.
— Pena que você está mascarado, meu caro Albert — disse Franz —, era uma oportunidade para se recuperar dos seus desapontamentos amorosos!
— Oh — respondeu ele meio rindo, meio convencido —, espero realmente que o Carnaval não passe sem me trazer alguma compensação!
Apesar dessa esperança de Albert, o dia se passou sem outra aventura além do encontro, duas ou três vezes renovado, com a caleche das camponesas romanas. Num desses encontros, fosse por acaso, fosse por cálculo de Albert, sua máscara caiu.
Nesse momento, ele pegou o que restava do buquê e jogou para a caleche. Uma das maravilhosas mulheres que Albert adivinhava sob a fantasia coquete de camponesas foi, sem dúvida, tocada por aquele galanteio, pois, por sua vez, quando o coche dos dois amigos voltou a passar, ela o retribuiu com um buquê de violetas.
Albert precipitou-se para o buquê. Como Franz não tinha nenhum motivo para acreditar que era destinado a ele, deixou Albert apoderar-se das flores. Albert prendeu-as gloriosamente em sua lapela e o coche prosseguiu sua corrida triunfante.
— Pronto — gracejou Franz —, uma semente de aventura!
— Ria quanto quiser — respondeu Albert —, mas na verdade creio que sim; não largo mais esse buquê.
— Puxa, também acredito piamente! — disse Franz rindo. — É um sinal de gratidão.
A brincadeira, em todo caso, logo ganhou caráter de realidade, pois quando, ainda arrastados pela fila, Franz e Albert cruzaram de novo com o coche das camponesas, a que lançara o buquê para Albert bateu palmas ao ver sua lapela.
— Bravo, meu caro, bravo — parabenizou-lhe Franz —, a coisa vai maravilhosamente bem! Quer que eu vá embora para ficar mais à vontade?
— Não — disse ele —, não apressemos as coisas; não quero me deixar levar como um tolo na primeira demonstração, num encontro com hora marcada, como dizemos para o baile do Opéra. Se a bela camponesa estiver disposta a ir mais longe, iremos encontrá-la amanhã, ou melhor, ela nos encontrará. Então me dará sinal de vida e verei o que fazer.
— Na verdade, meu caro Albert — disse Franz —, você é sábio como Nestor e prudente como Ulisses; e, para a sua Circe conseguir transformá-lo num animal qualquer, terá que ser ou muito habilidosa ou muito poderosa.
Albert tinha razão. A bela desconhecida provavelmente resolvera não levar adiante o flerte naquele dia; pois, embora os rapazes ainda dessem várias voltas, não voltaram a se deparar com a caleche que procuravam com os olhos. Devia ter desaparecido por uma das ruas adjacentes.
Voltaram então para o Palácio Ruspoli, mas o conde também desaparecera com o dominó azul. De todo modo, as duas janelas cortinadas com damasco amarelo continuavam ocupadas por pessoas que ele devia ter convidado.
Nesse momento, o mesmo sino que repicara na abertura da mascherata deu o toque de recolher. A fila do Corso logo se desfez e num instante todos os coches desapareceram pelas ruas transversais.
Franz e Albert estavam então em frente à rua delle Muratte.
O cocheiro enveredou por ela sem nada dizer. Alcançando a praça di Spagna e contornando o Palácio Poli, parou em frente ao hotel.
Mestre Pastrini veio receber seus hóspedes na soleira da porta.
A primeira providência de Franz foi informar-se acerca do conde e exprimir desculpas por não ter chegado a tempo, mas mestre Pastrini tranqüilizou-o, dizendo que o conde de Monte Cristo encomendara um segundo coche para si e que este fora pegá-lo às quatro horas no Palácio Ruspoli. Além disso, estava encarregado, da parte dele, de oferecer aos dois amigos a chave de seu camarote no Teatro Argentina.
Franz interrogou Albert a respeito de suas disposições, mas Albert tinha grandes planos a executar antes de pensar em ir ao teatro; por conseguinte, em vez de responder, perguntou a mestre Pastrini se este poderia lhe arranjar um alfaiate.
— Um alfaiate — perguntou o hoteleiro —, e para quê?
— Para que nos confeccione, de hoje para amanhã, roupas de camponeses romanos, tão elegantes quanto possível — respondeu Albert.
Mestre Pastrini balançou a cabeça.
— Confeccionar duas fantasias de hoje para amanhã! — exclamou. —
Eis, peço perdão à Vossa Excelência, um pedido à francesa; duas fantasias!
Numa semana em que o senhor não encontra um alfaiate que aceite pregar seis botões num colete, ainda que lhe pague um escudo por cada um desses botões!
— Sou então obrigado a desistir das fantasias que desejo?
— Não, porque temos essas fantasias já prontas. Deixe esse assunto comigo, e amanhã, quando acordar, encontrará uma coleção de chapéus, casacos e calças do seu agrado.
— Meu caro — disse Franz a Albert —, confiemos no nosso hoteleiro, ele já nos provou ser homem bastante capaz; jantemos então tranqüilamente e, depois do jantar, vamos ver A italiana em
Argel5.
— Tudo bem quanto à Italiana em Argel — disse Albert —, mas note bem, mestre Pastrini, que eu e o cavalheiro — continuou, apontando para Franz — consideramos importantíssimo ter amanhã as roupas que pedimos.
O hoteleiro afirmou pela última vez a seus hóspedes que não precisavam se preocupar com nada e que seriam servidos conforme seus desejos; ao que Franz e Albert subiram para se livrar de suas fantasias de palhaço.
Albert, ao tirar a sua, apertou com o maior cuidado seu buquê de violetas:
ele seria, no dia seguinte, o sinal para que fosse reconhecido.
Os dois amigos sentaram-se à mesa; porém, enquanto jantava, Albert não conseguiu deixar de observar a notória diferença existente entre os respectivos méritos do cozinheiro de mestre Pastrini e o do conde de Monte Cristo. Ora, a verdade obrigou Franz a admitir, a despeito das
prevenções que parecia ter contra o conde, que a comparação era desfavorável ao chef de mestre Pastrini.
Na sobremesa, o criado perguntou para que horas os rapazes desejavam o coche. Albert e Franz entreolharam-se, receando com sinceridade que estivessem abusando. O criado percebeu.
— Sua Excelência, o conde de Monte Cristo — disse-lhes —, deu ordens claras para que o coche ficasse o dia inteiro à disposição de Suas Senhorias; Suas Senhorias podem, portanto, dispor dele sem receio de ser inconvenientes.
Os rapazes resolveram aproveitar até o fim a cortesia do conde, ordenando que atrelassem o coche enquanto iriam substituir a toalete do dia, amarfanhada devido às numerosas batalhas travadas, pela toalete da noite.
Tomada essa precaução, dirigiram-se para o Teatro Argentina e instalaram-se no camarote do conde.
No correr do primeiro ato, a condessa G... adentrou o seu; o primeiro olhar que lançou foi para o lado onde, na véspera, vira o conde, de modo que percebeu os dois amigos no camarote daquele acerca do qual exprimira a Franz, vinte e quatro horas antes, tão estranha opinião.
Seu binóculo estava apontado para ele com tanta obstinação que Franz logo constatou a crueldade que seria demorar-se mais tempo para satisfazer sua curiosidade; assim, usando do privilégio concedido aos espectadores dos teatros italianos, que consiste em fazer das salas de espetáculo suas salas de visita, os dois amigos deixaram o camarote para irem render homenagens à condessa.
Assim que entraram em seu camarote, ela fez sinal a Franz para ocupar o lugar de honra.
Albert, por sua vez, instalou-se atrás.
— E então? — disse ela, mal dando tempo de Franz sentar. — Parece que o senhor não tinha nada mais urgente a fazer do que travar relações com o novo lorde Ruthwen... e ei-los os melhores amigos do mundo...
— Embora ainda não se trate de uma intimidade recíproca como supõe, não posso negar que passamos o dia inteiro sob seus auspícios, sra.
condessa.
— Como, o dia inteiro?
— Literalmente, juro: pela manhã, aceitamos seu desjejum, durante toda a mascherata, corremos o Corso em seu coche, enfim, esta noite, viemos
assistir ao espetáculo em seu camarote.
— Então o conhecem?
— Sim e não.
— Como assim?
— É uma longa história.
— Que vai me contar, não?
— A senhora ficaria com muito medo.
— Mais um motivo.
— Espere pelo menos que a história tenha um fecho.
— Que seja, gosto das histórias completas. Enquanto isso, como entraram em contato? Quem os apresentou a ele?
— Ninguém; ao contrário, foi ele que se apresentou a nós.
— Quando isso?
— Ontem à noite, depois que a deixei em casa.
— Por intermédio de quem?
— Oh, meu Deus! Pelo intermédio bastante prosaico do nosso hoteleiro.
— Então ele está hospedado no Hotel de Londres, como os senhores?
— Não só no mesmo hotel, como no mesmo andar.
— Qual é o nome dele? Pois decerto o senhor sabe seu nome...
— Perfeitamente: conde de Monte Cristo.
— Que nome é esse? Não é um nome de estirpe.
— Não, é o nome de uma ilha que ele comprou.
— E ele é conde?
— Conde toscano.
— Que remédio, engoliremos este junto com os outros — alfinetou a condessa, que era de uma das famílias mais antigas das cercanias de Veneza.
— E, a propósito, que tipo de homem ele é?
— Pergunte ao visconde de Morcerf.
— Ouviu, cavalheiro? Fui encaminhada ao senhor — disse a condessa.
— Seríamos pedantes se não o achássemos encantador, senhora —
respondeu Albert. — Um amigo de dez anos não teria feito mais por nós, e isso com uma graça, uma delicadeza e uma cortesia que sugerem um autêntico homem elegante.
— Ora, ora — admirou-se a condessa, rindo —, no fim vão ver que o meu vampiro não passa de algum novo-rico querendo se desculpar pelos
seus milhões, e que assumiu o olhar de Lara6 para ser confundido com o sr.
de Rothschild. E ela, os senhores a viram?
— Ela, quem? — perguntou Franz, sorrindo.
— A bela grega de ontem.
— Não. Escutamos, tenho quase certeza, o som de sua guzla, mas ela permaneceu completamente invisível.
— A verdade, meu caro Franz, é que ao dizer invisível você está simplesmente querendo fazer mistério — disse Albert. — Então quem acha que era aquele dominó azul na janela com a cortina de damasco branco?
— E onde ficava essa janela com a cortina de damasco branco? —
perguntou a condessa.
— No Palácio Ruspoli.
— O conde tinha então janelas no Palácio Ruspoli?
— Exatamente. A senhora passou pela rua do Corso?
— Naturalmente.
— Pois bem, reparou em duas janelas com cortinas de damasco amarelo e uma com cortinas de damasco branco com uma cruz vermelha? Essas três janelas pertenciam ao conde.
— Ora essa, mas então esse homem é um nababo? Sabem quanto custam três janelas como essas para uma semana de Carnaval, e no Palácio Ruspoli, isto é, no melhor ponto do Corso?
— Duzentos ou trezentos escudos romanos.
— Aumente para dois ou três mil.
— Puxa!
— Será que essa bela renda vem da ilha que ele possui?
— Da ilha? Ela não rende um bajocco7.
— Então por que a comprou?
— Por capricho.
— Quer dizer que é um tipo singular?
— O fato — disse Albert — é que ele me pareceu bastante excêntrico.
Se morasse em Paris, se freqüentasse nossos espetáculos, eu lhe diria, meu caro, que é ou um piadista de mau gosto fazendo pose, ou um pobre-diabo perdido pela literatura; na verdade, esta manhã
ele fez dois ou três programas dignos de Didier ou de Antony8.
Nesse momento chegou uma visita e, segundo o costume, Franz cedeu o lugar ao recém-chegado; tal circunstância, além da troca de lugares,
resultou na mudança do rumo da conversa.
Uma hora mais tarde, os dois amigos voltavam para o hotel. Mestre Pastrini já providenciara as fantasias para o dia seguinte e prometeu-lhes que ficariam satisfeitos com o seu tirocínio diligente.
Com efeito, no dia seguinte às nove horas ele entrava no quarto de Franz acompanhado por um alfaiate carregando oito ou dez fantasias de camponeses romanos. Os dois amigos escolheram duas iguais, que se ajustavam mais ou menos ao seu tamanho, e encarregaram o hoteleiro de mandar confeccionar vinte metros de fita para cada um dos chapéus e de providenciar dois encantadores lenços de seda com as listras em diagonal e cores vivas que os homens do povo, nos dias de festa, costumam amarrar na cintura.
Albert estava impaciente para ver como a nova fantasia lhe cairia: era um casaco e uma calça de veludo azul, meias com triângulos bordados, sapatos de fivela e um colete de seda. Enfim, Albert só tinha a ganhar com essa pitoresca fantasia; e quando a faixa abraçou sua elegante cintura, quando o chapéu, ligeiramente caído de lado, deixou desenrolarem-se sobre seus ombros cascatas de fitas, Franz foi obrigado a admitir que os trajes típicos contam muito na superioridade física atribuída a determinados povos. Os turcos, antigamente tão pitorescos com suas longas túnicas multicoloridas, não são horríveis agora com seus redingotes azuis abotoados e seus solidéus gregos que lhes dão um aspecto de vinho açucarado?
Franz transmitiu seus elogios a Albert, que, enquanto isso, de pé diante do espelho, sorria com um ar de satisfação que nada tinha de equívoco.
Estavam nesse ponto quando o conde de Monte Cristo entrou.
— Cavalheiros — disse ele —, considerando que, por mais agradável seja um companheiro de programas, a liberdade é ainda mais agradável, venho lhes comunicar que para hoje e os dias vindouros deixo à sua disposição o coche do qual já desfrutaram ontem. Nosso hoteleiro deve lhes ter dito que disponho de três ou quatro de reserva; logo, os senhores não me estarão privando de nada; usem-no com toda a liberdade, seja para seus programas, seja para seus negócios. Nosso ponto de encontro, caso tenham alguma coisa a me dizer, é o Palácio Ruspoli.
Os dois rapazes ameaçaram fazer alguma ressalva, mas, a bem da verdade, não tinham nenhuma boa razão para recusar uma oferta que, aliás, os beneficiava. Acabaram então por aceitar.
O conde de Monte Cristo ficou cerca de quinze minutos com eles, discorrendo com grande desembaraço sobre os mais diversos assuntos.
Estava, como já pudemos observar, bem-informado sobre a literatura de todos os países. Um relance nas paredes de seu salão provara a Franz e a Albert que era um amante de pintura. Algumas palavras despretensiosas, que ele deixou escapar sem querer, provaram-lhes que as ciências não lhe eram estranhas, parecendo estar familiarizado, sobretudo, com a química.
Os dois amigos não tinham a pretensão de retribuir ao conde o almoço oferecer-lhe, em troca da excelência de sua mesa, o trivial bastante medíocre de mestre Pastrini. Disseram-lhe tudo isso francamente, e ele recebeu essas desculpas como um homem capaz de apreciar tal delicadeza.
Albert estava fascinado com as maneiras do conde, a quem apenas o saber científico o impedia de identificar como um autêntico fidalgo. A liberdade de dispor plenamente do coche era o que mais o alegrava: tinha sua mira apontada para as graciosas camponesas e, como na véspera elas haviam desfilado num coche muito elegante, não o desagradava continuar dando mostras de estar em pé de igualdade com elas nesse aspecto.
A uma e meia, os dois rapazes desceram; o cocheiro e os lacaios haviam tido a idéia de vestir suas librés sobre as peles de animais que usavam como fantasia, o que lhes dava uma aparência ainda mais grotesca que na véspera, a ponto de lhes render vários elogios de Franz e Albert.
Albert prendera sentimentalmente seu buquê de violetas murchas na lapela.
À primeira badalada do sino, partiram e adentraram a rua do Corso pela rua Vittoria.
Na segunda volta, um buquê de violetas novas, arremessado de um carro cheio de mulheres fantasiadas de palhaço e que veio cair na caleche do conde, indicou a Albert que, tal como ele e seu amigo, as camponesas da véspera haviam mudado de fantasia e que, fosse por acaso, fosse por um sentimento análogo àquele que o movera, enquanto ele galantemente vestira-se com a fantasia delas, elas, por sua vez, tinham vestido a dele.
Albert prendeu o novo buquê no lugar do outro, mas conservou o buquê murcho nas mãos; e, quando passou novamente pela caleche, levou-o apaixonadamente aos lábios, gesto que pareceu divertir bastante não apenas a jovem que o arremessara, como também suas loucas amigas.
O dia não foi menos animado que a véspera. É provável, inclusive, que um profundo observador tenha constatado um aumento na algazarra e na
alegria. Por um instante avistaram o conde em sua janela, mas, quando o coche voltou a passar, ele já havia desaparecido.
Desnecessário dizer que a troca de galanteios entre Albert e a pagliaccina dos buquês de violeta durou o dia inteiro.
À noite, ao retornar, Franz encontrou uma carta da embaixada; esta lhe anunciava que ele teria a honra de ser recebido no dia seguinte por Sua Santidade. Em todas as viagens anteriores que fizera a Roma, solicitara e obtivera o mesmo privilégio; e, tanto por religião quanto por gratidão, não queria deixar a capital da cristandade sem prestar sua respeitosa homenagem aos pés de um dos sucessores de são Pedro, o raro exemplo de todas as virtudes.
Naquele dia, portanto, estava fora de questão para ele pensar em Carnaval; pois, apesar da bondade com que ele reveste sua grandeza, é sempre com um respeito cheio de profunda emoção que nos preparamos para nos curvar diante desse nobre e santo
venerável chamado Gregório XVI9.
Ao sair do Vaticano, no dia seguinte, Franz voltou direto para o hotel, evitando mesmo passar pela rua do Corso. Levava consigo um tesouro em pensamentos pios, e o contato entre eles e a folia da mascherata teria sido uma profanação.
Às cinco horas e dez minutos, Albert voltou. Estava no auge da alegria; a pagliaccina voltara a vestir sua fantasia de camponesa e, ao passar pela caleche de Albert, erguera a máscara.
Era encantadora.
Franz deu a Albert seus mais sinceros cumprimentos; este os recebeu como homem a quem são devidos. Percebera, disse ele, por certos sinais de inimitável elegância, que sua bela desconhecida devia pertencer à mais alta aristocracia.
Albert estava decidido a lhe escrever no dia seguinte.
Franz, ao mesmo tempo em que recebia essa confidência, observou que Albert parecia ter alguma coisa a lhe pedir e que não obstante hesitava fazê-lo. Insistiu, declarando-lhe antecipadamente que estava disposto a fazer, em prol de sua felicidade, todos os sacrifícios que estivessem ao seu alcance. Albert se fez de rogado apenas o tempo exigido por uma polidez amistosa: enfim, acabou por admitir que Franz lhe prestaria um favor se deixasse a caleche apenas para ele no dia seguinte.
Albert atribuía à ausência do amigo a extrema gentileza que a bela camponesa fizera ao erguer sua máscara.
Franz não era egoísta a ponto de interromper Albert no meio de uma aventura que prometia ser simultaneamente tão instigante para a sua curiosidade e tão lisonjeira para o seu amor-próprio. Conhecia bastante bem a grande indiscrição do amigo para ter certeza de que ele o manteria a par dos menores detalhes de seu sucesso; e, como fazia quatro anos que ele percorria a Itália em todos os sentidos, sem sequer uma chance de esboçar um caso amoroso por conta própria, não desagradava a Franz saber como as coisas se dariam numa situação como essa.
Prometeu então a Albert que no dia seguinte se contentaria em assistir ao espetáculo das janelas do Palácio Ruspoli.
Com efeito, no dia seguinte viu Albert passar e repassar. Levava consigo um enorme buquê, provavelmente o encarregado de levar sua epístola amorosa. Essa probabilidade virou certeza quando Franz reviu o mesmo buquê, que chamava a atenção por um círculo de camélias brancas, nas mãos de uma encantadora pagliaccina em cetim cor-de-rosa.
Era encantadora.
A noite, portanto, não era mais da alegria, era do delírio. Albert não duvidava de que a bela desconhecida fosse responder pelo mesmo intermediário. Franz antecipou-se aos desejos do amigo, dizendo-lhe que todo aquele barulho o fatigava e que decidira usar o dia seguinte para rever seu álbum e fazer anotações.
Em todo caso, Albert não se enganara em suas previsões: no dia seguinte à noite, Franz viu-o saltar para dentro de seu quarto, agitando mecanicamente um quadrado de papel que segurava em um dos cantos.
— E então! — disse ele. — Eu estava errado?
— Ela respondeu? — exclamou Franz.
— Leia.
Esta palavra foi pronunciada com uma entonação impossível de ser reproduzida. Franz pegou o bilhete e leu:
Terça feira, às sete horas, desça do seu coche em frente à rua dei Pontefici, e siga a camponesa romana que arrancar o seu moccoletto. Quando chegar ao primeiro degrau da igreja de San Giacomo, não se esqueça, para que ela possa reconhecêlo, de prender uma fita rosa no ombro da sua fantasia de palhaço.
Daqui até lá não me verá mais. Confiança e discrição.
— E então! — disse Albert a Franz, quando este chegou ao fim da leitura.
— Que pensa disso, caro amigo?
— Pois penso — respondeu Franz — que a coisa assume claramente o caráter de uma aventura muito agradável.
— É a minha opinião também — disse Albert —, e receio muito que você vá sozinho ao baile do duque de Bracciano.
Franz e Albert haviam recebido naquela mesma manhã um convite do célebre banqueiro romano.
— Abra o olho, meu caro Albert — disse Franz —, toda a aristocracia estará na casa do duque; e, no caso de a sua bela desconhecida ser realmente da aristocracia, não poderá se eximir de aparecer por lá.
— Apareça ou não, mantenho minha opinião sobre ela — continuou Albert. — Leu o bilhete?
— Sim.
— Conhece a educação medíocre dada na Itália às mulheres do
mezzo cito10?
Assim era designada a burguesia.
— Sim — respondeu Franz outra vez.
— Pois bem! Releia o bilhete, examine a letra e ache um erro que seja, de sintaxe ou de ortografia.
De fato, a letra era esmerada e a ortografia, irrepreensível.
— Você é um predestinado — disse Franz a Albert, devolvendo-lhe o bilhete pela segunda vez.
— Ria o quanto quiser, zombe à vontade — replicou Albert —, estou apaixonado.
— Oh, meu Deus, você me assusta! — exclamou Franz. — Vejo que não apenas irei sozinho ao baile do duque de Bracciano, como é possível que volte sozinho para Florença.
— É fato: se a minha desconhecida for tão amável quanto bela é, declaro-lhe que finco o pé em Roma por pelo menos seis semanas. Adoro Roma e, além disso, tive grande inclinação por arqueologia.
— Claro... Com mais um ou dois encontros feito esse, volto a ter esperanças de vê-lo membro da Academia de Paleografia e Beletrismo.
Albert preparava-se para discutir seriamente seus direitos à cadeira acadêmica, mas vieram anunciar aos dois rapazes que o jantar estava servido. Ora, o amor em Albert não era de forma alguma antagônico ao apetite. Ele se apressou, portanto, bem como seu amigo, em se pôr à mesa, disposto a retomar a conversa depois do jantar.
Terminado o jantar, anunciaram o conde de Monte Cristo. Havia dois dias que os rapazes não o viam. Um negócio, dissera mestre Pastrini, o chamara a Civita Vecchia. Partira na noite da véspera e acabara de chegar não fazia uma hora.
O conde foi encantador; talvez por ter se julgado excessivo, talvez porque a ocasião não despertava nele nenhuma das fibras acrimoniosas que certas circunstâncias já haviam feito vibrar por duas ou três vezes em suas amargas palavras, foi quase como todo mundo. Aquele homem era um verdadeiro enigma para Franz. Seria impossível o conde duvidar que o jovem forasteiro o tinha reconhecido; entretanto, nenhuma palavra saída de sua boca desde o reencontro dos dois parecia sugerir que ele se lembrasse de o ter visto antes. Em contrapartida, por mais que Franz sentisse vontade de aludir ao seu primeiro contato, o medo de desagradar um homem que o cobrira, a ele e a seu amigo, de gentilezas, o fazia hesitar; permaneceu então na mesma reserva que ele.
O conde soubera que os dois amigos haviam pensado em comprar um camarote no Teatro Argentina e que a resposta fora que estava tudo esgotado.
Assim, trazia-lhes a chave do seu; pelo menos este era o pretexto para sua visita.
Franz e Albert opuseram alguma resistência, alegando o receio de prejudicá-lo; mas o conde respondeu-lhes que, como naquela noite ia ao Teatro Valle, seu camarote no Teatro Argentina ficaria vazio caso não o desfrutassem.
Essa declaração fez os dois amigos aceitarem.
Franz acostumara-se pouco a pouco com a palidez do conde, que tanto o impressionara da primeira vez que a vira. Não podia deixar de reconhecer a beleza de sua cabeça severa, cuja palidez era o único defeito, ou a principal qualidade. Verdadeiro herói de Byron, Franz não podia, não diremos vê-lo, mas sequer pensar nele sem imaginar aquele rosto sombrio
nos ombros de Manfred ou sob a touca de Lara. Tinha o vinco na testa que indica a incessante presença de um pensamento amargo; tinha os olhos de fogo de quem lê no mais recôndito das almas; tinha o lábio altivo e sarcástico que confere às palavras que dele escapam a característica peculiar de se gravarem profundamente na memória dos que as escutam.
O conde não era mais um jovem; tinha pelo menos quarenta anos; não obstante, percebia-se claramente que era feito para entusiasmar os jovens com quem esbarrasse. Na realidade, por uma definitiva semelhança com os heróis fantásticos do poeta inglês, o conde parecia deter o poder do fascínio.
Albert não media palavras sobre a felicidade que ele e Franz haviam tido de encontrar um homem daqueles. Franz era menos entusiasta, mas apesar disso sentia a influência exercida por todo homem superior no espírito dos que o cercam.
Pensava naquele plano que o conde já manifestara por duas ou três vezes de ir a Paris, e não duvidava que, com seu caráter excêntrico, seu rosto marcante e sua fortuna colossal, essa visita causaria um grande alvoroço.
Contudo, não queria estar em Paris quando ele por lá se encontrasse.
A noite se passou como as noites em geral se passam num teatro italiano, não com as pessoas a escutar os cantores, mas a fazer visitas e conversar. A condessa G... pretendia encaminhar a conversa para o conde, mas Franz anunciou-lhe que tinha uma novidade muito mais recente para contar e, apesar das demonstrações de falsa modéstia a que se entregou Albert, relatou à condessa o grande acontecimento que, nos últimos três dias, constituía o objeto de preocupação dos dois amigos.
Na medida em que essas intrigas não são raras na Itália, ao menos a julgar pelo que contam os viajantes, a condessa não deu nenhuma mostra de incredulidade, felicitando Albert pelas primícias de uma aventura fadada a terminar de maneira tão satisfatória.
Despediram-se e prometeram encontrar-se no baile do duque de Bracciano, para o qual Roma inteira estava convidada. A dama do buquê manteve sua promessa: nos dois dias seguintes não deu a Albert nenhum sinal de vida.
Finalmente a terça-feira chegou, o último e mais frenético dos dias de Carnaval. Na terça-feira, os teatros são abertos às dez horas da manhã, uma vez que, depois das oito da noite, entra-se na Quaresma. Na terça-feira, todos que, por falta de tempo, dinheiro ou entusiasmo, ainda não
haviam participado das festas precedentes, misturam-se à bacanal, deixando-se arrastar pela orgia e contribuindo com sua parcela de barulho e agitação para o barulho e a agitação generalizados.
Das duas às cinco, Franz e Albert acompanharam a fila, trocando punhados de confete com os coches da fila oposta e os pedestres que circulavam por entre as patas dos cavalos e as rodas das charretes, sem que ocorresse no meio dessa terrível horda um único acidente, uma única discussão, uma única rixa. Sob esse aspecto, os italianos são o povo por excelência. As festas para eles são verdadeiras festas. O autor desta história, que morou na Itália
durante cinco ou seis anos11, não se lembra de jamais ter visto uma solenidade perturbada por um único desses fatos que servem de corolário às nossas.
Albert estava triunfante em sua fantasia de palhaço. Tinha no ombro um laço de fita cor-de-rosa cujas pontas iam até os joelhos. Para não criar nenhuma confusão entre ele e Franz, este repetira a fantasia de camponês romano.
Quanto mais avançava o dia, mais o tumulto aumentava; não havia em nenhuma de todas aquelas ruas, em nenhum daqueles coches, em nenhuma das janelas, uma boca que permanecesse muda, um braço que permanecesse desocupado; era uma autêntica tempestade humana composta de trovões de gritos e de uma saraivada de caramelos, buquês, ovos, laranjas e flores.
Às três horas, o barulho de latas percutidas ao mesmo tempo na praça del Popolo e no Palácio de Veneza, atravessando com dificuldade aquele horrível tumulto, anunciou que o Corso ia começar.
O corso, como os moccoli, é um dos episódios marcantes dos últimos dias de Carnaval. Ao barulho dessas latas, os coches romperam instantaneamente suas fileiras e se refugiaram cada um na rua transversal mais próxima do lugar onde se encontravam.
Todas essas evoluções são realizadas, de resto, com uma inconcebível habilidade e uma rapidez maravilhosa, e isso sem que a polícia precise sequer demarcar um espaço ou traçar um percurso para cada um.
Os pedestres encostam-se nos palácios, em seguida ouve-se um grande estrépito de cavalos e de bainhas de sabres.
Um destacamento de carabinieri, com quinze deles à frente, percorria a galope e em todo o seu comprimento a rua do Corso, desobstruindo-a para
dar passagem aos barberi12. Quando o destacamento chegou ao Palácio de Veneza, o retinir de outra bateria de latas anunciou que a rua estava livre.
Quase imediatamente, em meio a um clamor imenso, unânime, inaudito, passaram como sombras sete ou oito cavalos excitados pelos gritos de trezentas mil pessoas e pelas castanholas de ferro que pulavam em seus dorsos; em seguida, o canhão do Castelo de Sant’Angelo disparou três salvas: era para anunciar que o vencedor era o número três.
Imediatamente, sem outro sinal a não ser esse, os coches voltaram a se deslocar, refluindo em direção ao Corso, transbordando por todas as ruas como torrentes por um instante represadas que se lançam todas ao mesmo tempo no leito do rio que alimentam, e o fluxo imenso recomeçou, mais rápido que nunca, entre as duas margens de granito.
No entanto, um novo elemento de barulho e agitação ainda viria a se misturar àquela massa: os vendedores de moccoli acabavam de entrar em cena.
Os moccoli ou moccoletti são velas que variam de espessura, desde o círio pascal até o toco de porão, e que despertam nos atores da grande cena final do Carnaval romano duas preocupações opostas: 1a a de conservar acesos seu moccoletto; 2a a de apagar o moccoletto dos demais.
O moccoletto é como a vida: o homem só encontrou um meio de transmiti-la; e esse meio ele herdou de Deus.
Mas Este descobriu mil maneiras de confiscá-lo; é verdade que para essa suprema operação o diabo lhe deu alguma ajuda.
O moccoletto é aceso em contato com uma chama qualquer.
Mas quem descreverá os mil meios inventados para apagar o moccoletto, os foles gigantescos, os extintores monstros, os leques sobre-humanos?
Todos então correram para comprar moccoletti, Franz e Albert como os demais.
A noite chegava rapidamente e, ao grito de “Moccoli!”, repetido pelas vozes estridentes de mil fabricantes, duas ou três estrelas já começavam a brilhar em cima da multidão. Foi como um sinal.
No fim de dez minutos, cinqüenta mil luzes cintilaram, descendo do Palácio de Veneza em direção à praça del Popolo e subindo da praça del Popolo para o Palácio de Veneza.
Dir-se-ia a festa dos fogos-fátuos.
É impossível imaginar sem ter visto.
Suponham todas as estrelas soltando-se do céu e vindo se misturar na terra a uma dança louca.
Tudo isso, acompanhado por gritos jamais ouvidos pelo ouvido humano no restante da face do globo.
Nesse momento, mais que em todos os outros, as distinções sociais
se apagam. O facchino13 agarra-se ao príncipe, o príncipe ao trasteverino, o trasteverino ao burguês, todos soprando, apagando,
reacendendo. Se o velho Éolo14 aparecesse nesse momento, seria
proclamado rei dos moccoli e Aquiles15, herdeiro presumido da coroa.
Essa corrida louca e flamejante durou cerca de duas horas; a rua do Corso estava iluminada como o dia, distinguiam-se os traços dos espectadores até o terceiro e quarto andares.
De cinco em cinco minutos Albert puxava seu relógio; finalmente ele marcou sete horas.
Os dois amigos estavam justamente na altura da rua dei Pontefici; Albert saltou da caleche com seu moccoletto na mão.
Duas ou três máscaras se aproximaram para apagá-lo ou arrancá-lo dele, mas Albert, feito hábil pugilista, nocauteou-os um depois do outro e continuou sua corrida em direção à igreja de San Giacomo.
Os degraus estavam apinhados de curiosos e mascarados que lutavam para arrancar a tocha das mãos uns dos outros. Franz seguia Albert com o olhar e o viu pisar o primeiro degrau; em seguida, quase imediatamente, uma máscara vestindo a batida fantasia de camponesa com buquê esticou o braço e, sem nenhuma resistência da parte dele dessa vez, arrancou-lhe o moccoletto.
Franz estava muito longe para ouvir as palavras trocadas entre eles; mas provavelmente estas nada tinham de hostil, pois ele viu Albert e a camponesa se afastarem de braços dados.
Seguiu-os durante um certo tempo no meio da multidão, perdendo-os de vista na rua Tomacelli.
De repente, o som do sino que decreta o fim do Carnaval ressoou, e no mesmo instante os moccoli se apagaram como por encanto. Uma forte lufada de vento parecia ter destruído tudo.
Franz viu-se na mais profunda escuridão.
Simultaneamente cessaram todos os gritos, como se a poderosa lufada que carregara as luzes houvesse ao mesmo tempo carregado o barulho.
Não se ouviu mais nada a não ser o deslizar das charretes levando os mascarados para suas casas; não se viu mais nada a não ser as luzes brilhando atrás das janelas.
O Carnaval havia terminado.
1 “sonhada por Callot”: Jacques Callot (c.1592-1635), gravurista e artesão barroco do ducado de Lorraine. A gravura citada é de 1630.
2 Astartéia: a deusa fenícia da Lua.
3 Dominó: fantasia ou, no caso, pessoa fantasiada, que consistia em uma túnica longa e leve, de amplas mangas e capuz.
4 “Odry em O urso e o paxá”: o ator Jacques-Charles Odry (1778-1853) atuou na comédia O
urso e o paxá, escrita por Augustin Eugène Scribe (1791-1861) e Joseph-Xavier Saintine (1798-1865), e encenada no Teatro de Variedades de Paris, em 1820.
5 A italiana em Argel: no original, L’Italiana in Algeri, ópera de Gioacchino Antonio Rossini (1792-1868), estreada em 1813.
6 “olhar de Lara”: nova referência ao poema de Lord Byron intitulado Lara, a Tale, de 1814, no qual o protagonista é o modelo do típico herói romântico-byroniano.