Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 108 de 121

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Um Mundo à Parte

Emma

 

 

Quando entro no quarto de Jacob, ele está debruçado sobre a m esa, cantarolando Bob Marley baixinho e escrevendo furiosam ente em seu bloco de m esa verde:

 

“1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, 55, 89, 144, 233”

 

Tiro o lápis de sua m ão e ele vira na cadeira giratória.

— Eu te deixo excitada, baby? — diz, sarcástico.

— Sem citação de film es — digo a Jacob. — Especialm ente Austin Powers. Sei que você está chateado.

— Vam os ver. Minha m ãe deveria estar treinando seu depoim ento com m eu advogado, m as em vez disso está com a língua enfiada na garganta dele. É, acho que isso poderia m e deixar um pouco chateado.

Controlo o fluxo de irritação que sobe dentro de m im .

— Em prim eiro lugar, estou com pletam ente pronta para depor. E, segundo, eu não planej ei beij á-lo. Sim plesm ente aconteceu.

— Coisas com o essa não acontecem simplesmente— Jacob revida. — Ou você quer que elas aconteçam , ou não.

— Tudo bem então. Acontece que, depois de quinze anos sozinha, eu não acho ruim ser atraente para alguém .

— Não é alguém — ele diz. — É m eu advogado.

— Ele está com pletam ente focado no seu j ulgam ento, Jacob.

— Não estou nem aí para ele. Quer dizer, se ele não estiver fazendo o trabalho dele direito, posso dem iti-lo. Mas você — ele grita. — Com o pôde fazer isso com igo j usto agora? Você é m inha mãe!

Fico frente a frente com ele.

— Sim , um a m ãe que abdicou de toda a vida dela para cuidar de você — digo. — Que te am a tanto que trocaria de lugar com você em um piscar de olhos. Mas isso não significa que eu não m ereça ser feliz tam bém .

— Pois eu espero que você fique m uito feliz quando eu perder esse j ulgam ento porque você estava ocupada dem ais sendo um a vadia.

E, sem nem pensar, viro um tapa nele.

Não sei qual de nós dois ficou m ais surpreso. Nunca bati em Jacob em toda a m inha vida. Ele leva a m ão ao rosto quando a m arca verm elha dos m eus dedos se eleva em sua pele.

— Desculpe. Ah, m eu Deus, Jacob, desculpe — digo, as palavras se atropelando. Baixo a m ão dele para poder ver o estrago que causei. — Vou buscar gelo — falo, m as ele está olhando para m im com o se nunca tivesse m e visto antes.

Então, em vez de sair, eu m e sento na cam a dele e o puxo para j unto de m im , do j eito com o costum ava fazer quando ele era pequeno e o m undo ficava excessivo para ele suportar. Balanço o corpo, para que ele não precise fazê-lo.

Lentam ente, ele relaxa de encontro a m im .

— Jacob — eu lhe digo —, eu não queria m achucar você.

Só depois de ele assentir com a cabeça eu m e dou conta de que repeti as m esm as palavras que Jacob m e disse m ais cedo sobre Jess Ogilvy.

 

Em todos os anos em que Jacob teve acessos, crises e ataques de pânico, eu o contive; sentei sobre ele, segurei-o com o um torno, m as nunca bati nele. Conheço as regras não escritas: Bons pais não batem. Recompensas funcionam melhor que castigos. No entanto, só foi preciso um único m om ento de frustração, de perceber que eu não conseguia ser sim ultaneam ente o que ele precisava que eu fosse e quem eu queria ser, para que eu estourasse.

É isso que acontece com Jacob tam bém ?

Oliver ligou quatro vezes esta noite, m as não atendi quando reconheci o núm ero. Talvez essa sej a a m inha penitência; ou talvez eu sim plesm ente não saiba o que dizer.

Passa um pouco das duas da m anhã quando a porta do m eu quarto se abre devagar. Sento im ediatam ente, esperando ver Jacob. Mas quem entra é Henry. Ele está usando calça de pij am a e um a cam iseta que diz NÃO HÁ LUGAR COMO 127.0.0.1.

— Vi sua luz acesa — ele diz.

— Não consegue dorm ir?

Henry sacode a cabeça.

— E você?

— Tam bém não.

Ele faz um gesto indicando a ponta da cam a.

— Posso?

Mudo de posição para abrir espaço. Ele senta no m eu lado da cam a, m as vej o que olha para o outro travesseiro.

— Eu sei que isso deve parecer um pouco estranho — com ento.

— Não... É que agora eu durm o do lado esquerdo da cam a, com o você. Só estava pensando com o isso aconteceu.

Eu m e recosto na cabeceira.

— Eu não sei a resposta para m uitas coisas.

— Eu... não sei bem o que foi toda essa gritaria — Henry diz, com delicadeza. — Mas escutei.

— É, j á tivem os noites m elhores.

— Devo desculpas a você, Em m a. Em prim eiro lugar, por aparecer aqui assim . Eu devia pelo m enos ter perguntado. Você j á tem m uitos problem as, não precisa que eu sej a m ais um . Acho que eu só estava pensando em m im .

— Por sorte, eu tenho m uita prática com isso.

— Essa é outra coisa pela qual preciso pedir desculpas — diz Henry. — Eu devia estar aqui em todas as outras noites em que houve gritos ou... crises, ou tudo m ais que tenha envolvido criar o Jacob. Acho que aprendi m ais sobre ele hoj e no tribunal do que nos dezoito anos de vida dele. Eu devia estar aqui para aj udar em todos os m om entos ruins.

Sorrio um pouco.

— Acho que essa é a diferença entre nós. Eu gostaria que você estivesse aqui nos bons m om entos. — Olho sobre o om bro dele, para o corredor. — O Jacob é um garoto doce, engraçado e tão inteligente que às vezes m e deixa tonta. Lam ento que você não tenha conhecido essa parte dele.

Ele estende o braço e aperta a m inha m ão.

— Você é um a boa m ãe, Em m a. — E isso m e faz desviar os olhos, porque m e lem bro de m inha discussão com Jacob.

E então Henry fala outra vez.

— Ele fez aquilo?

Eu m e viro lentam ente para ele.

— Isso im porta?

 

Só consigo m e lem brar de um caso concreto em que estourei com Jacob antes. Foi quando ele tinha doze anos e não reconheceu o fato de ser m eu aniversário com um cartão, um presente ou m esm o um abraço, em bora eu tenha dado m uitas dicas nas sem anas anteriores. Então, um a noite, depois de fazer o j antar, coloquei o prato na frente dele na m esa com m ais força que de costum e e esperei em vão, com o sem pre, que Jacob m e agradecesse.

— Que tal um pouco de gratidão? — explodi. — Que tal um pouco de reconhecim ento por eu ter feito algo para você?

Confuso, Jacob olhou para o prato, depois para m im .

— Eu faço seu j antar, dobro suas roupas lim pas, levo você para a escola, vou buscar... Algum a vez você se perguntou por que eu faço tudo isso?

— Porque é seu trabalho?

— Não, é porque eu am o você, e, quando a gente am a alguém , faz coisas para essa pessoa sem reclam ar.

— Mas você está reclam ando — ele disse.

Foi quando m e dei conta de que Jacob nunca com preenderia o am or. Ele teria m e com prado um presente de aniversário se eu lhe tivesse dito explicitam ente para fazer isso, m as não teria sido um presente realm ente de coração. Não se pode obrigar alguém a nos am ar; tem que vir de dentro, e Jacob não estava equipado para isso.

Lem bro de ter saído irritada da cozinha e sentado na varanda por alguns m om entos, sob a luz da lua, que não é luz de fato, apenas um pálido reflexo do sol.