O Conde de Monte Cristo
9. A parelha tordilha
2 Montmorency e La Fayette: Mathieu Jean Felicité de Montmorency (1767-1826), duque de Montmorency-Laval, e Marie-Joseph Paul-Yves-Roch Gilbert du Motier (1757-1834), marquês de La Fayette, eram, à época de sua abdicação, ambos jovens pertencentes à nobreza, mas de inspiração liberal. Em 4 de agosto de 1789, ao eclodir a Revolução Francesa, abdicaram de suas prerrogativas nobiliárquicas em prol da destruição do regime absolutista.
3 “Na dúvida, abstém-te”: máxima atribuída a Zoroastro, profeta nascido na Pérsia (atual Irã), provavelmente em meados do séc.VII a.C.
4 Thorwaldsen, Bartolini, Canova: Bertel Thorwaldsen (1768-1844), escultor neoclássico dinamarquês; Lorenzo Bartolini (1777-1850) e Antonio Canova (1757-1822), os mais importantes artistas da escola neoclássica na escultura italiana.
9. A parelha tordilha
O barão, seguido pelo conde, atravessou uma longa fileira de aposentos notáveis pela suntuosidade pesada e o mau gosto pomposo, e chegou à alcova da sra. Danglars, pequeno cômodo octogonal forrado de cetim corde-rosa e musselina das Índias; as poltronas eram em madeira antiga dourada e com forros de antigamente; as bandeiras das portas representavam pastorais no
gênero de Boucher1; finalmente, dois bonitos pastéis de moldura redonda, combinando com o restante do mobiliário, faziam desse quartinho o único do palacete com certo caráter; é verdade que não obedecera completamente ao projeto elaborado pelo sr. Danglars e seu arquiteto, uma das mais respeitáveis e eminentes celebridades do Império, e que sua decoração foi obra exclusiva da baronesa e de Lucien Débray. Isto fazia com que o sr. Danglars, grande admirador de antigüidades no estilo Diretório, desprezasse abertamente aquele pequeno e elegante refúgio, onde, em todo caso, em geral só era admitido com a condição de justificar sua presença levando mais alguém; na realidade, portanto, não era Danglars que apresentava, ao contrário, ele que era apresentado, sendo bem ou mal recebido conforme a fisionomia do visitante fosse agradável ou desagradável para a baronesa.
A sra. Danglars, cuja beleza ainda valia menção, a despeito dos
seus trinta e seis anos2, estava ao seu piano, pequena obra-prima de marchetaria, ao passo que Lucien Debray, sentado diante de uma mesa de costura, folheava um álbum.
Antes da chegada do conde, Lucien já tivera tido tempo de contar à baronesa diversas coisas relativas a ele. Durante o café-da-manhã na casa de Albert, vimos a impressão que Monte Cristo causara sobre os convidados; tal impressão, por menos impressionável que ele fosse, ainda não se extinguira em Debray, e as informações que dera à baronesa a respeito do conde surtiram efeito. A curiosidade da sra. Danglars, excitada pelos detalhes já revelados por Morcerf e pelos novos que Lucien fornecera, estava em seu auge. Assim, aquela combinação de piano e álbum não passava de uma dessas pequenas astúcias da sociedade, com a ajuda das quais dissimulam-se as mais fortes precauções. Por conseguinte, a baronesa recebeu o sr. Danglars com um sorriso, o que de sua parte não era comum. Já o conde, retribuindo seu cumprimento, fez uma cerimoniosa, mas ao mesmo tempo graciosa, reverência.
Lucien, por sua vez, trocou com o conde uma saudação de quem já foi apresentado e com Danglars, um gesto de intimidade.
— Sra. baronesa — disse Danglars —, permita que lhe apresente o sr.
conde de Monte Cristo, que me foi encaminhado por meus congêneres de Roma com as mais efusivas recomendações: tenho apenas uma palavra a dizer, e que vai num instante torná-lo a coqueluche de todas as nossas belas damas: ele vem a Paris planejando aqui permanecer um ano e gastar seis milhões durante esse tempo; isso promete uma série de bailes, jantares, medianoches, para os quais espero que o sr. conde não nos esqueça, assim como não o esqueceremos em nossas festinhas.
Embora a apresentação fosse grosseiramente bajuladora, em geral é tão raro um homem vir a Paris para gastar em um ano a fortuna de um príncipe que a sra. Danglars lançou sobre o conde um olhar que não era desprovido de certo interesse.
— E o senhor chegou...? — perguntou a baronesa.
— Ontem de manhã, senhora.
— E vem, como costuma fazer, pelo que me disseram, do fim do mundo?
— De Cádiz dessa vez, senhora, pura e simplesmente.
— Oh, o senhor chega numa estação horrível! Paris é detestável no verão; acabaram-se os bailes, as reuniões, as festas. A ópera italiana está em Londres, a ópera francesa está em toda parte, exceto em Paris; e, quanto ao Théâtre-Français, saiba que não está em lugar nenhum. Isso quer dizer que só nos restam como distração algumas tediosas corridas de cavalo no Campo de Marte e em Satory. Pretende apostar, sr. conde?
— Da minha parte, senhora — disse Monte Cristo —, farei tudo que se faz em Paris, caso tenha a felicidade de encontrar alguém que me informe adequadamente sobre os hábitos franceses.
— Gosta de cavalos, sr. conde?
— Passei uma parte da minha vida no Oriente, senhora, e os orientais, como sabem, estimam apenas duas coisas no mundo: a nobreza dos cavalos e a beleza das mulheres.
— Ah, sr. conde — disse a baronesa —, deveria ter sido galante e colocado as mulheres na frente.
— Como vê, senhora, eu tinha razão quando ainda há pouco desejava um preceptor que me orientasse a respeito dos hábitos franceses.
Nesse momento, a aia favorita da baronesa Danglars entrou e, aproximando-se de sua patroa, sussurrou-lhe algumas palavras ao ouvido.
A sra. Danglars empalideceu.
— Impossível! — ela disse.
— Mas é a pura verdade, senhora — respondeu a camarista. A sra.
Danglars voltou-se para o marido.
— Isso é verdade, senhor?
— O quê, senhora? — perguntou Danglars, visivelmente agitado.
— O que me diz essa moça...
— E o que ela diz?
— Diz que o meu cocheiro, quando foi pegar os meus cavalos para atrelá-los ao meu coche, não os encontrou nas cavalariças. Que significa isso? É o que lhe pergunto.
— Senhora — disse Danglars —, escute.
— Oh, estou escutando, senhor, pois estou curiosa para saber o que vai me dizer; nomeio esses cavalheiros nossos juízes, e vou começar por lhes dizer do que se trata. Senhores — continuou a baronesa —, o sr. barão Danglars tem dez cavalos nas cavalariças; dentre esses dez cavalos, há dois que são meus, cavalos encantadores, os mais bonitos de Paris; o senhor os conhece, sr. Debray, meus tordilhos! Muito bem! Justamente quando a sra. de Villefort pede, e eu lhe prometo, o meu coche emprestado para ir ao Bois amanhã, eis que os dois cavalos sumiram! O sr. Danglars deve ter recebido alguns milhares de francos por eles e tê-los vendido. Oh, raça maldita, meu Deus, a dos especuladores!
— Senhora — respondeu Danglars —, os cavalos eram muito ariscos, tinham apenas quatro anos, eu morria de medo pela senhora.
— Espere um pouco! — disse a baronesa. — Sabe muito bem que há um mês tenho no meu serviço o melhor cocheiro de Paris, a menos, claro, que o tenha vendido junto com os cavalos.
— Cara amiga, vou adquirir outros iguais, até mesmo mais bonitos, se os houver; porém cavalos dóceis, calmos, e que não me inspirem mais esse terror.
A baronesa deu de ombros com uma expressão de profundo desprezo.
Danglars pareceu não perceber esse gesto mais que conjugal e, voltandose para Monte Cristo, disse:
— Na verdade, lamento não tê-lo conhecido antes, sr. conde. Está montando casa?
— Exatamente.
— Eu os teria oferecido ao senhor. Imagine que os passei adiante por uma ninharia; porém, como lhe disse, queria me desfazer deles: são cavalos de rapaz.
— Agradeço-lhe, senhor — disse o conde. — Esta manhã comprei cavalos muito bons, e não muito caros. Dê uma olhada, senhor Debray, é um especialista, creio?
Enquanto Debray aproximava-se da janela, Danglars aproximou-se de sua mulher.
— Imagine, senhora — disse-lhe baixinho —, que me vieram oferecer uma soma exorbitante por esses cavalos. Não sei qual foi o maluco em vias de se arruinar que me mandou seu intendente esta manhã. O fato é que ganhei dezesseis mil francos no negócio; não me aborreça e lhe darei quatro mil e dois mil para Eugénie.
A sra. Danglars deitou sobre seu marido um olhar esmagador.
— Oh, meu Deus! — exclamou Debray.
— Que foi agora? — perguntou a baronesa.
— Mas ou muito me engano ou são seus cavalos, seus próprios cavalos atrelados ao coche do conde.
— Meus tordilhos! — exclamou a sra. Danglars. E precipitou-se na direção da janela.
— Com efeito, são eles — disse ela. Danglars estava estupefato.
— Será possível? — perguntou Monte Cristo, manifestando surpresa.
— É inacreditável! — murmurou o banqueiro.
A baronesa disse uma palavrinha ao ouvido de Debray, que, por sua vez, aproximou-se de Monte Cristo.
— A baronesa manda lhe perguntar por quanto seu marido lhe vendeu sua parelha.
— Não sei ao certo — disse o conde —, foi uma surpresa que o meu intendente preparou para mim, e... que me custou trinta mil francos, acho.
Debray foi transmitir a resposta à baronesa.
Danglars estava tão pálido e desconcertado que o conde quase teve pena dele.
— Veja — disse-lhe Monte Cristo — como as mulheres são ingratas: a precaução que o senhor tomou não comoveu a baronesa um instante.
Ingrata não é a palavra, louca eu deveria dizer. Mas, que remédio, amamos sempre o que machuca; portanto, o mais simples, acredite em mim, caro
barão, é deixá-las fazer sempre o que lhes der vontade; se derem com os burros n’água, paciência! Só podem censurar a si mesmas.
Danglars não respondeu nada, previa uma cena desastrosa num futuro próximo; o cenho da baronesa já estava franzido, e, como o de Júpiter Olímpico, pressagiava uma tempestade; Debray, que a sentia em formação, alegou um compromisso e foi embora. Monte Cristo, que não queria perder as posições que conquistara permanecendo por mais tempo, cumprimentou a sra. Danglars e partiu, abandonando o barão à cólera da esposa.
— Ótimo! — pensou Monte Cristo enquanto se retirava. — Cheguei aonde queria; eis que tenho nas mãos a paz do casal e vou ganhar de uma tacada o coração do cavalheiro e o coração da dama; que felicidade! Por outro lado — acrescentou —, nessa confusão não fui apresentado à srta.
Eugénie Danglars, a quem entretanto teria apreciado muito conhecer. Mas
— continuou, com aquele sorriso que lhe era peculiar —, aqui estamos em Paris e tempo é o que não nos falta... Ficará para mais tarde!
A essa reflexão, o conde entrou no coche e voltou para casa.
Duas horas mais tarde, a sra. Danglars recebeu uma carta encantadora do conde de Monte Cristo, na qual este lhe declarava que, não querendo fazer sua estréia no mundo parisiense sob o infortúnio de uma mulher bonita, suplicava-lhe que aceitasse os cavalos de volta.
Tinham os mesmos arreios que ela vira neles pela manhã; porém, no centro de cada roseta que exibiam nas orelhas, o conde mandara costurar um diamante.
A Danglars, também, coube uma carta.
O conde pedia-lhe permissão para passar à baronesa aquele capricho de milionário, rogando-lhe que o desculpasse pelos ornatos orientais de que a remessa dos cavalos se fazia acompanhar.
Durante a noite, Monte Cristo partiu para Auteuil, na companhia de Ali.
No dia seguinte, por volta das três horas, Ali, chamado por um toque de gongo, entrou no gabinete do conde.
— Ali — disse-lhe Monte Cristo —, você já me falou muito de sua habilidade em lançar a peia...
Ali fez sinal que sim e empertigou-se orgulhosamente.
— Pois bem! Quer dizer que, com uma peia, você pararia um boi? Ali fez sinal que sim com a cabeça.
— Um tigre?
Ali fez o mesmo sinal.
— Um leão?
Ali fez o gesto de um homem arremessando a peia e imitou um rugido estrangulado.
— Ótimo, estou entendendo! — disse Monte Cristo. — Já caçou leões?
Ali fez um sinal orgulhoso com a cabeça.
— Mas conseguiria deter dois cavalos furiosos e desembestados? Ali sorriu.
— Excelente! Escute — disse Monte Cristo. — Daqui a pouco passará um coche atrelado a dois cavalos tordilhos, os mesmos que eram meus ontem. Ainda que seja esmagado, você precisa parar esse coche em frente à minha porta.
Ali desceu até a rua e riscou uma linha no chão em frente à porta: em seguida entrou novamente e apontou a linha para o conde, que o seguira com os olhos.
O conde deu-lhe um tapinha no ombro: era sua maneira de agradecer a Ali. Então o núbio foi fumar seu chibuque na esquina da casa e da rua, enquanto Monte Cristo entrava despreocupado.
Entretanto, por volta das cinco horas, isto é, a hora em que o conde esperava o coche, era possível discernir nele sinais quase imperceptíveis de uma ligeira impaciência; ele perambulava num quarto que dava para a rua, volta e meia aguçando os ouvidos e de tempos em tempos se aproximando da janela, pela qual podia ver Ali a soltar baforadas de tabaco com uma regularidade que indicava estar o núbio totalmente concentrado em sua importante tarefa.
De repente ouviu-se um chacoalhar distante, mas que se aproximava com a rapidez do raio; surgiu então uma caleche cujo cocheiro tentava inutilmente frear os cavalos, que avançavam furiosos, desembestados, corcoveando feito loucos.
Na caleche, uma jovem mulher e uma criança de sete a oito anos, abraçadas, haviam perdido, devido ao supremo terror, até mesmo a força de soltar um grito; teria bastado uma pedra sob a roda ou uma árvore no trajeto para arrebentar o coche, que estalava. O veículo mantinha-se no meio do caminho e ouviam-se na rua os gritos apavorados daqueles que presenciavam a cena.
Subitamente, Ali deixa de lado seu chibuque, saca a peia, arremessa-a, envolve com uma volta tripla as pernas dianteiras do cavalo da esquerda,
deixa-se arrastar três ou quatro passos pela violência do impulso; porém, ao fim desses três ou quatro passos, o cavalo capturado desaba, cai sobre o varal, quebrando-o, e Ali paralisa os esforços feitos pelo cavalo que permanecera de pé para continuar sua corrida. O cocheiro aproveita-se desse instante de trégua para pular do assento; mas Ali já agarrava as narinas do segundo cavalo com seus dedos de ferro, e o animal, relinchando de dor, deitou-se convulsivamente ao lado de seu companheiro.
Subitamente, Ali deixa de lado seu chibuque, saca a peia, arremessa-a ...
Isso levou o tempo de uma bala para atingir o alvo.
Ainda assim, foi o suficiente para que, da casa em frente à qual o acidente aconteceu, um homem se precipitasse seguido por diversos criados. Assim que o cocheiro abriu a portinhola, ele retirou da caleche a dama, que com uma das mãos agarrava-se à almofada, enquanto com a outra apertava o filho desmaiado contra o peito. Monte Cristo carregou os dois para o salão, instalando-os num sofá:
— Não tenha mais medo — disse ele —, a senhora está salva.
A mulher voltou a si e, como resposta, apontou para o filho um olhar mais eloqüente que todas as preces.
Com efeito, a criança continuava desmaiada.
— Posso compreender, senhora — disse o conde, examinando a criança.
— Mas fique tranqüila, não lhe aconteceu nada, foi apenas o medo que o deixou nesse estado.
— Oh, senhor — exclamou a mãe —, não está dizendo isso para me tranqüilizar? Veja como ele está pálido! Meu filho! Meu filhinho! Meu Édouard! Responda à sua mãe! Ah, senhor, mande buscar um médico!
Minha fortuna para quem trouxer meu filho de volta!
Monte Cristo fez um gesto para acalmar a mãe desconsolada e, abrindo uma arca, tirou dali um frasco da Boêmia, incrustado de ouro, contendo um líquido vermelho como sangue e do qual deixou cair uma única gota nos lábios da criança.
A criança, embora ainda pálida, logo reabriu os olhos. A essa visão, a alegria da mãe foi quase ao delírio.
— Onde estou? — ela exclamou. — E a quem devo tanta felicidade, após tão cruel provação?
— A senhora está — respondeu Monte Cristo — na casa de um homem regozijado por lhe haver poupado um sofrimento.
— Oh, maldita curiosidade! — disse a dama. — Paris inteira falava desses magníficos cavalos da sra. Danglars, e fiz a loucura de querer testá-los.
— Como! — exclamou o conde, com uma surpresa admiravelmente representada. — Esses cavalos são os da baronesa?
— Sim, o senhor a conhece?
— À sra. Danglars...? Tive essa honra, e minha alegria é dupla ao vê-la salva do perigo a que esses cavalos lhe expuseram; pois esse perigo, é a mim que deve atribuí-lo. Eu havia comprado esses cavalos do barão ontem mesmo, mas a baronesa pareceu sentir tanta falta deles que os devolvi, rogando-lhe que os aceitasse de volta.
— Mas então o senhor é o conde de Monte Cristo, de quem Hermine me falou tanto ontem?
— Sim, senhora — respondeu o conde.
— Da minha parte, cavalheiro, sou a sra. Héloïse de Villefort.
O conde reagiu como um homem diante do qual se pronuncia um nome completamente desconhecido.
— Oh, como o sr. de Villefort ficará grato! — continuou Héloïse. —
Pois, afinal, ele lhe deve a vida de nós dois: o senhor lhe devolveu sua mulher e seu filho. Seguramente, sem seu generoso criado, essa querida criança e eu estaríamos mortos.
— Nem me fale, senhora, ainda tremo com o perigo que correu.
— Oh, espero que me permita recompensar dignamente o devotamento daquele homem!
— Senhora — respondeu Monte Cristo —, por favor, não paparique Ali, nem com elogios, nem com recompensas: são hábitos que não quero que ele adquira. Ali é meu escravo; ao salvá-la, ele me serve, e seu dever é servir-me.
— Mas ele arriscou a vida — disse a sra. de Villefort, a quem aquele tom soberano tocava singularmente.
— Eu salvei essa vida, senhora — respondeu Monte Cristo —, por conseguinte ela me pertence.
A sra. de Villefort calou-se; talvez refletisse sobre aquele homem que, ao primeiro contato, causava tão profunda impressão nos espíritos.
Durante esse instante de silêncio, o conde pôde contemplar à vontade o filho que a mãe cobria de beijos. Era pequeno, franzino, tinha a pele branca como a das crianças ruivas e, não obstante, uma floresta de cabelos negros, rebeldes a qualquer penteado, cobria sua testa protuberante, caindo sobre seus ombros, emoldurando seu rosto e redobrando a vivacidade de seus olhos cheios de malícia dissimulada e maldade juvenil; sua boca, ainda incipientemente vermelha, era fina de lábios e larga de abertura; os traços daquela criança de oito anos já anunciavam os de uma de pelo menos doze. Seu primeiro gesto foi livrar-se com uma brusca cotovelada dos braços de sua mãe e ir abrir a arca de onde o conde retirara o frasco do elixir; em seguida, sem pedir permissão a ninguém, e como criança habituada a satisfazer todos os seus caprichos, pôs-se a destampar os tubos.
— Não toque nisso, meu amigo — disse vivamente o conde —, algumas dessas bebidas são perigosas não apenas se ingeridas, como também se inaladas.
A sra. de Villefort empalideceu e segurou o braço do filho, puxando-o para si; porém, mais calma, não demorou a lançar sobre a arca um olhar
breve porém expressivo, que o conde captou de relance.
Nesse momento, Ali entrou.
A sra. de Villefort esboçou um gesto de alegria, trazendo a criança para mais perto ainda de si, e disse:
— Édouard, olhe para esse bondoso criado. Ele foi muito corajoso, pois arriscou a vida para deter os cavalos que nos arrastavam e o coche que ia se despedaçar. Agradeça-lhe, portanto, pois sem ele, provavelmente, a essa hora estaríamos ambos mortos.
A criança projetou os lábios e desviou desdenhosamente a cabeça.
— Ele é muito feio — disse.
O conde sorriu como se a criança acabasse de corresponder às suas expectativas; quanto à sra. de Villefort, repreendeu o filho com uma moderação que decerto não teria agradado a Jean-Jacques
Rousseau, se o nome do pequeno Édouard fosse Émile3.
— Como vê — disse o conde em árabe, a Ali —, essa dama pede ao filho que lhe agradeça por ter salvado a vida de ambos, e a criança responde que você é muito feio.
Ali desviou por um instante sua cabeça inteligente e olhou para a criança sem expressão visível; mas um simples frêmito de sua narina informou a Monte Cristo que o árabe acabava de ficar profundamente magoado.
— Cavalheiro — perguntou a sra. de Villefort, levantando-se para ir embora —, esta é sua residência permanente?
— Não, senhora — respondeu o conde —, é uma espécie de alojamento básico que comprei: moro na avenida dos Champs-Élysées no30. Mas vejo que está recuperada e deseja se retirar. Acabo de ordenar que atrelem esses mesmos cavalos ao meu coche, e Ali, esse rapaz tão feio — disse ele, sorrindo para a criança —, vai ter a honra de levá-los de volta para casa, enquanto seu cocheiro permanece aqui para consertar a caleche. Assim que o reparo indispensável estiver terminado, uma das minhas parelhas a deixará na casa da sra. Danglars.
— Mas — disse a sra. de Villefort —, eu nunca me atreveria a voltar com esses mesmos cavalos.
— Oh, espere para ver, senhora — disse Monte Cristo. — Sob a mão de Ali, ficarão dóceis como cordeiros.
Com efeito, Ali aproximara-se dos cavalos que haviam se reerguido com muita dificuldade. Tinha na mão uma pequena esponja embebida em
vinagre aromático; esfregou as narinas e têmporas dos cavalos, cobertas de suor e espuma, e quase imediatamente eles começaram a bufar com força e a estremecer de corpo inteiro por alguns segundos.
Em seguida, em meio a uma multidão que os destroços do coche e o barulho do incidente haviam atraído para defronte da casa, Ali atrelou os cavalos ao cupê do conde, juntou as rédeas, subiu ao assento e, para grande espanto dos espectadores que tinham visto aqueles cavalos arrastados como por um turbilhão, foi obrigado a usar vigorosamente o chicote para fazê-los partir, e ainda assim não conseguiu obter dos famosos tordilhos, agora estúpidos, petrificados, mortos, senão um trote, tão vacilante e lânguido que a sra. de Villefort só alcançou o faubourg de Saint-Honoré, onde morava, duas horas depois.
Mal chegou em casa, dissipadas as primeiras preocupações da família, ela escreveu o seguinte bilhete à sra. Danglars:
Querida Hermine, Eu e meu filho acabamos de ser salvos milagrosamente por esse mesmo conde de Monte Cristo de quem tanto falamos ontem à noite e que eu estava longe de imaginar que veria hoje. Ontem você me falou dele com um entusiasmo que não consegui deixar de ridicularizar lá no fundo do meu espírito simplório, mas hoje considero esse entusiasmo muito aquém do homem que o inspirava. Seus cavalos desembestaram nos jardins
do Ranelagh4, como se tivessem sido tomados por um frenesi, e íamos provavelmente nos despedaçar, meu querido Édouard e eu, contra a primeira árvore da estrada ou o primeiro marco da aldeia, quando um árabe, um negro, um núbio, um homem negro enfim, servo do conde, a um sinal deste, creio, deteve o arroubo dos cavalos, sob o risco de se arrebentar ele próprio, e foi realmente um milagre isso não ter acontecido. Então o conde acorreu, carregou-nos para sua casa, Édouard e eu, e trouxe meu filho de volta à vida. No coche dele próprio fui levada para casa; o seu lhe será devolvido amanhã. Encontrará os seus cavalos bastante debilitados após esse acidente; estão como aturdidos; parece que não podem perdoar a si mesmos por se haverem deixado domar por um homem. O conde nos encarregou de lhe dizer que dois dias de repouso na palha e uma dieta de cevada os deixarão tão animados, quer dizer, assustadores, como ontem.
Adeus! Não lhe agradeço pelo meu passeio e, não obstante, quando reflito, vejo que seria ingratidão magoar-me com você pelos caprichos de sua parelha; pois é a um desses caprichos que devo ter conhecido o conde de Monte Cristo, e o ilustre estrangeiro me parece, independentemente dos milhões de que dispõe, um enigma tão curioso e interessante que pretendo estudá-lo a todo custo, ainda que para isso seja obrigada a dar outro passeio pelo Bois com estes seus mesmos cavalos.
Édouard resistiu ao acidente com uma coragem espantosa. Desmaiou, mas não emitiu um grito antes nem derramou uma lágrima depois. Você vai repetir que o amor materno me cega; mas há uma alma de ferro neste corpinho tão franzino e delicado.
Nossa querida Valentine diz muitas coisas à sua querida Eugénie; da minha parte, beijo-a do fundo do coração.
Héloïse de Villefort