O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 5 de 119

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O Conde de Monte Cristo

3. Os catalães

— E quem vai nos dar essas notícias?

— Ficaremos na beira da estrada e, pela cara de Dantès, saberemos o que aconteceu.

— Fechado — disse Caderousse. — É você que vai pagar?

— Naturalmente — respondeu Danglars.

E ambos dirigiram-se num passo rápido para o local mencionado. Assim que chegaram, pediram uma garrafa e dois copos O velho Pamphile acabara de ver Dantès passar não fazia dez minutos. Certos de que Dantès estava nos catalães, sentaram-se sob a folhagem nascente dos plátanos e dos sicômoros, em cujos galhos um alegre bando de passarinhos cantava um dos primeiros belos dias da primavera.

1 Vieilles-Infirmeries: em 1761, França, Espanha e os reinos de Nápoles e Parma firmaram um acordo autorizando os marinheiros catalães a pescar livremente na costa marselhesa. Eles ocupariam as antigas instalações de um posto de quarentena, onde os doentes ou suspeitos de doenças recém-chegados ao porto eram examinados e tratados. Desocupado e desinfetado desde 1663, este era conhecido como as “Velhas Enfermarias”.

3. Os catalães

A cem passos do lugar onde os dois amigos, com seus olhares voltados para o horizonte e ouvidos à espreita, degustavam o borbulhante vinho de Málaga, erguia-se, atrás de um morro careca e carcomido pelo sol e o mistral, a aldeia dos catalães.

Um dia, uma colônia misteriosa partiu da Espanha e veio aportar na ponta de terra onde ainda hoje se encontra. Chegava ninguém sabia de onde e falava uma língua desconhecida. Um dos chefes, que entendia o provençal, solicitou à comuna de Marselha que lhes concedesse aquele promontório descampado e árido, para o qual, como os marinheiros antigos, haviam sido atraídos com suas naus. A solicitação foi atendida e, três meses depois, em torno das doze ou quinze naus que haviam transportado aqueles ciganos do mar, uma pequena aldeia se erguia.

Essa aldeia, construída de maneira original e pitoresca, meio mourisca, meio espanhola, é aquela que hoje vemos habitada por descendentes desses homens, que falam a língua de seus pais. Há três ou quatro séculos, permanecem fiéis a esse pequeno promontório, sobre o qual arremeteram como um bando de aves marinhas, sem se misturar em nada à população marselhesa, casando-se entre si e conservando os costumes e as roupas da sua mãe-pátria, bem como seu linguajar.

Convém que nossos leitores nos sigam através da única rua desse vilarejo e entrem conosco numa dessas casas às quais o sol imprimiu, do lado de fora, aquela bonita cor de folha seca típica dos monumentos da região, e, do lado de dentro, uma camada de cal, esta tinta branca que compõe o único ornamento das posadas espanholas.

Uma bonita moça de cabelos negros como azeviche, olhos aveludados como os da gazela, estava de pé recostada numa divisória e esfregava entre seus dedos finos de desenho antigo um inocente ramo de urze, do qual arrancava as flores e cujas partículas espalhavam-se pelo chão. Além disso, seus braços nus até o cotovelo, morenos, mas que pareciam modelados com base

nos da Vênus de Arles1, fremiam numa espécie de impaciência febril, e ela batia no chão com seu pé flexível e em forma de arco, de maneira a revelar a forma pura, orgulhosa e atrevida de sua perna, aprisionada numa meia de algodão vermelho aqui e acolá cinza e azul.

A três passos dela, sentado numa cadeira balançada por um movimento intermitente, com o cotovelo apoiado num velho móvel carcomido, um rapaz alto de vinte ou vinte e dois anos olhava-a com uma expressão em que se digladiavam a preocupação e o despeito; seus olhos interrogavam, mas o olhar firme da moça dominava seu interlocutor.

— Veja bem, Mercedes — dizia o rapaz —, a Páscoa está para chegar, é a época propícia para um casamento; o que você me diz?

— Já lhe respondi cem vezes, Fernand, e você deve ser realmente muito inimigo de si mesmo para me perguntar de novo!

— Pois bem! Repita mais uma vez, eu lhe suplico, repita mais uma vez para que eu possa acreditar. Diga pela centésima vez que recusa o meu amor, aprovado pela sua mãe; explique-me por que brinca com a minha felicidade, que a minha vida e minha morte nada representam para você.

Meu Deus! Ter sonhado dez anos em ser seu marido, Mercedes, e perder esta esperança que era o único objetivo da minha vida!

— Admita que não fui eu que alimentei tal esperança, Fernand —

respondeu Mercedes. — Não lhe dirigi uma única galanteria de que pudesse me recriminar. Sempre lhe disse: “Gosto de você como um irmão, mas jamais exija de mim outra coisa que não essa amizade fraterna, pois meu coração pertence a outro.” Não lhe disse sempre isso, Fernand?

— Sim, sei muito bem disso, Mercedes — respondeu o rapaz. — Sim, você me dispensou o cruel mérito da franqueza; mas está se esquecendo de que entre os catalães há uma lei sagrada que os obriga a casar entre si?

— Está enganado, Fernand, não é uma lei, é um costume, só isso; e, por favor, não invoque esse costume em benefício próprio. Você foi recrutado; a liberdade de que desfruta é uma simples tolerância; de uma hora para outra, pode ser convocado. Uma vez soldado, que fará de mim, isto é, de uma simples órfã, triste, sem fortuna, cujo patrimônio consiste num casebre quase em ruínas, com algumas redes em fiapos penduradas, miserável herança deixada pelo meu pai para minha mãe e pela minha mãe para mim? Já faz um ano que ela morreu; veja então, Fernand, que vivo praticamente da caridade pública! Às vezes você finge que eu lhe sou útil, e isso para ter o direito de dividir seu pescado comigo; e eu aceito, porque você é filho de um meio-irmão do meu pai, porque fomos criados juntos e, mais ainda, porque, acima de tudo, você sofreria muito se eu recusasse.

Mas percebo claramente que esse peixe que vou vender e do qual tiro dinheiro para comprar o cânhamo que teço, percebo claramente, Fernand, que é uma caridade.

— E qual é o problema, Mercedes, se, mesmo pobre e sozinha, você me agrada mais que a filha do mais orgulhoso armador ou do mais rico banqueiro de Marselha? Afinal, que mais posso desejar além de uma mulher honesta e uma boa dona-de-casa? Onde encontraria alguém melhor que você nesses dois aspectos?

— Fernand, qualquer uma torna-se péssima dona-de-casa e não pode garantir sua honestidade quando ama um homem que não seu marido —

respondeu Mercedes balançando a cabeça. — Contente-se com a minha amizade, pois, repito, é tudo que lhe posso prometer, e só prometo o que tenho certeza de poder dar.

— Entendo — disse Fernand —, você suporta pacientemente sua miséria, mas tem medo da minha. Pois bem, Mercedes, se me amar, buscarei a fortuna; você me trará felicidade, ficarei rico. Posso prolongar minha licença de pescador, posso entrar para uma repartição, posso até ser comerciante!

— Não pode fazer nada disso, Fernand; você é soldado e, se está entre os catalães, é porque não há guerra. Portanto, continue pescador; não alimente sonhos que lhe fariam a realidade parecer ainda mais terrível e contente-se com a minha amizade, uma vez que não lhe posso dar outra coisa.

— Você tem razão, Mercedes, serei marinheiro; usarei, em vez das roupas dos nossos pais que você despreza, um quepe reluzente, uma camisa listrada e um paletó azul com âncoras nos botões. Não é assim que alguém deve se vestir para agradá-la?

— Que quer dizer com isso? — perguntou Mercedes, lançando um olhar imperioso. — Que quer dizer com isso? Não compreendo suas palavras.

— Quero dizer, Mercedes, que a senhorita só é tão dura e cruel comigo porque espera alguém que se veste assim. Mas este que a senhorita espera talvez seja inconstante e, se não o for, o mar o é por ele.

— Fernand — exclamou Mercedes —, eu o julgava bom e estava enganada! Você é um coração cruel, que para reforçar seu ciúme invoca a cólera de Deus! Pois fique sabendo, sim, não escondo, espero e amo este de quem fala e, caso ele não volte, em vez de recriminar a inconstância que você sugere, direi que ele morreu me amando.

O jovem catalão fez um gesto de raiva.

— Eu o compreendo, Fernand: você o culpa por eu não amá-lo; cruzaria sua faca catalã contra seu punhal! A que isso o levará? A perder minha

amizade se for o derrotado, a ver minha amizade transformar-se em ódio se for o vencedor. Creia-me, buscar confusão com um homem é o pior recurso para seduzir a mulher que ama esse homem. Não, Fernand, você não se entregará a esses pensamentos funestos. Impedido de me possuir como mulher, você se contentará com uma amiga e uma irmã. Aliás —

acrescentou ela, com os olhos embaçados e marejados de lágrimas —, espere, espere, Fernand; você disse tudo ainda há pouco, o mar é pérfido, e já se vão três meses que ele partiu; quantas tempestades já contei nestes três meses!

Fernand permaneceu impassível, sem procurar enxugar as lágrimas que corriam pelas faces de Mercedes; e, entretanto, para cada uma daquelas lágrimas teria dado um copo do seu sangue; mas elas corriam por outro.

O rapaz se levantou, deu uma volta no casebre e voltou, plantando-se diante de Mercedes, o olho ameaçador e as mãos crispadas.

— Muito bem, Mercedes — disse ele —, responda mais uma vez: é a sua última palavra?

— Amo Edmond Dantès — disse friamente a moça —, e nenhum outro a não ser Edmond será meu esposo.

— E o amará para sempre?

— Enquanto eu viver.

Fernand abaixou a cabeça feito um homem desenganado e soltou um suspiro semelhante a um gemido; em seguida, lentamente erguendo a fronte, com os dentes cerrados e as narinas entreabertas, perguntou:

— Mas e se ele estiver morto?

— Se ele estiver morto, eu morrerei.

— E se ele a esquecer?

— Mercedes! — gritou uma voz alegre do lado de fora da casa. —

Mercedes!

— Ah! — exclamou a moça, corando de felicidade e saltitante de amor.

— Como pode ver, ele não me esqueceu e acaba de chegar!

E lançou-se para a porta, que abriu, exclamando:

— Aqui, Edmond! Estou aqui.

Fernand, pálido e trêmulo, recuou, como faz um viajante ao deparar com uma serpente, e, reencontrando sua cadeira, nela caiu sentado.

Edmond e Mercedes estavam nos braços um do outro. O sol inclemente de Marselha, que penetrava pelo vão da porta, inundava-os como uma maré de luz. Naquele instante não viram nada do que os cercava. Uma

imensa felicidade isolava-os do mundo e não falavam senão por aquelas palavras entrecortadas que são os arroubos de uma alegria tão intensa que parecem a expressão da dor.

De repente Edmond percebeu a fisionomia sombria de Fernand, que se desenhava na sombra, pálida e ameaçadora; com um movimento de que ele próprio não se dera conta, o jovem catalão tinha a mão na faca atravessada em sua cinta.

— Ah! Desculpe — disse Dantès, franzindo o cenho por sua vez —, eu não havia notado que éramos três.

Em seguida, voltando-se para Mercedes:

— Quem é este cavalheiro? — perguntou.

— Este cavalheiro será o seu melhor amigo, Dantès, pois é meu amigo, é meu primo, é meu irmão; é Fernand; isto é, o homem a quem, depois de você, Edmond, eu mais amo no mundo. Não o reconhece?

— Ah, claro! — disse Edmond.

E, sem abandonar Mercedes, cuja mão segurava em uma das suas, estendeu a outra mão ao catalão num gesto de cordialidade.

Mas Fernand, longe de responder a esse gesto amistoso, continuou mudo e imóvel como uma estátua.

Então Edmond passeou seu olhar investigativo de Mercedes, nervosa e trêmula, a Fernand, sombrio e ameaçador.

Este único olhar compreendeu tudo.

A raiva ficou estampada em seu rosto.

— Eu não sabia que vinha com tanta pressa à sua casa, Mercedes, para encontrar um inimigo.

— Um inimigo! — exclamou Mercedes com um olhar furioso para o primo. — Um inimigo na minha casa, é isso que pensa, Edmond! Se eu acreditasse nisso, eu lhe daria o braço e iria a Marselha para nunca mais voltar.

Os olhos de Fernand lançaram uma centelha.

— E se lhe acontecesse uma desgraça, querido Edmond — continuou ela, com a mesma fleugma implacável que provava a Fernand que a moça lera até o mais profundo de seu sinistro pensamento —, se lhe acontecesse uma desgraça, eu subiria ao cabo de Morgion e me atiraria de cabeça sobre os rochedos.

Fernand ficou terrivelmente pálido.

— Mas você está enganado, Edmond —, prosseguiu ela —, você não tem nenhum inimigo aqui; aqui só há Fernand, meu irmão, que vai apertar sua mão como um amigo fiel.

Com essas palavras, a moça fixou sua expressão imperiosa sobre o catalão, que, como se fascinado por aquele olhar, aproximou-se lentamente de Edmond e lhe estendeu a mão.

Seu ódio, semelhante a uma vaga impotente, embora furiosa, veio se quebrar contra a ascendência que aquela mulher exercia sobre ele.

Mas mal tocara a mão de Edmond, percebeu que fizera tudo que podia ser feito e se lançou para fora da casa.

— Oh! — exclamava, correndo como um insensato e afogando as mãos nos cabelos. — Oh! Quem me livrará desse homem? Como sou infeliz!

Como sou infeliz!

— Ei, catalão! Ei, Fernand! Para onde corre assim? — disse uma voz.

O rapaz parou prontamente, olhou à sua volta e avistou Caderousse abancado com Danglars sob um dossel de folhagem.

— Ei! Por que não vem até aqui? Está com tanta pressa que não tem tempo nem para dar bom-dia aos amigos?

— Ainda mais quando eles ainda têm uma garrafa quase cheia diante de si... — acrescentou Danglars.

Fernand olhou para os dois homens com um ar aturdido, sem nada responder.

— Ele parece arrasado — disse Danglars, cutucando o joelho de Caderousse. — Será que nos enganamos e que, ao contrário do que prevíamos, Dantès triunfou?

— Raios! Precisamos averiguar — disse Caderousse. E voltando-se para o rapaz:

— Ora, vejamos, catalão, já se decidiu? — perguntou.

Fernand enxugou o suor que escorria de sua testa e entrou lentamente sob o caramanchão, cuja sombra pareceu devolver um pouco de calma aos seus sentidos e o frescor, um pouco de bem-estar ao seu corpo esgotado.

— Bom-dia — disse ele — vocês me chamaram?

E caiu mais que sentou em um dos assentos que cercavam a mesa.

— Chamei porque você corria como um louco e receei que fosse se jogar no mar — gracejou Caderousse. — Que diabos! Quando temos amigos, não é apenas para lhes oferecer um copo de vinho, mas também para impedi-los de beber cinco ou seis litros d’água.

Fernand soltou um gemido semelhante a um soluço e deixou a cabeça cair sobre seus pulsos, cruzados sobre a mesa.

— Pois bem! Quer saber de uma coisa, Fernand? — emendou Caderousse, dando início à conversa com a brutalidade grosseira das pessoas do povo, às quais a curiosidade faz esquecer qualquer diplomacia.

— Pois bem! Você parece um namoradinho choraminguento!

E acompanhou a pilhéria com uma gargalhada.

— Ora — respondeu Danglars —, um moço bonito assim não foi feito para ser infeliz no amor, deixe de história, Caderousse.

— Eu insisto — respondeu este —, ouça como ele suspira. Vamos, vamos, Fernand — disse Caderousse —, empine o nariz e nos responda, afinal, não é educado ficar sem responder aos amigos que nos pedem notícias de nossa saúde.

— Minha saúde vai bem — disse Fernand crispando os punhos, mas sem levantar a cabeça.

— Ah! Está vendo, Danglars — disse Caderousse, dando uma olhadela significativa para o amigo —, o negócio é o seguinte: Fernand, aqui diante de você, e que é um bom e bravo catalão, um dos melhores pescadores de Marselha, está apaixonado por uma bela moça chamada Mercedes; porém, infelizmente parece que a bela moça, de sua parte, está apaixonada pelo imediato do Pharaon; e como o Pharaon atracou precisamente hoje... dá para entender?

— Não, não entendo — disse Danglars.

— O pobrezinho do Fernand deve ter sido dispensado — continuou Caderousse.

— E daí? — reagiu Fernand, levantando a cabeça e olhando para Caderousse como alguém que procura em quem despejar sua raiva. —

Afinal, Mercedes não depende de ninguém e é livre para amar quem lhe aprouver.

— Ah, se você vê por esse lado — disse Caderousse —, é outra coisa!

Mas eu o julgava um catalão, e me haviam dito que os catalães não eram homens que se deixassem suplantar por um rival; haviam até acrescentado que Fernand era o mais terrível em suas vinganças.

Fernand sorriu tristemente — Um apaixonado nunca é terrível —

declarou.

— Pobre rapaz! — volveu Danglars, fingindo se compadecer daquele jovem do fundo de seu coração. — O que você queria? Ele não esperava a

volta repentina de Dantès; talvez o julgasse morto, infiel, sabe lá! Essas coisas são ainda mais delicadas quando nos acontecem de forma brusca.

— Ah, meu Deus, em todo caso — disse Caderousse, que bebia sem parar enquanto falava e sobre quem o vinho vaporoso de Málaga começava a fazer efeito —, Fernand não é o único a quem o auspicioso retorno de Dantès contraria; não é mesmo, Danglars?

— Não, é verdade, e eu quase me atreveria a dizer que isso trará desgraça a Edmond.

— Mas tanto faz — continuou Caderousse, servindo um copo de vinho para Fernand e enchendo o seu próprio pela oitava ou décima vez, enquanto Danglars mal roçara o seu. — Antes disso ele se casa com Mercedes, a bela Mercedes; pelo menos voltou para isso.

Enquanto isso Danglars envolvia com um olhar penetrante o rapaz, em cujo coração as palavras de Caderousse caíam como chumbo derretido.

— E quanto ao casamento? — perguntou.

— Oh, ainda não foi realizado! — murmurou Fernand.

— Não, mas será — disse Caderousse —, isso é tão verdadeiro quanto é verdade que Dantès será o capitão do Pharaon, não é, Danglars?

Danglars estremeceu com essa inesperada estocada e voltou-se para Caderousse, cujo semblante estudou para ver se o golpe fora premeditado; mas não leu nada a não ser inveja naquele rosto já quase idiotizado pela embriaguez.

— E quanto ao casamento?

— Pois muito bem! — disse, enchendo os copos. — Bebamos então ao capitão Edmond Dantès, marido da bela catalã!

Caderousse levou seu copo à boca com a mão pesada e o bebeu de um trago. Fernand pegou o seu e o espatifou no chão.

— Ei! Ei! Ei! — fez Caderousse. — Que vejo agora ao longe, no alto da colina, na direção dos catalães? Olhe Fernand, você tem a vista melhor que a minha; acho que começo a ver embaçado, e, você sabe, o vinho é um traidor. Parecem dois amantes caminhando lado a lado e de mãos dadas.

Deus me perdoe! Eles não sabem que estamos olhando e estão se beijando!

Danglars não perdia nada do sofrimento de Fernand, cuja fisionomia se decompunha a olhos vistos.

— Conhece-os, sr. Fernand? — ele disse.

— Sim — este respondeu com uma voz rouca —, são Edmond e Mercedes.

— Mas que coisa! — disse Caderousse. — E eu que não os reconheci!

Olá, Dantès! Olá, moça bonita! Cheguem até aqui um pouquinho e digamnos para quando é o casamento, pois aqui está o sr. Fernand, que é tão cabeçudo que não quer nos contar.

— Quer se calar!? — disse Danglars, fingindo conter Caderousse, que, com a tenacidade dos beberrões, debruçava-se para fora das folhagens. —

Trate de manter a compostura e deixe os namorados se amarem sossegadamente. Tome a sensatez do sr. Fernand como exemplo. Ele sim é sensato.

Tudo levava a crer que Fernand, levado ao limite e espicaçado por Danglars como o touro pelos banderilleros, fosse finalmente arremeter, pois já se levantara e parecia juntar os próprios cacos para pular sobre o rival; mas Mercedes, risonha e empertigada, ergueu sua bela cabeça e irradiou seu claro olhar; Fernand então se lembrou da ameaça que ela fizera, de morrer caso Edmond morresse, e voltou a cair prostrado em seu assento.

Danglars olhou alternadamente para aqueles dois homens: um, alquebrado pela embriaguez, o outro, dominado pelo amor.

— Não vou conseguir nada com esses dois bobalhões — murmurou —, e tenho medo de ficar aqui entre um beberrão e um poltrão; eis um ciumento embriagando-se com vinho quando deveria fazê-lo com fel; eis um grande imbecil de quem tomam a amante debaixo do seu nariz e que se contenta em chorar e reclamar como uma criança. E no entanto ele nos cravejava olhos flamejantes como aqueles espanhóis, sicilianos e calabreses que adoram uma vingança; tem punhos capazes de esmagar a cabeça de um boi tão certamente como o faria o porrete de um açougueiro.

Decididamente, a sorte de Edmond vai prevalecer; ele desposará a moça bonita, será capitão e zombará de nós; a menos que... — um sorriso lívido desenhou-se nos lábios de Danglars —, a menos que eu me intrometa —

acrescentou.

— Olá! — continuava a gritar Caderousse, tentando ficar de pé e com as mãos sobre a mesa. — Olá! Edmond! Será que não enxerga os amigos ou

já será o excesso de orgulho que o impede de lhes dirigir a palavra?

— Nada disso, meu caro Caderousse — respondeu Dantès —, não sou orgulhoso, mas estou feliz, e acho que a felicidade cega ainda mais que o orgulho.

— Eis uma explicação bem a propósito! — disse Caderousse. — Ora!

bom-dia, senhora Dantès.

Mercedes saudou gravemente.

— Este ainda não é o meu nome — disse ela —, na minha terra dizem que isso traz desgraça, chamar as moças pelo nome do noivo antes que o noivo seja seu marido. Então, por favor, me chame de Mercedes.

— Temos que desculpar o nosso bom vizinho Caderousse — disse

Dantès —, é um engano tão pequeno!

— Então, as bodas são para já, sr. Dantès? — perguntou Danglars, cumprimentando os dois jovens.

— O mais rápido possível, sr. Danglars; hoje, todas as formalidades na casa do meu pai e, amanhã ou depois, no mais tardar, o almoço de noivado, aqui, no La Réserve. Os amigos virão, espero; isso significa que está convidado, sr. Danglars; significa que você também está, Caderousse.

— E Fernand — disse Caderousse, dando uma risada pastosa —,

Fernand também está?

— O irmão da minha mulher é meu irmão — disse Edmond —, e nós veríamos com profundo pesar, Mercedes e eu, sua ausência num momento como esse.

Fernand abriu a boca para responder, mas a voz expirou em sua garganta e ele não conseguiu articular uma única palavra.

— Hoje, as formalidades, amanhã ou depois de amanhã o noivado...

Diabos! Está com pressa, capitão.

— Danglars — replicou Edmond sorrindo —, repito o que Mercedes dizia agorinha mesmo a Caderousse: não me dê o título que ainda não me cabe, isso me traria má sorte.

— Desculpe — respondeu Danglars —, eu então dizia simplesmente que o senhor parecia com pressa. Que diabos! Temos tempo: o Pharaon não levantará ferros antes de três meses.

— Sempre temos pressa em ser felizes, sr. Danglars; quando se sofreu durante muito tempo temos grande resistência em acreditar na felicidade.

Mas não é apenas o egoísmo que me faz agir: preciso ir a Paris.

— Não diga? A Paris? E é a primeira vez que vai lá, Dantès?

— É.

— Algum compromisso?

— Não do meu interesse: uma última missão do nosso saudoso capitão Leclère a cumprir; compreenda, Danglars, isso é sagrado. Aliás, fique tranqüilo, vou e volto.

— Sim, sim, compreendo — disse bem alto Danglars. Depois, baixinho:

— Para Paris, a fim de entregar a seu destinatário a carta que o grãomarechal lhe passou. Minha nossa! Essa carta me dá uma idéia, uma excelente idéia! Ah! Dantès, meu amigo, você ainda não foi matriculado com o número 1 no livro de registro do Pharaon.

Então, voltando-se para Edmond, que já se afastava:

— Boa viagem! — gritou.

— Obrigado — respondeu Edmond virando a cabeça e acompanhando o gesto com um aceno amistoso.

Os dois noivos continuaram seu caminho, serenos e alegres como dois eleitos que sobem ao céu.

1 Vênus de Arles: réplica em mármore de um modelo helenístico do séc. I a.C., por sua vez cópia de um original de Praxíteles (séc.V. a.C.), a estátua de uma Vênus descoberta em Arles já foi vista como idealização de uma Diana Caçadora. Encontra-se hoje no museu do Louvre.