Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 83 de 121

Páginas do PDF

Um Mundo à Parte

Jacob

 

 

Eu tenho um a piada:

 

Dois bolinhos estão no forno.

Um deles diz: “Puxa, está m uito quente aqui”. O outro dá um pulo e diz: “Ahh! Um bolinho falante!”

 

Isso é engraçado porque:

 

1. Bolinhos não falam .

2. Eu sou m entalm ente são o bastante para saber disso. Apesar do que m inha m ãe, Oliver e praticam ente todos os psiquiatras de Verm ont parecem pensar, nunca conversei com um bolinho em toda a m inha vida. 3. Isso ia ser m uito bobo.

4. Você tam bém entendeu a piada, certo?

 

Minha m ãe disse que ia conversar com a dra. Newcom b por m eia hora, m as j á faz quarenta e dois m inutos e ela ainda não voltou para a sala de espera.

Estam os aqui porque Oliver disse que precisávam os. Em bora ele tenha conseguido todas aquelas concessões no tribunal para m im e em bora tudo isso o aj ude a provar sua defesa por insanidade para o j úri (apesar de eu não saber com o, um a vez que insanidade não é equivalente a deficiência, ou m esm o peculiaridade), parece que tam bém tem os que consultar um a psiquiatra que ele encontrou e que terá a tarefa de dizer ao j úri que eles devem m e deixar livre porque tenho Asperger.

Finalm ente, quando j á se passaram dezesseis m inutos a m ais do que m inha m ãe tinha dito — e quando eu j á com ecei a suar um pouco e m inha boca ficou seca, porque estou achando que talvez m inha m ãe tenha esquecido de m im e eu vá ficar sentado nessa pequena sala de espera para sem pre —, a dra. Newcom b abre a porta.

— Jacob? — diz ela, sorrindo. — Pode entrar.

Ela é um a m ulher m uito alta, com um a torre de cabelo m ais alta ainda e a pele lisa e de um a cor intensa de chocolate am argo. Seus dentes brilham com o faróis e eu fixo sem querer o olhar neles. Não vej o m inha m ãe na sala e sinto um som de gem ido com eçar a subir pela m inha garganta.

— Onde está m inha m ãe? — pergunto. — Ela disse que voltaria em m eia hora e j á se passaram quarenta e sete m inutos.

— Dem oram os um pouco m ais do que eu esperava. Sua m ãe saiu pelos fundos e está esperando você lá — responde a dra. Newcom b, com o se pudesse ler m inha m ente. — Jacob, tive um a ótim a conversa com a sua m ãe. E com a dra. Murano.

Ela senta e faz um sinal para eu m e sentar à sua frente. O estofam ento da cadeira tem faixas com o um a zebra e eu não gosto m uito disso. Padrões em geral m e deixam incom odado. Toda vez que olho para um a zebra, não sei dizer se ela é preta com listras brancas ou branca com listras pretas e isso m e perturba.

— É m eu trabalho exam iná-lo — diz a dra. Newcom b. — Preciso enviar um relatório ao j uiz, portanto o que você disser aqui não é confidencial. Você entende o que isso significa?

— Que deve ser mantido em sigilo — digo, citando a definição de “confidencial” e franzindo a testa. — Mas você não é m édica?

— Sim , psiquiatra, com o a dra. Murano.

— Então o que eu lhe disser deve ser m antido entre nós — digo. — Há um a relação de confidencialidade entre m édico e paciente.

— Mas essa é um a circunstância especial em que vam os contar às pessoas o que você disser, por causa do caso no tribunal.

Todo esse procedim ento está com eçando a parecer cada vez pior. Eu não só tenho que falar com um a psiquiatra que não conheço, com o ela pretende sair por aí contando sobre a sessão.

— Então eu prefiro falar com a dra. Moon. Ela não conta para ninguém os m eus segredos.

— Sinto m uito, m as essa não é um a opção — a dra. Newcom b responde e então olha firm e para m im . — Você tem segredos?

— Todo m undo tem segredos.

— O fato de ter segredos às vezes faz você se sentir m al?

Sento m uito reto na cadeira, para que m inhas costas não tenham que tocar aquele tecido confuso em ziguezagues.

— Às vezes, acho.

Ela cruza as pernas, que são longas com o as de um a girafa. Girafas e zebras. E eu sou um elefante, que nunca esquece.

— Você entende que o que fez, Jacob, foi errado aos olhos da lei?

— A lei não tem olhos — digo a ela. — Tem tribunais, j uízes, testem unhas e j úris, m as não tem olhos. — Eu m e pergunto de onde Oliver tirou essa m ulher. Sinceramente.

— Você entende que o que fez era errado?

Sacudo a cabeça.

— Eu fiz a coisa certa.

— Por que foi certo?

— Eu estava seguindo as regras.

— Que regras?

Eu poderia contar m ais, m as ela vai contar a outras pessoas e isso significa que eu não vou ser o único a ficar em apuros. Mas sei que ela quer que eu explique; isso é evidente pelo j eito com o se inclina para a frente. Eu m e encolho na cadeira, o que m e faz tocar a estam pa de zebra, m as esse é o m enor de dois m ales.

— Eu vejo gente morta — digo, e a dra. Newcom b só fica olhando para m im . — É de O sexto sentido — explico.

— Sim , eu sei. — Ela inclina a cabeça. — Você acredita em Deus, Jacob?

— Nós não vam os à igrej a. Minha m ãe diz que a religião é a raiz de todos os m ales.

— Não perguntei o que a sua m ãe pensa da religião. Perguntei o que você pensa.

— Eu não penso sobre isso.

— As regras que você m encionou... — a dra. Newcom b insiste.

Mas j á não tínham os saído desse assunto?

— Você sabe que existe um a regra contra m atar pessoas?

— Sei.

— Você acha que seria errado m atar alguém ?

Claro que acho. Mas não posso dizer isso. Não posso porque adm itir essa regra seria quebrar outra. Fico em pé e com eço a andar, balançando para cim a e para baixo sobre os dedos dos pés, porque isso às vezes m e aj uda a pôr o cérebro e o corpo em sintonia.

Mas não respondo.

A dra. Newcom b, porém , não desiste.

— Quando esteve na casa da Jess no dia em que ela m orreu, você entendia que é errado m atar alguém ?

— Eu não sou má — cito. — Só fui desenhada assim.

— Eu preciso m uito que você responda a essa pergunta, Jacob. No dia em que esteve na casa da Jess, você sentiu que estava fazendo algo errado?

— Não — digo im ediatam ente. — Eu estava seguindo as regras.

— Por que você m oveu o corpo dela?

— Eu estava m ontando a cena do crim e.

— Por que lim pou as provas na casa?

— Porque a gente deve lim par a própria bagunça.

A dra. Newcom b escreve algo.

— Você tinha brigado com a Jess durante sua sessão de orientação alguns dias antes de ela m orrer, não foi?

— Sim .

— O que ela disse para você naquele dia?

— “Dá um tem po.”

— Mas você foi à casa dela na terça-feira assim m esm o?

Faço que sim com a cabeça.

— Sim , nós tínham os um a sessão.

— A Jess estava obviam ente aborrecida com você. Por que foi lá?

— As pessoas sem pre dizem coisas que não são verdade. — Ergo os om bros. — Com o quando o Theo m e diz para segurar a onda. Isso não significa segurar uma onda, m as se controlar. Achei que a Jess estava fazendo a m esm a coisa.

— Quais foram suas reações às respostas da vítim a?

Sacudo a cabeça.

— Não entendo o que você está falando.

— Quando você chegou à casa da Jess, gritou com ela?

Houve um m om ento em que m e inclinei diretam ente sobre o rosto dela e gritei, para acordá-la.

— Sim — digo. — Mas ela não respondeu.

— Você entende que a Jess não vai voltar nunca m ais?

Claro que entendo. Provavelm ente poderia contar m uitas coisas que a dra. Newcom b não sabe sobre decom posição de corpos.

— Sim .

— Você acha que a Jess estava com m edo naquele dia?

— Não sei.

— Com o você acha que teria se sentido, se você fosse a vítim a?

Reflito por um m om ento.

— Morto — respondo.