Um Mundo à Parte
Jacob
Eu tenho um a piada:
Dois bolinhos estão no forno.
Um deles diz: “Puxa, está m uito quente aqui”. O outro dá um pulo e diz: “Ahh! Um bolinho falante!”
Isso é engraçado porque:
1. Bolinhos não falam .
2. Eu sou m entalm ente são o bastante para saber disso. Apesar do que m inha m ãe, Oliver e praticam ente todos os psiquiatras de Verm ont parecem pensar, nunca conversei com um bolinho em toda a m inha vida. 3. Isso ia ser m uito bobo.
4. Você tam bém entendeu a piada, certo?
Minha m ãe disse que ia conversar com a dra. Newcom b por m eia hora, m as j á faz quarenta e dois m inutos e ela ainda não voltou para a sala de espera.
Estam os aqui porque Oliver disse que precisávam os. Em bora ele tenha conseguido todas aquelas concessões no tribunal para m im e em bora tudo isso o aj ude a provar sua defesa por insanidade para o j úri (apesar de eu não saber com o, um a vez que insanidade não é equivalente a deficiência, ou m esm o peculiaridade), parece que tam bém tem os que consultar um a psiquiatra que ele encontrou e que terá a tarefa de dizer ao j úri que eles devem m e deixar livre porque tenho Asperger.
Finalm ente, quando j á se passaram dezesseis m inutos a m ais do que m inha m ãe tinha dito — e quando eu j á com ecei a suar um pouco e m inha boca ficou seca, porque estou achando que talvez m inha m ãe tenha esquecido de m im e eu vá ficar sentado nessa pequena sala de espera para sem pre —, a dra. Newcom b abre a porta.
— Jacob? — diz ela, sorrindo. — Pode entrar.
Ela é um a m ulher m uito alta, com um a torre de cabelo m ais alta ainda e a pele lisa e de um a cor intensa de chocolate am argo. Seus dentes brilham com o faróis e eu fixo sem querer o olhar neles. Não vej o m inha m ãe na sala e sinto um som de gem ido com eçar a subir pela m inha garganta.
— Onde está m inha m ãe? — pergunto. — Ela disse que voltaria em m eia hora e j á se passaram quarenta e sete m inutos.
— Dem oram os um pouco m ais do que eu esperava. Sua m ãe saiu pelos fundos e está esperando você lá — responde a dra. Newcom b, com o se pudesse ler m inha m ente. — Jacob, tive um a ótim a conversa com a sua m ãe. E com a dra. Murano.
Ela senta e faz um sinal para eu m e sentar à sua frente. O estofam ento da cadeira tem faixas com o um a zebra e eu não gosto m uito disso. Padrões em geral m e deixam incom odado. Toda vez que olho para um a zebra, não sei dizer se ela é preta com listras brancas ou branca com listras pretas e isso m e perturba.
— É m eu trabalho exam iná-lo — diz a dra. Newcom b. — Preciso enviar um relatório ao j uiz, portanto o que você disser aqui não é confidencial. Você entende o que isso significa?
— Que deve ser mantido em sigilo — digo, citando a definição de “confidencial” e franzindo a testa. — Mas você não é m édica?
— Sim , psiquiatra, com o a dra. Murano.
— Então o que eu lhe disser deve ser m antido entre nós — digo. — Há um a relação de confidencialidade entre m édico e paciente.
— Mas essa é um a circunstância especial em que vam os contar às pessoas o que você disser, por causa do caso no tribunal.
Todo esse procedim ento está com eçando a parecer cada vez pior. Eu não só tenho que falar com um a psiquiatra que não conheço, com o ela pretende sair por aí contando sobre a sessão.
— Então eu prefiro falar com a dra. Moon. Ela não conta para ninguém os m eus segredos.
— Sinto m uito, m as essa não é um a opção — a dra. Newcom b responde e então olha firm e para m im . — Você tem segredos?
— Todo m undo tem segredos.
— O fato de ter segredos às vezes faz você se sentir m al?
Sento m uito reto na cadeira, para que m inhas costas não tenham que tocar aquele tecido confuso em ziguezagues.
— Às vezes, acho.
Ela cruza as pernas, que são longas com o as de um a girafa. Girafas e zebras. E eu sou um elefante, que nunca esquece.
— Você entende que o que fez, Jacob, foi errado aos olhos da lei?
— A lei não tem olhos — digo a ela. — Tem tribunais, j uízes, testem unhas e j úris, m as não tem olhos. — Eu m e pergunto de onde Oliver tirou essa m ulher. Sinceramente.
— Você entende que o que fez era errado?
Sacudo a cabeça.
— Eu fiz a coisa certa.
— Por que foi certo?
— Eu estava seguindo as regras.
— Que regras?
Eu poderia contar m ais, m as ela vai contar a outras pessoas e isso significa que eu não vou ser o único a ficar em apuros. Mas sei que ela quer que eu explique; isso é evidente pelo j eito com o se inclina para a frente. Eu m e encolho na cadeira, o que m e faz tocar a estam pa de zebra, m as esse é o m enor de dois m ales.
— Eu vejo gente morta — digo, e a dra. Newcom b só fica olhando para m im . — É de O sexto sentido — explico.
— Sim , eu sei. — Ela inclina a cabeça. — Você acredita em Deus, Jacob?
— Nós não vam os à igrej a. Minha m ãe diz que a religião é a raiz de todos os m ales.
— Não perguntei o que a sua m ãe pensa da religião. Perguntei o que você pensa.
— Eu não penso sobre isso.
— As regras que você m encionou... — a dra. Newcom b insiste.
Mas j á não tínham os saído desse assunto?
— Você sabe que existe um a regra contra m atar pessoas?
— Sei.
— Você acha que seria errado m atar alguém ?
Claro que acho. Mas não posso dizer isso. Não posso porque adm itir essa regra seria quebrar outra. Fico em pé e com eço a andar, balançando para cim a e para baixo sobre os dedos dos pés, porque isso às vezes m e aj uda a pôr o cérebro e o corpo em sintonia.
Mas não respondo.
A dra. Newcom b, porém , não desiste.
— Quando esteve na casa da Jess no dia em que ela m orreu, você entendia que é errado m atar alguém ?
— Eu não sou má — cito. — Só fui desenhada assim.
— Eu preciso m uito que você responda a essa pergunta, Jacob. No dia em que esteve na casa da Jess, você sentiu que estava fazendo algo errado?
— Não — digo im ediatam ente. — Eu estava seguindo as regras.
— Por que você m oveu o corpo dela?
— Eu estava m ontando a cena do crim e.
— Por que lim pou as provas na casa?
— Porque a gente deve lim par a própria bagunça.
A dra. Newcom b escreve algo.
— Você tinha brigado com a Jess durante sua sessão de orientação alguns dias antes de ela m orrer, não foi?
— Sim .
— O que ela disse para você naquele dia?
— “Dá um tem po.”
— Mas você foi à casa dela na terça-feira assim m esm o?
Faço que sim com a cabeça.
— Sim , nós tínham os um a sessão.
— A Jess estava obviam ente aborrecida com você. Por que foi lá?
— As pessoas sem pre dizem coisas que não são verdade. — Ergo os om bros. — Com o quando o Theo m e diz para segurar a onda. Isso não significa segurar uma onda, m as se controlar. Achei que a Jess estava fazendo a m esm a coisa.
— Quais foram suas reações às respostas da vítim a?
Sacudo a cabeça.
— Não entendo o que você está falando.
— Quando você chegou à casa da Jess, gritou com ela?
Houve um m om ento em que m e inclinei diretam ente sobre o rosto dela e gritei, para acordá-la.
— Sim — digo. — Mas ela não respondeu.
— Você entende que a Jess não vai voltar nunca m ais?
Claro que entendo. Provavelm ente poderia contar m uitas coisas que a dra. Newcom b não sabe sobre decom posição de corpos.
— Sim .
— Você acha que a Jess estava com m edo naquele dia?
— Não sei.
— Com o você acha que teria se sentido, se você fosse a vítim a?
Reflito por um m om ento.
— Morto — respondo.