O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 79 de 119

Páginas do PDF

O Conde de Monte Cristo

20. Haydée

— Mais que nunca.

— Muito bem.

O conde fez um sinal para Albert.

Ambos cumprimentaram as damas e saíram; Albert, com uma expressão completamente indiferente pelo menosprezo da srta. Danglars, Monte Cristo, reiterando à sra. Danglars seus conselhos sobre a prudência que deve ter uma mulher de banqueiro ao garantir seu futuro.

O sr. Cavalcanti reinou sozinho no campo de batalha.

1 Minerva: deusa latina da sabedoria, das artes e da guerra.

2 Safo: poetisa grega (c.612/630 a.C.-??). Faz-se referência aqui ao tema, já anunciado, da homossexualidade feminina, muitas vezes associado a Safo.

3 Peruggino: Pietro Peruggino (1446-1524), líder da escola Umbra de pintura durante a Renascença italiana.

4 “Antonia do Violino de Cremona”: personagem do conto O violino de Cremona, de 1812, de E.T.A. Hoffmann (ver Parte I, cap.9, nota 40). Na história, Antonia tem uma voz de beleza sobrenatural, mas os médicos proíbem-na de cantar, pois caso contrário morreria.

5 “como diz Cláudio a Hamlet”: a frase que Hamlet ouve do tio, assassino de seu pai e que lhe usurpou o direito natural de sucessão ao casar com sua mãe, é: “Mas, bem sabes, teu pai perdeu o pai;/ Esse perdeu o dele; essa é a cadeia”, ato I, cena 2.

6 Thalberg: Sigismund Thalberg (1812-71), pianista virtuose que, em 1836, deu uma série de concertos em Paris.

20. Haydée Assim que os cavalos do conde viraram a esquina do bulevar, Albert voltou-se para o conde e caiu numa gargalhada excessivamente ruidosa para não ser um pouco forçada.

— Muito bem! — disse ele. — Perguntolhe agora, como o rei Carlos IX

perguntava a Catarina de Medici depois do São Bartolomeu1: “Que tal me saí no meu papel?”

— Do que está falando? — perguntou Monte Cristo.

— Ora, da instalação do meu rival na casa do sr. Danglars...

— Que rival?

— Como assim? Que rival?! Seu protegido, o sr. Andrea Cavalcanti!

— Oh, não me venha com piadas de mau gosto, visconde. Não protejo de forma alguma o sr. Andrea, pelo menos junto ao sr. Danglars.

— Esta seria a censura que eu lhe faria se o rapaz precisasse de proteção. Mas, felizmente para mim, ele pode prescindir disso.

— Como! Acredita que ele a está cortejando?

— Digo apenas isto: ele revira os olhos suspirando e modula sons de apaixonado; ele aspira à mão da altiva Eugénie. Desculpe, acabo de cometer um verso! Palavra de honra, não é culpa minha. Não importa, repito: ele aspira à mão da altiva Eugénie.

— Qual a importância disso, se só pensam em você?

— Não fale uma coisa dessas, meu caro conde; sou maltratado dos dois lados.

— Como assim? Dos dois lados?

— Pois é: a srta. Eugénie mal falou comigo e a srta. d’Armilly, sua confidente, simplesmente não falou.

— Sim, mas o pai o adora — disse Monte Cristo.

— Ele? Muito pelo contrário, enfiou mil punhais no meu coração; punhais retráteis, punhais de tragédia, mas que ele julga agudos e muito reais.

— Ciúme sugere afeição.

— Ora, não estou com ciúme.

— Mas ele está.

— De quem? De Debray?

— Não, do senhor.

— De mim? Aposto que em menos de uma semana ele me fechará a porta no nariz.

— Está enganado, meu caro visconde.

— Pode provar?

— Quer?

— Sim.

— Estou encarregado de pedir ao sr. conde de Morcerf que formalize um compromisso definitivo junto ao barão.

— Por quem?

— Pelo próprio barão.

— Oh! — exclamou Albert, e depois, usando de toda a sedução de que era capaz. — O senhor não fará uma coisa dessas, não é mesmo, meu caro conde?

— Está enganado, Albert, vou fazê-lo, uma vez que prometi.

— É — lamentou Albert com um suspiro —, parece que o senhor faz questão absoluta de me casar.

— Faço questão de estar bem com todo mundo; e, a propósito de Debray, não o vejo mais na casa da baronesa.

— Houve uma briga.

— Com a senhora?

— Não, com o senhor.

— Ele então percebeu alguma coisa?

— Ah! Boa piada!

— Acha que desconfiava? — fez Monte Cristo, com uma ingenuidade encantadora.

— E essa agora! Mas de onde o senhor vem, meu caro conde?

— Do Congo, se preferir.

— Ainda não é longe o bastante.

— Devo então conhecer os maridos parisienses?

— Ora, meu caro conde, os maridos são iguais em toda parte. A partir do momento em que estudamos o indivíduo de um determinado país, conhecemos a raça inteira.

— Mas qual pode ter sido a causa da briga entre Danglars e Debray?

Eles pareciam entender-se tão bem — disse Monte Cristo, enfatizando a ingenuidade — Ah, pronto! Entramos nos mistérios de Ísis, e não sou iniciado. Quando o sr. Cavalcanti filho for da família, pergunte-lhe isso.

O coche parou.

— Chegamos — disse Monte Cristo. — São apenas dez e meia, não quer entrar?

— Será um prazer.

— Meu coche o levará depois.

— Não, obrigado, meu cupê deve ter nos seguido.

— Realmente, ei-lo que chega — disse Monte Cristo, apeando. Ambos penetraram na casa. O salão estava iluminado, entraram.

— Prepare um chá para nós, Baptistin — disse Monte Cristo.

Baptistin saiu sem dizer uma palavra. Dois segundos depois, reapareceu com uma bandeja tão arrumada que, como as refeições das peças feéricas, parecia brotar do chão.

— Na realidade — disse Morcerf —, o que admiro no senhor, meu caro barão, não é sua riqueza, talvez haja pessoas mais ricas; não é

sua espirituosidade, Beaumarchais2 não o superava nisso, mas tinha o equivalente; é a sua maneira de ser servido, sem que lhe digam uma palavra, no mesmo minuto, no mesmo segundo, como se adivinhassem, pela maneira como o senhor bate no grego, o que deseja ter, e como se o que desejasse estivesse sempre pronto.

— O que o senhor diz é um pouco verdade. Meus hábitos são conhecidos. Por exemplo, veja: não deseja fazer alguma coisa enquanto toma chá?

— Caramba, desejo fumar.

Monte Cristo aproximou-se do gongo e deu uma batida.

Ao cabo de um segundo, uma porta especial se abriu e Ali apareceu

com dois chibuques, ambos recheados com excelente latakia3.

— Não, é muito simples — explicou Monte Cristo. — Ali sabe que geralmente eu fumo enquanto tomo chá ou café; sabe que eu pedi chá, sabe que cheguei com o senhor, ouve-me chamá-lo, indaga-se pela causa e, como é de um país onde a hospitalidade é exercida sobretudo com o cachimbo, em vez de um chibuque, ele traz dois.

— Muito bem, é uma explicação como outra qualquer. Contudo nem por isso deixa de ser verdade que apenas o senhor... Oh, mas o que ouço?

E Morcerf inclinou-se para a porta, pela qual entravam efetivamente sons correspondentes aos de um violão.

— Puxa, meu caro visconde, esta noite o senhor está condenado à música. Escapou do piano da srta. Danglars para cair na guzla de Haydée.

— Haydée! Que nome adorável! Então realmente existem mulheres

que se chamam Haydée4 sem ser nos poemas de Lord Byron?

— Mas claro; Haydée é um nome muito raro na França, mas muito comum na Albânia e no Épiro; é como se o senhor dissesse, por exemplo, castidade, pudor, inocência; é uma espécie de nome de batismo, como dizem os parisienses.

— Oh, que simpático! — disse Albert. — Como eu gostaria que nossas francesas se chamassem srta. Bondade, srta. Silêncio, srta. Caridade Cristã! Não acha que se a srta. Danglars, em vez de se chamar Claire-Marie-Eugénie, como se chama, se chamasse srta. Castidade-Pudor-Inocência Danglars, caramba, que efeito isso faria num convite de casamento!

— Louco! — disse o conde. — Não zombe tão alto, Haydée poderia ouvi-lo.

— E ela se zangaria?

— Claro que não — disse o conde altivamente.

— É boa pessoa? — perguntou Albert.

— Não é bondade, é dever. Uma escrava não se zanga com seu amo.

— Ora, deixe disso! O senhor também está zombando... Será que ainda existem escravos?

— Sem dúvida, uma vez que Haydée é a minha.

— Com efeito, o senhor não faz nada e não tem nada igual ao comum dos mortais. Escrava do sr. conde de Monte Cristo! Isso dá status na França. Da maneira como o senhor nada em ouro, é um lugar que deve valer cem mil escudos por ano.

— Cem mil escudos! A pobre criança já teve mais que isso; ela veio ao mundo deitada sobre tesouros ao lado dos quais os das Mil e uma noites são uma ninharia.

— É então uma princesa de verdade?

— Já que o senhor está dizendo, acrescento que é uma das maiores de seu país.

— Eu suspeitava. Mas como uma grande princesa veio a tornar-se escrava?

— Como Dionísio, o Tirano5 tornou-se professor primário? O acaso da guerra, meu caro visconde, o capricho do destino.

— E o nome dela é um segredo?

— Para os outros, sim; mas não para o senhor, caro visconde, que é meu amigo e se calará, não é mesmo? Se prometer se calar...

— Oh! Palavra de honra!

— Conhece a história do paxá de Janina?

— De Ali Tebelin: claro, uma vez que foi no seu serviço que meu pai fez fortuna.

— É verdade, tinha esquecido.

— Muito bem! O que Haydée é de Ali Tebelin?

— Sua filha, simplesmente.

— Como! Filha de Ali Paxá?

— E da bela Vasiliki.

— E ela é sua escrava?

— Oh, meu Deus, sim!

— Como pode?

— Ora! Quando estava passando pelo bazar de Constantinopla, eu a comprei.

— Esplêndido! Com o senhor, meu caro conde, não se vive, sonha-se.

Agora, ouça, é muito indiscreto o que vou lhe pedir.

— Continue.

— Porém, uma vez que o senhor sai com ela, uma vez que a leva ao Opéra...

— E então...

— Posso correr o risco de lhe pedir isso?

— Pode correr o risco de me pedir tudo.

— Pois bem! Apresente-me à sua princesa, meu caro conde.

— Será um prazer; mas com duas condições.

— Aceito-as antecipadamente.

— A primeira é nunca contar a ninguém acerca dessa apresentação.

 

Vasiliki.

— Muito bem — disse Morcerf, estendendo a mão —, eu juro.

— A segunda é não lhe contar que seu pai trabalhou para o dela.

— Juro também.

— Perfeito, visconde, irá lembra-se desses dois juramentos, não é?

— Oh! — fez Albert.

— Ótimo. Sei que é um homem de honra.

O conde fez o gongo vibrar novamente; Ali reapareceu.

— Avise a Haydée — disse-lhe — que vou tomar o café em seus aposentos e faça-a compreender que peço permissão para lhe apresentar um amigo.

Ali inclinou-se e saiu.

— Estamos então combinados, meu caro visconde, nada de perguntas diretas. Se desejar saber alguma coisa, pergunte a mim que eu pergunto a ela.

— Combinado.

Ali reapareceu pela terceira vez e manteve o reposteiro erguido, para indicar a seu amo e a Albert que podiam passar.

— Entremos — disse Monte Cristo.

Albert passou uma das mãos nos cabelos e frisou o bigode, o conde pegou seu chapéu, pôs as luvas e precedeu Albert nos aposentos vigiados por Ali, como sentinela avançada, e defendidos, como um corpo de guarda, pelas três camareiras francesas supervisionadas por Myrto.

Haydée os aguardava no primeiro cômodo, que era o salão, com os olhos arregalados pela surpresa. Era a primeira vez que outro homem sem ser Monte Cristo chegava até ela. Estava sentada num sofá, num canto, pernas cruzadas sob o corpo, e construíra para si, por assim dizer, um ninho, nos estofamentos de seda com os mais exuberantes listrados e bordados do Oriente. Tinha por perto o instrumento cujos sons haviam-na denunciado; ficava encantadora assim.

Ao perceber Monte Cristo, ela se levantou com o duplo sorriso de filha e amante que era só dela; Monte Cristo foi em sua direção e estendeu-lhe a mão, na qual, como sempre, ela pousou os lábios.

Albert permanecera próximo à porta, sob a influência daquela beleza estranha que via pela primeira vez e a qual, na França, sequer era concebível.

— Quem o senhor traz aqui? — perguntou em romaico a moça a Monte Cristo. — Um irmão, um amigo um simples conhecido, ou um inimigo?

— Um amigo — disse Monte Cristo na mesma língua.

— Seu nome?

— Conde Albert, aquele que tirei das garras dos bandidos em Roma.

— Em que língua devo dirigir-me a ele? Monte Cristo voltou-se para Albert:

— O senhor fala o grego moderno? — perguntou ao rapaz.

— Quem me dera! — disse Albert. — Sequer grego antigo, meu caro conde. Nunca Homero e Platão tiveram mais modesto, e me atreveria a dizer mais negligente, aluno.

— Neste caso — disse Haydée, demonstrando, por suas próximas palavras, que entendera a pergunta de Monte Cristo e a resposta de Albert

—, falarei em francês ou italiano, se porventura meu amo quiser que eu fale.

Monte Cristo refletiu um instante:

— Fale em italiano — ordenou. Depois, voltando-se para Albert:

— Pena o senhor não entender nem o grego moderno nem o grego antigo, pois Haydée fala ambos admiravelmente. Esta pobre criança será obrigada a falar em italiano, o que talvez lhe dê uma falsa idéia de sua pessoa.

Ele fez um sinal para Haydée.

— Seja bem-vindo o amigo que vem com meu amo e senhor — saudou a moça num excelente toscano, com o leve sotaque romano que faz a língua de Dante tão sonora quanto a de Homero. — Ali! Café e cachimbos!

E Haydée fez com a mão um sinal para Albert aproximar-se, enquanto Ali saía para executar as ordens da jovem patroa.

Monte Cristo apontou para Albert dois assentos de armar e cada um foi pegar o seu para aproximá-lo de uma espécie de mesinha alta, cujo centro era ocupado por um narguilé, tendo em volta uma profusão de flores naturais, desenhos e álbuns de música.

Ali voltou, trazendo o café e os chibuques; quanto ao sr. Baptistin, era vedado seu acesso a essa parte dos aposentos.

Albert recusou o cachimbo que o núbio lhe apresentava.

— Oh, aceite, aceite. — disse Monte Cristo. — Haydée é quase tão civilizada quanto um parisiense: não aprecia o havana, uma vez que não gosta de cheiros desagradáveis; mas o tabaco do Oriente é um perfume, como sabe.

Ali saiu.

As xícaras de café fumegavam; um açucareiro fora trazido exclusivamente para Albert. Monte Cristo e Haydée tomavam a beberagem árabe à maneira dos árabes, isto é, sem açúcar.

Haydée esticou a mão e pegou com a ponta de seus minúsculos dedos róseos e afilados a xícara de porcelana japonesa, que levou aos lábios com o ingênuo prazer da criança que bebe ou come uma coisa que adora.

Ao mesmo tempo, entraram duas mulheres, portando duas outras bandejas carregadas de sorvetes, que depositaram em duas mesinhas destinadas a esse uso.

— Meu caro anfitrião, minha signora — disse Albert, em italiano —, desculpem minha estupefação. Estou absolutamente aturdido, o que é bastante compreensíve. Eis que me vejo no Oriente, o verdadeiro Oriente, não infelizmente tal como o vi, mas tal como o sonhei, no coração de Paris. Ainda há pouco eu ouvia o barulho dos transportes coletivos e o tilintar das campainhas dos vendedores de limonada. Oh, signora...!

Apesar de eu não saber falar grego, sua companhia, aliada a esse clima mágico, é o suficiente para eu ter uma noite inesquecível.

— Falo bastante bem o italiano para conversar com o senhor — disse tranqüilamente Haydée —, e farei o que puder, já que ama o Oriente, para que o encontre aqui.

— Do que posso falar? — perguntou baixinho Albert a Monte Cristo.

— Ora, de tudo que quiser: do seu país, da sua mocidade, das suas recordações, ou, se preferir, de Roma, Nápoles ou Florença.

— Oh — disse Albert —, não vale a pena ter uma grega à sua frente para conversar sobre o que conversaríamos com uma parisiense.

Permitame abordar o Oriente.

— Claro, meu caro Albert, esté é o assunto que ela mais gosta. Albert voltou-se para Haydée.

— Com que idade a signora deixou a Grécia? — perguntou. — Aos cinco anos — respondeu Haydée.

— E lembra-se de sua pátria?

— Quando fecho os olhos, revejo tudo que vi. Existem dois olhares: o olhar do corpo e o olhar da alma. O olhar do corpo às vezes esquece, mas o da alma sempre se lembra.

— E qual é a época mais remota de que se lembra?

— Eu mal sabia andar; minha mãe, que era chamada de Vasiliki; Vasiliki significa real — acrescentou a moça levantando a cabeça —, minha mãe pegava minha mão e, ambas cobertas com um véu, depois de colocarmos no fundo da bolsa todo o ouro que possuíamos, íamos pedir esmola para dar aos prisioneiros, dizendo: “Quem dá aos pobres empresta a Deus.” Então, quando nossa bolsa estava cheia, voltávamos para o palácio e, sem dizer nada ao meu pai, enviávamos todo esse dinheiro que nos haviam dado,

tomando-nos por mulheres pobres, ao hegúmeno6 do convento, que o distribuía aos prisioneiros.

— E que idade tinha nessa época?

— Três anos — disse Haydée.

— Então lembra-se de tudo que aconteceu à sua volta desde a idade de três anos?

— Tudo.

— Conde — sussurrou Morcerf a Monte Cristo —, o senhor devia permitir à signora que nos contasse alguma coisa de sua história. O senhor

me proibiu de falar no meu pai, mas talvez ela o mencione, e não faz idéia de como eu ficaria feliz se ouvisse seu nome sair de boca tão graciosa.

Monte Cristo voltou-se na direção de Haydée e, com um sinal da sobrancelha, indicando que ela deveria prestar muita atenção na recomendação que lhe fazia, disse em grego:

Πατροζ µεν ατην µη δε ονοµα προδοτου χαι προ∞οσιαν, ειτε ηµιν. 7

Haydée deu um longo suspiro, e uma nuvem escura atravessou sua fronte tão pura.

— O que o senhor disse a ela? — perguntou baixinho Morcerf.

— Repeti que o senhor é um amigo e que ela não precisa esconder nada.

— Quer dizer — continuou Albert — que essa velha peregrinação em favor dos prisioneiros é sua primeira lembrança; qual é a outra?

— A outra? Vejo-me à sombra dos sicômoros, perto de um lago cujo espelho trêmulo, através das folhagens, ainda contemplo. Recostado no tronco mais venerável e mais frondoso, meu pai estava sentado em almofadas, e eu, criança fraca, enquanto minha mãe deitava-se aos seus pés, brincava com sua barba branca, que descia até o peito, e com o canjar de cabo de diamante atravessado em sua cinta. De tempos em tempos, chegava um albanês, que lhe dizia algumas palavras nas quais eu não prestava atenção, e ele respondia com a mesma tonalidade na voz, “Mate!”

ou, “Perdoe!”.

— É estranho — comentou Albert — ouvir tais coisas saírem da boca de uma moça sem ser no teatro e pensar: “Isto não é ficção.” E — perguntou

— o quê, com esse horizonte tão poético, o quê, com essas paragens magníficas, a senhorita pensa da França?

— Penso que é um belo país — disse Haydée —, mas vejo a França como ela é, pois a vejo com olhos de mulher, ao passo que me parece, ao contrário, que o meu país, que vi apenas com olhos de criança, está sempre envolvido numa neblina luminosa ou escura, conforme meus olhos façam dele uma pátria doce ou um lugar de amargos sofrimentos.

— Tão jovem, signora — disse Albert cedendo, a despeito de si mesmo, ao poder da banalidade —, como pôde sofrer?

Haydée dirigiu o olhar para Monte Cristo, que, com um sinal imperceptível, murmurou:

— Ειπε8.

— Nada como as primeiras recordações para modelar o fundo da alma, e, exceto as duas que acabo de lhe contar, todas as recordações da minha

juventude são tristes.

— Fale, fale, signora — disse Albert —, juro que a escuto com inexprimível prazer.

Haydée sorriu tristemente.

— Quer então que passe a minhas outras recordações?

— Eu lhe suplico — pediu Albert.

— Pois bem! Eu tinha quatro anos quando, uma noite, fui acordada por minha mãe. Estávamos no palácio de Janina; ela me pegou nas almofadas onde eu repousava e, ao abrir os meus olhos, vi os seus cheios de lágrimas.

“Ela me levou sem falar nada.

“Vendo-a chorar, eu ia chorar também. “— Silêncio, filha! — ela disse.

“Freqüentemente, apesar das consolações ou ameaças maternas, manhosa como todas as crianças, eu não hesitava em chorar; mas, dessa vez, na voz da minha querida mãe havia tamanha entonação de terror que me calei no mesmo instante.

“Ela me carregava com pressa.

“Percebi então que descíamos uma escadaria larga. À nossa frente, todas as servas de minha mãe, carregando caixas, sacolas, enfeites, jóias, bolsas de ouro, desciam a mesma escadaria, ou melhor, corriam.

“Atrás das mulheres vinha uma guarda de vinte homens, armados com longos fuzis e pistolas, vestindo aquele uniforme que vocês conhecem na França desde que a Grécia voltou a ser uma nação.

“Havia alguma coisa de sinistro, acredite — acrescentou Haydée, balançando a cabeça e empalidecendo diante da mera lembrança —, naquela longa fila de escravos e mulheres um tanto entorpecidas pelo sono, ou pelo menos eu assim imaginava, eu, que talvez julgasse os outros adormecidos porque ainda não acordara direito.

“Pela escada corriam sombras gigantescas, que os archotes de abeto faziam tremer nas abóbadas.

“— Rápido! — disse uma voz no fundo da galeria.

“Essa voz fez todos se vergarem, como o vento que varre a planície verga um campo de espigas.

“A mim, ela fez estremecer. “Era a voz do meu pai.

“Ele vinha por último, trajando sua esplêndida indumentária, segurando a carabina que o imperador de vocês lhe dera. A poiado em Selim, seu braço-direito, impelia-nos para frente como faz um pastor com um rebanho desgarrado.

“Meu pai — pontuou Haydée, levantando a cabeça — era um homem ilustre que a Europa conhecia como Ali Tebelin, paxá de Janina, e perante o qual a Turquia tremeu.”

Albert, sem saber por quê, ficou arrepiado ao ouvir essas palavras, pronunciadas num tom indefinível de altivez e dignidade. Pareceu-lhe que alguma coisa de sombrio e assustador irradiou-se dos olhos da moça quando, qual uma pitonisa evocando um espectro, ela despertou a lembrança daquele rosto sangrento, cuja morte terrível fez parecer gigantesco aos olhos da Europa contemporânea.

— Pouco depois — continuou Haydée —, o tropel se deteve; estávamos ao pé da escada e à beira de um lago. Minha mãe me apertava contra o seu peito palpitante, e vi, dois passos atrás, meu pai lançando olhares inquietos em todas as direções.

“À nossa frente estendiam-se quatro degraus de mármore, e depois do último degrau, um barco balançava.

“De onde estávamos víamos erguer-se, no meio do lago, um bloco escuro: era o fortim para onde nos dirigíamos.

“Esse fortim me parecia estar a uma distância considerável, talvez em virtude da escuridão.

Ali Tebelin, paxá de Janina.

“Descemos até o barco. Lembro-me de que os remos não faziam nenhum barulho ao tocarem a água. Debrucei-me para vê-los;

haviam sido embrulhados com os cinturões dos nossos palicares9.

“Estavam no barco, além dos remadores, apenas mulheres, meu pai, minha mãe, Selim e eu.

“Os palicares haviam permanecido nas margens do lago, ajoelhados no último degrau e usando os outros três como proteção, para o caso de terem sido seguidos.

“Nosso barco avançava como o vento.

“— Por que o barco está indo tão rápido? — perguntei à minha mãe. “—

Scchh, minha filha! — fez ela. — É porque estamos fugindo.

“Não compreendi. Por que o meu pai fugia, ele, o todo-poderoso, ele, diante de quem os outros fugiam, ele, que tinha como divisa: Eles me odeiam, logo, me temem?

“Era verdade, meu pai estava fugindo pelo lago. Mais tarde ele me contou que a guarnição do castelo de Janina, esgotada após um dia

cheio...”

Neste ponto Haydée deteve seu expressivo olhar em Monte Cristo, cujos olhos não despregaram mais dos seus. A moça então continuou, lentamente, como alguém que inventa ou escamoteia.

— A signora dizia — interveio Albert, prestando a maior atenção naquele relato — que a guarnição de Janina, cansada pós um dia cheio...

— Conspirara com o seraskier10 Kurchid, enviado pelo sultão para raptar o meu pai. Foi quando meu pai, após ter enviado ao sultão um oficial francês, em quem depositava cega confiança, tomou a decisão de se retirar para o asilo que preparara há muito tempo, ao qual chamava de kataphigion, isto é, seu refúgio.

— E esse oficial — perguntou Albert —, lembra-se do nome dele, signora? Monte Cristo trocou com a jovem um olhar rápido como um raio, que passou desapercebido a Morcerf.

— Não — ela disse —, não me lembro; mas talvez mais tarde venha a me lembrar, e o direi.

Albert ia pronunciar o nome do seu pai, quando Monte Cristo levantou lentamente o dedo em sinal de silêncio; o rapaz lembrou-se do juramento e se calou.

— Era rumo a esse fortim que navegávamos...

“Um rés-do-chão decorado com arabescos, banhando suas varandas na água, e um primeiro andar dando para o lago, eis tudo o que o palácio oferecia de visível aos olhos.

“Entretanto, sob o rés-do-chão, prolongando-se na ilha, havia um subterrâneo, uma vasta caverna para onde nos levaram, minha mãe, eu e nossas mulheres, e onde jaziam, formando um único monte, sessenta mil bolsas e duzentos tonéis. Havia nessas bolsas vinte e cinco milhões em ouro e, nos barris, trinta e cinco mil libras de pólvora.

“Perto desses barris estava Selim, o braço-direito de meu pai, sobre o qual lhe falei. Vigiava noite e dia, segurando uma lança em cuja ponta ardia uma mecha acesa. Tinha ordens para explodir tudo, fortim, guardas, paxá, mulheres e ouro, ao primeiro sinal do meu pai.

“Lembro-me de que nossos escravos, conhecendo aquela temível vizinhança, passavam os dias e as noites a chorar, a gemer.

“Quanto a mim, continuo a ver o jovem soldado de tez pálida e olho escuro; e, quando o anjo da morte me visitar, tenho certeza de que reconhecerei Selim. “Eu não saberia dizer quanto tempo ficamos assim.

Nessa época, eu ainda ignorava o que era o tempo; algumas vezes, mas raramente, meu pai nos mandava chamar, a minha mãe e a mim, no terraço do palácio; eram minhas horas de divertimento, eu, que no subterrâneo via apenas sombras plangentes e a lança inflamada de Selim. Meu pai, sentado em frente a um grande vão, examinava com um olhar sombrio as profundezas do horizonte, interrogando cada ponto escuro que aparecia no lago, enquanto minha mãe, meio deitada perto dele, apoiava a cabeça em seu ombro, e eu brincava a seus pés, admirando, com aqueles espantos da infância que aumentam os objetos, as escarpas dos montes

Pindo11, que se erguia no horizonte, os castelos de Janina, saindo brancos e angulosos das águas azuis do lago, os imensos e negros tufos de folhagem, grudados como líquens nas rochas da montanha, que de longe pareciam espumas, e que de perto são abetos gigantes e murtas imensas.

“Uma manhã, meu pai nos mandou chamar. Estava bem calmo, porém mais pálido que de costume.

“— Tenha paciência, Vasiliki, hoje tudo se resolverá; hoje chega o

firman12 do soberano, e minha sorte será decidida. Se o indulto for integral, retornaremos triunfantes a Janina; se a notícia for ruim, fugiremos esta noite.

“— Mas, e se não nos deixarem fugir? — indagou minha mãe.

“— Oh, fique tranqüila — respondeu Ali sorrindo. — Selim e sua lança acesa cuidarão deles. Eles querem que eu morra, mas não ao preço de morrerem comigo.

“Minha mãe foi só suspiros diante daquele consolo, que não partia do coração do meu pai.

“Ela preparou água gelada para ele, que bebia a todo instante, pois, desde sua retirada para o fortim, era queimado por uma febre ardente. Ela perfumou sua barba branca e acendeu o chibuque, cuja fumaça, horas a fio, ele acompanhava com os olhos, distraidamente, volatilizando-se no ar.

“De repente ele fez um movimento tão brusco que quase morri de medo.

“Em seguida, sem desviar os olhos do ponto que atraía sua atenção, pediu sua luneta.

“Minha mãe passou-a para ele, mais branca que o estuque em que se apoiava.

“Vi a mão do meu pai tremer.

“— Um barco...! dois...! três...! — murmurou meu pai — quatro...!

“E se levantou, pegando suas armas e colocando, eu me lembro, pólvora na escorva de suas pistolas.

“— Vasiliki — disse ele à minha mãe, visivelmente trêmulo —, chegou o momento que vai decidir minha vida. Daqui a meia hora saberemos a resposta do sublime imperador, retire-se para o subterrâneo com Haydée.

“— Não quero abandoná-lo — disse Vasiliki —, se vai morrer, meu senhor, quero morrer junto consigo.

“— Vá para junto de Selim! — gritou meu pai.

“— Adeus, senhor! — murmurou minha mãe, obediente e vergada ao meio pela aproximação da morte.

“— Levem Vasiliki — disse o meu pai aos palicares.

“Eu, porém, esquecida, corri até ele e estendi as mãos. Ele me viu e, debruçando-se para mim, apertou seus lábios em minha testa.

“Oh, esse beijo foi o último, e ainda permanece na minha fronte!

“Ao descer, distinguíamos através da treliça do terraço as embarcações crescendo no lago, as quais, antes semelhantes a pontos pretos, já pareciam aves roçando a superfície das ondas.

“Enquanto isso, no fortim, vinte palicares, sentados aos pés do meu pai e escondidos nas vigas, espiavam com um olho sangrento a chegada desses barcos. Eles mantinham preparados seus compridos fuzis com incrustações de madrepérola e prata; uma grande quantidade de cartuchos espalhava-se pelo chão. Meu pai consultava seu relógio e perambulava angustiado.

“Foi isso que me impressionou quando deixei meu pai após o último beijo que dele recebi.

“Minha mãe e eu atravessamos o subterrâneo. Selim continuava em seu posto; sorriu tristemente para nós. Fomos pegar almofadas do outro lado da caverna e nos sentamos perto de Selim. Nos grandes perigos, os corações devotados se procuram, e, por mais criança que eu fosse, sentia instintivamente que uma grande desgraça pairava sobre nossas cabeças.”

Albert ouvira falar muitas vezes, não pelo seu pai, que nunca tocava no assunto, mas por estranhos, dos últimos momentos do vizir de Janina. Lera diversos relatos sobre sua morte, mas aquela história, ressuscitada na pessoa e na voz da jovem, aquele tom emocionado e a lamentável elegia impregnavam-no ao mesmo tempo de um feitiço e de um horror inexprimíveis.

Quanto a Haydée, entregue a essas terríveis lembranças, ela se calara por um instante. Sua cabeça, como uma flor que pende num dia de tempestade, inclinara-se sobre sua mão, e seus olhos, perdidos e vagos, ainda pareciam ver no horizonte o Pindo verdejante e as águas azuis do lago de Janina, espelho mágico que refletia o sombrio quadro que ela desenhava.

Monte Cristo fitava-a com uma indefinível expressão de interesse e compaixão.

— Continue, minha filha — disse o conde em romaico.

Haydée ergueu a cabeça, como se as palavras sonoras que Monte Cristo acabava de pronunciar tivessem-na arrancado de um sonho, e continuou:

— Eram quatro horas da tarde; embora o dia estivesse límpido e brilhante do lado de fora, estávamos mergulhados na penumbra do subterrâneo.

“Apenas uma luminosidade brilhava na caverna, semelhante a uma estrela cadente no fundo de um céu escuro: era a mecha de Selim. Minha mãe era cristã, e rezava.

“Selim repetia de tempos em tempos a fórmula consagrada: ‘Deus é grande!’ “Entretanto, minha mãe ainda alimentava um fio de esperança.

Ao descer, julgara reconhecer o francês que havia sido enviado a Constantinopla e em quem meu pai depositava toda a confiança, pois sabia que os soldados do sultão francês são em geral nobres e generosos. Deu alguns passos em direção à escada e escutou.

“— Estão se aproximando — disse ela —, oxalá tragam consigo a paz e a vida.

“— O que receia, Vasiliki? — respondeu Selim, com sua voz ao mesmo tempo suave e altiva. — Se não trouxerem a paz, receberão a morte.

“E reavivava a labareda de sua lança com um gesto que evocava o

Dioniso13 da Creta arcaica.

“Mas eu, tão pequena e ingênua, tinha medo daquela coragem, que julgava feroz, insensata, e me assustava com aquela morte aterradora no ar e no fogo.

“Minha mãe experimentava as mesmas cautelas, pois eu percebia seus calafrios.

“— Meu Deus! Meu Deus, mamãe! — exclamei. — Será que vamos morrer? “E, à minha voz, as lágrimas e preces dos escravos redobraram.

“Pequena — me disse Vasiliki —, Deus não há de permitir que você, um dia, venha a desejar essa morte que hoje teme.

“Depois, baixinho:

“— Selim, qual é a ordem do seu amo?

“— Se ele me enviar seu punhal é porque o sultão nega-se a recebê-lo em seu perdão, e devo atear fogo; se me enviar seu anel, é porque o sultão o perdoa, e devo entregar a pólvora.

“— Ah — disse minha mãe —, quando a ordem do seu amo chegar, se for o punhal que ele enviar, em vez de morrermos de morte tão horrível, estenderemos a garganta e você nos matará com esse punhal.

“— Sim, Vasiliki — respondeu Selim tranqüilamente.

“De repente ouvimos algo como gritos estridentes. Prestamos atenção: eram gritos de alegria. O nome do francês enviado a Constantinopla reverberava repetido pelos nossos palicares. Era evidente que ele trazia a resposta do sublime imperador, e que a resposta era favorável.”

— E não se lembra do seu nome? — perguntou Morcerf, disposto a ajudar a memória da narradora.

Monte Cristo fez a ela um sinal.

— Não me lembro — respondeu Haydée.

“O barulho aumentou. Passos mais próximos soaram; desciam os degraus do subterrâneo.

“Selim preparou sua lança.

“Logo um vulto apareceu no crepúsculo azulado, formado pelos raios do sol que penetravam até a entrada do subterrâneo.

“— Quem vem lá? — gritou Selim. — Seja lá quem for, não dê mais nenhum passo.

“— Glória ao sultão! — disse o vulto. — O vizir Ali foi agraciado com o indulto pleno; e não apenas teve a vida poupada, como devolvidos sua fortuna e seus bens.

“Minha mãe soltou um grito de alegria e me apertou contra o seu coração. “— Pare! — ordenou-lhe Selim, vendo que ela se precipitava para a saída. — Sabe muito bem que preciso do anel.

“— É verdade — disse a minha mãe, e caiu de joelhos, erguendo-me para o céu, como se ao mesmo tempo em que rezasse a Deus por mim quisesse também me alçar até Ele.”

E, pela segunda vez, Haydée deteve-se, vencida por uma emoção tal que o suor escorria em sua fronte lívida, e sua voz, engasgada, parecia não

conseguir transpor a secura da garganta.

Monte Cristo serviu um pouco de água gelada num copo, o qual lhe passou, dizendo com uma ternura que deixava transparecer um matiz de comando:

— Coragem, minha filha!

Haydée enxugou os olhos e a testa, e continuou:

— Enquanto isso, nossos olhos, habituados à penumbra, haviam reconhecido o emissário do paxá: era um amigo.

“Selim o reconhecera; mas o valoroso rapaz só sabia fazer uma coisa: obedecer.

“— Em nome de quem se apresenta? — ele perguntou. “— Em nome do meu chefe, Ali Tebelin.

“ — Se vem em nome de Ali, sabe o que deve me entregar... “— Sim —

disse o emissário —, e trago-lhe seu anel.

“Ao mesmo tempo ergueu a mão acima da cabeça; mas ele estava muito longe e não estava suficientemente claro para que Selim pudesse, de onde estávamos, distinguir e reconhecer o objeto que ele lhe mostrava.

“— Não consigo enxergar — disse Selim.

“— Aproxime-se — disse o mensageiro —, caso contrário, o farei eu.

“— Nem uma coisa nem outra — respondeu o jovem soldado. — Deposite o objeto que está me mostrando no lugar onde você está, sob esse raio de luz, e retire-se até que eu o tenha visto.

“— Pois seja — disse o mensageiro.

“E retirou-se, após ter depositado o sinal de identificação no lugar indicado. “Nosso coração palpitava: pois o objeto parecia efetivamente ser um anel. Mas seria o anel do meu pai?

“Selim, mantendo em suas mãos a mecha inflamada, foi até a abertura, inclinou-se radioso sob o raio de luz, e recolheu o sinal.

“O anel do amo — disse, beijando-o —, é ele de fato.

E jogando a mecha no chão, pisou em cima e a apagou.

“O mensageiro soltou um grito de alegria e bateu palmas. A esse sinal, quatro soldados do seraskier Kurchid investiram e Selim caiu trespassado por cinco punhaladas. Cada um dera a sua.

“Em seguida, inebriados pelo crime, embora ainda pálidos de medo, precipitaram-se no subterrâneo, procurando fogo por toda parte e espojando-se sobre os sacos de ouro.

“Enquanto isso, minha mãe tomou-me nos braços e, ágil, enveredando por sinuosidades que só nos conhecíamos, chegou a uma escada secreta do fortim, onde reinava um tumulto terrível.

“As salas baixas estavam totalmente ocupadas pelos tchodoars de Kurchid, isto é, pelos nossos inimigos.

“Quando minha mãe ia empurrar a portinhola, ouvimos soar, terrível e ameaçadora, a voz do paxá.

“Minha mãe cravou o olhar nas fendas das tábuas; por acaso uma brecha apresentou-se diante do meu, e olhei.

“— O que querem? — dizia meu pai a duas pessoas que seguravam nas mãos um papel com caracteres dourados.

“— Queremos — respondeu uma das duas — transmitir-lhe a vontade de Sua Alteza. Vê esse firman?

“Estou vendo — disse meu pai.

“Pois muito bem! Leia; ele pede sua cabeça.

“Meu pai soltou uma gargalhada mais aterradora que uma ameaça, e ainda não terminara quando dois tiros de pistola partiram de suas mãos e mataram os dois homens.

“Os palicares, todos deitados ao redor do meu pai com o rosto no chão, levantaram-se então e abriram e fogo; o recinto foi tomado pelos estrondos, o fogo e a fumaça.

“Na mesma hora o fogo começou do outro lado, e as balas vieram perfurar as tábuas à nossa volta.

“Oh! Como era belo, como era grande o vizir Ali Tebelin, meu pai, em meio às balas, empunhando a cimitarra, o rosto preto de pólvora! Como seus inimigos fugiam!

“— Selim! Selim! — ele gritava. — Guardião do fogo, cumpra o seu dever!

“— Selim está morto! — respondeu uma voz que parecia sair das profundezas do fortim, e você, grão-senhor Ali, está perdido!

“Ao mesmo tempo deflagrou-se uma detonação surda, e o chão foi pelos ares em volta do meu pai.

“Os tchodoars atiravam através do assoalho, de baixo para cima. Três ou quatro palicares caíram, vítimas de ferimentos espalhados por todo o corpo.

“Meu pai rugiu, enfiou seus dedos nos buracos das balas e arrancou uma tábua inteira.

 

“Ao mesmo tempo, porém, vinte disparos de fogo estrondearam por essa abertura, e a labareda, como se viesse da cratera de um vulcão, alastrou-se pelos tecidos e os devorou.

A esse sinal, quatro soldados do seraskier Kurchid investiram e Selim caiu trespassado por cinco punhaladas. Cada um dera a sua.

— Oh! Como era belo, como era grande o vizir Ali Tebelin, em meio às balas, empunhando a cimitarra!

“Em meio a todo esse tumulto pavoroso, em meio a esses gritos terríveis, dois disparos mais nítidos e dois gritos mais dilacerantes congelaramme de terror. Aquelas duas explosões haviam atingido mortalmente meu pai, e tinha sido ele quem soltara os dois gritos.

“Ainda assim, permanecera de pé, agarrado a uma janela. Minha mãe sacudia a porta para morrer com ele, mas a porta estava fechada por dentro. “À sua volta, os palicares retorciam-se em convulsões de agonia; dois ou três, sem ferimentos ou feridos ligeiramente, atiraram-se pelas janelas. Simultaneamente, o assoalho inteiro estalou, estilhaçado por baixo. Meu pai dobrou um joelho; ao mesmo tempo vinte braços esticaram-se, armados com sabres, pistolas e punhais, vinte golpes atingiram concomitantes um único homem, e meu pai desapareceu num turbilhão de fogo, devorado por aqueles demônios e seus rugidos, como se o inferno houvesse se aberto sob seus pés.

“Senti que rolava no chão: era minha mãe que tombava desmaiada.”

Haydée deixou os braços caírem, soltando um gemido e olhando para o conde como para lhe perguntar se estava satisfeito com sua obediência.

O conde levantou-se, foi até ela, pegou sua mão e disse-lhe em romaico:

— Descanse, minha filha, e recupere as forças pensando que há um Deus para punir os traidores.

— É uma história espantosa, conde — disse Albert, assustadíssimo com a palidez de Haydée —, e agora me recrimino por ter sido tão cruelmente indiscreto.

— Não foi nada — respondeu Monte Cristo.

Colocando a mão na cabeça da jovem, acrescentou:

— Haydée é uma mulher corajosa; às vezes encontra consolo no relato de seus sofrimentos.

— Porque, meu amo — disse a moça com vivacidade —, os meus sofrimentos evocam-me suas boas ações.

Albert olhou para ela com curiosidade, pois a jovem ainda não contara o que ele mais queria saber, isto é, como tornara-se escrava do conde.

Haydée viu ao mesmo tempo nos olhares do conde e de Albert o mesmo desejo.

Prosseguiu:

— Quando minha mãe voltou a si, estávamos diante do seraskier. “—

Mate-me — ela disse —, mas poupe a honra da viúva de Ali. “— Não é a mim que deve dirigir-se — disse Kurchid.

“— A quem então?

“— Ao seu novo senhor. “— E de quem se trata? “— Aqui está ele.

“E Kurchid apontou para um daqueles que mais haviam contribuído para a morte do meu pai — continuou a moça com um ódio sinistro.”

— Quer dizer — perguntou Albert — que a senhorita tornou-se propriedade desse homem?

— Não — respondeu Haydée —, ele não ousou ficar conosco, vendeu-nos a mercadores de escravos que rumavam a Constantinopla.

Atravessamos a Grécia e chegamos quase mortas à porta imperial, apinhada de curiosos que se afastavam para nos abrir caminho, quando de repente minha mãe, acompanhando a direção de seus olhares, lança um grito e cai, apontando para mim uma cabeça em cima dessa porta.

“Embaixo dessa cabeça estavam escritas as seguintes palavras: ‘Esta é a cabeça de Ali Tebelin, paxá de Janina.’

“Chorando, eu tentava levantar minha mãe; estava morta!

“Fui levada para o bazar; um rico armênio me comprou, me deu instrução e professores; quando completei treze anos, me vendeu para o sultão Mahmud.”

— De quem — interveio Monte Cristo — comprei-a, como lhe disse, Albert, por uma esmeralda igual àquela em que guardo minhas pastilhas de haxixe.

— Oh, como é bondoso e grande, meu amo! — disse Haydée, beijando a mão de Monte Cristo. — É uma imensa felicidade pertencer-lhe!

Albert quedava-se atônito com o que acabava de ouvir.

— Pode terminar sua xícara de café — disse-lhe o conde —, a história chegou ao fim.

O bazar.

1 “rei Carlos IX ... São Bartolomeu”: Carlos IX (1550-74) era filho de Catarina de Medici (1519-89). O massacre da noite de São Bartolomeu ocorreu em 1572, quando Carlos tinha apenas vinte e dois anos e continuava sob a influência da mãe. Este episódio consistiu na sangrenta repressão ao protestantismo na França, comandada pela família real. Estima-se que tenham perecido entre 70 mil e 100 mil huguenotes, como eram chamados os protestantes franceses.

2 Beaumarchais: ver Parte III, cap.14, nota 100.

3 Latakia: tipo de tabaco bastante perfumado e de forte sabor, proveniente da região homônima, atualmente parte do território sírio.

4 Haydée: personagem do poema Don Juan, canto II, CXIII e canto IV, LXXIII.

5 Dionísio, o Tirano: referência a Tusculanos, XII, 27, do orador latino Marco Túlio Cícero (106

a.C.-43 a.C.), onde se lê que “Dionísio, o Tirano, quando foi banido de Siracusa, fez-se professor primário em Corinto”.

6 Hegúmeno: do grego oikomonos, ou administrador.

7 Πατροζ µεν ατην µη δε ονοµα προδοτου χαι προδοσιαν, ειτε ηµιν: em grego: “Conte a sorte de teu pai, mas não o nome do traidor nem a traição.” [Nota do Autor.]

8 Ειπε: em grego, “Conte” . (Nota do Autor.)

9 Palicares: palavra que, no grego moderno, significa “bravo” ; nome dado aos soldados da milícia grega durante a dominação turca.

10 Seraskier: general-em-chefe das tropas otomanas.

11 Montes Pindo: cordilheira que rasga a Grécia de norte a sul, entre o mar Jônio e o Egeu.