O Conde de Monte Cristo
2. A limonada
2 Impartial: jornal cujo nome completo era L’Impartial, journal constitutionnel, politique et commercial, e para o qual Dumas colaborou como crítico teatral.
3 Em 13 de agosto de 1845, era possível ler no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro: “Somos obrigados a suspender hoje a publicação de O conde de Monte Cristo por não ter chegado ainda de Paris a continuação deste folhetim. Durante esta forçada interrupção, publicamos A alamedas das Viúvas ...” (apud Marlyse Meyer, Folhetim, uma história. São Paulo, Companhia das Letras, 1996).
4 Jafé: herói burlesco da comédia em cinco atos e em versos Don Japhet, de Paul Scarron (1610-60), que data do século XVII.
5 Banhos Chineses: vasta construção ao estilo oriental, ou pagode, que os habitantes de Paris usavam como uma espécie de sauna pública.
6 Madeleine: igreja em Paris, construída a partir de 1764 e que passou por constantes reformas, ampliações e reconstruções até o séc.XIX.
2. A limonada
Com efeito, Morrel estava muito feliz.
O sr. Noirtier acabava de mandar chamá-lo, e ele estava com tanta pressa de saber o motivo que não pegara um fiacre, confiando muito mais em suas duas pernas que nas pernas de um cavalo de praça; saíra, portanto, correndo da rua Meslay e tomara o caminho do faubourg Saint-Honoré.
Morrel dava passadas atléticas, e o alquebrado Barrois acompanhava-o o melhor que podia. Morrel tinha trinta e um anos, Barrois, sessenta; Morrel estava inebriado de amor, Barrois, alterado com o forte calor. Esses dois homens, assim divididos em interesses e idade, assemelhavam-se às duas linhas formadas por um triângulo: separadas pela base, juntam-se no topo.
O topo era Noirtier, que mandara chamar Morrel recomendando-lhe pressa, recomendação que Morrel seguia ao pé da letra, para grande desespero de Barrois.
Ao chegar, Morrel sequer estava ofegante: o amor dá asas; mas Barrois, que já não se apaixonava fazia tempo, suava em bicas.
O velho serviçal fez Morrel entrar pela porta privada, fechando a porta do gabinete, e logo um frufru de vestido no assoalho anunciou a visita de Valentine.
Ela estava deslumbrante em seus trajes de luto.
O sonho tornava-se tão doce que Morrel quase desistiu de conferenciar com Noirtier, mas a cadeira do velho não demorou a rolar no assoalho, e ele entrou.
Noirtier recebeu com um olhar benevolente os agradecimentos que Morrel prodigalizava-lhe pela intervenção mágica que os salvara, Valentine e ele, do desespero. Em seguida, o olhar de Morrel perguntou, a respeito do novo privilégio que lhe concediam, à rapariga, que, tímida e sentada longe de Morrel, aguardava até ser intimada a falar.
Noirtier também olhou para ela.
— Devo então revelar aquilo de que me encarregou? — perguntou a jovem.
— Sim — fez Noirtier.
— Sr. Morrel — disse então Valentine ao rapaz, que a devorava com os olhos —, meu avô Noirtier tinha mil coisas a lhe dizer, as quais comunicoume há três dias. Hoje ele manda chamá-lo para que eu as repita.
Irei, portanto, repeti-las, uma vez que ele me escolheu como sua intérprete, sem alterar uma palavra de suas intenções.
— Oh, escuto impacientemente — respondeu o rapaz. — Fale, senhorita, fale.
Valentine baixou os olhos, o que pareceu um presságio a Morrel.
Valentine só era fraca na felicidade.
— Meu avô quer deixar esta casa — ela disse. — Barrois está à procura de um apartamento apropriado.
— Mas, e a senhorita — disse Morrel —, que é tão cara e tão necessária ao sr. Noirtier?
— Não abandonarei meu avô — respondeu a moça —, é uma decisão nossa. Meus aposentos ficarão próximos aos dele. Ou obterei o consentimento do sr. de Villefort para ir morar com o vovô Noirtier, ou este me será negado. No primeiro caso, estou de saída; no segundo, aguardo minha maioridade, que chega daqui a dez meses. Então serei livre, terei uma fortuna independente e...
— E...? — perguntou Morrel.
— E, com a autorização do meu querido avô, cumprirei a promessa que lhe fiz.
Valentine pronunciou estas palavras tão baixinho que Morrel não teria conseguido ouvi-las sem o interesse que tinha em devorá-las.
— Não foi o seu pensamento que acabo de exprimir, vovô? —
acrescentou Valentine, dirigindo-se a Noirtier.
— Sim — fez o velho.
— Quando eu estiver na casa do meu avô — acrescentou Valentine —, o sr. Morrel poderá me ver, na presença desse bom e digno protetor. Se esse laço, que nossos corações, talvez ignorantes ou caprichosos, começaram a atar, parecer conveniente e oferecer garantias de felicidade futura ao nosso experimento; ai de mim!, dizem que os corações inflamados pelos obstáculos esfriam em segurança!; então o sr. Morrel poderá me fazer seu pedido pessoalmente, estarei à espera.
— Oh! — exclamou Morrel, tentado a se ajoelhar diante do velho como diante de Deus, diante de Valentine como diante de um anjo. — Oh! O que fiz para merecer tanta felicidade?
— Até lá — continuou a moça, com sua voz pura e austera —, respeitaremos as convenções, até mesmo a vontade dos nossos parentes, na
medida em que esta desista de querer nos separar. Em suma, repito esta palavra porque ela diz tudo: esperemos.
— E os sacrifícios que essa palavra impõe — disse Morrel —, juro suportá-los não com resignação, mas com alegria.
— Dessa forma — continuou Valentine, com um olhar dulcíssimo para o coração de Maximilien —, terminaram as imprudências, meu amigo, não comprometa aquela que, a partir de hoje, vê-se como destinada a assumir limpa e dignamente seu nome.
Morrel levou a mão ao coração.
Enquanto isso, Noirtier fitava a ambos com ternura. Barrois, que permanecera ao fundo como um homem a quem nada se tem a esconder, sorria, enxugando as grandes gotas que pingavam de sua fronte calva.
— Oh, meu Deus, como sente calor esse leal Barrois! — comentou Valentine.
— Ah — disse Barrois —, é que corri muito, senhorita; mas o sr.
Morrel, devo fazer-lhe justiça, corria ainda mais rápido que eu.
Noirtier indicou com o olho uma bandeja na qual estavam servidos uma garrafa de limonada e um copo. O que faltava na garrafa havia sido bebido meia hora antes por Noirtier.
— Ora, caro Barrois — disse a moça —, pegue, pois vejo que está bebendo com os olhos essa garrafa já iniciada.
— O fato é — disse Barrois — que estou morrendo de sede, e beberei com satisfação um copo de limonada, à sua saúde.
— Beba então — disse Valentine —, volto num instante.
Barrois levou a bandeja e, mal adentrava o corredor, pela porta que ele se esquecera de fechar, já podia ser visto inclinando a cabeça para trás, esvaziando o copo que Valentine lhe servira.
Valentine e Morrel faziam suas despedidas na presença de Noirtier, quando se ouviu a campainha na escada de Villefort.
Era o sinal de uma visita. Valentine consultou o carrilhão.
— É meio-dia — disse ela —, hoje é sábado, vovô, é provavelmente o doutor.
Noirtier fez sinal de que efetivamente devia ser ele.
— Ele virá para cá, é melhor o sr. Morrel ir embora, não é, vovô?
— Sim — respondeu o velho.
— Barrois! — chamou Valentine. — Barrois, venha! Ouviu-se a voz do velho serviçal respondendo:
— Estou indo, senhorita.
— Barrois irá acompanhá-lo até a porta. — disse Valentine a Morrel.
— E, agora, lembre-se de uma coisa, sr. oficial, é que meu querido avô recomenda-lhe não tomar nenhuma iniciativa capaz de comprometer nossa felicidade.
— Prometi esperar — disse Morrel —, e o farei. Nesse momento Barrois entrou.
— Quem era? — perguntou Valentine.
— O doutor d’Avrigny — disse Barrois, cambaleante.
— Está sentindo alguma coisa, Barrois? — perguntou Valentine.
O velho não respondeu. Olhava para o patrão com os olhos perplexos, enquanto sua mão crispada buscava um apoio para permanecer de pé.
— Mas ele vai cair! — exclamou Morrel.
Com efeito, o tremor que arrebatara Barrois aumentava gradualmente; os traços do rosto, alterados pelos movimentos convulsivos dos músculos da face, anunciavam uma crise nervosa das mais intensas.
Noirtier, vendo Barrois assim perturbado, multiplicava seus olhares, nos quais se estampavam, inteligíveis e palpitantes, todas as emoções que agitam o coração do homem.
Barrois deu alguns passos na direção do patrão.
— Ah, meu Deus, meu Deus! Senhor — ele disse —, mas o que está havendo comigo...? Estou doente... não enxergo mais. Mil pontas de fogo atravessam o meu crânio. Oh, não toque em mim, não toque em mim!
Com efeito, seus olhos saltavam e tornavam-se esbugalhados, a cabeça caía para trás, enquanto o restante do corpo se enrijecia. Apavorada, Valentine deu um grito. Morrel tomou-a nos braços para defendê-la contra qualquer perigo desconhecido.
— Sr. d’Avrigny! Sr. d’Avrigny! — gritou Valentine, com a voz abafada.
— Venha! Socorro!
Barrois girou sobre si mesmo, deu três passos para trás, tropeçou e foi cair aos pés de Noirtier, sobre cujo joelho apoiou sua mão, gritando:
— Patrão! Meu bondoso patrão!
Nesse momento, o sr. de Villefort, atraído pelos gritos, apareceu na soleira da porta do quarto.
Morrel soltou Valentine, semi desmaiada, e, pulando para trás, enfiou-se num canto do quarto e praticamente desapareceu por trás de uma cortina.
Pálido como se tivesse visto uma serpente empinar à sua frente, ele dirigiu um olhar gelado para o infeliz agonizante.
Noirtier fervia de impaciência e terror. Sua alma voava em socorro ao desgraçado velho, mais seu amigo que criado. Via-se a luta terrível da vida e da morte traduzida em sua testa, tanto pelas veias saltadas como pela contração de alguns músculos ainda vivos em torno dos olhos.
Barrois, a face agitada, os olhos injetados de sangue, o pescoço jogado para trás, jazia batendo no assoalho com as mãos, enquanto, ao contrário, suas pernas hirtas pareciam rachar em vez de dobrar.
Uma leve espuma emergia de seus lábios, e ele arfava dolorosamente.
Villefort, estupefato, permaneceu por um instante com os olhos grudados nesse quadro, que atraíra seu olhar assim que entrara no quarto.
Não tinha visto Morrel.
Após um instante de contemplação muda, durante o qual foi possível ver seu rosto empalidecer e seus cabelos se arrepiarem na cabeça, ele exclamou, lançando-se para a porta:
— Doutor, doutor! Venha, venha!
— Senhora, senhora! — gritou Valentine, chamando sua madrasta enquanto esbarrava nas paredes da escada. — Venha! Venha rápido e traga seu vidrinho de sais!
— O que está acontecendo? — perguntou a voz metálica e contida da sra. de Villefort.
— Oh, venha, venha!
— Mas onde está o doutor? — gritou Villefort.
A sra. de Villefort desceu lentamente; ouviam-se as tábuas estalarem sob seus pés. Numa das mãos segurava o lenço com que enxugava o rosto, na outra, um frasco de sais ingleses.
Seu primeiro olhar, ao chegar à porta, foi para Noirtier, cujo rosto, salvo a emoção bastante natural em tais circunstâncias, anunciava a mesma saúde de sempre. Num segundo relance, encontrou o moribundo.
Ela empalideceu e seu olho ricocheteou, por assim dizer, do criado para o amo.
— Mas, em nome dos céus, senhora, onde está o doutor? Ele entrou em seus aposentos. É uma apoplexia, como pode ver, uma sangria pode salvá-lo.
— Ele comeu há pouco tempo? — perguntou a sra. de Villefort, esquivando-se da pergunta.
— Senhora — disse Valentine —, ele não almoçou, mas correu muito esta manhã para realizar uma tarefa para o vovô. Quando chegou, bebeu somente um copo de limonada.
— Ai!! — exclamou a sra. de Villefort. — Por que não vinho? Limonada é péssimo.
— A limonada estava aqui ao nosso alcance, na garrafa do vovô. O
pobre Barrois estava com sede, bebeu o que encontrou.
A sra. de Villefort estremeceu. Noirtier envolveu-a com seu olhar profundo.
— Seu pescoço está inchado! — ela disse.
— Senhora — disse Villefort —, pergunto-lhe onde está o sr. d’Avrigny; em nome dos céus, responda!
— Encontra-se no quarto de Édouard, que está doentinho — disse a sra.
de Villefort, que não podia esquivar-se por mais tempo.
Villefort lançou-se pela escada para ir chamá-lo pessoalmente.
— Tome — disse a jovem mulher, entregando o frasco a Valentine —, provavelmente irão sangrá-lo. Vou subir para os meus aposentos, pois não suporto a visão do sangue.
E foi atrás do marido.
Morrel saiu da penumbra onde havia se recolhido, e onde ninguém o vira, tão grande era a preocupação geral.
— Saia rápido, Maximilien — disse-lhe Valentine —, e espere até eu o chamar. Vá.
Morrel consultou Noirtier com um gesto, Noirtier, que conservara todo seu sangue-frio, fez-lhe um sinal afirmativo.
Ele apertou a mão de Valentine contra seu coração e saiu pelo corredor escondido.
Simultaneamente, Villefort e o médico entravam pela porta oposta.
Barrois começava a voltar a si. A crise passara, sua palavra voltava em gemidos e ele soergueu um joelho.
D’Avrigny e Villefort carregaram Barrois para um divã.
— Do que precisa, doutor? — perguntou Villefort.
— Que me tragam água e éter. Tem isso na casa?
— Sim.
— Que corram para comprar óleo de terebentina e emético.
— Imediatamente! — acatou Villefort.
— E agora, que todos se retirem.
— Eu também? — perguntou timidamente Valentine.
— Sim, sobretudo a senhorita — respondeu rudemente o médico.
Valentine olhou para o sr. d’Avrigny com espanto, beijou o sr. Noirtier na testa e saiu.
Atrás dela o médico fechou a porta com uma expressão sombria.
— Ora, ora, doutor, ei-lo de volta a si. Foi apenas uma crise sem importância — contemporizou Villefort.
O sr. d’Avrigny sorriu com uma expressão sombria.
— Como se sente, Barrois? — perguntou o médico.
— Um pouco melhor, doutor.
— Consegue beber esse copo de água eterificada?
— Vou tentar, mas não toque em mim.
— Por quê?
— Porque me parece que, se me tocar, mesmo com a ponta do dedo, a crise vai voltar.
— Beba.
Barrois pegou o copo, aproximou-o dos lábios roxos e o esvaziou quase até a metade.
— Onde está doendo? — perguntou o médico.
— Em toda parte; sinto fisgadas horríveis.
— Sente vertigens?
— Sim.
— Zumbidos no ouvido?
— Horrorosos.
— Quando isso começou?
— Agora mesmo.
— Subitamente?
— Como um raio.
— Nada ontem? Nada anteontem?
— Nada.
— Sonolência? Torpor?
— Não.
— Comeu o quê, hoje?
— Não comi nada; apenas bebi um copo da limonada do meu patrão, só isso...
E Barrois fez um sinal para designar Noirtier, que, imóvel em sua poltrona, contemplava aquela terrível cena sem perder um movimento,
sem deixar uma palavra escapar.
— Onde está essa limonada? — perguntou aflito o médico.
— Na garrafa, lá embaixo.
— Onde é lá embaixo?
— Na cozinha.
— Quer que eu vá pegá-la, doutor? — perguntou Villefort.
— Não, fique aqui e tente fazer com que o doente beba o resto desse copo d’água.
— Mas essa limonada...
— Vou eu mesmo buscá-la.
D’Avrigny deu um pulo, abriu a porta, lançou-se pela escada de serviço e quase derrubou a sra. de Villefort, que também descia para a cozinha.
Ela soltou um grito.
D’Avrigny sequer lhe deu atenção. Arrebatado pela força de uma única idéia, pulou os três ou quatro últimos degraus, precipitou-se até a cozinha e percebeu uma garrafinha três quartos vazia sobre uma bandeja.
Investiu em sua direção como uma águia sobre a presa. Ofegante, subiu novamente ao andar térreo e entrou no quarto.
A sra. de Villefort subia lentamente a escada que levava aos seus aposentos pessoais.
— Foi exatamente esta garrafa que saiu daqui? — perguntou d’Avrigny.
— Sim, sr. doutor.
— Esta limonada é a mesma que o senhor bebeu?
— Creio que sim.
— Que gosto sentiu?
— Um gosto amargo.
D’Avrigny quase derrubou a sra. de Villefort, que também descia para a cozinha.
O médico despejou algumas gotas de limonada na concha da mão, aspirou-as com os lábios e, após ter bochechado como fazemos com o vinho que queremos degustar, cuspiu o líquido na lareira.
— É efetivamente a mesma. E o sr. de Noirtier, bebeu também?
— Sim — fez o velho.
— E também sentiu esse mesmo gosto amargo?
— Sim.
— Ai, sr. doutor! — gritou Barrois. — Está voltando! Meu Deus, Jesus, tenha piedade de mim!
O doutor correu até o doente.
— O emético, Villefort, verifique se providenciaram. Villefort deu um grito:
— O emético! O emético! Trouxeram o emético?
Ninguém respondeu. Reinava na casa o mais profundo terror.
— Se eu tivesse um meio de lhe insuflar ar nos pulmões — disse d’Avrigny, olhando em volta —, talvez ele tivesse a possibilidade de evitar
a asfixia. Mas não, nada, nada!
— Oh, senhor — gritou Barrois —, vai me deixar morrer assim, sem socorro? Oh, estou morrendo, meu Deus! Estou morrendo!
— Uma pena, uma pena! — pediu o médico. Avistou uma na mesa.
Tentou introduzir a pena na boca do doente, que, em meio às convulsões, fazia inúteis esforços para vomitar. Mas os maxilares estavam tão trincados que a pena não conseguiu passar.
Barrois sofreu então uma crise nervosa ainda mais intensa que a primeira. Escorregara do divã para o chão, contraindo-se no assoalho.
O médico deixou-o às voltas com essa crise, à qual não podia trazer nenhum alívio, e foi até Noirtier.
— Como está se sentindo? — perguntou-lhe precipitadamente, em voz baixa. — Bem?
— Sim.
— Estômago leve ou pesado? Leve?
— Sim.
— Como depois de tomar a pílula que lhe ministro todos os domingos?
— Sim.
— Foi Barrois quem preparou sua limonada?
— Sim.
— Foi o senhor quem o estimulou a beber?
— Não.
— A senhora?
— Não.
— Então foi Valentine?
— Sim.
Um suspiro de Barrois e um bocejo que fez estalar os ossos do seu maxilar chamaram a atenção de d’Avrigny. Ele deixou Noirtier e correu para junto do doente.
— Barrois — disse o médico —, consegue falar? Barrois balbuciou algumas palavras ininteligíveis.
— Faça um esforço, meu amigo. Barrois reabriu olhos injetados.
— Quem preparou a limonada?
— Eu.
— Trouxe-a para o seu patrão assim que a preparou?
— Não.
— Deixou-a em algum lugar, então?
— Na copa, estavam me chamando.
— Quem a trouxe para cá?
— A srta. Valentine.
D’Avrigny deu um tapa na testa.
— Oh, meu Deus, meu Deus! — murmurou.
— Doutor! Doutor! — gritou Barrois, que sentia a chegada de uma terceira crise.
— Mas esse emético não chega!? — gritou por sua vez o médico.
— Aqui está, um copo já preparado — disse Villefort, entrando.
— Por quem?
— Pelo rapaz farmacêutico que trouxe o remédio.
— Beba.
— Impossível, doutor, é tarde demais, minha garganta está fechando, estou sem ar! Ai, meu coração! Ai, minha cabeça... Oh, que inferno! Será que ainda sofrerei muito tempo desse jeito?
— Não, não, meu amigo — disse o médico —, daqui a pouco vai parar de sofrer.
— Ah, compreendo! — exclamou o infeliz. — Meu Deus, tende piedade de mim!
E, soltando um grito, caiu estirado para trás, como se fulminado.
D’Avrigny colocou a mão em seu coração, aproximou um cubo de gelo dos seus lábios.
— E então? — perguntou Villefort.
— Vá pedir na cozinha que me tragam bem rápido um xarope de violeta.
Villefort desceu imediatamente.
— Não se assuste, sr. Noirtier — disse d’Avrigny —, vou levar o doente para outro quarto a fim de sangrá-lo. Na verdade, esse tipo de ataque é um espetáculo terrível de se ver.
E, pegando Barrois por debaixo dos braços, arrastou-o para um quarto contíguo; porém, logo em seguida, voltou até o quarto de Noirtier para pegar o resto da limonada.
Noirtier estava com o olho direito fechado.
— Valentine, não é? O senhor quer Valentine? Vou pedir para alguém chamá-la — disse Villefort.
E estava subindo as escadas, quando encontrou com d’Avrigny no corredor.
— E então? — perguntou o primeiro.
— Venha — disse d’Avrigny. Levou-o até o quarto.
— Ainda desmaiado? — perguntou o procurador do rei.
— Está morto.
Villefort recuou três passos, juntou as mãos acima da cabeça e, com uma comiseração inequívoca:
— Tão rápido assim! — espantou-se, olhando para o cadáver.
— Impressionante, não é mesmo? — disse d’Avrigny. — Mas isso não deve surpreendê-lo: o sr. e a sra. de Saint-Méran também morreram de uma hora para outra. Oh, a morte é rápida na sua casa, sr. de Villefort!
— O quê! — exclamou o magistrado, num tom de horror e pasmo. —
Insiste nessa idéia terrível!
— Insisto, senhor, insisto — disse d’Avrigny com solenidade —, pois ela não me abandonou um instante; e, para que se convença de uma vez por todas que não me engano dessa vez, escute bem, sr. de Villefort.
Villefort tremia convulsivamente.
— Existe um veneno que mata praticamente sem deixar rastro. Conheço bem esse veneno: estudei-o à luz de todos os incidentes que provoca, de todos os fenômenos que produz. Reconheci esse veneno ainda há pouco no infeliz Barrois, como o reconheci na sra. de Saint-Méran. Há uma maneira de detectar sua presença: ele restaura a cor azul do papel de girassol avermelhado por um ácido, e tinge de verde o xarope de violeta. Não temos papel de girassol aqui; mas, veja, aí vem o xarope de violeta que pedi.
Com efeito, ouviam-se passos no corredor. O médico entreabriu a porta, pegou das mãos da camareira um recipiente com duas ou três colheres de xarope no fundo e voltou a fechar a porta.
— Observe — disse ele ao procurador do rei, cujo coração batia tão forte que era possível ouvi-lo —, nessa xícara, temos xarope de violeta e, nessa garrafa, o resto da limonada de que o sr. Noirtier e Barrois beberam uma parte. Se a limonada for pura e inofensiva, o xarope vai conservar sua cor; se a limonada estiver envenenada, o xarope ficará verde. Observe!
O médico despejou lentamente algumas gotas de limonada da garrafa na xícara. No mesmo instante, viu-se uma nuvem tomando forma no fundo da xícara; essa nuvem assumiu inicialmente uma tonalidade azul; em seguida, de safira passou a opala e, de opala, a esmeralda.