O Conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas · Capítulo 51 de 119

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O Conde de Monte Cristo

11. Haydée

10 Ser Supremo: entidade cujo culto foi criado durante a permanência dos jacobinos no poder.

11 Gall: Franz Joseph Gall (1758-1828) médico vienense pioneiro no estudo da localização das funções mentais no cérebro. Por volta de 1800, desenvolveu a cranioscopia, mais tarde rebatizada de frenologia, que consistia num método para desvendar a personalidade e o desenvolvimento das faculdades mentais e morais com base na forma externa do crânio.

11. Haydée

Todos lembram quais eram os novos, ou melhor, os velhos conhecidos do conde de Monte Cristo que moravam na rua Meslay: eram Maximilien, Julie e Emmanuel.

A esperança depositada na auspiciosa visita que iria fazer, nesses poucos momentos felizes que iria passar, nessa réstia de luz do paraíso que se insinuava no inferno, onde se instalara voluntariamente, havia espalhado, a partir do momento em que perdera Villefort de vista, a mais encantadora serenidade no rosto do conde. Ali, que acorrera ao toque do gongo, vendo aquele rosto irradiando com tanta força uma alegria tão rara, retirou-se na ponta dos pés, segurando a respiração, como se tentasse não espantar os bons pensamentos que julgava ver pairando em volta do patrão.

Era meio-dia: o conde reservara uma hora para subir aos aposentos de Haydée; era como se a alegria não pudesse de repente voltar a sua alma por tanto tempo machucada, e ela precisasse se preparar para emoções mais doces, como outras almas precisam se preparar para emoções violentas.

A jovem grega ocupava, como dissemos, um apartamento

completamente independente daquele do conde. Tal apartamento era inteiro mobiliado ao estilo oriental; o piso era forrado por grossos tapetes turcos, tecidos de brocado caíam ao longo das paredes e cada aposento era contornado por um amplo divã com pilhas de almofadas que se deslocavam ao capricho dos que delas faziam uso.

Haydée tinha três damas de companhia francesas e uma grega. As três francesas ficavam no primeiro cômodo, prontas a acorrer ao som de uma pequena campainha de ouro e a obedecer as ordens da escrava romaica, que sabia o suficiente de francês para transmitir as vontades de sua patroa às três aias, a quem Monte Cristo recomendara dedicar a Haydée os desvelos que dedicariam a uma rainha.

A moça encontrava-se no cômodo mais recuado de seu apartamento, isto é, numa espécie de alcova em forma de círculo, iluminada apenas por cima e na qual o dia penetrava somente através das janelas de vidro cor-de-rosa.

Estava deitada no chão sobre almofadas de cetim azul com brocados em prata, reclinada no divã, emoldurando a cabeça com o braço direito frouxamente dobrado, enquanto, com a mão do braço esquerdo, fixava entre os lábios a piteira de coral na qual se encaixava o tubo flexível do

narguilé, fazendo com que o vapor chegasse à sua boca perfumado pela água-de-beijoim, através da qual sua delicada aspiração o obrigava a passar.

A uma francesa sua pose, mais que natural para uma mulher do Oriente, teria parecido de uma frivolidade talvez um pouco afetada.

Quanto à sua roupa, era a das mulheres epirotas, isto é, ceroulas de cetim branco com flores cor-de-rosa bordadas, deixando aparentes dois pés de criança, que julgaríamos de mármore de Paros, se os tivéssemos visto brincar com duas sandalinhas de bico revirado, com brocados de ouro e pérolas; uma túnica com listras compridas azuis e brancas, amplas mangas com uma fenda nos braços, com botões de pérolas em casas de tecido prateado; por fim, uma espécie de blusa que deixava expostos, graças ao decote aberto em forma de coração, o pescoço e toda a parte superior do colo, abotoada na altura dos seios por três botões de diamante.

A parte inferior da blusa e a superior das ceroulas perdiam-se num daqueles cintos de cores vivas e compridas franjas sedosas que despertam a inveja das nossas elegantes parisienses.

A cabeça exibia um pequeno barrete de ouro bordado com pérolas, meio inclinado, e sob o barrete, do lado em que ele caía, despontava uma bela rosa de tons púrpuras, emaranhada a cabelos tão pretos que pareciam azuis.

Quanto à beleza desse rosto, era a beleza grega em toda a perfeição do tipo, com seus grandes olhos negros aveludados, nariz reto, lábios de coral e dentes de pérolas.

Para concluir, sobre esse conjunto encantador, a flor da juventude esprairava-se com todo o seu brilho e perfume: Haydée devia ter dezenove ou vinte anos.

Monte Cristo chamou a criada grega e ordenou-lhe que pedisse a Haydée permissão para ele entrar.

Haydée prontamente fez sinal à criada para que erguesse o reposteiro que pendia sobre a porta, cujo umbral quadrado emoldurou a moça deitada como numa tela encantadora. Monte Cristo avançou.

Haydée soergueu-se, largando o narguilé, estendendo a mão ao conde e ao mesmo tempo recebendo-o com um sorriso:

— Por que — disse ela, na língua sonora de Esparta e Atenas — pede permissão para entrar nos meus aposentos? Não é mais o meu senhor, não sou mais a sua escrava?

— Não é mais o meu senhor, não sou mais a sua escrava?

 

Monte Cristo sorriu.

— A srta. Haydée sabe... — ele disse.

— Por que não diz você como sempre? — interrompeu a jovem grega.

— Cometi algum erro? Nesse caso, convém me punir, mas não me tratar de senhorita.

— Haydée — respondeu o conde —, saiba que estamos na França e que, por conseguinte, você está livre.

— Livre para fazer o quê? — perguntou a rapariga.

— Livre para me deixar.

— Deixá-lo! E por que o deixaria?

— Como posso saber? Vamos conhecer a sociedade.

— Não quero conhecer ninguém.

— E se, dentre os belos rapazes que lhe serão apresentados, houver alguém que lhe agrade, eu não seria injusto a ponto de...

— Nunca vi homem mais belo que você e nunca amei ninguém a não ser meu pai e você.

— Pobre criança — disse Monte Cristo —, isso é porque você mal falou com outra pessoa além de seu pai e eu.

— Que importa! Por que precisaria falar com mais alguém? Meu pai me chamava de sua alegria, você me chama de amor, e ambos me chamam de minha criança.

— Lembra-se do seu pai, Haydée? A jovem sorriu.

— Ele está aqui e aqui — ela respondeu, colocando a mão nos olhos e no coração.

— E eu, onde estou?

— Você — disse ela — está em toda parte.

Monte Cristo pegou a mão de Haydée para beijá-la; mas a ingênua criança retirou a mão e ofereceu a testa.

— Agora, Haydée — disse ele —, saiba que está livre, que é soberana, que é rainha; pode continuar usando suas roupas típicas ou abandoná-las como bem lhe aprouver; permanecerá aqui enquanto quiser, sairá quando quiser sair; haverá sempre um coche atrelado para você; Ali e Myrto lhe farão companhia e estarão às suas ordens. Peço-lhe apenas uma coisa.

— Fale.

— Guarde segredo acerca do seu nascimento, não diga uma palavra sobre o seu passado; não pronuncie sob qualquer pretexto o nome de seu pai nem o de sua mãe.

— Já lhe disse, senhor, não verei ninguém.

— Escute, Haydée; talvez essa reclusão toda oriental seja impossível em Paris. Continue a aprender sobre a vida dos nossos países do Norte como fez em Roma, Florença, Milão e Madri; isso lhe será útil para sempre, continue você vivendo aqui ou no caso de sua volta para o Oriente.

A moça ergueu para o conde grandes olhos úmidos e respondeu:

— Ou no caso de nossa volta para Oriente, é o que quer dizer, não é, meu amo?

— Sim, minha menina — disse Monte Cristo. — Sabe muito bem que nunca serei eu a abandoná-la. Não é a árvore que abandona a flor, é a flor que abandona a árvore.

— Eu jamais o deixarei — sentenciou Haydée —, pois tenho certeza de que não conseguiria viver sem você.

— Pobre criança! Daqui a dez anos estarei velho e daqui a dez anos você ainda será jovem.

— Meu pai tinha uma barba branca comprida, isso não me impedia de amá-lo; meu pai tinha sessenta anos e me parecia mais belo que todos os rapazes que eu via.

— Mas, seja sincera e me diga, acha que vai se acostumar aqui?

— Verei você?

— Todos os dias.

— Ora, por que pergunta então, senhor?