O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 18 de 119

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O Conde de Monte Cristo

16. Um sábio italiano

4 Tântalo: na mitologia grega, Tântalo foi um mitológico rei da Frígia ou da Lídia, casado com Dione. Certa vez, para testar a onisciência dos deuses, roubou os manjares divinos e serviu-lhes a carne de seu próprio filho. Como castigo, foi lançado ao Tártaro, vale abundante em vegetação e água, mas onde seria impedido de saciar a fome e a sede. Ao aproximar-se da água, esta escoava, e, ao tentar colher os frutos das árvores, os ramos moviam-se para longe de seu alcance. A expressão “suplício de Tântalo” refere-se ao sofrimento daquele que deseja algo próximo, porém inalcançável.

16. Um sábio italiano

Dantès acolheu em seus braços aquele novo amigo, por tanto tempo e tão impacientemente esperado, e o puxou para a luz a fim de que o pouco de dia que penetrava na masmorra o iluminasse por inteiro.

Era um personagem de baixa estatura, cabelos encanecidos mais pelo sofrimento do que pela idade, olhos penetrantes escondidos sob grossas sobrancelhas quase brancas, barba ainda preta e descendo até o peito; a magreza de seu rosto, carcomido por rugas profundas, e a linha ousada de seus traços peculiares revelavam um homem habituado a exercitar mais suas faculdades morais do que suas forças físicas. A testa do recém-chegado estava coberta de suor.

Quanto à roupa, era impossível distinguir-lhe a forma primitiva, pois não passavam de farrapos.

Parecia ter no mínimo sessenta e cinco anos, embora certo vigor nos movimentos anunciasse que talvez tivesse menos anos do que o sugerido por um longo cativeiro.

Recebeu com uma espécie de satisfação os gestos entusiasmados do rapaz; sua alma congelada pareceu, por um instante, se aquecer e derreter em contato com aquela alma ardente. Agradeceu-lhe por sua cordialidade demonstrando simpatia, embora sua decepção tivesse sido grande ao encontrar uma segunda masmorra onde julgava encontrar a liberdade.

— Em primeiro lugar — disse ele —, vejamos se há como apagar aos olhos de seu carcereiro os rastros da minha passagem. Toda a nossa tranqüilidade futura depende de eles permanecerem na ignorância do que aconteceu.

Debruçou-se então para a boca do túnel, pegou a pedra, que ergueu com facilidade a despeito do peso, e a encaixou no buraco.

— Essa pedra foi retirada com métodos bastante primitivos — disse ele, balançando a cabeça. — Não tem ferramentas?

— E o senhor — perguntou Dantès com espanto — por acaso tem?

— Fabriquei algumas. Exceto por uma lima, tenho tudo de que preciso, cinzel, alicate, alavanca.

— Oh, estou curioso para ver esses produtos da sua paciência e da sua engenhosidade! — disse Dantès.

— Pegue; para começar, aqui está um cinzel.

E mostrou-lhe uma lâmina forte e pontiaguda tendo como cabo um pedaço de madeira de faia.

— Como a confeccionou? — perguntou Dantès.

— Com uma lasca da minha cama. Foi com esse instrumento que cavei todo o caminho que me trouxe até aqui; mais ou menos dezesseis metros.

— Dezesseis metros! — exclamou Dantès, com uma espécie de terror.

— Fale mais baixo, moço, fale mais baixo; acontece freqüentemente de escutarem nas portas dos prisioneiros.

— Sabem que estou sozinho.

— Não importa.

— Estava dizendo que perfurou dezesseis metros para chegar até aqui?

— Sim, esta é aproximadamente a distância que separa minha cela da sua; porém, calculei mal a minha curva, na falta de instrumento de geometria para elaborar minha escala de proporção; em vez de treze metros de elipse, eram na realidade dezesseis; eu acreditava, como lhe disse, chegar até o muro externo, perfurar esse muro e me atirar no mar.

Percorri a galeria para a qual dá sua cela, em vez de passar por baixo; todo o meu trabalho está perdido, pois essa galeria dá para um pátio cheio de guardas.

— É verdade — disse Dantès —, mas essa galeria não acompanha senão um lado da minha cela, e minha cela tem quatro.

— Sim, é possível, mas fui desembocar logo neste, cuja muralha é constituída pelo rochedo; seriam necessários dez anos de trabalho e dez mineiros munidos de todos os instrumentos para perfurar o rochedo; este outro lado deve se apoiar nas fundações dos aposentos do diretor; cairíamos nos porões, que evidentemente eles fecham a chave, e seríamos capturados; o outro lado dá, espere um instante, para onde dá o outro lado?

Esse lado era aquele onde estava aberto o respiradouro através do qual entrava a luz; esse respiradouro, que ia se estreitando até o ponto em que dava passagem à luz e pelo qual uma criança decerto não teria conseguido passar, era, além disso, guarnecido por três renques de barras de ferro, capazes portanto de tranqüilizar o carcereiro mais desconfiado quanto ao temor de uma evasão desse tipo.

E o recém-chegado, ao fazer esta pergunta, arrastou a mesa para debaixo do vão.

— Suba nesta mesa — disse ele a Dantès.

Dantès obedeceu, subiu na mesa e, adivinhando as intenções de seu companheiro, apoiou as costas na parede e lhe apresentou as duas mãos.

Este, que se atribuíra o nome do número de sua cela e cujo verdadeiro nome Dantés ainda ignorava, subiu então mais agilmente do que seria de esperar em sua idade, com uma habilidade de gato ou lagartixa, na mesa primeiro, depois da mesa para as mãos de Dantès, depois de suas mãos para seus ombros; assim curvado em dois, pois a abóbada da masmorra o impedia de se aprumar, enfiou a cabeça entre o primeiro renque de barras de ferro e pôde vislumbrar de alto a baixo.

Um instante depois, retirou bruscamente a cabeça.

— Claro! — disse ele. — Eu devia ter desconfiado.

E deixou-se escorregar pelo corpo de Dantès até a mesa, e da mesa pulou para o chão.

— De que devia ter desconfiado? — perguntou ansioso o rapaz, pulando por sua vez para junto dele.

O velho prisioneiro meditava.

— Sim — disse —, é isto: o quarto ao lado de sua masmorra dá para uma galeria externa, espécie de caminho de ronda por onde as patrulhas passam e as sentinelas vigiam.

— Tem certeza disso?

— Vi o shako1 do soldado e a ponta de seu fuzil; só me retirei bruscamente com medo de que ele próprio me visse.

— E agora? — disse Dantès.

— Como pode constatar, é impossível fugir pela sua masmorra.

— E então? — continuou o rapaz num tom indagador.

— Então — disse o velho prisioneiro —, seja feita a vontade do Senhor...

E uma sombra de profunda resignação espalhou-se na fisionomia do velho. Num misto de espanto e admiração, Dantès observava aquele homem que renunciava assim, com tanta filosofia, a uma esperança fazia muito acalentada.

— Agora pode me dizer quem é o senhor? — perguntou ele.

— Oh, meu Deus, sim, se isso ainda lhe interessar, agora que não sou mais útil para nada.

— Pode ser útil para me consolar e me apoiar, pois me parece um forte entre os fortes.

O abade sorriu tristemente.

— Sou o abade Faria — disse ele —, prisioneiro desde 1811, como sabe, no castelo de If; mas eu já passara três anos confinado na fortaleza de Fenestrelle. Em 1811, fui transferido do Piemonte para a França. Foi quando soube que o destino, que naquela época lhe parecia submisso, dera um filho a Napoleão e que esse filho, ainda no berço, recebera o título de rei de Roma. Eu estava longe de desconfiar então do que o senhor me contou não faz muito tempo: que, quatro anos mais tarde, o colosso seria derrubado. Quem reina então na França? Será Napoleão II?

— Não, é Luís XVIII.

— Luís XVIII, o irmão de Luís XVI! São estranhos e misteriosos os desígnios celestes. Qual terá sido a intenção da Providência ao rebaixar o homem que ela promovera e ao promover aquele a quem rebaixara?

Dantès acompanhava com os olhos aquele homem, que por um instante esquecia-se do próprio destino para se preocupar daquela forma com os destinos do mundo.

— Sim, sim — continuou —, é como na Inglaterra: depois de Carlos I, Cromwell, depois de Cromwell, Carlos II, e talvez depois de Jaime II, algum genro, algum parente, algum príncipe de Orange, um

Stadhouder2

que se fará rei; e então novas concessões ao povo, então uma nova constituição, então a liberdade! O senhor verá isso, meu jovem — disse ele, voltando-se para Dantès e fitando-o com olhos brilhantes e profundos, como deviam ter os profetas. — O senhor ainda está na idade para vê-lo, e o verá.

— Sim, se sair daqui.

— Ah, é verdade! — disse o abade Faria. — Somos prisioneiros; há momentos em que me esqueço e, quando meus olhos atravessam as muralhas que me cercam, creio-me em liberdade.

— Mas por que está preso?

— Eu? Porque elaborei, em 1807, o plano que Napoleão quis executar em 1811; porque, como Maquiavel, no meio de todos aqueles principadozinhos que faziam da Itália um ninho de pequenos reinos tirânicos e fracos, quis um grande e único império, compacto e forte: porque julguei encontrar o meu César Bórgia num imbecil coroado que fingiu me compreender para melhor me trair.

Era o plano de Alexandre VI3 e Clemente VII4, o qual continuará a fracassar, uma vez que o empreenderam inutilmente e Napoleão não conseguiu rematá-lo.

Decididamente, a Itália é amaldiçoada.

E o velho abaixou a cabeça.

Dantès não compreendia como um homem podia arriscar a vida por interesses daquele tipo; é verdade que, embora conhecesse Napoleão por tê-lo visto e se dirigido a ele, em contrapartida ignorava quem eram Clemente VII e Alexandre VI.

— O senhor não é — disse Dantès, começando a partilhar a opinião do seu carcereiro, que era a opinião geral no castelo de If — o padre considerado... doente?

— Considerado louco, é o que quer dizer, não é?

— Não me atrevi — disse Dantès, sorrindo.

— Sim, sim — emendou Faria, com um riso amargo. — Sim, sou eu que passo por louco; sou eu que há tanto tempo divirto os hóspedes desta prisão e que alegraria as criancinhas, se houvesse crianças nesse antro de dor sem esperança.

Dantès permaneceu por um instante imóvel e mudo.

— Então está desistindo de fugir? — perguntou.

— Considero a fuga impossível; seria revoltar-se contra Deus tentar o que Deus não quer que se realize.

— Por que desanimar? Seria muito pedir à Providência o sucesso logo na primeira tentativa. Não pode recomeçar numa direção diferente da que havia tomado?

— Ora, sabe o que fiz para falar em recomeçar? Sabe que precisei de quatro anos para fabricar as ferramentas que possuo? Sabe que há dois anos raspo e perfuro uma terra dura como granito? Sabe que precisei descalçar pedras que em outros tempos eu não teria julgado possível mover, que dias inteiros foram despendidos nesse labor titânico e que às vezes, à noite, eu ficava feliz quando tinha retirado um centímetro quadrado dessa argamassa velha, que se tornou tão dura quanto a própria pedra? Sabe que, para armazenar toda essa terra e todas essas pedras que eu enterrava, precisei escavar o vão de uma escada, no qual o entulho foi pouco a pouco enterrado, tão compactamente que hoje o vão está cheio, e eu não saberia mais onde enfiar um punhado de pó? Sabe, por fim, que eu julgava estar alcançando a meta de todo o meu trabalho, que eu me sentia com forças para realizar essa única tarefa, e que agora Deus não apenas me distancia dessa meta como a transfere sei lá para onde? Ah! Digo e repito, de agora em diante nada farei para tentar reconquistar minha liberdade, uma vez que a vontade de Deus é que ela se perca para sempre.

Edmond abaixou a cabeça para não confessar àquele homem que a alegria de ter um companheiro o impedia de se compadecer, como devia ter feito, da dor sentida pelo prisioneiro por não mais poder escapar.

O abade Faria deixou-se cair na cama de Edmond e Edmond permaneceu de pé.

O rapaz nunca cogitara fugir. Há coisas que parecem de tal modo impossíveis que sequer nos ocorre tentá-las, e as evitamos por instinto.

Escavar dezesseis metros sob a terra, dedicar a essa operação um trabalho de três anos para, caso ele fosse bem-sucedido, desembocar num precipício abrupto sobre o mar; atirar-se de quinze, vinte, trinta metros talvez, para espatifar, ao cair, a cabeça em alguma pedra, se a bala das sentinelas não o matasse antes; ser obrigado, no caso de escapar a todos esses perigos, a fazer cinco mil metros a nado, isso era demais para que alguém não se resignasse, e vimos que Dantès levou essa resignação quase até a morte.

Mas agora que o rapaz vira um velho aferrar-se à vida com tanta energia e dar-lhe o exemplo das iniciativas desesperadas, começou a refletir e a avaliar sua coragem. Um outro tentara o que ele sequer tivera a idéia de fazer; um outro, menos jovem, menos forte, menos hábil que ele, se proporcionara, graças à sua habilidade e paciência, todos os instrumentos requeridos para aquela operação inacreditável, que um cálculo malfeito teria podido fazer fracassar; um outro fizera tudo aquilo, então nada era impossível para Dantès: o abade Faria escavara dezesseis metros, ele passaria dos cem; Faria, aos cinqüenta anos, dedicara três à sua obra; da idade de Faria ele tinha somente a metade, poderia dedicar seis; Faria, abade, cientista, homem de igreja, não temera o risco da travessia do castelo de If até a ilha de Daume, de Ratonneau ou de Lemaire; ele, Edmond, o marujo, ele, Dantès, o mergulhador temerário, que tantas vezes procurara um pedaço de coral no fundo do mar, hesitaria então em fazer cinco mil metros a nado? Quanto tempo levaria para percorrer cinco mil metros a nado? Uma hora? Muito bem! Não permanecera então horas inteiras no mar sem colocar os pés em terra? Não, não, Dantès precisava apenas ser encorajado por um exemplo. Tudo que um outro fez ou teria sido capaz de fazer, Dantès o fará.

O jovem refletiu por um instante.

— Descobri o que o senhor procurava — disse ele ao velho.

Faria estremeceu.

— O senhor? — disse ele, levantando a cabeça com uma expressão que indicava que, se Dantès dizia a verdade, o desencorajamento de seu companheiro não teria longa duração. — Vejamos, o que descobriu?

— O túnel que o senhor abriu para vir de sua cela até aqui estende-se no mesmo sentido que a galeria externa, não é?

— Sim.

— Deve ficar afastado dela apenas uns quinze passos...

— No máximo.

— Muito bem! Mais ou menos no meio do túnel, abriremos um caminho formando como a haste de uma cruz. Dessa vez o senhor fará melhor os seus cálculos. Saímos na galeria externa. Matamos a sentinela e nos evadimos. Para que esse plano dê certo, precisamos apenas de coragem, o senhor a tem; pois de vigor não careço eu. Nem falo da paciência, o senhor deu provas dela e darei também.

— Um instante — respondeu o abade —, o senhor ignora, meu caro colega, de que espécie é a minha coragem, e que uso espero fazer da minha força. Quanto à paciência, creio ter sido suficientemente paciente recomeçando a cada manhã a tarefa da noite, e a cada noite a tarefa do dia.

Mas ouça bem, rapaz, eu fazia isso porque me parecia servir a Deus, ao libertar uma de Suas criaturas, a qual, sendo inocente, não podia ter sido condenada.

— Pois então? — perguntou Dantès. — A coisa não continua igual? Por acaso se reconheceu culpado depois que me encontrou? Fale!

— Não, mas não quero me tornar um. Até agora julgava estar lidando apenas com coisas, eis que o senhor me propõe lidar com homens. Fui capaz de perfurar uma muralha e destruir uma escada, mas não vou perfurar um peito nem destruir uma vida.

Dantès esboçou um ligeiro gesto de surpresa.

— Então — disse ele —, podendo ficar livre, seria refreado por semelhante escrúpulo?

— Ora, o senhor mesmo — disse Faria —, por que não atacou seu carcereiro uma noite com o pé da sua mesa, vestiu as roupas dele e tentou fugir?

— Essa idéia não me ocorreu — disse Dantès.

— É porque o senhor tem tamanho horror instintivo por um crime desse tipo, tamanho horror, que foi inclusive incapaz de pensar nisso — retrucou o velho. — Afinal, nas coisas mais simples e permitidas, nossos apetites

naturais nos advertem para não nos desviarmos da linha do nosso direito.

O tigre, que derrama sangue por natureza, cuja essência e destino é este, não precisa senão de uma coisa, que seu olfato o avise que ele tem uma presa ao seu alcance. Ele imediatamente precipita-se sobre tal presa, cai em cima dela e a dilacera. É seu instinto, e ele o obedece. Mas ao homem, pelo contrário, repugna o sangue; não são as leis sociais que coíbem o assassinato, são as leis naturais.

Dantès ficou confuso: era com efeito a explicação do que se passara à sua revelia em seu espírito, ou melhor, em sua alma, pois há pensamentos que se originam na cabeça e outros, no coração.

— E não é só isso! — continuou Faria. — Nestes catorze anos em que fui prisioneiro, repassei em meu espírito todas as evasões célebres. Não vi senão raras evasões serem bem-sucedidas. As evasões felizes, as evasões coroadas de pleno êxito, são aquelas minuciosamente meditadas e lentamente preparadas; foi assim que o duque de Beaufort escapou do castelo de Vincennes, o abade

Dubuquoi, do Fort-l’Évêque, e Latude, da Bastilha5. Há ainda aquelas que o acaso pode oferecer: são estas as melhores; esperemos uma oportunidade, confie em mim, e, se essa oportunidade se apresentar, aproveitemos.

— O senhor foi capaz de esperar, o senhor... — disse Dantès suspirando.

— Este longo trabalho constituía uma ocupação de todos os instantes para o senhor e, quando não tinha seu trabalho para se distrair, tinha suas esperanças para se consolar.

— Além do mais — disse o abade —, eu não me ocupava apenas com isso.

— Que fazia então?

— Escrevia, ou estudava.

— Dão-lhe então papel, penas, tinta?

— Não — disse o abade —, mas eu os fabrico.

— O senhor fabrica papel, penas e tinta? — exclamou Dantès.

— Sim.

Dantès olhou para aquele homem com admiração; porém, era difícil acreditar no que dizia. Faria percebeu a ligeira dúvida.

— Quando vier à minha cela — disse ele —, vou lhe mostrar uma obra inteira, fruto dos pensamentos, pesquisas e reflexões de toda a minha vida, que meditei à sombra do Coliseu em Roma, aos pés da coluna de São Marcos em Veneza, às margens do Arno, em Florença, e que eu sequer

desconfiava que um dia meus carcereiros me concederiam o tempo de executar entre os quatro muros do castelo de If. É um Tratado sobre a possibilidade de uma monarquia geral na Itália. Será um grande volume in-quarto.

— E o senhor o escreveu...?

— ... sobre duas camisas. Inventei um preparado que torna o tecido liso e uniforme como o pergaminho.

— Então o senhor é químico?

— Um pouco. Conheci Lavoisier6 e sou ligado a Cabanis7. — Mas essa obra deve ter exigido pesquisas históricas. Tinha livros à disposição?

— Minha biblioteca em Roma tinha cerca de cinco mil volumes. Em virtude de os ler e reler, descobri que com cento e cinqüenta obras bem escolhidas temos, se não um resumo completo dos conhecimentos humanos, pelo menos tudo que é útil ao homem saber. Dediquei três anos de minha vida a ler e reler esses cento e cinqüenta volumes, de maneira que os sabia praticamente de cor ao ser preso. Na minha cela, com um ligeiro esforço de memória, lembrei-as integralmente. Assim, poderia recitar-lhe Tucídides,

Xenofonte, Plutarco, Tito Lívio, Tácito, Estrabão8,

Jornandès9, Dante, Montaigne, Shakespeare, Spinoza, Maquiavel e

Bossuet10. Estou citando apenas os mais importantes.

— Mas então sabe diversas línguas?

— Falo cinco línguas vivas: alemão, francês, italiano, inglês e espanhol; com a ajuda do grego antigo, compreendo o grego moderno; porém, falo mal, mas é o que venho estudando no momento.

— Estuda? — disse Dantès.

— Sim, fiz um vocabulário com as palavras que sei, organizei-as, combinei-as, virei-as e revirei-as de maneira a poderem me bastar para exprimir meu pensamento. Sei cerca de mil palavras, é tudo que preciso, a rigor, embora haja cem mil, creio, nos dicionários. Apenas não serei eloqüente, mas me farei compreender perfeitamente e isso me basta.

Cada vez mais maravilhado, Edmond começava a achar quase sobrenaturais as faculdades daquele homem estranho, e, tentando fazê-lo dar um passo em falso, insistiu:

— Mas se não lhe deram penas, como pôde escrever esse tratado tão volumoso?

— Confeccionei excelentes penas, que seriam preferidas às penas comuns se a matéria-prima fosse conhecida, com as cartilagens das cabeças desses enormes badejos que nos servem algumas vezes nos dias magros. Assim, assisto à chegada das quartas, sextas e sábados com grande satisfação, pois me dão a esperança de aumentar minha provisão de plumas, e meus trabalhos históricos são, admito, minha ocupação mais amena. Ao descer ao passado, esqueço o presente; ao caminhar livre e independente pela história, esqueço que sou prisioneiro.

— Mas e a tinta? — perguntou Dantès. — Com o que fabricou tinta?

— Antigamente havia uma lareira na minha masmorra — disse Faria.

— Essa lareira foi vedada algum tempo antes da minha chegada, sem dúvida, mas durante longos anos fizeram fogo ali; todo o interior está portanto recoberto de fuligem. Diluí esta fuligem numa porção de vinho que me dão todos os domingos, o que me forneceu excelente tinta. Para as anotações pessoais, que precisam atrair os olhos, espeto os dedos e escrevo com meu sangue.

— E quando poderei ver tudo isso? — perguntou Dantès.

— Quando quiser — respondeu Faria.

— Oh, imediatamente! — exclamou o rapaz.

— Siga-me então — disse o abade.

E entrou no túnel subterrâneo, aonde desapareceu. Dantès o seguiu.

E entrou no túnel subterrâneo, aonde desapareceu.

Dantès o seguiu.

1 Shako: quepe militar de origem húngara, alto, com uma aba na frente, e geralmente encimado por um adorno.

2 “um Stadhouder” : alusão a Guilherme III (1650-1702), Stadhouder, isto é, detentor do poder do Estado, dos Países Baixos, a cujo trono havia ascendido logo ao nascer, devido à morte de seu pai por varíola, uma semana antes de seu nascimento. Mais tarde, casou-se com Mary II, filha do rei inglês Jaime II. O sogro, no entanto, por haver se convertido ao catolicismo em 1668, enfrentava forte oposição em seu próprio reino, já majoritariamente protestante. No contexto da Revolução Gloriosa (1685-89), Jaime II é deposto e sucedido por sua filha, mas é Guilherme quem exerce o poder de fato até o ano de sua morte.

3 Alexandre VI: Rodrigo Bórgia (1431-1503) nasceu em Valência, na Espanha. Foi sagrado papa em 1492, quando então adotou o nome de Alexandre VI. Morreu subitamente, suspeitando-se que tenha sido envenenado por arsênico.

4 Clemente VII: nascido em Florença, Giulio di Giuliano de Medicis (1478-1534), foi eleito papa em 1523. Hábil político e diplomata, morreu envenenado, depois de comer uma refeição à base de um cogumelo altamente tóxico.

5 “o duque de Beaufort escapou do castelo de Vincennes; o abade Dubuquoi, do Fort l’Évêque e Latude, da Bastilha” : Francisco de Bourbon-Vendôme, duque de Beaufort, (1616- 69), teve

como pai um filho ilegítimo de Henrique IV, rei da França. Preso por conspiração, ficou de 1643

a 1648 na Bastilha. De lá fugiu para tomar parte nas Frondas, guerra civil antimonárquica que sacudiu a França entre 1648 e 1653. Nelas tomaram parte os parlamentares, os príncipes reais, a nobreza e, como massa de manobra, as classes populares. Durante o movimento, que não obteve maiores resultados práticos, Francisco de Bourbon recebeu o duvidoso epíteto de “rei dos mercados”. É personagem do romance Vinte anos depois, de Alexandre Dumas, uma continuação de Os três mosqueteiros. Jean-Albert d’Arcambaud (c.1650-1740), também conhecido como abade Dubuquoi, em 1706 foi encarcerado no Fortl’Évêque por haver pregado contra o poder despótico. Não fugiu de lá, mas foi transferido para a Bastilha, de onde, aí sim, conseguiu fugir. Deixou um depoimento sobre o episódio, História de minha evasão, publicado originalmente em 1719. Jean-Henry Latude (1725-1805) foi preso na Bastilha por ter enviado à Madame Pompadour uma caixa cheia de pó, um código para denunciar uma conspiração.

Embora esperasse uma recompensa, viu-se encarcerado. Transferido para Vincennes, de onde fugiu, foi depois trancafiado na Bastilha, e novamente em Vincennes, de onde fugiu uma segunda vez. Capturado, terminou cumprindo trinta e cinco anos de detenção, quando então foi posto em liberdade.