Um Mundo à Parte
Oliver
Um m ês depois, estou estendido no sofá da sala na casa dos Hunt e m e percebo em um estranho déjà vu: enquanto exam ino as provas que m e foram enviadas, que incluem os diários de Jacob sobre CrimeBusters, ele está sentado no chão à m inha frente assistindo na TV exatam ente ao m esm o episódio sobre o qual estou lendo.
— Quer que eu conte com o term ina? — pergunto.
— Eu j á sei.
Não que isso o tenha im pedido de escrever m ais um item no diário, agora em um caderno novinho em folha.
“Episódio 49: Sexo, m entiras e iMovie
Situação: Depois que um bilhete de suicídio é inserido nos créditos de um film e em um festival de cinem a, um diretor de film es B é encontrado m orto no banco traseiro de um carro — m as a equipe desconfia de crim e.
Provas:
Trailer do festival
Sequências de film e obtidas no estúdio de edição — quem é a loira, e ela está m esm o m orta ou só representando?
Disco rígido do com putador do diretor
Coleção de borboletas raras do diretor — pista falsa, entom ologia não envolvida
Ácido em canos
Solucionado: Por MIM! 0:24.”
— Você resolveu o caso em vinte m inutos?
— Sim .
— Foi o m ordom o — digo.
— Não, na verdade foi o encanador — Jacob corrige.
Lá se foi m inha piada.
Estabelecem os um a rotina: em vez de eu ficar em m eu escritório durante o dia, faço m inha preparação para o j ulgam ento aqui, na casa dos Hunt. Desse m odo, posso ficar de olho em Jacob se Em m a precisar sair e tenho m eu cliente disponível para responder a qualquer dúvida que apareça. Thor gosta disso, porque passa a m aior parte do dia enrolado no colo de Jacob. Jacob gosta disso, porque eu trago o Wii com igo. Theo gosta disso, porque, se eu trago guacam ole na Segunda-Feira Verde para seu irm ão, tam bém dou um j eito de incluir um a pizza brotinho de calabresa para ele.
Não sei na verdade se Em m a gosta disso.
Theo passa por nós na sala e vai até um m óvel de arquivo nos fundos.
— Ainda está fazendo sua lição? — Jacob pergunta.
Não há nenhum a provocação em seu tom , que é plano, com o tudo o m ais que Jacob diz, m as Theo m ostra o dedo m édio para ele. Geralm ente é Theo quem term ina a lição prim eiro, m as hoj e ele parece estar enrolando.
Espero que Jacob lhe diga para ir se foder, m as, em vez disso, ele apenas fixa novam ente na televisão seu olhar inexpressivo.
— Ei — digo, aproxim ando-m e de Theo.
Ele leva um susto, pega o papel que estava lendo e o enfia no bolso do j eans.
— Pare de ficar m e espionando.
— O que você está fazendo aí, afinal? Esse não é o arquivo da sua m ãe?
— E isso é da sua conta? — diz Theo.
— Não. Mas o Jacob é. E você deveria pedir desculpas.
— Eu tam bém deveria com er cinco porções de salada por dia, m as isso raram ente acontece — ele responde e volta para a cozinha para term inar a lição.
Conheço Jacob suficientem ente bem agora para perceber as pistas que sinalizam suas em oções. O fato de ele estar balançando ligeiram ente para frente e para trás significa que algo que Theo acabou de dizer o perturbou m ais do que ele quer adm itir.
— Se você contar para sua m ãe que ele te trata assim — digo —, posso apostar que ele vai parar.
— Não dedure o seu irm ão. Cuide dele. É o único que você tem — Jacob recita. — É um a regra.
Se eu pudesse fazer o j úri ver com o Jacob vive de um decreto para outro; se eu pudesse fazer a conexão entre um garoto que não quebra nem um a das regras de sua m ãe, quanto m ais a lei que governa o país; se eu pudesse, de algum a form a, provar que seu Asperger torna praticam ente im possível para ele atravessar essa linha entre o certo e o errado... bom , eu poderia ganhar o caso.
— Ei, depois do alm oço quero conversar com você sobre o que vai acontecer m ais tarde esta sem ana quando nós...
— Shh — diz Jacob. — Term inou o intervalo.
Viro a página e vej o um item que não tem um núm ero de episódio.
Com eço a ler e m inha boca se abre sem querer.
— Ah, m erda — digo em voz alta.
Um m ês atrás, depois da audiência de exclusão de provas, eu telefonei para Helen Sharp.
— Acho que você vai ter que desistir — disse a ela. — Você não pode provar o caso. Estam os dispostos a aceitar condicional por cinco anos.
— Posso ganhar sem a confissão dele na delegacia — respondeu ela. — Tenho todas as declarações que foram feitas na casa antes de o Jacob ficar sob custódia; tenho as provas forenses na cena do crim e e provas testem unhais que sugerem o m otivo. Tenho o histórico de violência e os diários do réu.
Na época, nem levei isso em conta. Os diários de Jacob seguiam padrões form ulares e todas as outras provas que ela citou eram coisas que eu poderia elim inar na m inha inquirição das testem unhas da acusação.
— Vam os seguir em frente — Helen disse, e eu pensei: Boa sorte, então.
Isto é o que o diário diz:
“Na casa dela. 12/1/10.
Situação: Moça desaparecida.
Provas:
Roupas em pilhadas sobre a cam a
Escova de dentes faltando, batom faltando
Bolsa e casaco da vítim a continuam no local
Celular faltando... tela cortada... m arcas de bota do lado de fora que correspondem à do nam orado.”
— Meu Deus, Jacob — grito tão alto que Em m a vem correndo da lavanderia. — Você escreveu sobre a Jess em seus diários do CrimeBusters?
Ele não responde, então m e levanto e desligo a TV.
— Com o assim ? — indaga Em m a.
Passo para ela a fotocópia do caderno.
— Onde você estava com a cabeça? — pergunto.
Jacob dá de om bros.
— Era um a cena de crim e — diz ele, sim plesm ente.
— Você tem ideia do que a Helen Sharp vai fazer com isso?
— Não, e não m e im porta — Em m a responde. — Quero saber o que você vai fazer com isso. — Ela cruza os braços e se aproxim a de Jacob.
— Não sei, sinceram ente. Porque, depois de todo o trabalho que fizem os para elim inar a declaração na delegacia, isso traz tudo de volta.
Jacob repete o que eu disse, depois repete outra vez:
— Traz tudo de volta. Traz tudo de volta.
Na prim eira vez em que o ouvi fazer isso, achei que estivesse m e im itando. Agora sei que é ecolalia; Em m a m e explicou que é apenas a repetição de sons. Às vezes Jacob faz isso recitando frases de film es, e às vezes ecoando algo que acabou de ouvir.
Só espero que ninguém o ouça fazer isso no tribunal, ou vão achar que ele está sendo petulante.
— Traz tudo de volta — Jacob diz de novo. — Traz tudo o quê de volta?
— Algo que vai fazer o j úri supor que você é culpado.
— Mas é um a cena de crim e — Jacob repete. — Eu só anotei as provas, com o sem pre.
— Não é um a cena de crim e de ficção — ressalto.
— Por que não? — pergunta ele. — Fui eu que a criei.
— Ah, m eu Deus — Em m a soluça. — Vão achar que ele é um m onstro.
Quero pôr a m ão no braço dela e lhe dizer que vou conseguir evitar que isso aconteça, m as não posso fazer esse tipo de prom essa. Mesm o tendo estado com Jacob este últim o m ês com o estive, ainda há coisas que ele faz que m e parecem absolutam ente assustadoras. Com o agora, quando sua m ãe está histérica e ele se vira sem dem onstrar nenhum rem orso e aum enta o volum e de seu program a de TV. Júris, que deveriam se basear na razão, na verdade quase sem pre se baseiam no coração. Um j urado que observe Jacob assistir sem expressão à reconstituição da m orte de Jess Ogilvy deliberará sobre o destino dele com essa im agem gravada na m ente e não há com o isso não influir em sua decisão.
Não posso m udar Jacob, o que significa que tenho de m udar o sistem a. É por isso que fiz um a petição, e é por isso que vam os ao tribunal am anhã, em bora eu não tenha dado a notícia a Em m a ainda.
— Preciso dizer um a coisa a vocês — falo, quando o relógio de Em m a com eça a apitar.
— Espere — diz ela. — Estou cronom etrando o Theo em um desafio de m atem ática. — Ela olha para a cozinha. — Theo? Acabou o tem po. Jacob, abaixe esse volum e. Theo? Você m e escutou?
Com o não há resposta, Em m a vai até a cozinha. Ela cham a outra vez, e então ouço seus passos no andar de cim a, no quarto de Theo. Um m om ento depois, ela está de volta à sala, com a voz aflita.
— Ele não fez o desafio de m atem ática. E seu casaco, tênis e m ochila sum iram . O Theo foi em bora.