Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 23 de 121

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Um Mundo à Parte

Jacob

 

A sala de descanso sensorial na escola tem um balanço pendurado no teto. Ele é feito de corda e um m aterial azul flexível e, quando a gente se senta, ele nos envolve com o um casulo. É possível j untar as laterais, de m odo que não se vej a ninguém de fora e ninguém vej a dentro, e girar em círculos. Há tam bém tapetes de diferentes texturas, sininhos de vento, um ventilador. Há um abaj ur de fibra óptica com centenas de pontos de luz que m udam de verde para roxo e depois para rosa. Há esponj as e bolinhas fluffy de pelos de borracha e escovas e plástico-bolha e cobertores com pesos. Há um a m áquina de ruídos que só um auxiliar tem autorização para ligar, e pode-se escolher ouvir ondas, ou chuva, ou ruído branco, ou um a floresta. Há um tubo de bolhas de m ais ou m enos um m etro de altura com peixes de plástico que se m ovim entam em círculos preguiçosos.

Na escola, m inha educação especial inclui um passe para acalm ar os sentidos. Se eu precisar, a qualquer m om ento, m esm o durante um exam e, m eus professores m e deixam sair da classe. Às vezes o m undo exterior fica difícil dem ais para m im e eu preciso de um lugar para relaxar. Posso vir para a sala de descanso sensorial, m as a verdade é que raram ente faço isso. As únicas crianças que usam essa sala são as que têm necessidades especiais, e passar por aquela porta é quase a m esm a coisa que pregar um grande rótulo em m im m esm o dizendo que eu não sou norm al.

Então, na m aioria das vezes em que preciso de um descanso, fico andando pelos corredores. Às vezes vou à cantina pegar um a garrafa de Vitam inwater. (O m elhor sabor? Foco, de kiwi e m orango, com vitam ina A e luteína para dar clareza de raciocínio. O pior? Essencial. Laranj a com laranj a. Preciso dizer m ais algum a coisa?) Outras vezes vou para a sala dos professores e j ogo xadrez com o sr. Pakeeri ou aj udo a sra. Leatherwood, a secretária da escola, a colocar cartas em envelopes. Mas, nesses dois últim os dias, quando saio da classe vou direto para a sala de descanso sensorial.

A auxiliar que fica na sala, srta. Agworth, tam bém é professora da aula de perguntas e respostas de conhecim entos gerais. Todo dia, às 11h45, ela sai para fazer fotocópias do m aterial que vai usar na aula m ais tarde. Por essa razão, decidi usar m eu passe às onze e m eia nos últim os dois dias. Isso m e tira da aula de inglês, o que é um a bênção, porque estam os lendo Flores para Algernon e, na sem ana passada, um a m enina perguntou (não por m aldade, m as por curiosidade m esm o) se havia algum a pesquisa em andam ento que pudesse curar pessoas com o eu.

Hoj e, entro na sala de descanso sensorial e vou direto para as bolinhas de borracha. Segurando um a em cada m ão, abro cam inho até o balanço e fecho as laterais azuis em m inha volta.

— Bom dia, Jacob — diz a srta. Agworth. — Precisa de algum a coisa?

— Agora não — m urm uro.

Não sei por que pessoas com Asperger são tão sensíveis a coisas com o texturas, cores, sons e luz. Quando não olho alguém nos olhos, e quando as outras pessoas desviam intencionalm ente os olhos de m im para não parecer que estão encarando, às vezes m e pergunto se realm ente existo. Os obj etos nessa sala são os equivalentes sensoriais do j ogo Batalha Naval. Em vez de tentar achar coordenadas — B-4, D-7—, tento achar outra sensação física. Cada vez que sinto o peso de um cobertor em m eu braço, ou o estouro do plástico-bolha sob m eu corpo ao rolar sobre ele, é um tiro certeiro. E, no fim de m eu descanso sensorial, em vez de afundar m eu couraçado, o que encontrei foi um m odo de localizar a m im m esm o na grade de coordenadas desse m undo.

Fecho os olhos e giro lentam ente dentro dessa bola fechada e escura.

— Não preste atenção no homem atrás da cortina — m urm uro.

— O que foi, Jacob? — a srta. Agworth pergunta.

— Nada — grito, e espero até com pletar m ais três giros lentos antes de sair.

— Com o está indo hoj e? — ela indaga.

Essa pergunta parece bem gratuita, pois eu não estaria nessa sala se tivesse conseguido tolerar ficar sentado na classe com o um neurotípico. Mas, quando não respondo, ela não insiste. Só continua lendo seus livros de curiosidades e fazendo anotações.

 

O maior peixe do mundo é o tubarão-baleia, com quinze metros de comprimento.

São produzidos quatro milhões de coelhinhos de marshmallow por dia.

(Isso m eio que m e faz pensar em quem nesse m undo estaria com prando tantos coelhinhos quando não é Páscoa.)

 

Um homem adulto leva em média treze minutos para jantar.

 

— Tenho um a para sua lista, srta. Agworth — digo. — A palavra jumento aparece na Bíblia cento e setenta vezes.

— Obrigada, Jacob, m as não sei se é adequado. — Ela rem exe em seus papéis e olha para o relógio. — Acha que ficaria bem aqui por alguns m inutos se eu correr até o escritório para tirar um as cópias?

Tecnicam ente, ela não deveria m e deixar sozinho. E sei que j am ais deixaria de ficar vigiando com olhos de gavião outras crianças autistas que usam a sala sensorial: Mathilda, por exem plo, provavelm ente faria um nó de forca com a corda do balanço; Charlie com eçaria a arrancar as prateleiras das paredes. Mas eu sou seguro.

— Sem problem a, srta. A — respondo.

Na verdade, estou contando com isso. E, no m om ento em que a porta se fecha atrás dela, tiro o celular do bolso. Assim que o abro e pressiono o botão, ele se acende: pequenos quadrados azuis em torno de cada núm ero e um a foto de Jess e Mark no protetor de tela.

Cubro o rosto de Mark com o polegar.

É quinta-feira e hoj e tenho perm issão de ligar para ela. Já quebrei as regras e liguei duas vezes desse telefone antes da hora — discando o próprio núm ero de celular dela, m esm o sabendo que a ligação cairia autom aticam ente na caixa postal. Oi, aqui é a Jess e você sabe o que fazer.

Já estou com eçando a esquecer as notas da m elodia de sua voz.

Hoj e, porém , em vez de ouvir a m ensagem dela, escuto um a vozinha m iúda m e avisando que a caixa postal desse cliente está cheia.

Estou preparado para isso. Mem orizei o núm ero de telefone que ela m e deu um a sem ana atrás, o que pertence à nova casa. Faço a ligação, em bora tenha que digitar duas vezes, porque não estou habituado a ele e os núm eros se confundem em m inha cabeça.

Um a secretária eletrônica atende. Oi, aqui é a Jess na casa dos Robertson. Eles estão fora da cidade, mas você pode deixar um recado para mim!

Desligo e ligo de novo.

Oi, aqui é a Jess na casa dos Robertson.

Espero até ouvir o bipe e desligo. Desligo o celular tam bém . Só então falo m inha m ensagem , as m esm as palavras que digo a ela toda quinta-feira: Vejo você daqui a três dias.