Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 94 de 121

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Um Mundo à Parte

Jacob

 

 

Se eu não m e tornar um investigador de cenas de crim e fam oso em m inha área, com o o dr. Henry Lee, vou ser m édico-legista. No fundo é o m esm o trabalho, exceto pelo fato de que o cenário é m enor. Em vez de exam inar um a casa inteira ou um a área de bosque para determ inar a história do crim e, tira-se a história da pessoa m orta na m esa de autópsia.

Há m uitas coisas que fazem corpos m ortos serem preferíveis aos vivos:

 

1. Eles não têm expressões faciais, então não é preciso se preocupar para não confundir um sorriso com um a careta ou toda essa com plicação. 2. Eles não ficam entediados se você estiver m onopolizando a conversa. 3. Eles não se im portam se você ficar perto dem ais ou longe dem ais. 4. Eles não falam de você quando você sai da sala, nem com entam com os am igos com o você é chato.

 

É possível dizer, pelo exam e de um corpo, a sequência de eventos ocorrida: se o ferim ento de tiro no abdôm en causou a peritonite e a septicem ia; se essas com plicações foram a causa da m orte, ou se foi a síndrom e de insuficiência respiratória resultante disso que representou o golpe final. É possível dizer se a pessoa m orreu em um cam po ou se foi deixada no porta-m alas de um carro. Pode-se saber se foi baleada na cabeça antes de atearem fogo ao corpo ou vice-versa. (Quando o crânio é rem ovido, dá para ver o sangue que com eçou a escoar com o resultado do cozim ento do cérebro, um a lesão térm ica. Se não aparecer isso, geralm ente é porque foi a execução que causou a m orte, e não o fogo. Adm ita: você queria saber.)

Por todas essas razões, fico m uito atento quando o dr. Way ne Nussbaum sobe ao banco das testem unhas para depor. Eu o conheço; j á o vi antes em cenas de crim e. Um a vez, escrevi um a carta para ele e consegui seu autógrafo.

Ele apresenta suas credenciais: Faculdade de Medicina na Universidade de Yale, seguida por residências em patologia e m edicina de em ergência antes de se tornar legista-assistente do estado de Nova York e, por fim , vinte anos com o legista-chefe em Verm ont.

— O senhor fez a autópsia em Jess Ogilvy ? — perguntou Helen Sharp.

— Sim , eu fiz. Na tarde de 18 de j aneiro. O corpo foi trazido à m inha sala de m anhã, m as teve que descongelar prim eiro.

— Qual era a tem peratura externa quando a vítim a foi encontrada?

— Dez graus negativos, o que possibilitou um a preservação excelente.

— Com o ela estava vestida?

— Calça de m oletom , cam iseta e um casaco leve. Estava de sutiã, m as a calcinha estava vestida ao contrário. Havia um dente em brulhado em papel higiênico no bolso da frente da calça, e o celular estava no bolso do casaco.

Geralm ente, em CrimeBusters, quando um legista é cham ado para depor, é um testem unho de cinco m inutos, no m áxim o. Mas Helen Sharp faz o dr. Nussbaum repetir seus achados três vezes: prim eiro oralm ente; depois apresentando o diagram a de um corpo, onde ele desenha os achados com um a caneta m arca-texto verm elha; e, por fim , com fotografias que ele tirou durante a autópsia. Estou adorando cada m inuto. Não posso dizer o m esm o daquela senhora no j úri, que parece prestes a vom itar.

— O senhor disse, doutor, que colheu am ostras da urina, do sangue cardíaco e do hum or vítreo dos olhos de Jess Ogilvy para fins de exam e toxicológico?

— Exato.

— Qual é a finalidade desse exam e?

— Ele nos perm ite saber quais substâncias estranhas estavam na corrente sanguínea da vítim a. No caso do sangue cardíaco e do hum or vítreo, o exam e detecta isso na hora da m orte.

— Quais foram os resultados?

— Jessica Ogilvy não tinha nenhum a droga ou álcool no corpo quando m orreu.

— O senhor tirou fotos do corpo durante a autópsia?

— Sim — diz ele. — É o procedim ento de rotina.

— O senhor observou algum a m arca ou contusão não usual no corpo?

— Sim . A vítim a tinha hem atom as no pescoço com patíveis com estrangulam ento e hem atom as nos braços com patíveis com ter sido agarrada com força. Os hem atom as eram roxo-averm elhados e com bordas nítidas, o que sugeria que ocorreram até vinte e quatro horas antes da m orte. Além disso, a pele na parte inferior das costas sofreu abrasões post-mortem, provavelm ente com o resultado de ter sido arrastada. É possível ver a diferença na fotografia, aqui, entre os dois tipos de lesões. A lesão post-mortem é am arelada e endurecida. — Ele apontou para outra fotografia, agora do rosto de Jess. — A vítim a sofreu um a agressão violenta. Apresentava fratura na base do crânio, equim ose em torno dos olhos e o nariz quebrado. E estava faltando um dente frontal.

— Foi possível identificar se essas lesões ocorreram antes ou depois da m orte?

— O fato de terem se form ado hem atom as indica que a lesão foi anterior à m orte. O dente, bem , isso não é possível dizer com certeza, m as parecia ser m esm o o que foi encontrado em seu bolso.

— É possível socar alguém no rosto com tanta força a ponto de fazê-la perder um dente?

— Sim , é possível — diz o dr. Nussbaum .

— Alguém que tivesse recebido um soco forte no rosto apresentaria o m esm o tipo de lesões que o senhor encontrou no corpo da vítim a?

— Sim .

— Doutor, depois de ter term inado a autópsia e estudado os resultados do laboratório toxicológico, o senhor form ou um a opinião, dentro de um grau razoável de certeza m édica, sobre com o ocorreu a m orte?

— Sim , eu a classifiquei com o hom icídio.

— Qual foi a causa da m orte de Jess Ogilvy ?

— Traum atism o contundente na cabeça, que levou a hem atom a subdural, ou hem orragia intracraniana, com patível com agressão ou queda.

— Quanto tem po é preciso para m orrer de um hem atom a subdural?

— A m orte pode ser im ediata, ou pode levar horas. No caso da vítim a, foi relativam ente logo depois da lesão.

— Os hem atom as encontrados no pescoço e nos braços de Jess Ogilvy contribuíram para sua m orte?

— Não.

— E quanto ao dente que foi arrancado?

— Não.

— E não havia drogas ou álcool em seu corpo?

— Não, não havia.

— Então, dr. Nussbaum — diz Helen Sharp —, a única lesão fatal encontrada pelo senhor em Jess Ogilvy durante a autópsia foi um a fratura na base do crânio que causou hem orragia intracraniana?

— Correto.

— A testem unha é sua — a prom otora diz, e Oliver se levanta.

— Todas essas lesões encontradas no corpo de Jess Ogilvy — diz ele —, o senhor tem algum a ideia de quem as causou?

— Não.

— E o senhor disse que um hem atom a subdural poderia ser causado por um a agressão ou por um a queda.

— Correto.

— Não é possível, doutor — pergunta Oliver —, que Jess Ogilvy tenha tropeçado, caído e sofrido um hem atom a subdural?

O legista levanta os olhos e sorri um pouco.

É um desses sorrisos que eu odeio, o tipo que poderia significar Você é tão esperto, m as tam bém poderia querer dizer Você é um idiota.

— É possível que Jess Ogilvy tenha tropeçado, caído e sofrido um hem atom a subdural — o dr. Nussbaum responde. — Mas eu duvido m uito que ela tenha tentado estrangular a si m esm a, ou arrancado o próprio dente, ou vestido a roupa de baixo ao contrário, ou se arrastado por trezentos m etros e se enrolado em um a colcha em um a galeria pluvial.

Eu rio alto. É um a fala tão boa que poderia ter sido escrita para CrimeBusters. Minha m ãe e Oliver olham para m im , e essa expressão é fácil de interpretar. Am bos estão cem por cento furiosos.

— Talvez agora sej a um bom m om ento para um descanso em ocional? — indaga o j uiz.

— Sensorial! — Oliver corrige. — É descanso sensorial!

O j uiz Cuttings pigarreia.

— Vou considerar isso com o um sim .

 

Na sala de descanso sensorial, deito em baixo do cobertor com pesos. Minha m ãe está no banheiro e Theo apoiou a cabeça na alm ofada vibratória. Ele fala entre os dentes e soa com o um robô.

— Faça cócegas, Elm o — diz ele.

— Jacob — fala Oliver, depois de um m inuto e trinta e três segundos de silêncio —, seu com portam ento no tribunal está m e deixando m uito zangado.

— Bom , o seu com portam ento no tribunal está me deixando m uito zangado — respondo. — Você ainda não falou a verdade para eles.

— Você sabe que ainda não é a m inha vez. Já viu j ulgam entos na televisão. A prom otoria vai prim eiro, depois nós entram os para desfazer os danos que Helen Sharp causou. Mas, Jacob, pelo am or de Deus. Toda vez que você tem um a crise, ou ri de algo que um a testem unha diz, isso aum enta os danos. — Ele olha para m im . — Im agine que você sej a um j urado e tenha um a filha m ais ou m enos da idade da Jess, e então o réu ri alto quando o m édico-legista fala sobre a m aneira terrível com o ela m orreu. O que você acha que esse j urado vai pensar?

— Eu não sou um j urado — digo —, então realm ente não sei.

— O que o legista falou no fim foi mesmo bem legal — acrescenta Theo.

Oliver franze a testa para ele.

— Eu pedi sua opinião?

— E o Jacob pediu a sua? — Theo retruca e m e j oga a alm ofada. — Não ouça o que ele diz — ele m e fala antes de sair da sala de repouso sensorial.

Oliver olha fixam ente para m im .

— Você sente falta da Jess?

— Claro. Ela era m inha am iga.

— Então por que não dem onstra isso?

— Para quê? — pergunto e m e sento. — Se eu sei que sinto, é o que basta. Você nunca olhou para alguém que fica histérico em público e se perguntou se é porque a pessoa está realm ente sofrendo ou porque quer que os outros saibam que ela está sofrendo? A em oção m eio que se dilui se você a exibe para o m undo inteiro. Fica m enos pura.

— Bom , m as isso não é com o a m aioria das pessoas pensa. A m aioria das pessoas, diante dos registros fotográficos da autópsia de alguém que elas am avam , fica perturbada. Talvez até chore.

— Chorar? Está brincando? — E im ito um a frase que ouvi garotos dizerem na escola. — Eu seria capaz de matar para estar naquela autópsia.

Oliver desvia os olhos. Tenho certeza de que não o ouvi bem .

E você fez isso?