Um Mundo à Parte
Emma
Dos arquivos da Tia Em:
Cara Tia Em,
Como conseguir a atenção de um garoto? Sou péssima para paquerar, e existem tantas meninas mais bonitas e mais inteligentes do que eu. Estou cansada de nunca ser notada. Talvez eu possa me reinventar. O que posso fazer?
Confusa em Bennington
Querida Confusa,
Você não precisa ser ninguém além de quem já é. Só tem que fazer o garoto olhar uma segunda vez. Para isso, há dois caminhos:
1. Pare de esperar: tome a iniciativa e vá falar com ele. Pergunte se ele sabe a resposta para o problema número sete da lição de matemática. Diga que ele foi ótimo no show de talentos da escola. 2. Comece a andar nua por aí.
Mas a escolha é sua.
Com amor,
Tia Em
Quando não consigo dorm ir, visto um casaco sobre o pij am a, sento nos degraus da varanda e tento im aginar a vida que eu poderia ter tido.
Henry e eu estaríam os esperando, com Jacob, as cartas de aceitação de universidades. Poderíam os abrir um a garrafa de cham panhe e deixá-lo tom ar um a taça para com em orar quando ele fizesse sua escolha. Theo não estaria entocado em seu quarto, fazendo o m áxim o para fingir que não pertence a esta fam ília. Em vez disso, ele se sentaria à m esa da cozinha e faria as palavras cruzadas no j ornal diário. “Quatro letras”, ele diria, antes de ler a pista: “Leva pessoas para o céu”. E nós todos tentaríam os adivinhar — Deus? Nave? Am arelinha? —, m as Jacob é quem teria a resposta certa: NASA.
Nossos m eninos estariam sem pre na lista dos m elhores na escola. E as pessoas olhariam para m im quando eu fosse ao superm ercado, não por eu ser a m ãe daquele m enino autista, ou pior, do assassino, m as porque gostariam de ter tanta sorte quanto eu.
Não acredito em autopiedade. Acho que isso é para pessoas que têm tem po sobrando. Em vez de sonhar com um m ilagre, a gente aprende a fazê-lo. Mas o universo sabe com o nos punir por nossos segredos m ais profundos e escondidos; e, por m ais que eu am e m eu filho, por m ais que Jacob tenha sido o astro em torno do qual eu orbitei, tive m eus m om entos de im aginar silenciosam ente a pessoa que eu deveria ter sido, aquela que se perdeu, de algum a m aneira, na atividade diária de criar um filho autista.
Tenha cuidado com o que você desej a.
Im agine sua vida sem Jacob, e isso pode acabar se tornando realidade.
Ouvi os depoim entos hoj e. E, sim , com o Oliver disse, ainda não chegou a nossa vez. Mas observei o rosto dos j urados quando eles olhavam para Jacob e vi a m esm a expressão que j á havia visto m ilhares de vezes antes. Aquele distanciam ento m ental, aquele reconhecim ento sutil de que há algo errado com esse garoto.
Porque ele não interage com o nós.
Porque não sofre do m esm o j eito que nós.
Porque não se m exe ou fala com o nós.
Lutei tanto para que Jacob acom panhasse a escola tradicional, não apenas para que ele pudesse ver o j eito com o as outras crianças se com portavam , m as para que as outras crianças o vissem e aprendessem que diferente não é sinônim o de ruim. Mas não sei dizer, sinceram ente, se os colegas dele algum dia aprenderam essa lição. Eles davam a Jacob corda suficiente para se enforcar em situações sociais e depois j ogavam toda a culpa nos om bros dele.
E agora, depois de todo esse trabalho para encaixá-lo em um am biente escolar norm al, ele está em um tribunal cheio de adaptações para suas necessidades especiais. Sua única chance de absolvição está em seu diagnóstico no espectro. Insistir que ele é com o todo m undo, neste m om ento, seria garantir um a sentença de prisão.
Depois de anos m e recusando a usar o Asperger de Jacob com o um a desculpa, essa é a única chance que ele tem agora.
E de repente estou correndo, com o se m inha vida dependesse disso.
Já passa das duas horas da m anhã e a cantina está escura, com a placa de “Fechado” pendurada na porta, m as, na pequena j anela acim a, há um a luz acesa. Abro a porta da escada estreita que leva ao escritório de advocacia, subo os degraus e bato.
Oliver atende, vestido com um a calça de m oletom e um a cam iseta com o desenho velho e desbotado de um hom em com braços peludos de urso. APOIE A SEGUNDA EMENDA, diz o escrito. Seus olhos estão verm elhos e há m anchas de tinta em suas m ãos.
— Em m a, está tudo bem ?
— Não — respondo, passando por ele. Há em balagens de com ida no chão e um a garrafa vazia de dois litros de água m ineral ao lado. Thor, o cachorro, está dorm indo com o queixo apoiado na garrafa de plástico verde. — Não, não está tudo bem . — Olho para ele outra vez, com a voz falhando. — São duas horas da m anhã. Eu estou de pij am a. Vim correndo até aqui...
— Você veio correndo até aqui?
— ... e m eu filho vai para a prisão. Então, não, Oliver, não está tudo bem .
— O Jacob vai ser absolvido...
— Oliver — peço —, diga a verdade.
Ele afasta um a pilha de papéis do sofá e se senta pesadam ente.
— Sabe por que estou acordado às duas da m anhã? Estou tentando escrever m inha declaração inicial. Quer saber até onde j á cheguei? — Ele levanta o papel que está segurando. — Senhoras e senhores, Jacob Hunt está... — E para.
— Está o quê?
— Eu não sei — diz Oliver. Ele am assa o papel em um a bola e sei que está pensando na crise de Jacob, com o eu. — Não tenho a m ínim a ideia. Jacob Hunt está ferrado com um advogado que deveria ter continuado a ser ferrador, essa é a verdade. Eu não devia ter aceitado esse trabalho. Não devia ter ido à delegacia. Devia ter lhe dado o nom e de alguém que estivesse acostum ado a lidar com direito crim inal até dorm indo, em vez de fingir que um novato com o eu poderia ter ao m enos m eia chance de se sair bem nessa.
— Se essa é sua m aneira de tentar fazer com que eu m e sinta m elhor, não está dando certo — digo a ele.
— Eu lhe disse que sou péssim o nisso.
— Bom , pelo m enos agora está sendo sincero. — Eu m e sento ao lado dele no sofá.
— Você quer sinceridade? — diz Oliver. — Eu não tenho a m enor ideia se o j úri vai ficar convencido com a defesa. Estou m orrendo de m edo. Medo de perder, m edo de que o j uiz m e ponha para fora do tribunal às gargalhadas por eu ser um a fraude total.
— Eu estou m orrendo de m edo o tem po todo — confesso. — Todos acham que eu sou a m ãe que nunca desiste, que eu arrastaria o Jacob de volta do inferno um a centenas de vezes se fosse preciso. Mas, em certos dias, só quero enfiar a cabeça debaixo das cobertas e continuar na cam a.
— Na maioria dos dias eu quero fazer isso — diz Oliver, engolindo um sorriso.
Estam os apoiados no encosto do sofá. A luz azulada dos postes de ilum inação na rua nos transform a em fantasm as. Não estam os m ais neste m undo; estam os pairando sobre ele.
— Quer ouvir um a coisa realm ente triste? — sussurro. — Você é m eu m elhor am igo.
— É, tem razão. Isso é m esm o triste. — Oliver sorri.
— Não foi o que eu quis dizer.
— Ainda estam os brincando de fazer confissões? — ele pergunta.
— É isso que estam os fazendo?
Ele estende a m ão e segura um a m echa dos m eus cabelos entre os dedos.
— Eu acho que você é linda — diz Oliver. — Por dentro e por fora.
Ele se inclina para frente só um pouquinho e cheira m eu cabelo em suas m ãos, fechando os olhos, antes de deixá-lo cair novam ente sobre m eu rosto. Eu sinto o toque dentro de m im , com o se tivesse levado um choque.
E não m e afasto.
Não quero m e afastar.
— Eu... não sei o que dizer — gaguej o.
Os olhos de Oliver se ilum inam .
— De todos os bares de todas as cidades no mundo todo, ela entra no meu — ele cita. Então se m ove lentam ente, de m odo que sei o que vai acontecer, e m e beij a.
Eu deveria estar com Jacob, por ordem j udicial. Já estou quebrando as regras m esm o. Que diferença faz um a a m ais?
Os dentes dele seguram m eu lábio. Ele tem gosto de açúcar.
— Bala de gom a — ele m urm ura ao m eu ouvido. — Meu m aior vício. Depois disso.
Enfio as m ãos nos cabelos dele. São espessos e dourados, revoltos.
— Oliver — m urm uro, quando ele desliza as m ãos sob m inha blusa de alças. Seus dedos envolvem m inhas costas. — Tenho certeza absoluta que você não pode dorm ir com clientes.
— Você não é m inha cliente — ele diz. — E não sinto nenhum a atração pelo Jacob.
Ele afasta as laterais do casaco que estou usando. Minha pele está em brasas. Não consigo m e lem brar da últim a vez em que algum hom em m e tratou com o se eu fosse um a peça sagrada de m useu que ele recebeu autorização para tocar.
Sem que eu m e dê por m im , estam os deitados no sofá. Minha cabeça cai para o lado, assim com o m inhas m elhores intenções, quando os lábios de Oliver se fecham sobre m eu seio. Eu m e vej o olhando diretam ente para os olhos de Thor.
— O cachorro...
Oliver levanta a cabeça.
— Caram ba. — Ele se levanta e pega Thor em um dos braços com o se fosse um a bola de futebol. — Que hora, hein, parceiro? — Oliver abre um arm ário, j oga um punhado de ração sobre um a alm ofada, coloca Thor lá dentro e fecha a porta.
Quando ele se volta, eu prendo a respiração. De algum a m aneira, a cam iseta que ele usava ficou perdida entre as alm ofadas do sofá. Seus om bros são largos e fortes, a cintura afilada, a calça baixa sobre os quadris. Ele tem a beleza tranquila de alguém j ovem dem ais para pensar na sorte de ter aquela aparência sem nenhum esforço.
Eu, por outro lado, estou deitada em um sofá velho em um quarto atulhado, com um cachorro cium ento no arm ário próxim o, com sardas e rugas e sete quilos a m ais do que deveria e...
— Não faça isso — Oliver diz suavem ente, quando j unto as pontas do m eu casaco outra vez. Ele se senta na borda do sofá ao m eu lado. — Ou vou ter que m atar o Thor.
— Oliver, você poderia ter qualquer garota que quisesse. Qualquer garota da sua idade.
— Sabe o que é vinho j ovem ? Suco de uva. Algum as coisas valem a espera.
— Esse argum ento não é m uito convincente vindo de alguém que acabou de esvaziar um a garrafa de água m ineral...
Ele m e beij a outra vez.
— Cala a boca, Em m a — ele diz carinhosam ente e põe as m ãos sobre as m inhas nas laterais do casaco.
— Faz um século — digo, e as palavras soam baixas, abafadas contra o om bro dele.
— É porque você estava esperando por m im — diz Oliver, abrindo m eu casaco de novo e beij ando m eu pescoço. — Em m a, está tudo bem ? — ele pergunta, pela segunda vez nesta noite.
Só que, agora, eu respondo que sim .
Eu devia ter m e livrado da cam a de casal. Há algo terrivelm ente deprim ente em só ter que arrum ar m etade dos lençóis a cada m anhã, porque o outro lado continua intacto. Nunca cruzo a linha dem arcatória de m eu casam ento para dorm ir, vez por outra, do lado de Henry. Deixei esse lado para ele, ou para quem vier ocupar seu lugar.
Esse alguém costum ava ser Theo, durante as tem pestades, quando ele sentia m edo. Ou Jacob, quando estava doente e eu queria ficar de olho nele. Eu dizia a m im m esm a que gostava do espaço a m ais. Que eu m erecia m e esticar se quisesse, em bora sem pre tenha dorm ido encolhida do m eu lado, com o um broto de sam am baia.
É por isso, im agino, que parece perfeito quando os dedos róseos da m anhã tocam o lençol que Oliver j ogou sobre nós em algum m om ento durante a noite e eu percebo que ele está enrolado em m im : um a vírgula, com os j oelhos atrás dos m eus e o braço em volta da m inha cintura.
Eu m e m exo, m as, em vez de m e soltar, Oliver m e aperta m ais forte.
— Que horas são? — ele m urm ura.
— Cinco e m eia.
Eu m e viro em seu abraço para ficar de frente para ele. Há um com eço de barba em seu rosto e em seu queixo.
— Oliver, escute.
Ele entreabre os olhos.
— Não.
— Não, você não vai ouvir? Ou não, você não é Oliver?
— Eu não vou ouvir — responde ele. — Isso não foi um erro e não foi só por um a noite. E, se você quiser continuar discutindo, vou te fazer ler as letras pequenas do contrato que você assinou, que dizem claram ente que os serviços sexuais do advogado estão incluídos nos honorários.
— Eu só ia perguntar se você quer ir tom ar café da m anhã na m inha casa.
Oliver pisca e olha para m im .
— Ah.
— Hoj e é quinta-feira. Dia m arrom . Rosquinhas sem glúten?
— Eu prefiro com pleto — ele responde, depois enrubesce. — Mas acho que isso j á ficou bem óbvio esta noite.
Costum o acordar de m anhã e ficar na cam a m ais trinta segundos, enquanto o sonho que acabei de ter ainda poderia ser possível, antes de lem brar que preciso levantar e fazer o café da m anhã de acordo com o código de cores e de m e perguntar se vou conseguir sobreviver ao dia sem nenhum a alteração da agenda, ou ruído, ou dificuldade social que desencadeiem um a crise. Costum o ter trinta segundos em que o futuro é algo previsto, não tem ido.
Ponho os braços em volta do pescoço de Oliver e o beij o. Mesm o sabendo que, em quatro horas e m eia, o j ulgam ento vai com eçar outra vez; m esm o sabendo que preciso correr para casa antes que Jacob dê pela m inha falta; m esm o sabendo que provavelm ente eu não devia ter feito o que fiz... encontrei um a m aneira de estender esses trinta segundos de felicidade em um longo e delicioso m om ento.
Quatro letras: leva pessoas para o céu.
Vida.
Amor.
Dois.
Se isso aconteceu... bem , talvez qualquer coisa possa acontecer.
Ele segura m eus om bros e m e afasta gentilm ente.
— Você não tem ideia de com o m e m ata ter que dizer não, m as ainda tenho um a declaração inicial para escrever, e a m ãe do m eu cliente é... bem , m uito exigente.
— Sem dúvida — digo.
Ele se senta, pega m inha cam iseta que estava sob sua cabeça e m e aj uda a vesti-la.
— Isso é bem m ais divertido ao contrário — com enta.
Nós nos vestim os, e então Oliver liberta Thor de seu confinam ento e prende um a corrente em sua coleira, oferecendo-se para m e acom panhar parte do cam inho até m inha casa. Som os as únicas pessoas na rua a essa hora.
— Eu m e sinto um a idiota — digo, olhando para m eus chinelos e m inha calça de pij am a.
— Você parece um a colegial.
Reviro os olhos.
— E você é um m entiroso.
— Quer dizer, um advogado, não é?
— Tem diferença? — Paro de andar e olho para ele. — Isso não pode acontecer na frente do Jacob.
Oliver não esconde que entendeu. Continua andando, puxando a coleira de Thor.
— Está bem — responde.
Nós nos separam os no parque dos skates e cam inho rapidam ente com a cabeça abaixada contra o vento e os olhares dos m otoristas dos carros que passam . De vez em quando, um sorriso vem de dentro de m im e sobe à superfície. Quanto m ais perto chego de casa, m ais inadequado aquilo parece. Com o se eu estivesse trapaceando, com o se tivesse a audácia de ser algo além da m ãe que se espera que eu sej a.
Às seis e quinze, estou virando a esquina da m inha rua, aliviada. Jacob acorda com o um relógio às seis e m eia; ele não vai perceber nada.
Mas, quando m e aproxim o, vej o que as luzes estão acesas em casa e m eu coração dá um pulo. Com eço a correr, em pânico. E se algum a coisa aconteceu com Jacob no m eio da noite? Que idiota eu fui de deixá-lo. Não escrevi um bilhete, não levei o celular e, quando abro a porta da frente, estou quase curvada sob o m edo de haver algo errado.
Jacob está de pé j unto ao balcão da cozinha, preparando seu próprio café da m anhã m arrom . Há dois lugares arrum ados na m esa.
— Mãe! — ele exclam a, entusiasm ado. — Você nunca vai adivinhar quem está aqui.
E então, antes que eu tente adivinhar, ouço o barulho da descarga no banheiro, a água correndo da torneira e os passos do visitante, que entra na cozinha com um sorriso um pouco constrangido.
— Henry ? — digo.