Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 46 de 121

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Um Mundo à Parte

Theo

 

Minha m ãe não chora com m uita frequência. A prim eira vez, com o eu disse, foi na biblioteca, quando eu resolvi ter um chilique em vez de Jacob. A segunda vez foi quando eu estava com dez anos e Jacob com treze, e ele tinha um a lição de casa para sua aula de habilidades de vida — um curso extracurricular que ele odiava, porque havia apenas m ais um m enino autista e o outro não tinha Asperger, m as era m ais baixo no espectro e passava a m aior parte da aula alinhando lápis de cera em fila, ponta com ponta. As outras três crianças na classe tinham síndrom e de Down ou problem as de desenvolvim ento. Por causa disso, boa parte do tem po era gasta com tem as com o higiene pessoal, coisa que Jacob j á sabia fazer, e um pouco de habilidades sociais inseridas no m eio. E, um dia, sua professora deu à classe a tarefa de fazer um am igo antes da próxim a aula.

— Não se faz um am igo — Jacob disse com desdém . — Eles não vêm com instruções com o as que a gente encontra em um a caixa de m acarrão com queij o.

— Você só tem que lem brar as orientações da sra. LaFoy e — m inha m ãe contem porizou. — Olhe alguém nos olhos, diga-lhe seu nom e e pergunte se ele quer brincar.

Mesm o com dez anos, eu sabia que esse esquem a certam ente resultaria em um chega pra lá, m as não ia dizer isso a Jacob.

Então, nós três cam inham os até o parquinho do bairro e eu sentei ao lado de m inha m ãe em um banco enquanto Jacob tentava fazer um am igo. O problem a era que não havia ninguém de sua idade ali. O m enino m ais velho que eu podia ver era m ais ou m enos da m inha idade e estava pendurado de cabeça para baixo nas barras da escada horizontal. Jacob foi até ele e dobrou o corpo para poder olhá-lo nos olhos.

— Meu nom e é Jacob — ele disse, com sua voz fam iliar, m as que é estranha para todos os outros, plana com o um a folha de alum ínio, m esm o nos lugares onde deveria haver um ponto de exclam ação. — Quer brincar?

O m enino deu um a cam balhota perfeita até o chão.

— Você é m eio... assim ... retardado?

Jacob refletiu sobre isso.

— Não.

— Então tenho um a notícia — o m enino disse. — Você é.

O m enino saiu correndo e deixou Jacob parado, sozinho, em baixo das barras de ferro. Quase levantei para ir resgatá-lo, m as ele com eçou a girar em um círculo lento. Não entendi o que ele estava fazendo, até perceber que ele gostava do som que o tênis fazia quando esm agava um a folha seca sob a sola.

Ele foi cam inhando na ponta dos pés, acertando precisam ente as folhas, até chegar à caixa de areia. Duas m eninas pequenas, um a loira e a outra de m arias-chiquinhas ruivas, estavam ocupadas fazendo pizzas de areia.

— Mais um a — a prim eira m enina disse, e largou um a bolota de areia sobre a prancha de m adeira para que a outra decorasse com pedrinhas de calabresa e gram a de m ozarela.

— Oi, eu sou o Jacob — m eu irm ão disse.

— Eu sou a Annika e vou ser um unicórnio quando crescer — a loirinha respondeu.

A de m arias-chiquinhas falou sem levantar os olhos de sua linha de m ontagem de pizzas.

— Meu irm ãozinho vom itou no banheiro e escorregou e caiu de bum bum .

— Vocês querem brincar? — Jacob perguntou. — Podíam os cavar para procurar dinossauros.

— Não tem dinossauros na caixa de areia, só pizza — Annika disse. — A Maggie põe o queij o e os outros recheios, m as você pode ser o garçom .

Jacob parecia um gigante na caixa de areia ao lado daquelas duas m eninas. Notei que um a m ulher o fuzilava com o olhar e teria apostado cinquenta dólares que era a m ãe de Annika ou de Maggie, se perguntando se o garoto de treze anos que estava brincando com sua preciosa filhinha poderia ser um pervertido. Jacob pegou um pedacinho de pau e com eçou a desenhar um esqueleto na areia.

— O alossauro tinha um a fúrcula, ou osso da sorte, com o outros dinossauros carnívoros — disse ele. — Com o o que a gente encontra em um a galinha.

— Mais um a — Annika anunciou, e derrubou um a pilha de areia na frente de Maggie. Quase se podia traçar um a linha entre as m enininhas e Jacob. Eles não estavam brincando j untos, m as ao lado uns dos outros.

Jacob levantou os olhos nesse m om ento e sorriu para m im . Ele inclinou a cabeça na direção das m eninas, com o se dissesse: Ei, olha só, fiz duas amigas.

Olhei para m inha m ãe e foi então que a vi chorando. Lágrim as corriam por seu rosto e ela não fazia nada para tentar enxugá-las. Era quase com o se não soubesse que elas estavam ali.

Houve m uitas outras vezes em m inha vida em que teria feito m ais sentido m inha m ãe chorar: quando ela precisava ir à escola conversar com o diretor sobre algo errado que Jacob tinha feito, por exem plo. Ou quando ele tinha um de seus acessos no m eio de um lugar cheio de gente, com o no ano passado, na frente do estande do Papai Noel no shopping, enquanto um zilhão de crianças, pais e m ães assistiam ao desenvolvim ento de sua explosão nuclear. Mas, nessa hora, m inha m ãe ficou com os olhos secos e o rosto lim po de qualquer expressão. Na verdade, durante esses m om entos, m inha m ãe parecia um pouco com Jacob.

Não sei por que ver m eu irm ão com duas m enininhas em um a caixa de areia foi a gota que fez transbordar o copo para ela. Só sei que, naquele instante, lem bro que m e senti com o se o m undo tivesse virado de cabeça para baixo. É o filho que geralm ente chora, e é a m ãe que faz tudo parecer m elhor, não o contrário. É por isso que as m ães m ovem céus e terras para m anter o controle diante dos próprios filhos.

Naquele m om ento eu soube que, se Jacob era quem a fazia chorar, era a m im que cabia consolá-la.

 

Claro que sei onde eles estão; m inha m ãe m e ligou do tribunal. Mas isso não m e im pede de ser incapaz de m e concentrar em geom etria ou cidadania até que eles voltem para casa.

Fico m e perguntando se m eus professores vão aceitar com o j ustificativa: Desculpe não ter feito a lição de casa; é que meu irmão estava como réu em uma audiência no tribunal.

Claro, m eu professor de geom etria vai dizer. Como se eu já não tivesse ouvido essa mil vezes.

No m inuto em que ouço a porta se abrir, corro para saber o que aconteceu. Minha m ãe entra, sozinha, e se senta no banco onde costum am os deixar nossas m ochilas de escola.

— Onde está o Jacob? — pergunto e, m uito lentam ente, ela levanta os olhos para m im .

— Na cadeia — ela m urm ura. — Ah, m eu Deus, ele está na cadeia — e se inclina para a frente até ficar totalm ente dobrada.

— Mãe? — Toco seu om bro, m as ela não se m exe. Isso é apavorante, e sinistram ente fam iliar.

Levo um segundo para situar a sensação: o j eito com o ela está olhando para o espaço, o m odo com o não responde: era assim que Jacob estava na sem ana passada, quando não conseguíam os trazê-lo de volta para nós.

— Vem , m ãe. — E então eu a seguro pela cintura e a levanto. Ela parece um saco de ossos. Eu a aj udo a subir as escadas, im aginando por que diabos Jacob estaria na cadeia. Todos têm garantido o direito a um j ulgam ento rápido, certo? Mas pode ter sido tão rápido assim ? Se ao m enos eu tivesse feito m inha lição de casa de cidadania, talvez entendesse o que havia acontecido, m as um a coisa eu sei: não vou perguntar para m inha m ãe.

Eu a sento na cam a, então aj oelho e tiro seus sapatos.

— Deite e descanse — sugiro, o que parece algo que ela diria se os papéis estivessem trocados. — Vou trazer um a xícara de chá para você, está bem ?

Na cozinha, ponho água para ferver na chaleira e tenho um tsunam i de déjà vus: a últim a vez em que fiz isso — pôr água para ferver, pegar um saquinho de chá e pendurá-lo na borda de um a caneca com a etiqueta de papel para fora — foi na casa de Jess Ogilvy. É realm ente só um a questão de sorte que sej a Jacob sentado dentro de um a cela agora e que eu estej a aqui. Poderia facilm ente ter sido o contrário.

Parte de m im está aliviada com isso, o que faz com que eu m e sinta um lixo total.

O que será que o detetive disse para Jacob? Por que m inha m ãe o levou até lá, para com eçar? Talvez por isso ela estej a tão perturbada agora: não porque estej a sentindo dor, m as culpa. Isso eu entendo bem . Se eu tivesse procurado a polícia e contado que tinha visto Jess viva e nua m ais cedo naquele dia, isso teria piorado as coisas para Jacob? Ou m elhorado?

Não sei direito com o m inha m ãe costum a tom ar seu chá, então coloco leite e açúcar e o levo para cim a. Ela está sentada agora, com os travesseiros em pilhados nas costas. Quando m e vê, desaba em lágrim as.

— Meu m enino — diz, enquanto m e sento a seu lado. Ela segura m eu rosto entre as m ãos. — Meu m enino lindo.

Ela poderia estar falando de m im , com o poderia estar falando de Jacob. Decido que isso não im porta.

— Mãe — pergunto —, o que está acontecendo?

— O Jacob tem que ficar na cadeia... por duas sem anas. Então vão levá-lo ao tribunal outra vez para decidir se ele é capaz de enfrentar um j ulgam ento.

Certo, posso não ser um gênio da ciência, m as m anter fechado em um a cela alguém que talvez não sej a capaz de enfrentar um j ulgam ento não m e parece a m elhor m aneira de ver se ele é capaz de enfrentar um j ulgam ento. Quero dizer, se você não consegue enfrentar um j ulgam ento, com o poderia enfrentar ficar trancado na prisão?

— Mas... ele não fez nada errado — digo, e olho com atenção para m inha m ãe, para ver se ela sabe m ais do que eu.

Se ela sabe, não está dem onstrando.

— Parece que isso não im porta.

Hoj e, na aula de cidadania, falam os sobre a base do sistem a j urídico de nosso país: a pessoa é inocente até que se prove o contrário. Prender alguém enquanto se tenta descobrir o que fazer depois não parece dar o benefício da dúvida a essa pessoa. Parece que j á se está pressupondo que ela está ferrada, então é bom que ela j á vá se acostum ando com seus futuros aposentos.

Minha m ãe m e conta com o Jacob foi induzido a conversar com o detetive. Com o ela correu para encontrar um advogado. Com o Jacob foi preso na frente dela. Com o ele lutou com os oficiais de j ustiça quando eles tentaram segurar os braços dele.

Não entendo por que esse advogado não conseguiu que Jacob fosse liberado para voltar para casa. Leio rom ances de Grisham o suficiente para saber o que sem pre acontece, especialm ente com pessoas que não têm antecedentes crim inais.

— E o que vai acontecer agora? — pergunto.

E não m e refiro apenas a Jacob, m as a nós. Todos esses anos eu desej ei que Jacob não existisse e, agora que ele não está em casa, é com o se a verdade aparecesse em baixo do m eu nariz. Com o posso abrir um a lata de sopa para o j antar, sabendo que m eu irm ão está em um a cela sabe lá onde? Com o posso levantar de m anhã, ir para a escola e fingir que está tudo bem ?

— Oliver, o advogado, diz que é com um soltarem o suspeito quando a polícia obtém um a nova prova.

Ela está se agarrando a isso com o se fosse um talism ã, um pé de coelho, um am uleto. Jacob vai ser solto e todos nós vam os poder voltar a ser com o éram os. Não im porta que o m odo com o éram os não fosse m aravilhoso, ou que ser solto não signifique passar um a borracha em tudo e esquecer o que aconteceu. Im agine ficar vinte anos na prisão por um crim e que você não com eteu, antes de ser absolvido graças a um exam e de DNA. Claro, você está livre agora, m as não recupera aqueles vinte anos. Jam ais deixa de ser “aquele cara que esteve na prisão”.

Por não saber com o dizer isso a ela, e por ter certeza de que ela, de qualquer form a, não ia querer ouvir, pego o controle rem oto na m esinha de cabeceira e ligo a TV que está sobre a côm oda do outro lado do quarto. Está passando o noticiário, com o hom em do tem po prevendo um a tem pestade para a próxim a sem ana.

— Obrigado, Norm — diz o âncora. — E há novidades no caso do assassinato de Jessica Ogilvy... A polícia prendeu o jovem Jacob Hunt, de dezoito anos, residente em Townsend, Vermont, em associação com o crime.

Ao m eu lado, m inha m ãe congela. A foto escolar de Jacob preenche a tela. Ele está usando um a cam isa azul listrada e, com o de hábito, não olha direto para a câm era.

— Jacob está no último ano do colégio local de Townsend e fazia sessões de orientação pessoal com a vítima.

Merda.

— Vamos acompanhar o desenvolvimento dessa história — o âncora prom ete.

Minha m ãe levanta o controle rem oto. Im agino que vá desligar a televisão, m as, em vez disso, ela o arrem essa em direção à tela. Ele se quebra em pedaços, e a tela da TV se racha. Então vira de lado na cam a.

— Vou pegar a vassoura — digo.

 

No m eio da noite, ouço barulho na cozinha. Desço as escadas com cuidado e dou de cara com m inha m ãe, rem exendo um a gaveta à procura da lista telefônica.

Ela está com os cabelos soltos, os pés descalços, e há um a m ancha de pasta de dentes na blusa.

— Por que não está em “governo”? — ela m urm ura.

— O que está fazendo?

— Tenho que ligar para a prisão — ela diz. — Ele não gosta quando está escuro. Posso levar um abaj ur para ele. Quero dizer para os policiais que posso levar um abaj ur, se acharem que isso aj uda.

— Mãe — eu digo.

Ela pega o telefone.

— Mãe... você precisa ir dorm ir.

— Não — ela corrige. — Preciso ligar para a prisão e...

— São três horas da m anhã. Eles estão dorm indo. — Olho para ela. — O Jacob está dorm indo.

Ela se volta para m im .

— Você acha m esm o?

— Acho — digo, m as a palavra tem que se esprem er para passar pelo nó em m inha garganta. — Acho m esm o.

 

Estas são as coisas de que tenho m edo:

Que o assunto que Jacob m ais am a deixe de ser um interesse e se transform e em um a obsessão.

Que isso sej a o que o levou a estar agora na cadeia.

Que, quando ele esteve pela últim a vez com Jess, algo o tenha feito se sentir com m edo, ou acuado, e que tenha sido isso que o fez surtar.

Que se possa am ar e odiar alguém ao m esm o tem po.

Que idade não tenha nada a ver com quem é o irm ão m ais velho.

 

Se você acha que ter um irm ão com Asperger j á m e torna um pária, im agine ter um irm ão na cadeia. No dia seguinte, estou na escola — sim , m ais sobre isso depois — e, por onde passo, ouço os sussurros.

Ouvi dizer que ele cortou o dedo dela com uma faca e o guardou.

Parece que ele a acertou com um bastão de beisebol.

Eu sempre achei aquele garoto meio assustador.

A razão de eu estar ocupando espaço em m inhas aulas hoj e (e, pode acreditar, isso é tudo que estou fazendo, j á que m eu cérebro está ocupado dem ais bloqueando os cochichos por toda parte) é que m inha m ãe achou que essa era a m elhor decisão.

— Preciso ir até a prisão — ela disse, o que eu j á tinha im aginado que iria acontecer. — Você não pode ficar em casa por duas sem anas. Vai ter que voltar em algum m om ento.

Eu sabia que ela estava certa, m as ela não percebia que as pessoas iriam perguntar sobre Jacob? Tirar conclusões? E não só os alunos. Os professores viriam até m im supersim páticos, quando o que realm ente queriam era um a fofoca para levar para a sala dos professores. Tudo isso fazia eu m e sentir nauseado.

— O que devo dizer se alguém perguntar?

Minha m ãe hesitou.

— Responda que o advogado de seu irm ão disse que você não pode falar sobre o assunto.

— Isso é verdade?

— Não tenho a m enor ideia.

Respirei fundo. Ia abrir o j ogo, contar a ela sobre ter invadido a casa de Jess.

— Mãe, tenho que conversar com você sobre um a coisa...

— Podem os adiar isso um pouco? — ela pediu. — Quero estar lá quando o portão abrir, às nove horas. Há bastante cereal para o café da m anhã e você pode pegar o ônibus, está bem ?

Agora, estou sentado na aula de biologia ao lado de Elise Howath, que é um a ótim a parceira de laboratório, m esm o sendo m enina, quando ela passa um bilhete para m im .

“Sinto m uito pelo seu irm ão.”

Tenho vontade de agradecer a ela, por ser gentil. Por ser a prim eira pessoa a se im portar um pouco com Jacob em vez de crucificá-lo, com o a m ídia e aquele estúpido tribunal, pelo que ele fez.

O que ele fez.

Pego m inha m ochila e corro para fora da sala, em bora o sr. Jennison ainda estej a falando sem parar, e ele nem com enta (o que m e diz, m ais do que qualquer coisa, que isto não é m inha vida, m as um universo paralelo). Continuo seguindo pelo corredor sem um a autorização e ninguém m e para. Nem quando passo na frente da sala da diretoria ou da coordenação. Nem quando atravesso as portas duplas perto do ginásio para a luz cegante da tarde e com eço a andar.

Aparentem ente, nas escolas públicas, quando se tem um parente preso por assassinato, a adm inistração e os professores fingem que você é invisível.

O que, para ser sincero, não é assim tão diferente do j eito com o eu era tratado antes.

Queria ter m eu skate com igo. Aí eu poderia m e m over m ais rápido, talvez deixar para trás os fatos que insistem em rodar na m inha cabeça.

Que vi Jess Ogilvy viva e que ela estava bem . E que, pouco depois disso, Jacob foi à casa dela.

E agora ela está m orta.

Vi m eu irm ão j ogar um a cadeira na parede e quebrar um a j anela com a m ão. Já estive no cam inho dele, algum as vezes, durante um surto. Tenho cicatrizes para provar.

É só som ar dois m ais dois.

Meu irmão é um assassino. Testo as palavras baixinho e, im ediatam ente, sinto um a dor no peito. Não se pode dizer isso do m esm o m odo com o se diz: Meu irmão tem um metro e oitenta de altura ou Meu irmão gosta de ovos mexidos, ainda que todos sej am fatos reais. Mas o Jacob que eu conhecia um a sem ana atrás não é diferente do Jacob que vi esta m anhã. Então isso significa que fui idiota dem ais para notar algum a falha de caráter im portante em m eu irm ão? Ou que qualquer um , m esm o Jacob, pode de repente se transform ar em um a pessoa que nunca im aginam os?

Eu, com certeza, m e qualifico nisso.

Toda a m inha vida, achei que não tivesse nada em com um com m eu irm ão e, de repente, acontece que nós dois som os crim inosos.

Mas você não matou ninguém.

A voz ecoa em m inha cabeça, com o um a desculpa. Até onde eu sei, Jacob tem suas razões tam bém .

Isso m e faz correr m ais depressa. Mas eu poderia ser um a m aldita bala de revólver e ainda não conseguiria escapar do triste fato de que não sou m elhor do que aqueles im becis na escola: j á pressupus que m eu irm ão é culpado.

Atrás da escola, indo suficientem ente longe, chega-se a um lago. É um lugar m uito frequentado pela com unidade no inverno. Nos fins de sem ana, alguém acende um a fogueira e traz m arshm allows para assar; e alguns pais entusiasm ados e fanáticos por hóquei lim pam o gelo com grandes pás para que j ogos possam acontecer em toda a sua superfície. Piso no gelo, em bora não estej a de patins.

O local não é m uito m ovim entado durante a sem ana. Algum as m ães com crianças pequenas em purram engradados para aprender a patinar. Um hom em m ais velho com um daqueles patins pretos de patinação artística que sem pre m e fazem pensar na Holanda ou em Jogos Olím picos. Ele está fazendo oitos com os patins. Largo m inha m ochila na borda da neve e vou arrastando os pés pouco a pouco até ficar de pé bem no centro.

Todos os anos há um a com petição em Townsend para ver quando o gelo vai derreter totalm ente. Eles fincam um a estaca no gelo, que é ligada a algum tipo de relógio digital, e, quando o gelo derrete o suficiente para a estaca se inclinar, isso aciona um interruptor e registra o m om ento preciso. As pessoas apostam dinheiro no dia e na hora em que o gelo vai derreter, e o apostador que chegar m ais perto leva tudo. No ano passado, acho que foram uns quatro m il e quinhentos dólares.

E se o m om ento em que o gelo derretesse fosse exatam ente agora?

E se eu afundasse?

Será que essas crianças patinando por aqui ouviriam o barulho na água? Será que o hom em viria m e salvar?

Meu professor de inglês diz que um a pergunta retórica é um a que se faz sem esperar um a resposta: O papa é católico? Ou O urso caga no mato?

Eu acho que é um a pergunta cuj a resposta a gente não quer realm ente ouvir.

Esse vestido me faz parecer gorda?

Você é mesmo assim tão burro?

Se o gelo derreter e ninguém me vir afundar, será que eu existiria de fato?

Se fosse eu que estivesse na cadeia, Jacob acreditaria no pior a meu respeito?

De repente, sento no m eio do lago, no gelo. Sinto o frio penetrar através de m eu j eans. Eu m e im agino congelando de dentro para fora. Vão m e encontrar e eu serei um a escultura, um a estátua.

— Ei, garoto, você está bem ? — um hom em m e pergunta, patinando até m im . — Precisa de aj uda?

Com o eu disse: um a resposta que você não quer realm ente ouvir.

 

Não dorm i m uito na noite passada, m as, quando dorm i, eu sonhei. Sonhei que estava resgatando Jacob da cadeia. Fiz isso lendo todos os seus cadernos de CrimeBusters e copiando o com portam ento de ladrões furtivos. Quando contornei a quina da parede e surgi no lugar onde Jacob se encontrava na cela, ele estava pronto. Jacob, eu disse, você tem que fazer exatamente o que eu lhe disser, e ele fez, e foi assim que eu soube que era um sonho. Ele ficou quieto, seguiu m inhas orientações e não fez perguntas. Passam os na ponta dos pés pela guarita e pulam os dentro de um a lata de lixo gigante, onde nos cobrim os de papel e lixo. Por fim , o encarregado da m anutenção veio e nos transportou através dos alarm es e do portão trancado e, quando ele estava prestes a despej ar o conteúdo da lata de lixo gigante na caçam ba do lado de fora, eu gritei, Agora!, e Jacob e eu pulam os e com eçam os a correr. Correm os por horas, até que as únicas coisas que nos seguiam eram estrelas cadentes, e então, finalm ente, param os em um cam po de gram a alta e deitam os de costas no chão.

Eu não fiz aquilo, Jacob m e disse.

Eu acredito em você, respondi, e era realm ente verdade.

 

Naquele dia em que Jacob tinha que fazer um am igo com o lição de casa, as duas m enininhas que ele havia conhecido na caixa de areia precisaram ir em bora. Elas saíram correndo sem dizer tchau e deixaram m eu irm ão de treze anos sozinho, cavando na areia.

Tive m edo de olhar para m inha m ãe outra vez. Então, em vez disso, fui até a caixa de areia e sentei na borda. Meus j oelhos chegavam até o queixo; eu era grande dem ais para aquele espaço. Era m uito doido ver m eu irm ão esprem ido ali dentro. Peguei um a pedra e com ecei a raspar a areia com ela.

— O que você está procurando? — perguntei.

— Alossauro — Jacob respondeu.

— Com o vam os saber se encontrarm os um ?

O rosto de Jacob se ilum inou.

— Bom , suas vértebras e seu crânio não são tão pesados com o os de outros dinossauros. Isso é o que o nom e significa: lagarto diferente.

Im aginei qualquer garoto da idade de Jacob vendo-o brincar de paleontólogo em um a caixa de areia e m e perguntei se ele um dia teria um am igo.

— Theo — ele sussurrou de repente —, você sabe que não vam os realmente encontrar alossauros aqui, não é?

— É, eu sei. — E ri. — Mas, se encontrássem os, ia ser um a notícia e tanto, hein?

— Os furgões dos noticiários iam vir — Jacob disse.

— Que noticiários, que nada! A gente ia aparecer na Oprah — eu disse a ele. — Dois garotos que encontraram um esqueleto de dinossauro em um a caixa de areia. Podíam os acabar até em um a caixa de cereais m atinais.

— Os fabulosos irm ãos Hunt — Jacob sorriu. — É assim que iam nos cham ar.

— Os fabulosos irm ãos Hunt — repeti, enquanto observava Jacob cavar até o fundo com sua pá. E m e perguntei quanto tem po iria dem orar até eu ficar m ais velho que ele.