Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 9 de 121

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Um Mundo à Parte

Emma

 

Eu costum ava ter am igas. Antes de ter filhos, quando trabalhava em um a editora de livros escolares nas redondezas de Boston, eu saía com algum as colegas depois do expediente. A gente ia com er sushi, ou ver um film e. Quando conheci Henry — ele era consultor técnico de um livro sobre program ação de com putadores —, foram m inhas am igas que m e incentivaram a convidá-lo para sair, porque ele parecia tím ido dem ais para tom ar a iniciativa. Elas se encostavam na m inha m esa, rindo, perguntando se ele tinha um lado Super-Hom em por baixo de todo aquele Clark Kent. E, quando eu e Henry nos casam os, elas foram m inhas m adrinhas.

Então fiquei grávida e, de repente, as pessoas com quem eu podia m e identificar estavam m atriculadas em m eu curso de parto, treinando respiração e falando sobre as m elhores ofertas de fraldas. Depois que tivem os nossos bebês, três das outras m ães e eu form am os um grupo. Cada vez um a recebia as outras em casa. Os adultos ficavam no sofá e fofocavam enquanto os bebês rolavam pelo chão com um a coleção de brinquedos.

Nossos filhos cresceram e com eçaram a brincar uns com os outros, e não apenas uns ao lado dos outros. Isto é, todos eles, exceto Jacob. Os m eninos de m inhas am igas faziam seus carrinhos Matchbox correrem por todo o tapete, m as Jacob os alinhava com precisão m ilitar, para-choque contra para-choque. Enquanto as outras crianças coloriam fora das linhas, Jacob desenhava pequenos blocos ordenados, num perfeito espectro de arco-íris.

No com eço, não notei quando m inhas am igas se esqueciam de m encionar em que casa seria a próxim a reunião do grupo. Não li nas entrelinhas quando fui a anfitriã de um a reunião e duas das m ães se desculparam por não com parecer porque j á tinham outro com prom isso. Mas, naquela tarde, Jacob ficou irritado quando a filha de m inha am iga pegou o cam inhão, cuj as rodinhas ele estava girando. Ele bateu nela com tanta força que ela caiu de encontro à m esinha de centro.

— Não posso m ais fazer isso — m inha am iga disse, pegando no colo a m enina, que não parava de gritar. — Sinto m uito, Em m a.

— Mas foi um acidente! O Jacob não entende o que estava fazendo!

Ela m e encarou.

— E você, entende?

Depois disso, não tive m ais am igas. Quem tinha tem po para isso, com todos os especialistas que ocupavam cada m inuto da vida de Jacob? Eu passava o dia inteiro no tapete com ele, forçando-o a interagir, e à noite ficava acordada lendo os livros m ais recentes sobre pesquisas de autism o, com o se eu pudesse encontrar um a solução que nem os especialistas encontravam . Acabei conhecendo outras fam ílias na pré-escola de Theo, que eram acolhedoras no início, m as se distanciavam quando conheciam o irm ão m ais velho dele; quando nos convidavam para j antar, e eu só sabia falar de com o um crem e de glutationa transdérm ica havia aj udado algum as crianças autistas, que não conseguiam produzir quantidade suficiente dessa substância no organism o para se ligar às toxinas e rem ovê-las do corpo.

Isolam ento. Fixação em um só assunto. Incapacidade de se conectar socialm ente.

Jacob foi o diagnosticado, m as eu bem que poderia ter Asperger tam bém .

 

Quando desço às sete da m anhã, Jacob j á está sentado à m esa da cozinha, de banho tom ado e vestido. Um adolescente com um dorm iria até m eio-dia em um dom ingo — Theo vai dorm ir, com certeza —, m as Jacob, é claro, não é com um . Sua rotina de levantar para ir à escola passa por cim a do fato de que estam os no fim de sem ana e não há pressa para sair de casa. Mesm o quando é dia de nevasca e as aulas são canceladas, Jacob se veste em vez de voltar para a cam a.

Ele está exam inando atentam ente o j ornal de dom ingo.

— Desde quando você lê o j ornal? — pergunto.

— Que m ãe não quer que seu filho fique por dentro das notícias?

— É, m as essa não colou. Vam os ver se adivinho... você está cortando cupons de desconto para tubos de supercola? — Jacob usa esse m aterial com o água; faz parte do processo para obter im pressões digitais de obj etos, e é um a ocorrência com um nessa casa algo sum ir, com o as chaves do m eu carro, a escova de dentes do Theo, e depois reaparecer sob o aquário virado ao contrário que Jacob usa para fazer a vaporização na busca das digitais.

Meço na cafeteira autom ática um a quantidade de café suficiente para m e tornar hum ana e com eço a preparar o café da m anhã de Jacob. É um desafio: ele não com e glúten nem caseína, o que significa, basicam ente, que não pode com er trigo, aveia, centeio, cevada ou laticínios. Com o ainda não há cura para o Asperger, tratam os os sintom as e, por algum a razão, se eu regular sua dieta, seu com portam ento m elhora. Quando ele com e o que não deve, com o fez no Natal, o retrocesso é visível, com m ovim entos repetitivos e crises nervosas. Francam ente, com um a em cada cem crianças nos Estados Unidos sendo diagnosticada no espectro, aposto que eu poderia ter um program a de sucesso na Food Network: Autismo alimentar. Jacob não com partilha de m eu entusiasm o culinário. Ele diz que sou o resultado da m istura entre a especialista em dieta Jenny Craig e Josef Mengele.

Em cinco dias da sem ana, além de ter as lim itações dietéticas, Jacob com e por cores. Não lem bro bem com o isso com eçou, m as é um a rotina: todas as segundas-feiras, a com ida é verde, às terças, é verm elha, às quartas, é am arela, e assim por diante. Por algum a razão, isso aj udou seu senso de estrutura. Mas os fins de sem ana são livres, então, nesta m anhã, m inha m esa do café inclui m uffins de m andioca caseiros descongelados e cereais m atinais orgânicos com leite de soj a. Frito um pouco de bacon de peru orgânico e coloco na m esa pasta de am endoim e pão sem glúten. Tenho um a pasta de sete centím etros de espessura cheia de rótulos de produtos alim entícios e núm eros de contato com fabricantes que é m inha Bíblia culinária. Tam bém tenho suco de uva, porque Jacob o m istura com a glutationa encapsulada em lipossom as — um a colher de chá, m ais um quarto de colher de chá de vitam ina C em pó. Continua com gosto de enxofre, m as é m elhor do que a alternativa anterior, um crem e que ele esfregava nos pés e cobria com m eias, porque o cheiro era horrível. As desvantagens da glutationa, porém , em palidecem diante das vantagens: ela se liga às toxinas e as elim ina, o que Jacob não pode fazer por si só, e m elhora sua acuidade m ental.

A com ida é só parte do cardápio.

Pego os potinhos de silicone que usam os para os suplem entos de Jacob. Todos os dias, ele tom a um m ultivitam ínico, um a cápsula de taurina e um com prim ido de ôm ega-3. A taurina evita crises em ocionais; os ácidos graxos aj udam com a flexibilidade m ental. Ele levanta o j ornal na frente do rosto quando coloco na m esa os dois tratam entos que ele m ais odeia: o spray nasal de oxitocina e a inj eção de vitam ina B12 que ele m esm o se aplica, que aj udam a controlar a ansiedade.

— Nem tente fugir — digo, baixando a ponta do j ornal.

Seria de im aginar que a inj eção fosse a pior parte, m as ele levanta a cam isa e aperta a pele da barriga para inserir a agulha sem m uito alarde. No entanto, para um garoto com problem as sensoriais, usar um spray nasal é quase um afogam ento. Todos os dias vej o Jacob ficar olhando para aquele frasco e, por fim , convencer-se de que vai conseguir lidar com a sensação do líquido escorrendo pela garganta. E, todos os dias, isso m e corta o coração.

Nem preciso dizer que nenhum desses suplem entos, que custam centenas de dólares por m ês, é coberto pelo seguro m édico.

Ponho um prato de m uffins em sua frente enquanto ele vira outra página do j ornal.

— Escovou os dentes?

— Escovei — Jacob m urm ura.

Coloco a m ão sobre o j ornal, bloqueando a visão dele.

— Mesm o?

Nas poucas vezes em que Jacob m ente, é tão óbvio para m im que só preciso levantar a sobrancelha e ele cede. As únicas ocasiões em que j á o vi tentando sustentar um a m entira é quando lhe pedem para fazer algo que ele não quer fazer, com o tom ar seus suplem entos ou escovar os dentes, ou para evitar conflito. Nesses casos, ele diz o que acha que eu quero ouvir.

— Vou escovar depois de com er — ele prom ete, e sei que vai cum prir. — Isso! — exclam a ele de repente. — Está aqui!

— O quê?

Jacob se inclina para frente e lê em voz alta:

— A polícia de Townsend encontrou o corpo de Wade Deakins, de cinquenta e três anos, em um bosque na margem da Route 140. Deakins morreu de hipotermia. Não havia indícios de crime.

Ele faz um som de desdém e sacode a cabeça.

— Dá pra acreditar que isso ficou escondido na página A14?

— Dá — respondo. — É m acabro. Por que alguém ia querer ler sobre um hom em que m orreu congelado? — De repente, paro no m eio do ato de m exer m eu café com crem e. — Com o você sabia que essa notícia ia estar no j ornal esta m anhã?

Ele hesita, ciente de que foi pego em flagrante.

— Foi só um palpite.

Cruzo os braços e olho firm e para ele. Mesm o sem m e encarar, ele pode sentir o calor do m eu olhar.

— Está bem ! — confessa. — Eu ouvi sobre isso no scanner ontem à noite.

Reparo no j eito com o ele está balançando na cadeira e no rubor que continua subindo pelo seu rosto.

— E?

— Eu fui lá.

— O quê?

— Fui lá ontem à noite. Peguei m inha bicicleta e...

— Você foi de bicicleta naquele frio congelante até a Route 140...

— Quer ouvir a história ou não? — pergunta Jacob, e eu paro de interrom per. — A polícia encontrou um corpo na m ata, e o detetive achava que era um caso de violência sexual e hom icídio...

— Ah, m eu Deus.

— ... m as os indícios não sustentavam essa hipótese. — Ele sorri. — Eu resolvi o caso para eles.

Minha boca se abre de espanto.

— E eles acharam que tudo bem?

— Bom ... não. Mas eles precisavam de aj uda. Estavam indo totalm ente na direção errada, a j ulgar pelas feridas no corpo...

— Jacob, você não pode se introm eter na cena de um crim e! Você não é da polícia!

— Mas tenho um entendim ento m elhor de ciência forense do que a polícia daqui — ele argum enta. — Até deixei o detetive levar o crédito.

Tenho visões da polícia de Townsend aparecendo hoj e em m inha casa para m e repreender (na m elhor das hipóteses) e prender Jacob (na pior). Não é um delito perturbar um a investigação policial? Im agino as consequências, caso se torne de conhecim ento público que a Tia Em , a especialista em aconselham ento, não sabe nem onde o próprio filho anda durante a noite.

— Escute — digo. — Você não vai m ais fazer isso. Nunca m ais. De j eito nenhum . E se fosse um hom icídio, Jacob? E se o assassino tivesse vindo atrás de você?

Observo que ele está refletindo.

— Bom — ele responde, totalm ente literal. — Acho que eu ia ter que correr bem depressa.

— Considere isso um a nova regra da casa. Você não pode m ais sair escondido sem m e avisar prim eiro.

— Tecnicam ente, isso não seria sair escondido — ele observa.

— Jacob, então m e aj ude...

Ele sacode a cabeça.

— Não sair escondido para ir a um a cena de crim e. Entendido. — Em seguida ele olha diretam ente para m im , algo que acontece com tão pouca frequência que até perco um pouco o fôlego. — Mas, m ãe, sério, eu queria que você pudesse ter visto aquilo. As m arcas nos tornozelos do cara e...

— Jacob, esse cara teve um a m orte horrível e solitária e m erece um pouco de respeito.

Mas, m esm o enquanto falo, sei que ele não pode com preender. Dois anos atrás, no funeral de m eu pai, Jacob perguntou se o caixão poderia ser aberto antes do enterro. Achei que fosse para se despedir de um parente que ele am ava, m as, em vez disso, Jacob pôs a m ão na face fria e de pele m uito fina de m eu pai. Eu só queria saber como é tocar um morto, disse ele.

Pego o j ornal e o dobro.

— Você vai escrever um bilhete para o detetive pedindo desculpas por ter se introm etido...

— Eu não sei o nom e dele!

— Procure no Google — respondo. — Ah, e pode se considerar de castigo até eu avisar que está liberado.

— De castigo? Isso quer dizer que não posso sair de casa?

— Só para ir à escola.

Para m inha surpresa, Jacob dá de om bros.

— Acho que você vai ter que avisar a Jess, então.

Droga. Tinha m e esquecido de sua instrutora de habilidades sociais. Duas vezes por sem ana, Jacob se encontra com ela para praticar habilidades de interação social. Jess Ogilvy é um a aluna de pós-graduação na UVM que pretende dar aulas para crianças autistas e é incrível com Jacob. Ele a adora, na m esm a m edida em que odeia as coisas que ela lhe pede para fazer: olhar nos olhos de caixas de superm ercado, iniciar conversas com estranhos no ônibus, pedir inform ações a pessoas na rua. Hoj e, eles planej aram ir a um a pizzaria para Jacob praticar conversas inform ais.

Mas, para fazer isso, ele precisa de perm issão para sair de casa.

— Quer um m uffin? — ele pergunta inocentem ente, estendendo-m e o prato.

Odeio quando ele sabe que está certo.

 

Pergunte à m ãe de um a criança autista se vacinas tiveram algum a coisa a ver com a condição de seu filho e ela responderá veem entem ente que sim .

Pergunte a outra m ãe qualquer e ela responderá com igual veem ência que não.

Ainda não há um a sentença em relação a isso. Em bora vários pais tenham processado o governo, alegando que vacinações causaram o autism o de seus filhos, ainda não recebi m eu cheque pela ação j udicial coletiva, e não estou contando com ele.

Os fatos são estes:

 

1. Em 1988, os Centros de Controle de Doenças (CDCs) recom endaram um a m udança nos calendários de vacinação de bebês nos Estados Unidos, acrescentando três doses de vacina contra hepatite B (incluindo um a ao nascer) e três doses de vacina para hem ófilos B, todas aplicadas antes de o bebê com pletar seis m eses de idade.

2. As com panhias farm acêuticas atenderam ao aum ento da dem anda fornecendo frascos com doses m últiplas de vacinas e usando com o conservante o tim erosal, um antibacteriano constituído de quarenta e nove por cento de etilm ercúrio.

3. Em bora os efeitos do envenenam ento por m ercúrio tenham sido identificados na década de 1940, a Food and Drug Adm inistration e os CDCs não consideraram os efeitos da dosagem que os recém -nascidos iriam receber por causa dessas vacinas. As em presas farm acêuticas tam bém não em itiram nenhum sinal de alerta, em bora o novo calendário significasse que um a criança m édia de dois m eses de idade em um a consulta pediátrica de rotina receberia em um único dia um a dose de m ercúrio cem vezes m aior do que o nível de exposição segura de longo prazo definido pelo governo.

4. A sintom atologia do autism o tem forte sem elhança com a sintom atologia do envenenam ento por m ercúrio. Para dar um exem plo: quando os cientistas estudaram a m igração de m ercúrio no cérebro de prim atas, notaram que estes com eçaram a evitar contato visual. 5. Entre 1999 e 2002, o tim erosal foi silenciosam ente rem ovido da m aioria das vacinas infantis.

 

Há o argum ento do outro lado tam bém . De que o etilm ercúrio, o tipo contido nas vacinas, é elim inado do corpo m ais rapidam ente que o m etilm ercúrio, o tipo venenoso. De que, apesar de a m aioria das vacinas atualm ente não conterem m ais m ercúrio, o autism o continua em ascensão. De que os CDCs, a Organização Mundial de Saúde e o Instituto de Medicina concluíram cinco grandes estudos, nenhum dos quais encontrou um a ligação entre vacinas e autism o. Esses fatos são argum entos fortes, m as tudo que eu precisava para m e convencer de que há algum tipo de ligação se resum e nisto:

 

1. Meu filho se parecia com qualquer outra criança de dois anos até que tom ou um a rodada de vacinas que incluiu DTPa, Hib e hepatite B.

 

Não acho que exista um a ligação causal. Afinal, de cem crianças que seguem o m esm o calendário de vacinas, noventa e nove nunca se tornarão autistas. Mas, do m esm o m odo com o todos nós provavelm ente tem os m arcadores de câncer em nossos genes, se você fum ar dois m aços de cigarros por dia terá m ais probabilidade de desenvolver a doença do que se não fizer isso. Crianças com certa predisposição em seus genes não conseguem se livrar do m ercúrio tão facilm ente quanto a m aioria de nós e, com o resultado, acabam entrando no espectro.

Não sou daquelas m ães que m udam tão extrem am ente para o outro lado que passam a rej eitar com pletam ente a im unização. Quando Theo nasceu, ele tom ou as vacinas. Na m inha opinião, os benefícios da vacinação ainda superam os riscos.

Eu acredito nas vacinas, acredito m esm o. Apenas acho que elas não deveriam ser tom adas todas ao m esm o tem po.

 

Foi por causa de Jess Ogilvy que Jacob foi ao baile de form atura do ensino m édio.

Não era algo que eu tinha algum a expectativa de que ele fizesse, para ser sincera. Há m uitos m om entos que eu costum ava considerar “definidos” para um filho m eu que, depois do diagnóstico de Jacob, se transform aram apenas em “desej os”. Entrar na faculdade. Ter um em prego. Encontrar alguém que o am e. Im agino que Theo carregue o peso de todos os m eus sonhos. Tenho esperança de que Jacob conviva no m undo com m ais naturalidade, m as que seu irm ão deixe um a m arca no m undo.

É por isso que, quando Jacob anunciou no ano passado que pretendia ir ao Baile de Prim avera, eu fiquei surpresa.

— Com quem ? — perguntei.

— Bom — disse Jacob. — Jess e eu ainda não decidim os esse ponto.

Eu entendia por que Jess tinha feito a sugestão: as fotografias, as danças, as conversas à m esa — tudo isso eram habilidades que ele precisava conhecer. Eu concordava com ela, m as tam bém não queria que Jacob se m agoasse. E se ninguém aceitasse o convite dele?

Não pense que sou um a m ãe ruim ; sou apenas um a m ãe realista. Eu sabia que Jacob era bonito, divertido e tão inteligente que às vezes m e deixava com a cabeça girando. Mas era difícil para os outros vê-lo dessa m aneira. Para eles, Jacob só parecia esquisito.

Naquela noite, fui ao quarto de Jacob. O prazer tão pouco com um de vê-lo anim ado com a ideia de iniciar um a interação social se m isturava ao pensam ento de um a fila de garotas rindo dele.

— Então — eu disse, sentando-m e na beirada da cam a. Esperei que ele baixasse o que estava lendo: o Journal of Forensic Sciences. — Vai ao baile, hein?

— Sim — ele respondeu. — A Jess acha que é um a boa ideia.

— E você? Tam bém acha que é um a boa ideia?

Jacob deu de om bros.

— Acho que sim . Mas estou um pouco preocupado...

Eu aproveitei a oportunidade.

— Com o quê?

— O vestido da m inha acom panhante — Jacob disse. — Se for laranj a, acho que não consigo lidar.

Um sorriso curvou m inha boca.

— Confie em m im . Nenhum a m enina vai de laranj a a um baile. — E com ecei a enrolar um fio do cobertor dele entre os dedos. — Tem algum a m enina em especial que você estej a pensando em convidar?

— Não.

— Não?

— Assim eu não m e decepciono — disse ele, sim plesm ente.

Hesitei.

— Acho fantástico você estar tentando fazer isso. E, m esm o que não dê certo...

— Mãe — Jacob interrom peu —, é claro que vai dar certo. Há quatrocentas e duas m eninas na m inha escola. Pressupondo que um a delas m e ache rem otam ente atraente, a probabilidade de que um a delas diga sim está estatisticam ente a m eu favor.

Ele acabou tendo que convidar apenas oitenta e três. Um a finalm ente disse sim : Am anda Hillerstein, que tinha um irm ão m ais novo com síndrom e de Down e era gentil o suficiente para ver além do Asperger de Jacob, pelo m enos por um a noite.

O que se seguiu foram duas sem anas de um curso intensivo de etiqueta para bailes. Jess trabalhou com Jacob com o conversar durante o j antar. (Adequado: Você vai visitar alguma faculdade no verão? Inadequado: Sabia que tem um lugar no Tennessee chamado Body Farm onde a gente pode estudar como os corpos se decompõem?) Quanto a m im , trabalhei com ele todo o resto. Treinam os com o andar perto de um a m enina em vez de m anter um a distância de trinta centím etros. Treinam os com o olhar para a câm era quando alguém tira um a fotografia. Treinam os com o perguntar à sua com panhia se ela quer dançar, em bora Jacob tenha vetado m úsicas lentas (“Eu tenho m esm o que tocar nela?”).

No dia anterior ao baile, m il dificuldades passaram pela m inha cabeça. Jacob nunca tinha vestido um sm oking; e se a gravata-borboleta o incom odasse e ele se recusasse a usá-la? Ele odiava j ogar boliche porque não gostava da ideia de colocar seus pés em sapatos que haviam aloj ado os pés de outra pessoa m om entos antes. E se ele tivesse um a crise com relação a seus sapatos de verniz alugados, por essa m esm a razão? E se o com itê de decoração do baile tivesse desistido do tem a m arinho que estava planej ado e o m udasse para um a festa disco, com luzes piscando e bolas de cristal espelhadas que estim ulariam excessivam ente os sentidos de Jacob? E se Am anda usasse o cabelo solto e Jacob desse um a olhada nela e corresse de volta para o quarto?

Am anda, bendita sej a, se ofereceu para dirigir, um a vez que Jacob não podia. Ela chegou com seu Jeep Cherokee às sete em ponto. Jacob estava à espera dela com um bracelete de flores que pegara na florista aquela tarde. Ficara de pé j unto à j anela, esperando, desde as seis horas.

Jess tinha trazido um a câm era de vídeo para registrar o evento para a posteridade. Todos nós seguram os a respiração quando Am anda saiu do carro em um vestido longo cor de pêssego.

— Você disse que ela não ia usar laranj a — Jacob sussurrou.

— É pêssego — corrigi.

— É da família do laranj a — ele disse, e foi só o que teve tem po de fazer antes de ela bater. Jacob abriu a porta. — Você está linda — ele anunciou, com o havíam os ensaiado.

Quando tirei a foto deles no gram ado da frente, Jacob até olhou para a câm era. Essa é, até hoj e, a única foto que tenho dele fazendo isso. Adm ito que chorei um pouco quando o vi oferecer o braço dobrado para acom panhar sua dam a até o carro. Eu poderia desej ar um resultado m elhor? Jacob poderia fazer um trabalho m ais perfeito de lem brar todas as lições que havíam os treinado tão diligentem ente?

Jacob abriu a porta para Am anda e, então, deu a volta para o lado do passageiro.

Ah, não, pensei.

— Esquecem os totalm ente disso — disse Jess.

E não deu outra. Enquanto Jess e eu observávam os, Jacob se acom odou em sua posição habitual no carro, no banco de trás.