Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 31 de 121

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Um Mundo à Parte

Rich

 

Eu não estou de bom hum or.

É sábado e, em bora sej a m eu fim de sem ana com Sasha, tive de cancelar assim que ficou evidente que tínham os um a investigação em andam ento que exigia todos os m eus esforços. Basicam ente, vou com er, dorm ir e respirar Jess Ogilvy até encontrá-la, viva ou m orta. Não que isso parecesse im pressionar m inha ex, que fez questão de m e dar um serm ão de quinze m inutos sobre responsabilidades paternas. Além do m ais, com o ela poderia levar sua vida adiante se m inhas em ergências estavam sem pre interrom pendo? Não com pensava ressaltar que essa não era, tecnicam ente, um a em ergência m inha, ou que o desaparecim ento de um a j ovem poderia ser m ais im portante do que ter que rem arcar um program a noturno com seu novo esposo, o sr. Café. Digo a m im m esm o que perder um único fim de sem ana com Sasha vale a pena se eu conseguir garantir que Claude Ogilvy possa ter m ais um fim de sem ana com sua filha.

A cam inho da casa de Jess, onde um a equipe de investigadores está entrincheirada, recebo um telefonem a do agente de cam po local do FBI, que estava tentando localizar o telefone celular da m oça.

— Você não está conseguindo um sinal — repito. — O que isso significa?

— Várias coisas — o agente explica. — O localizador por GPS só funciona quando o telefone está ativado. O aparelho pode estar no fundo de um lago neste m om ento. Ou ela pode estar viva e bem , e apenas ter ficado sem bateria.

— Bom , e com o posso saber qual é a opção certa?

— Acho que, quando você encontrar o corpo, isso ficará bem claro — ele diz, e em seguida entro em um a das fam osas áreas sem sinal de Verm ont e a ligação cai.

Quando o telefone toca outra vez, ainda estou xingando o FBI (que só é bom para um a única coisa: perturbar investigações locais perfeitam ente bem conduzidas), então im agine m inha surpresa quando escuto Em m a Hunt do outro lado da linha. Deixei m eu cartão com ela ontem , para o caso de algum a necessidade.

— Gostaria que o senhor voltasse à m inha casa — diz ela. — O Jacob tem algo que precisa lhe contar.

Tenho um a equipe de investigadores à m inha espera no local da ocorrência. Tenho um nam orado grosseirão que pode ser um assassino e um senador bufando no pescoço do m eu chefe e cobrando o m eu em prego se eu não encontrar sua filha desaparecida. Mas ponho o lum inoso azul em cim a do carro e faço um a conversão proibida.

— Estarei aí em dez m inutos — digo a ela.

Estou com um hum or ligeiram ente m elhor agora.

 

Tenho, felizm ente, três horas inteiras antes de CrimeBusters com eçar. Estam os sentados na sala, Em m a e Jacob em um sofá, e eu em um a poltrona.

— Conte ao detetive tudo que você contou para m im , Jacob — Em m a diz.

Ele volta os olhos para cim a, com o se estivesse lendo algo im presso no teto.

— Fui à casa dela na terça-feira, com o estava m arcado. E as coisas não estavam certas. Tinha bancos derrubados na cozinha e papéis espalhados pelo chão, e todos os CDs estavam j ogados no tapete. Não estava certo, não estava certo. — A voz dele parecia quase com putadorizada de tão m ecânica. — Ela j á tinha ido. Eu entrei, e toda aquela bagunça... fiquei apavorado. Não sabia o que tinha acontecido. Eu a cham ei e ela não respondia e eu vi a m ochila e as outras coisas e as peguei. Houston, temos um problema. — Ele balança a cabeça para baixo, satisfeito. — É isso.

— Por que você m entiu para m im sobre ter ido encontrar com a Jess? — pergunto.

— Eu não m enti — diz ele. — Eu lhe disse que não tive m inha sessão com ela.

— Você não m e contou sobre a m ochila tam bém — observo. Ela está entre nós, na m esinha de centro.

Jacob concorda com a cabeça.

— Você não perguntou.

Espertinho, penso, e Em m a se interpõe nesse m om ento.

— Um garoto com Asperger, com o o Jacob, é terrivelm ente literal — diz ela.

— Então, se eu o questionar diretam ente, ele responderá diretam ente?

— Ele — Jacob intervém , com irritação — está presente na conversa.

Isso m e faz sorrir.

— Desculpe — digo, dirigindo-m e a ele. — Com o você entrou na casa da Jess?

— Ela sem pre deixava a porta do aloj am ento aberta para m im e, quando cheguei lá, a porta estava aberta tam bém . Então eu entrei para esperar.

— O que você viu quando entrou?

— A cozinha estava um a bagunça. Os bancos estavam caídos e a correspondência toda espalhada pelo chão.

— E a Jess? Ela estava lá?

— Não. Eu a cham ei e ela não respondeu.

— O que você fez?

Ele dá de om bros.

— Eu arrum ei as coisas.

Eu m e aj eito m elhor nas alm ofadas da poltrona.

— Você... arrum ou as coisas.

— Isso, exatam ente.

Só consigo pensar em todas as provas destruídas, sacrificadas às tendências obsessivo-com pulsivas de Jacob Hunt.

— Você sabe tudo sobre preservar provas em cenas de crim es — digo. — A troco de que iria destruí-las?

Em m a pula no m esm o instante.

— Meu filho está lhe fazendo um favor de lhe contar tudo isso, detetive. Nós não precisávamos ter ligado para lhe dar essas inform ações.

Contenho m eu aborrecim ento.

— Então, você arrum ou toda a bagunça que viu no andar de baixo?

— Isso — diz Jacob. — Levantei os bancos e arrum ei a correspondência sobre o balcão da cozinha. E coloquei em ordem alfabética todos os CDs que estavam derrubados.

— Ordem alfabética — repito, lem brando do telefonem a de Mark Maguire e de m inha teoria sobre um raptor com com plexo anal. — Você deve estar brincando.

— É assim no quarto dele — diz Em m a. — O Jacob adora que tudo estej a em seu devido lugar. Para ele, esse é o equivalente espacial de saber o que vem em seguida.

— E quando você pegou a m ochila?

— Depois de arrum ar.

A m ochila ainda estava com a etiqueta, com o Maguire tinha dito.

— Você se im portaria se eu a levasse, para usar no caso?

De repente, Jacob se ilum ina.

— Você precisa levá-la. Vai precisar fazer testes de DNA nas alças e pode fazer um AP na roupa que está aí dentro. Talvez valha a pena borrifar tudo com Lum inol, na verdade. E provavelm ente vai conseguir algum a im pressão digital no cartão aí dentro usando ninidrina, m as vai ter que com pará-las com as da m inha m ãe, porque ela pegou no cartão quando encontrou a m ochila. O que m e lem bra que você pode com eçar a dar um a olhada agora m esm o se quiser. Tenho luvas de látex lá em cim a, no m eu quarto. Você não tem alergia a látex, não é? — Ele j á está saindo da sala quando se vira para nós de novo. — Tem os um a sacola plástica em algum lugar por aqui, não tem os? Assim o detetive Matson pode levar os obj etos para o laboratório.

Ele corre para cim a e eu m e viro para Em m a.

— Ele é sem pre assim ?

— E m ais um pouco. — Ela m e olha. — Algum a coisa que o Jacob disse pode ser útil?

— É tudo m aterial para analisar — respondo.

— Tudo m uda se houver sinais de luta — ela com enta.

Levanto a sobrancelha.

— Você é um a investigadora disfarçada tam bém ?

— Não, apesar de todos os esforços do Jacob para m e ensinar. — Ela olha para fora da j anela por um m om ento. — Tenho pensado na m ãe da Jess — diz. — A últim a vez que ela falou com a filha, será que foi sobre algum a coisa boba qualquer? Será que brigaram porque ela nunca telefonava, ou porque ela havia esquecido de m andar um cartão de agradecim ento para a tia? — Ela olha para m im . — Eu costum ava dizer Eu te amo toda vez que colocava m eus m eninos na cam a para dorm ir à noite. Mas agora eles vão para a cam a depois de m im .

— Meu pai dizia que viver com arrependim entos é com o dirigir um carro que só anda em m archa à ré. — Sorrio de leve. — Ele teve um derram e alguns anos atrás. Antes disso, eu nem sem pre atendia seus telefonem as, porque não tinha tem po para ficar discutindo se os Sox iam conseguir passar para as finais. Mas depois eu com ecei a ligar para ele. Todas as vezes, term inava dizendo que o am ava. Nós dois sabíam os por quê; e não soava m uito bem depois de todo o tem po em que eu não havia dito isso. Era com o tentar baldear um oceano com um a colher de chá. Ele m orreu oito m eses atrás.

— Sinto m uito.

Rio, um pouco tenso.

— Nem sei por que estou lhe contando isso.

Nesse m om ento, Jacob reaparece, segurando um par de luvas de látex. Eu as pego e levanto a m ochila com cuidado, bem quando m eu celular toca.

— Matson — atendo.

É um dos tenentes do departam ento, perguntando quanto tem po eu vou dem orar.

— Tenho que correr. — Ergo o saco plástico nos braços.

Jacob baixa a cabeça.

— Estou interessado em saber os resultados dos testes, naturalm ente.

— Naturalm ente — respondo, em bora não tenha a m enor intenção de com partilhá-los. — Então, o que vai passar em CrimeBusters hoj e?

— Episódio sessenta e sete. Em que um a m ulher m utilada é encontrada em um carrinho de com pras do lado de fora de um a grande loj a.

— Eu m e lem bro desse. Fique de olho no...

— ... gerente da loj a — Jacob term ina. — Eu tam bém j á vi.

Ele m e acom panha até a porta, com a m ãe atrás.

— Obrigado, Jacob. E, Em m a? — Espero até ela m e olhar. — Você pode dizer quando os acordar de m anhã.

 

Quando chego à casa de Jess Ogilvy, os dois investigadores que exam inaram o lugar estão parados do lado de fora, no frio cortante, olhando para um rasgo na tela de um a j anela.

— Algum a digital? — pergunto, m inha respiração produzindo vapor no ar gelado.

Mas j á sei a resposta. Aliás, Jacob tam bém saberia. As chances de ter digitais preservadas em tem peraturas tão baixas assim são m uito rem otas.

— Não — responde a prim eira investigadora. Marcy é um m ulherão com um corpo sensacional, QI cento e cinquenta e cinco e um a nam orada que provavelm ente poderia arrancar m eus dentes com um soco. — Mas descobrim os que a j anela foi forçada para abrir a trava e encontram os um a chave de fenda no m eio das plantas.

— Bom . Então a questão é: isso foi um caso de arrom bam ento e roubo que não deu certo? Ou a tela foi cortada para nos fazer pensar assim ?

Basil, o segundo investigador, sacode a cabeça.

— Nada lá dentro indica arrom bam ento e roubo.

— Sim , só que isso não é necessariam ente verdade. Acabei de falar com um a testem unha que viu um a situação diferente e, hã... arrum ou as coisas.

Marcy olha para Basil.

— Então é um suspeito, não um a testem unha.

— Não. É um garoto autista. Um a longa história. — Olho para o corte na tela. — Que tipo de faca foi usado?

— Provavelm ente um a da cozinha. Pegam os um punhado delas para levar ao laboratório e verificar se algum a tem traços de m etal na lâm ina.

— Conseguiu algum a im pressão digital lá dentro?

— Sim , no banheiro e no com putador, m ais algum as parciais na cozinha.

Mas, nesse caso, as digitais de Mark Maguire não significarão m uita coisa; ele adm itiu que estava m orando aqui em tem po parcial com Jess.

— Tem os tam bém a im pressão parcial de um a bota — diz Basil. — A com pensação por estar um tem po horrível para digitais na j anela é que esse tem po é perfeito para im pressões de calçados.

Sob a saliência da calha, vej o a m ancha verm elha da cera em spray que ele usou para fazer um m olde. Teve sorte de ter encontrado um a borda protegida; de terça-feira para cá nevou outra vez. É um calcanhar e há um a estrela no centro, cercada pelo que parecem raios de um a bússola. Depois que Basil a fotografar, podem os introduzir a im agem em um banco de dados para verificar que tipo de bota é essa.

O som de um carro descendo a rua term ina com a batida de um a porta. Depois passos se aproxim am , fazendo ruído na neve.

— Se for a im prensa — digo a Marcy —, atire prim eiro.

Mas não é a im prensa. É Mark Maguire, com aparência de que não dorm iu desde a últim a vez que o vi.

— Já estava m ais do que na hora de com eçarem a procurar m inha nam orada — ele grita e, m esm o a algum a distância, o cheiro de álcool em sua respiração chega até m im .

— Sr. Maguire — digo, cam inhando lentam ente em direção a ele. — Por acaso sabe se esta tela sem pre esteve cortada?

Observo-o com atenção para ver sua reação. Mas a verdade é que posso reunir todas as provas que quiser contra Mark Maguire e, ainda assim , não terei nenhum a base para prendê-lo, a m enos que um corpo sej a encontrado.

Ele aperta os olhos fitando a j anela, m as o sol está de frente, além do reflexo brilhante da neve no chão. Então ele se aproxim a m ais um pouco e, aproveitando a chance, Basil dá a volta por trás e lança um j ato de cera em spray na im pressão que sua bota havia deixado.

Mesm o dessa distância, posso identificar a estrela e os raios de um com passo.

— Sr. Maguire — digo —, vam os ter que levar suas botas.