Um Mundo à Parte
Rich
Não sei por que m e engano achando que vou conseguir fazer algum a coisa nos fins de sem ana. Tenho as m elhores intenções, m as sem pre aparece algo para atrapalhar. Hoj e, por exem plo, estava decidido a construir um a pista de gelo no quintal dos fundos para Sasha, m inha filha de sete anos. Ela m ora com m inha ex, Hannah, m as veio ficar com igo de sexta à noite até dom ingo e, no m om ento, tem planos de entrar para a equipe am ericana de patinação artística (se não resolver ser um a veterinária cantora). Achei que ela ia se divertir m e aj udando a encharcar a lona que estendi nos fundos, com um a borda de m adeira que m artelei a sem ana inteira, depois do trabalho, para fixá-la no chão e deixar tudo pronto. Prom eti a ela que, quando acordasse no dom ingo de m anhã, j á poderia patinar.
Mas não tinha contado com o fato de que estaria tão terrivelm ente frio lá fora. Sasha com eçou a choram ingar assim que o vento aum entou, então cancelei os planos e a levei para j antar em Burlington — ela é fã de um lugar lá, em que se pode desenhar nas toalhas de m esa. Ela adorm ece no carro no cam inho de volta para casa, enquanto ainda estou cantando as m úsicas de seu CD da Hannah Montana, e, quando chegam os, eu a carrego até o quarto dela, que é um paraíso cor-de-rosa em um a casa de solteiro. Durante a divisão dos bens, eu fiquei com a casa, m as Hannah ficou com quase tudo de dentro dela. É estranho pegar Sasha em sua outra casa e ver seu novo padrasto estendido em m eu velho sofá.
Ela se m exe um pouco enquanto troco suas roupas por um a cam isola, m as depois suspira e se enrola de lado sob as cobertas. Por um m inuto, só fico olhando para ela. Na m aior parte do tem po, ser o único detetive em um a cidadezinha de interior é um a batalha perdida. Ganho pouco; investigo casos que são tediosos dem ais até para entrar na seção policial do j ornal local. Mas estou m e esforçando para que o m undo de Sasha, ou pelo m enos esse pequeno cantinho de seu m undo, sej a um pouco m ais seguro.
É isso que m e faz ir em frente.
Bem ... isso e m eu bônus de aposentadoria aos vinte anos de serviço.
No andar de baixo, pego um a lanterna e vou para a pista de patinação abortada. Ligo a m angueira. Se ficar acordado por m ais algum as horas, talvez consiga pôr água suficiente na lona para congelar durante a noite.
Não gosto de quebrar prom essas; deixo isso para m inha ex.
Não sou um suj eito am argo, não m esm o. Mas, em m inha profissão, é m uito m ais fácil ver as ações com o certas ou erradas, sem nuances de explicação entre esses extrem os. Eu realm ente não precisava saber com o Hannah se deu conta de que sua alm a gêm ea não era o cara com quem ela se casara, m as aquele que consertava as m áquinas de café na sala dos professores. “Ele com eçou a trazer avelãs para m im ”, disse ela, e, de algum a form a, eu deveria ser capaz de entender que isso significava Eu não te amo mais.
De volta à cozinha, abro a geladeira e pego um a garrafa de cervej a Sam Adam s. Deito no sofá, ligo a TV em um j ogo de hóquei do Bruins no canal NESN e pego o j ornal. Enquanto a m aioria dos hom ens vai para a página de econom ia ou de esportes, eu sem pre procuro a seção de lazer, por causa da coluna de trás. Sou viciado em um a conselheira sentim ental, daquelas que respondem a cartas com pedidos de conselhos. Ela usa o nom e de Tia Em , e é m eu prazer secreto.
Eu me apaixonei por meu melhor amigo e sei que nunca vou poder ficar com ele... Como faço para esquecê-lo?
Meu companheiro simplesmente foi embora e me deixou com um bebê de quatro meses. Socorro!
É possível estar deprimida com apenas catorze anos?
Há duas coisas que m e agradam nessa coluna: que as cartas são um lem brete constante de que m inha vida não é tão ruim quanto a de algum a outra pessoa e que existe pelo m enos um a pessoa neste planeta que parece ter todas as respostas. Tia Em está eternam ente aparecendo com as soluções m ais práticas, com o se a chave para os grandes enigm as da existência envolvesse extrair cirurgicam ente o com ponente em ocional e olhar apenas para os fatos.
Ela deve ter uns oitenta anos e viver com um bando de gatos, m as às vezes penso que ela daria um a ótim a policial.
A últim a carta m e pega de surpresa.
Sou casada com um homem excelente, mas não consigo parar de pensar no meu ex e de me perguntar se cometi um erro. Devo contar a ele?
Arregalo os olhos e os levo depressa para a assinatura. A autora da carta não m ora em Strafford, com o Hannah, m as em Stowe. Menos, Rich, digo silenciosam ente a m im m esm o.
Pego a garrafa de cervej a e, quando estou prestes a tom ar aquele prim eiro e indescritível gole, m eu celular toca.
— Matson — atendo.
— Capitão? Desculpe incom odá-lo em sua noite de folga...
É Joey Urqhart, um policial iniciante. Tenho certeza de que é m inha im aginação, m as os novos policiais são m ais novos a cada ano; esse provavelm ente ainda usa fraldas de treinam ento para dorm ir. Sem dúvida está m e ligando para perguntar onde guardam os os lenços de papel no posto policial ou algum a outra coisa igualm ente idiota. Os novos rapazes sabem que é m elhor não am olar o chefe, e eu sou o segundo na linha de com ando.
— ... m as é que recebem os um inform e sobre um corpo e achei que o senhor gostaria de saber.
Fico alerta im ediatam ente. Acho m elhor não fazer perguntas, com o se há sinais de violência ou se estam os falando de suicídio. Vou descobrir isso por m im m esm o.
— Onde?
Ele m e dá o endereço de um a rodovia estadual, perto de um a área de preservação. É um lugar m uito frequentado por praticantes de esqui cross-country e de cam inhadas com sapatos de neve nessa época do ano.
— Estou a cam inho — digo, e desligo.
Dou um a últim a e longa olhada para a garrafa de cervej a que não bebi e a despej o na pia. Depois pego o casaco de Sasha pendurado no hall de entrada e procuro suas botas na sapateira. Não estão lá; tam bém não estão no chão de seu quarto. Sento-m e na beirada da cam a e a balanço gentilm ente para acordá-la.
— Ei, querida — sussurro. — O papai tem que ir trabalhar.
Ela pisca para m im .
— Está no m eio da noite.
Tecnicam ente, são só nove e m eia da noite, m as o tem po é relativo quando se tem sete anos.
— Eu sei. Vou levar você para a casa da sra. Whitbury.
A sra. Whitbury provavelm ente tem um prim eiro nom e, m as eu nunca o usei. Ela m ora do outro lado da rua e é viúva de um cara que esteve nesse serviço por trinta e cinco anos, por isso com preende que em ergências acontecem . Ela servia de babá para Sasha quando eu e Hannah estávam os j untos e, atualm ente, quando Sasha está com igo e eu recebo um a ligação inesperada.
— A sra. Whitbury tem cheiro de pé.
Ela tem m esm o.
— Venha, Sasha. Eu preciso ir.
Ela se senta, bocej ando, enquanto eu a visto com o casaco e o gorro.
— Onde estão suas botas?
— Não sei.
— Não estão lá em baixo. É m elhor você encontrar, porque eu não consegui.
Ela sorri.
— E você é detetive?
— Obrigado pelo voto de confiança. — Eu a levanto nos braços. — Fique de chinelo m esm o. Eu a carrego até o carro.
Eu a prendo com o cinto de segurança, ainda que só tenham os vinte m etros a percorrer, e então as vej o — as botas, sobre o tapete de borracha no banco de trás. Ela deve tê-las tirado no cam inho de Hanover para casa e eu nem notei, j á que a carreguei no colo.
Se ao m enos todos os m istérios fossem assim tão fáceis de resolver...
A sra. Whitbury abre a porta com o se estivesse nos esperando.
— Sinto m uitíssim o por incom odá-la — com eço, m as ela m e interrom pe com um gesto.
— Não tem problem a — diz. — Eu estava m esm o querendo com panhia. Sasha, não lem bro bem , você é fã de sorvete de chocolate ou de m assa de cookies?
Coloco Sasha no chão, no hall de entrada.
— Obrigado — m urm uro para a sra. Whitbury e m e viro para ir em bora, j á m apeando m entalm ente a rota m ais rápida até o local do crim e.
— Papai!
Eu m e volto e vej o Sasha de braços estendidos.
Por um longo tem po depois do divórcio, Sasha não suportava que ninguém a deixasse. Inventam os um ritual que, de algum m odo, acabou virando um gesto para dar boa sorte.
— Beij o, abraço, toca aqui — digo, abaixando e fazendo os m ovim entos correspondentes às palavras. E term inam os j untando os polegares. — Saquinho de am endoim .
Sasha apoia a testa na m inha.
— Está tudo bem — dizem os j untos.
Ela acena para m im , e a sra. Whitbury fecha a porta.
Ponho o lum inoso m agnético no alto do carro e dirij o trinta quilôm etros acim a do lim ite de velocidade antes de m e dar conta de que o m orto não vai ficar m ais m orto se eu chegar cinco m inutos m ais tarde, e de que há gelo escuro sobre toda a pista.
O que m e faz lem brar que não desliguei a m angueira e que, quando chegar em casa, a pista de patinação de Sasha pode bem ter se espalhado por todo o gram ado dos fundos.
Cara Tia Em, penso.
Tive que fazer uma segunda hipoteca de minha casa para pagar a conta de água. O que devo fazer?
Atrapalhado em Townsend
Caro Atrapalhado,
Beba menos.
Ainda estou sorrindo quando paro no local em que um a fita am arela da polícia está m arcando o lugar do crim e. Urqhart vem ao m eu encontro enquanto exam ino o carro abandonado, um Pontiac. Lim po um pouco a neve da j anela, olho para dentro do veículo com um a lanterna e vej o um banco traseiro cheio de garrafas vazias de gim .
— Capitão. Desculpe por tê-lo cham ado — diz ele.
— O que têm aqui?
— Um rapaz saiu para correr e encontrou um corpo no m ato. O cara está sem inu e cheio de sangue.
Eu o sigo por um a trilha m arcada.
— Que m aluco sai para correr à noite, em pleno inverno?
A vítim a está sem inua e congelada. As calças estão abaixadas em volta dos tornozelos. Faço um a apuração rápida com os outros policiais para saber que pistas eles encontraram — m ínim as, por sinal. Exceto por todo o sangue nas extrem idades do hom em , não há m arcas de luta. Há pegadas que com binam com o tênis em um só pé da vítim a e outras pegadas que, aparentem ente, foram feitas pelo rapaz que encontrou o corpo (e cuj o álibi j á o elim inou com o suspeito), m as o crim inoso ou elim inou suas próprias pegadas ou chegou até ali voando. Eu m e abaixo para exam inar as abrasões estriadas na parte inferior da palm a esquerda da vítim a quando o chefe chega.
— Meu Deus — diz ele. — Suicídio ou hom icídio?
Não tenho certeza. Se foi hom icídio, onde estão os sinais de luta? Ou os ferim entos de defesa nas m ãos? É quase com o se a pele tivesse sido raspada até ficar em carne viva em vez de arranhada, e não há traum atism os nos braços. Se foi suicídio, por que o cara está de cueca e com o ele se m atou? O sangue está nos nós dos dedos e nos j oelhos, não nos pulsos. A verdade é que não vem os isso com frequência em Townsend, Verm ont, para chegar a um a conclusão rápida.
— Não sei ainda — confesso. — Mas parece que foi violentado.
De repente, um adolescente sai do m eio dos arbustos.
— Na verdade, os dois estão errados — diz ele.
— Quem é você? — o chefe pergunta, e dois dos policiais avançam e param um de cada lado do garoto.
— Ah, não, você outra vez — diz Urqhart. — Ele apareceu em um assalto cerca de um m ês atrás. É um a espécie de fã de cenas de crim e. Se m anda, garoto. Aqui não é o seu lugar.
— Espere — digo, lem brando vagam ente do adolescente no local daquele assalto. Nesse exato m om ento, estou j ogando com a possibilidade de que aquele garoto talvez sej a o crim inoso e não quero que ele desapareça.
— É m uito sim ples — o rapaz continua, olhando para o corpo. — No episódio vinte e seis da segunda tem porada, toda a equipe de CrimeBusters foi enviada ao m onte Washington para investigar um suj eito que foi encontrado pelado lá no alto. Ninguém podia im aginar o que um cara pelado estava fazendo no topo de um a m ontanha, m as acabaram descobrindo que tinha sido hipoterm ia. A m esm a coisa aconteceu com este hom em . Ele ficou desorientado e caiu. Com o sua tem peratura corporal central aum entou, ele tirou as roupas, porque sentiu calor... m as na verdade foi isso que fez com que ele congelasse até a m orte. — Ele sorri. — Não acredito que vocês não sabiam disso.
O chefe aperta os olhos.
— Com o é seu nom e?
— Jacob.
Urqhart franze a testa.
— Pessoas que congelam até a m orte não costum am sangrar por todo o corpo...
— Urqhart! — o chefe o repreende.
— Ele não sangrou por todo o corpo — diz Jacob. — Respingos de sangue apareceriam na neve, m as só há m anchas por contato. Olhem para as feridas. São abrasões nos nós dos dedos, nos j oelhos e na parte inferior das m ãos. Ele caiu e raspou no chão. O sangue na neve foi porque ele se arrastou antes de perder a consciência.
Olhei para Jacob com atenção. Um a falha im portante em sua teoria, claro, é que não se com eça a sangrar espontaneam ente apenas por se arrastar pela neve. Se fosse assim , haveria centenas de crianças se esvaindo em sangue nas férias durante os invernos em Verm ont.
Há algum a coisa um pouquinho... estranha nele. Sua voz é m onotônica e alta dem ais; ele não faz contato visual. Está balançando na ponta dos pés e acho que nem percebe.
No lugar onde ele estava pulando, a neve derreteu, revelando um a pequena m oita de espinhos. Afasto a neve no chão com m inhas botas e sacudo a cabeça. Aquele pobre coitado bêbado teve o azar de cair sobre um espinheiro.
Antes que eu possa dizer qualquer coisa, o m édico-legista chega. Way ne Nussbaum frequentou um a escola de palhaços antes de estudar m edicina, em bora eu nunca tenha visto esse cara dar nem um sorriso durante m eus quinze anos de serviço.
— Saudações a todos — diz ele, entrando na clareira de luz artificial. — Parece que tem os um caso de assassinato aqui?
— Você acha que pode ser hipoterm ia? — pergunto.
Ele reflete, virando cuidadosam ente a vítim a e exam inando a parte de trás da cabeça.
— Nunca vi isso pessoalm ente... m as li a respeito. Certam ente se encaixa nessas características. — Way ne ergue os olhos para m im . — Bom trabalho, m as não precisava m e tirar do j ogo dos Bruins fora do horário de expediente por causa de um a m orte por causas naturais.
Olho para o lugar onde Jacob estava m om entos atrás, m as ele sum iu.