O Conde de Monte Cristo
19. Os progressos de Cavalcanti filho
— Sim — respondeu Noirtier, fixando sobre o rapaz um olhar majestoso. Franz caiu sem forças numa poltrona.
Villefort abriu a porta e fugiu, pois tinha ganas de asfixiar aquele tantinho de vida que ainda restava no terrível coração do velho.
19. Os progressos de Cavalcanti filho
Nesse ínterim, o sr. Cavalcanti pai partira para reintegrar-se ao serviço, não do exército de S.M. imperador da Áustria, mas da roleta da estância de Lucca, do qual era um dos mais assíduos cortesãos.
Desnecessário dizer que levara, com a mais escrupulosa exatidão, até o último centavo da soma que lhe fora destinada para a viagem e como recompensa pela maneira majestosa e solene com que desempenhara seu papel de pai.
Com essa partida, o sr. Andrea herdara todos os papéis que atestavam que ele tinha de fato a honra de ser filho do marquês Bartolomeo e da marquesa Oliva Corsinari.
Por conseguinte, estava mais ou menos bem-posto na sociedade parisiense, que tão bem recebe os estrangeiros, tratando-os não pelo que são, mas pelo que pretendem ser.
Aliás, o que se pede a um rapaz galante em Paris? Que fale um pouco a língua local, vista-se apropriadamente, seja um bom jogador e pague à vista.
Desnecessário dizer que um estrangeiro é mais bem tratado que um parisiense.
Andrea, então, adquirira em quinze dias uma belíssima posição. Era agora chamado de sr. conde, comentava-se que possuía cinqüenta mil libras de renda e falava-se nos imensos tesouros do sr. seu pai, enterrados, dizia-se, nas jazidas de Seravezza.
Um cientista, perante o qual essa última circunstância foi mencionada como um fato, declarou ter visto as jazidas em questão, dando grande peso às afirmações que até então flutuavam num estado duvidoso, e com isso elas tomaram a consistência da realidade.
Estávamos nesse círculo da sociedade parisiense em que introduzimos nossos leitores, quando Monte Cristo veio uma noite fazer uma visita ao sr. Danglars. O sr. Danglars saíra, mas sugeriram ao conde apresentar-se à baronesa, que estava acessível, o que ele aceitou.
Não era nunca sem uma espécie de arrepio nervoso que, desde o jantar de Auteuil e os acontecimentos daí decorridos, a sra. Danglars ouvia o nome de Monte Cristo pronunciado. Se a presença do conde não seguia o rumor do seu nome, a sensação dolorosa tornava-se mais intensa; se, ao contrário, o conde aparecesse, sua fisionomia aberta, seus olhos brilhantes,
sua amabilidade, até mesmo sua galanteria para com a sra. Danglars logo expulsavam a última impressão de temor. Parecia impossível à baronesa que um homem tão encantador na superfície pudesse alimentar maus desígnios contra ela. Aliás, os corações mais corrompidos só acreditam no mal ao fazê-lo repousar sobre um interesse qualquer: o mal inútil e sem causa é repulsivo como uma anomalia.
Quando Monte Cristo entrou na alcova onde já introduzimos uma vez nossos leitores, e onde a baronesa acompanhava com um olhar bastante irrequieto desenhos que sua filha lhe passava após tê-los visto com o sr.
Cavalcanti filho, sua presença produziu o efeito habitual, e foi sorrindo que, após abalar-se um pouco com seu nome, a baronesa recebeu o conde.
Este, por sua vez, abraçou toda a cena num relance.
Perto da baronesa, quase deitada numa conversadeira, Eugénie mantinha-se sentada e Cavalcanti, de pé.
Este, vestindo preto como um herói de Goethe, de sapatos de verniz e meias de seda branca transparentes, passava uma de suas mãos muito claras e bem tratadas em seus cabelos louros, entre os quais cintilava um diamante, que, apesar dos conselhos de Monte Cristo, o vaidoso rapaz não conseguira resistir ao impulso de enfiar no dedo mínimo.
Esse movimento era acompanhado por olhares assassinos, lançados para a srta. Danglars, e por suspiros enviados na mesma direção que os olhares.
A srta. Danglars continuava a mesma, isto é, bela, fria e irônica.
Nenhum daqueles olhares, nenhum daqueles suspiros de Andrea lhe escapavam; dirse-ia que deslizavam sobre a couraça de
Minerva1, couraça que alguns filósofos sugerem recobrir às vezes o
colo de Safo2.
Eugénie cumprimentou friamente o conde e aproveitou-se das primeiras frases da conversa para se retirar até o salão de estudos, de onde dali a pouco duas vozes exalando-se sorridentes e ruidosas, misturadas aos primeiros acordes de um piano, informaram a Monte Cristo que a srta.
Danglars acabava de preferir, à sua e à do sr. Cavalcanti, a companhia da srta. Louise d’Armilly, sua professora de canto.
Foi só então, ao mesmo tempo em que conversava com a sra. Danglars e parecia absorto pelo encanto da conversa, que o conde reparou na solicitude do sr. Andrea Cavalcanti, em sua maneira de escutar a música no umbral da porta, que não ousava transpor, e de manifestar admiração.
O banqueiro não demorou a chegar. Seu primeiro olhar foi para Monte Cristo, é verdade, mas o segundo foi para Andrea.
Quanto à sua mulher, cumprimentou-a da maneira como certos maridos cumprimentam a esposa, e de que os celibatários poderão fazer uma idéia quando for publicado um extensíssimo tratado sobre a vida conjugal.
— As senhoritas não o convidaram para desfrutar da música com elas?
— perguntou Danglars a Andrea.
— Infelizmente, não, senhor — respondeu Andrea, com um suspiro ainda mais ostensivo que os outros.
Danglars foi até a porta de comunicação e abriu-a.
Viam-se as duas moças sentadas no mesmo banco, diante do mesmo piano. Elas acompanhavam, cada qual com uma das mãos, um exercício em que estavam treinadas e mostravam um talento notável.
A srta. d’Armilly, que agora formava com Eugénie, graças à moldura da porta, um desses quadros vivos como se fazem muito na Alemanha, tinha uma beleza impressionante, ou melhor, uma delicadeza refinada. Era uma mulherzinha franzina e loura como uma fada, com volumosos cabelos cacheados caindo no pescoço
um pouco comprido demais, como Peruggino3 às vezes confere às suas virgens, e olhos embaciados pelo cansaço. Dizia-se que tinha
o peito fraco e que, como a Antonia do Violino de Cremona4, morreria um dia cantando.
Monte Criste lançou um olhar apressado e curioso para aquele gineceu; era a primeira vez que encontrava a srta. d’Armilly, da qual tantas vezes ouvira falar na casa.
— Quer dizer — perguntou o banqueiro à sua filha — que estamos excluídos?
Então levou o rapaz até a saleta e, seja por acaso, seja por astúcia, a porta foi encostada atrás de Andrea de maneira a que, do lugar onde estavam sen tados, nem Monte Cristo nem a baronesa pudessem ver mais coisa alguma; mas, como o banqueiro seguira o jovem italiano, a sra.
Danglars sequer pareceu notar essa circunstância.
— Quer dizer que estamos excluídos?
Logo depois, o conde ouviu a voz de Andrea ressoar aos acordes do piano, acompanhando uma canção corsa.
Enquanto o conde escutava sorrindo a canção, que lhe fazia esquecer Andrea e lembrar Benedetto, a sra. Danglars enaltecia para Monte Cristo a presença de espírito de seu marido, que, naquela mesma manhã, devido a uma falência milanesa, perdera trezentos ou quatrocentos mil francos.
E, com efeito, o elogio era merecido; pois, se o conde não tivesse sabido pela baronesa ou talvez por um dos meios que tinha de tudo saber, a fisionomia do barão não lhe teria dito uma palavra sobre isso.
— Bom! — pensou Monte Cristo. — Ele já esconde o que perde: há um mês gabava-se disso.
Em seguida, bem alto:
— Oh, senhora — disse o conde —, o sr. Danglars conhece tão bem a Bolsa que logo irá recuperar ali o que eventualmente perder em outros lugares.
— Vejo que partilha o erro comum — disse a sra. Danglars.
— E que erro é esse? — perguntou Monte Cristo.
— É que o sr. Danglars está jogando, ao passo que, ao contrário, não joga nunca.
— Ah, sim, é verdade, senhora, lembro que o sr. Debray me disse... A propósito, como vai o sr. Debray? Há três ou quatro dias não o vejo.
— E eu também — disse a sra. Danglars, com uma dignidade milagrosa.
— Mas o senhor começou uma frase que não terminou.
— Qual?
— O sr. Debray lhe disse, segundo o senhor...
— Ah, é verdade; o sr. Debray me disse que a senhora era quem se rendia ao demônio do jogo.
— Tive tal inclinação durante um certo tempo, admito — reconheceu a sra. Danglars —, mas livrei-me dela.
— E está errada, senhora. Ora, meu Deus! As probabilidades de fortuna são precárias e, se eu fosse mulher e o acaso fizesse dessa mulher a esposa de um banqueiro, por mais confiança que eu depositasse na sorte de meu marido, pois, em matéria de especulação, tudo é sorte ou azar; pois bem, como eu ia dizendo, por mais confiança que eu depositasse na sorte de meu marido, eu nunca deixaria de me proporcionar uma fortuna independente, ainda que tivesse que adquirir essa fortuna colocando meus interesses em mãos que lhe fossem desconhecidas.
Sem poder se controlar, a sra. Danglars ruborizou.
— Veja — disse Monte Cristo, como se não tivesse reparado —, fala-se muito num belo golpe que deram ontem nos títulos de Nápoles.
— Não conheço nenhum — disse prontamente a baronesa —, e inclusive jamais conheci; no entanto, por favor, não falemos da Bolsa, sr. conde, parecemos dois corretores; falemos um pouco desses infelizes Villefort, neste momento tão atormentados pela fatalidade.
— O que houve com eles? — perguntou Monte Cristo, com perfeita ingenuidade.
— Ora, o senhor sabe; depois de haverem perdido o sr. de Saint-Méran três ou quatro horas após sua partida, acabam de perder a marquesa três ou quatro dias após sua chegada.
— Ah, é verdade — disse Monte Cristo —, fui informado; mas, como
diz Cláudio a Hamlet, esta é uma lei da natureza5: seus pais haviam morrido antes deles e eles os haviam chorado; eles morrerão antes de seus filhos e seus filhos irão chorá-los.
— Mas isso não é tudo.
— Como assim não é tudo!?
— Não; o senhor sabia que eles iam casar a filha...
— Com o sr. Franz d’Épinay... O casamento foi suspenso?
— Ontem de manhã, ao que parece, Franz quebrou o compromisso.
— Ah! Realmente... E as causas desse rompimento são conhecidas?
— Não.
— O que a senhora está me dizendo? Meu Deus! E o sr. de Villefort, como está enfrentando tamanhos infortúnios?
— Como sempre, com filosofia.
Nesse momento, Danglars voltou sozinho.
— E então — disse a baronesa —, deixou o sr. Cavalcanti com a sua filha?
— E com a srta. d’Armilly — disse o banqueiro —, por quem a toma afinal?
Então, voltando-se para Monte Cristo:
— Rapaz encantador, não é mesmo sr. conde, o príncipe Cavalcanti...?
Apenas me pergunto, é mesmo príncipe...?
— Não posso responder por isso — disse Monte Cristo. — Seu pai foi apresentado a mim como marquês, ele seria conde; mas acho que nem ele tem grandes pretensões ao título.
— Por quê? — perguntou o banqueiro. — Se for príncipe, está errado em não se gabar. A cada um, seu direito. Na minha opinião, ninguém deve renegar sua origem.
— Oh, o senhor é um autêntico democrata — disse Monte Cristo, sorrindo.
— Mas veja — disse a baronesa — a que está se expondo. Se por acaso o sr. de Morcerf viesse, encontraria o sr. Cavalcanti num aposento em que ele, noivo de Eugénie, nunca teve permissão para entrar.
— Faz bem em dizer “por acaso” — replicou o banqueiro —, pois na realidade poderíamos dizer, tão raramente o vemos, que seria efetivamente o acaso a trazê-lo.
— Mesmo assim, se ele viesse e encontrasse o rapaz perto de sua filha, poderia não gostar.
— Ele? Oh, meu Deus, está enganada; o sr. Albert não nos dá a honra de ter ciúmes da noiva, não a ama o bastante para isso. Aliás, que me importa se iria gostar ou não!
— Entretanto, no ponto a que chegamos...
— Sim, no ponto que a que chegamos: quer saber o ponto a que chegamos? Pois no baile da mãe ele dançou apenas uma vez com minha filha, enquanto o sr. Cavalcanti dançou três vezes e ele nem notou.
— O sr. visconde Albert de Morcerf! — anunciou o criado de quarto.
A baronesa levantou-se bruscamente. Ia até a sala de estudos avisar à filha quando Danglars deteve-a com o braço.
— Deixe — falou.
Ela o encarou, perplexa.
Monte Cristo fingiu não ter percebido aquele jogo de cena.
Albert entrou, muito bonito e alegre. Cumprimentou a baronesa com elegância, Danglars com familiaridade, Monte Cristo com afeição. Depois, voltando-se para a baronesa, disse:
— Tenho sua permissão, senhora, para lhe perguntar como vai a srta.
Danglars?
— É claro, senhor — respondeu vivamente Danglars. — Nesse momento está praticando um pouco de música com o sr. Cavalcanti no seu estúdio particular.
Albert manteve sua expressão calma e indiferente. Talvez sentisse algum despeito íntimo; mas sentia o olhar de Monte Cristo fixado nele.
— O sr. Cavalcanti tem uma belíssima voz de tenor — ele disse — e a srta. Eugénie é um magnífico soprano, sem contar que toca piano
como Thalberg6. Devem estar fazendo um concerto encantador.
— O fato é — disse Danglars — que eles se dão às mil maravilhas.
Albert pareceu não ter notado aquela observação ambígua, tão grosseira.
A sra. Danglars, no entanto, ruborizou.
— Também sou músico — continuou o rapaz —, ao que dizem meus professores, pelo menos. Pois bem! Até hoje nunca consegui harmonizar minha voz com nenhuma outra voz, e com as vozes soprano, sobretudo, ainda menos que com as outras.
Danglars deu um sorrisinho — que significava: “Mostre que é homem, rapaz!” — e disse, provavelmente esperando chegar ao seu objetivo:
— Além disso, ontem o príncipe e minha filha conquistaram a admiração geral. Por que não estava aqui ontem, sr. de Morcerf?
— Que príncipe? — perguntou Albert.
— O príncipe Cavalcanti — respondeu Danglars, que se obstinava em dar esse título ao rapaz.
— Ah, perdão — disse Albert —, eu ignorava que ele fosse príncipe.
Ah! Quer dizer que o príncipe Cavalcanti cantou ontem com a srta.
Danglars? Na verdade, deve ter sido deslumbrante, e lamento amargamente não os ter ouvido. Mas fui impedido de aceitar seu convite; precisei acompanhar a sra. de Morcerf à casa da baronesa de ChâteauRenaud, a mãe, onde os alemães cantavam.
Em seguida, após um silêncio, e como uma trivialidade:
— Tenho permissão — repetiu Morcerf — para apresentar minhas homenagens à srta. Danglars?
— Oh, espere, espere, eu lhe suplico! — disse o banqueiro, detendo o rapaz. — Ouça a deliciosa cavatina, ta, ta, ta, ti, ta, ti, ta, ta, é maravilhoso, já vai terminar... um segundo: perfeito! Bravo! Bravi! Brava!
E o banqueiro começou a aplaudir com frenesi.
— Com efeito — disse Albert —, é delicado, e é impossível alguém compreender melhor a música de seu país do que o faz o príncipe Cavalcanti. O senhor disse príncipe, não é mesmo? Aliás, se ele não for príncipe, dele farão príncipe, isso é fácil na Itália. Mas, para voltar aos nossos adoráveis cantores, o senhor deveria nos proporcionar uma distração, sr. Danglars. Sem lhes avisar que há um estranho aqui, deveria pedir à srta. Danglars e ao sr. Cavalcanti que começassem outra peça. É
uma coisa deliciosa ouvir música um pouco de longe, na penumbra, sem ser visto, sem ver e, por conseguinte, sem importunar o músico, que pode assim entregar-se a todo o instinto do seu talento ou aos arroubos do seu coração.
Dessa vez, Danglars ficou desconcertado com a fleugma do moço.
Chamou Monte Cristo à parte.
— E então! — perguntou-lhe. — Que me diz do nosso namorado?
— Puxa! Parece-me frio, isso é incontestável, mas o que pretende? O
senhor assumiu o compromisso!
— Sem dúvida, assumi o compromisso, mas de entregar a minha filha a um homem que a ame, e não a um homem que não a ame. Veja este, frio como um mármore, orgulhoso como seu pai. Se ainda fosse rico, se tivesse a fortuna dos Cavalcanti, ainda relevaríamos. Ora, não consultei minha filha; mas se ela tiver bom gosto...
— Oh — disse Monte Cristo —, não sei se é minha amizade por ele que é cega, mas asseguro-lhe, da minha parte, que o sr. de Morcerf é um rapaz
encantador, que fará sua filha feliz e cedo ou tarde chegará a alguma coisa, pois, enfim, a posição de seus pai é excelente.
— Hum! — fez Danglars.
— Por que essa dúvida?
— Há sempre o passado... esse passado obscuro.
— Mas o passado do pai não diz respeito ao filho.
— Claro que diz, claro que diz!
— Calma, não perca a cabeça; há um mês o senhor achava excelente fazer esse casamento... Compreenda, fico constrangido; afinal, foi na minha casa que o senhor conheceu esse jovem Cavalcanti, que eu não conhecia, repito.
— Conheço-o, e isso basta — disse Danglars.
— Conhece-o? Obteve informações sobre ele? — perguntou Monte Cristo.
— E há necessidade disto? E não sabemos de cara com quem estamos lidando? Em primeiro lugar, é rico.
— Não garanto.
— Deu-lhe seu aval, entretanto.
— Cinqüenta mil libras, uma miséria.
— Ele tem uma educação refinada.
— Hum! — fez por sua vez Monte Cristo.
— É musicista.
— Todos os italianos o são.
— Ora, conde, não está sendo justo com o rapaz.
— Muito bem! Sim, admito, é com pesar que, conhecendo o compromisso do senhor com os Morcerf, vejo-o se intrometendo e ostentando sua fortuna.
Danglars começou a rir.
— Oh, como o senhor é puritano! — disse. — Mas isso se faz todos os dias no mundo.
— No entanto, o senhor não pode romper assim, meu caro sr. Danglars.
Os Morcerf contam com esse casamento.
— Contam?
— Muito.
— Então que se expliquem. O senhor deveria insinuar uma palavrinha sobre isso ao pai, meu caro conde, o senhor que tem bom trânsito na casa.
— Eu! E onde diabos viu isso?
— Ora, no baile, me parece. E como! A condessa, a orgulhosa Mercedes, a desdenhosa catalã, que mal se digna abrir a boca para seus mais velhos conhecidos, tomou-o pelo braço, saiu com o senhor pelo jardim, enveredou por pequenas aléias e só reapareceu meia hora depois.
— Ah, barão, barão — interveio Albert —, assim não conseguimos ouvir; para um melômano como o senhor, que heresia!
— Está bem, está bem, sr. engraçadinho — resmungou Danglars.
Depois, voltando-se para Monte Cristo:
— Pode encarregar-se de dizer isso ao pai?
— Com prazer, se assim deseja.
— Mas que dessa vez isso se faça de uma maneira explícita e definitiva.
Sobretudo que ele me peça minha filha, que marque uma data, que declare suas condições financeiras. Enfim, ou nos entendemos ou brigamos, mas, o senhor compreende, chega de adiamentos.
— Muito bem! A solicitação será atendida.
— Não direi ao senhor que espero isso com prazer, mas, enfim, espero.
Um banqueiro, como sabe, deve ser escravo de sua palavra.
E Danglars soltou um suspiro como aqueles que, meia hora antes, soltava Cavalcanti filho.
— Bravi! Bravo! Brava! — gritou Morcerf, parodiando o banqueiro e aplaudindo no fim da peça.
Danglars começava a olhar torto para Albert, quando vieram dizer-lhe algo em voz baixa.
— Já volto — disse o banqueiro a Monte Cristo. — Espere por mim, talvez tenha alguma coisa a lhe dizer daqui a pouco.
E saiu.
A baronesa aproveitou-se da ausência do marido para empurrar a porta da sala de estudos de sua filha, e todos viram erguer-se, qual uma mola, o sr. Andrea, que estava sentado ao piano com a srta. Eugénie.
Albert cumprimentou com um sorriso a srta. Danglars, que, sem parecer em nada perturbada, devolveu-lhe um cumprimento tão frio quanto de costume.
Cavalcanti pareceu evidentemente atrapalhado. Cumprimentou Morcerf, que retribuiu com a expressão mais impertinente do mundo.
Albert começou então a se derramar em elogios à voz da srta. Danglars, dizendo do arrependimento que sentia, pelo que acabava de ouvir, por não ter assistido ao sarau da véspera.
Cavalcanti, abandonado, chamou Monte Cristo à parte.
— Vamos — disse a sra. Danglars —, chega de música e de elogios desse gênero, venham tomar o chá.
— Venha, Louise — disse a srta. Danglars à sua amiga.
Passaram à sala vizinha, onde efetivamente o chá estava pronto.
No momento em que começavam a deixar as colheres nas xícaras, à maneira inglesa, a porta voltou a se abrir e Danglars reapareceu bastante agitado.
Monte Cristo foi o primeiro a perceber aquela agitação e interrogou o banqueiro com o olhar.
— Veja só! — disse Danglars. — Acabo de receber minha correspondência da Grécia.
— Ah, ah! — fez o conde. — Então foi para isso que o chamaram?
— Sim.
— Como vai o rei Oto? — perguntou Albert, num tom de pura galhofa.
Danglars olhou-o atravessado, sem responder, e Monte Cristo esquivouse para ocultar a expressão de pena que acabava de aparecer em seu rosto, a qual logo se desfez.
— Vamos embora juntos, não é? — perguntou Albert ao conde.
— Sim, se lhe agrada — respondeu este.
Albert não compreendia de todo o olhar do banqueiro; assim, voltandose para Monte Cristo, que o compreendera perfeitamente, perguntou:
— Viu como ele me olhou?
— Sim — respondeu o conde. — Mas viu alguma coisa diferente no olhar dele?
— Acho que sim, mas o que ele quis dizer com notícias da Grécia?
— Como quer que eu saiba?
— Ao que presumo, tem espiões nesse país.
Monte Cristo sorriu como sorrimos sempre que queremos fugir da resposta.
— Veja — disse Albert —, ei-lo que se aproxima do senhor, farei um elogio à srta. Danglars a respeito de seu camafeu; enquanto isso, o pai terá oportunidade de lhe falar.
— Se fizer o elogio, faça-o pelo menos a respeito de sua voz — instruiu Monte Cristo.
— Não, isso é o que qualquer um faria.
— Meu caro visconde — disse Monte Cristo —, o senhor tem a soberba da impertinência.
Albert encaminhou-se na direção de Eugénie com um sorriso nos lábios.
Nesse intervalo, Danglars debruçou-se no ouvido do conde.
— O senhor me deu um excelente conselho — disse ele —, e há toda uma história horrível nessas duas palavras: Fernand e Janina.
— Bah! — fez Monte Cristo.
— Sim, vou lhe contar a história; mas leve o rapaz, eu agora me sentiria constrangido de tê-lo por aqui.
— É o que faço, ele me acompanha; e continua querendo que eu lhe mande o pai?