Um Mundo à Parte
Emma
Pedir aj uda não é fácil para m im , então, pode acreditar, se cheguei a esse ponto, é porque j á esgotei todas as outras opções. E é por isso que não m e agrada ficar ainda m ais em dívida com Oliver Bond, pedindo-lhe para fazer com panhia a Jacob enquanto saio de casa para esse com prom isso. Pior ainda foi m arcar esse com prom isso, que parece a m anifestação física da aceitação da derrota.
O banco está tranquilo em um a quarta-feira. Há alguns aposentados preenchendo m eticulosam ente fichas de depósito e um dos caixas está conversando com outro sobre por que Cabo é um destino de férias m elhor do que Cancún. Fico parada no m eio do saguão, olhando para a propaganda de depósitos a prazo fixo e para um a pequena m esa cheia de obj etos com logotipo — um a m anta, um a caneca, um guarda-chuva —, que podem ser m eus se eu abrir um a nova conta-corrente.
— Posso aj udar? — pergunta um a m ulher.
— Eu tenho um a reunião com Abigail LeGris — digo.
— Sente-se, por favor — diz ela, apontando para um conj unto de cadeiras do lado de fora de um com partim ento. — Vou avisar que a senhora está aqui.
Nunca fui rica, e nunca precisei ser. De algum a form a, os m eninos e eu sem pre nos viram os com a renda de m eus textos e trabalhos de revisão e com os cheques que Henry envia religiosam ente todos os m eses. Não precisam os de m uito. Moram os em um a casa m odesta; não saím os ou tiram os férias com frequência. Faço com pras em um a loj a de departam entos e em um brechó que virou m oda entre os adolescentes recentem ente. A m aior parte de m inhas despesas envolve Jacob, seus suplem entos e suas terapias, que não são cobertos pelo seguro de saúde. Acho que m e acostum ei tanto a fazer essas acom odações financeiras que parei de vê-las com o acom odações e elas passaram a ser a norm a. Mas, dito isso, às vezes fico acordada à noite e im agino o que aconteceria se, Deus m e livre, acontecesse um acidente de carro e tivéssem os despesas m édicas estratosféricas. Se surgisse algum a nova terapia notável para Jacob que exigisse um investim ento que nós não pudéssem os fazer.
Em m inha lista de contingências, nunca pensei em incluir honorários de advogado para quando m eu filho fosse acusado de hom icídio.
Um a m ulher de cabelos tingidos m uito pretos e um tailleur que a veste, em vez do contrário, sai do com partim ento. Tem um nariz m uito pequeno e não aparenta m uito m ais de vinte anos. Talvez sej a isso o que acontece com as m eninas do snowboard que ficam com artrite nos j oelhos, com as garotas góticas cuj o delineador agrava a síndrom e dos olhos secos: elas são forçadas a crescer, com o o resto de nós.
— Sou Abby LeGris — diz ela.
Quando aperta m inha m ão, a cam isa de colarinho abre um pouco e posso ver a ponta de um a tatuagem celta em seu pescoço.
Ela m e conduz a sua baia e faz um gesto para que eu m e sente.
— Em que posso aj udar?
— Eu queria falar sobre um a segunda hipoteca. Estou, hã... precisando de algum dinheiro extra. — Enquanto digo essas palavras, im agino se ela vai m e perguntar em que vou usar o dinheiro; se é ilegal m entir a um banco sobre esse tipo de coisa.
— Então, basicam ente, a senhora está procurando um a linha de crédito — diz Abigail. — Assim só terá de nos pagar a quantia que usar.
Bem , parece razoável.
— Há quanto tem po a senhora m ora nessa casa? — indaga ela.
— Dezenove anos.
— Sabe quanto ainda está devendo da hipoteca atual?
— Não exatam ente — digo. — Mas fizem os o em préstim o aqui.
— Vou consultar — diz Abigail, e m e pede para soletrar m eu nom e para m e localizar pelo com putador. — Sua casa vale trezentos m il dólares, e a prim eira hipoteca foi de duzentos e vinte m il dólares. Confere?
Não m e lem bro. Tudo o que posso ver é a noite em que Henry e eu dançam os pela casa que agora era nossa, nossos pés nus ecoando no chão de m adeira.
— Funciona assim : os bancos em prestam um a parte do valor da casa, por volta de oitenta por cento. O que dá, portanto, duzentos e quarenta m il dólares. Então subtraím os a quantia do prim eiro em préstim o e... — Ela levanta os olhos da calculadora. — Podem os lhe oferecer um a linha de crédito de vinte m il dólares.
Olho fixam ente para ela.
— Só isso?
— No m ercado atual, é im portante o cliente m anter um a parte da propriedade da casa. Isso torna a inadim plência m enos provável. — Ela sorri para m im . — Vam os preencher m ais alguns detalhes. Com eçam os pelo seu em pregador?
Li estatísticas que dizem que as referências não são conferidas em m ais de cinquenta por cento dos casos, m as, com certeza, um banco deve estar na outra m etade. E, assim que ligarem para Tany a e ficarem sabendo que eu m e dem iti, vão com eçar a achar que não tenho condições de pagar nem uma hipoteca, quanto m ais duas. Dizer que estou com pensando a falta do em prego com trabalho autônom o tam bém não vai aj udar. Fui revisora freelance tem po suficiente para saber que, para instituições com o bancos e futuros em pregadores, autônomo traduz-se com o “praticam ente sem trabalho, m as m e virando”.
— Estou desem pregada no m om ento — adm ito baixinho.
Abigail se recosta na cadeira.
— Bem , e a senhora tem algum a outra fonte de renda? Aluguel de propriedade? Dividendos?
— Pensão alim entícia dos m eus filhos — digo com dificuldade.
— Vou ser m uito sincera — ela diz. — Não é provável que consiga um em préstim o sem outra fonte de renda.
Não consigo nem olhar para ela.
— Eu preciso m uito, m uito m esm o do dinheiro.
— Há outras fontes de crédito — sugere Abigail. — Em préstim os com garantia do carro, agiotagem , cartões de crédito... m as as taxas de j uros vão m atá-la no longo prazo. É m elhor pedir a alguém próxim o. Não tem algum m em bro da fam ília que possa aj udar?
Mas m eus pais j á se foram , e é um m em bro da fam ília que estou tentando aj udar. Sou eu, sem pre eu, que cuido de Jacob quando as coisas estão difíceis.
— Gostaria que houvesse algo que eu pudesse fazer — diz Abigail. — Talvez quando a senhora conseguir outro em prego...
Murm uro um agradecim ento e saio da baia enquanto ela ainda está falando. No estacionam ento, fico sentada no carro por uns m inutos. Minha respiração flutua no ar frio, com o balões de pensam ento de todas as coisas que eu gostaria de poder explicar a Abigail LeGris.
— Gostaria que houvesse algo que eu pudesse fazer tam bém — digo em voz alta.
Não é j usto com Jacob nem com Oliver, m as não vou direto para casa. Em vez disso, passo na frente da escola prim ária. Faz m uito tem po que não tenho m otivo para ir lá. Afinal, m eus m eninos estão crescidos agora. Mas, no inverno, eles transform am um cam po na frente em pista de patinação e as crianças vêm brincar com seus patins. Durante o recreio, m enininhas giram em círculos sobre o gelo; m eninos em purram discos de hóquei de um lado para o outro.
Paro do outro lado da rua, de onde posso observar. Os m eninos que estão brincando ali ao ar livre são bem pequenos, eu diria que de segundo ano, e parece im possível Jacob j á ter sido pequeno assim . Quando ele estudava aqui, sua auxiliar o trazia para a pista de patinação com um par de patins em prestados e fazia Jacob andar pelo gelo em purrando dois engradados em pilhados. Esse era o m odo com o a m aioria das crianças pequenas aprendia a patinar; depois avançavam rapidam ente para o m étodo do tripé, em que um bastão de gelo proporciona um a terceira perna para aj udar no equilíbrio, antes de sentir confiança suficiente para patinar sem nenhum apoio. Mas Jacob nunca passou daqueles engradados. Na patinação, com o na m aioria das atividades físicas, ele era desaj eitado. Lem bro de vir assisti-lo e de ver seus pés escaparem sob ele, fazendo-o aterrissar com tudo no gelo. Se não fosse tão escorregadio, eu não ia cair tanto, ele m e dizia, com as faces verm elhas e a respiração ofegante depois do recreio, com o se ter algo em que pôr a culpa fizesse toda a diferença.
Um a batidinha firm e em m inha j anela m e faz dar um pulo. Desço o vidro e vej o um policial parado ao lado do carro.
— Senhora — diz ele —, está com algum problem a?
— Eu só... entrou algum a coisa no m eu olho — m into.
— Se a senhora j á estiver bem agora, tenho que lhe pedir para sair daqui. Esta é um a área destinada aos ônibus. Não pode ficar parada aqui.
Dou um a olhada para as crianças no gelo outra vez. Elas parecem m oléculas colidindo.
— Não — digo baixinho. — Não posso.
Quando volto para casa e abro a porta, ouço o som de alguém sendo espancado. Uhh. Aiii. Uuf. E então, para m eu horror, a risada de Jacob.
— Jacob? — cham o, m as ninguém responde. Sem tirar o casaco, corro para dentro de casa na direção dos sons de luta.
Jacob está de pé, perfeitam ente saudável, na frente da televisão da sala de estar. Segura o que parece ser um controle rem oto branco. Oliver, de pé a seu lado, tem um controle rem oto igual. Theo está estendido no sofá atrás deles.
— Vocês são péssim os nisso — diz ele. — Os dois.
— Oiê! — Dou um passo para dentro da sala, m as todos eles têm os olhos colados na televisão. Na tela, dois personagens 3D estão boxeando. Observo quando Jacob m ove seu controle rem oto e o personagem na tela balança o braço direito e nocauteia o outro personagem .
— Ha! — exclam a Jacob. — Acabei com você.
— Ainda não — diz Oliver. Ele balança o braço sem olhar antes e m e acerta.
— Ai! — digo, esfregando o om bro.
— Opa, desculpe. — Oliver larga seu controle rem oto. — Não vi você aí.
— Percebi.
— Mãe — diz Jacob, com o rosto anim ado com o não vej o há sem anas —, isso é legal dem ais! Dá para j ogar golfe, e tênis, e boliche...
— E atacar pessoas — interrom po.
— Tecnicam ente, é boxe — Oliver intervém .
— E de onde veio isso?
— Ah, eu trouxe. Todo m undo gosta de j ogar Wii.
Olho espantada para ele.
— Quer dizer que você achou que não havia nada de errado em trazer um j ogo violento para a m inha casa sem pedir m inha perm issão?
Oliver dá de om bros.
— Você teria autorizado?
— Não!
— Então, pronto — ele sorri. — Além disso, não estam os j ogando Call of Duty, Em m a. É só boxe. É um esporte.
— Um esporte olímpico — Jacob com pleta.
Oliver j oga o controle rem oto para Theo.
— Assum a o m eu posto — diz, e m e leva para a cozinha. — Com o foi seu com prom isso?
— Foi... — Com eço a responder, m as m e distraio com o estado da cozinha. Não percebi quando entrei correndo tentando encontrar a fonte dos gem idos e grunhidos que estava ouvindo, m as agora vej o que há vasilhas e panelas acum uladas dentro da pia e quase todas as m inhas tigelas estão em pilhadas sobre o balcão. Um a panela ainda está no fogão. — O que aconteceu aqui?
— Eu vou lim par — Oliver prom ete. — Só m e distraí j ogando com o Theo e o Jake.
— Jacob — corrij o autom aticam ente. — Ele não gosta de apelidos.
— Ele não pareceu se im portar quando o cham ei assim — diz Oliver. Ele passa pela m inha frente até o fogão e aperta botões para desligá-lo, antes de alcançar um pegador de panela colorido que Theo fez de presente para m im em um Natal quando era pequeno. — Sente-se. Guardei o seu alm oço.
Desabo em um a cadeira. Não porque ele m e disse para fazer isso, m as porque, sinceram ente, não m e lem bro de quando foi a últim a vez que alguém cozinhou para m im , e não o contrário. Ele transfere a com ida aquecida para um prato que tira da geladeira. Quando Oliver se inclina para colocá-lo na m inha frente, sinto o cheiro do seu xam pu — pinheiros e gram a recém -cortada.
Há om elete com queij o suíço. Abacaxi. Broa de m ilho. E, em um prato separado, um bolo am arelo.
Olho para ele.
— O que é isso?
— É um a de suas m isturas de bolo — responde ele. — Sem glúten. Mas a cobertura fom os eu e o Jake que fizem os.
— Eu não estava falando do bolo.
Oliver se senta à m esa da cozinha e estende o braço para pegar um pedaço de abacaxi do prato.
— Hoj e é Quarta-Feira Am arela, não é? — ele responde com naturalidade. — Agora com a antes que a om elete esfrie.
Experim ento um pedaço, depois outro. Com o todo o pedaço de broa de m ilho antes de m e dar conta de com o estou com fom e. Oliver m e observa, sorrindo, e de repente se levanta de um pulo, com o seu personagem havia feito na tela da televisão depois de Jacob o derrubar, e abre a geladeira.
— Suco de tangerina? — pergunta.
Eu baixo o garfo.
— Oliver, escute.
— Não precisa m e agradecer — ele interrom pe. — Sério, isso foi m uito m ais divertido para m im do que ler um a exibição de provas.
— Tenho algo que preciso lhe dizer. — Espero que ele se sente. — Não sei com o vou lhe pagar.
— Não se preocupe. Meus honorários de babá são bem baratos.
— Não estou falando disso.
Ele desvia os olhos.
— Darem os um j eito.
— Com o? — pergunto.
— Não sei. Vam os passar pelo j ulgam ento e aí podem os pensar...
— Não. — Minha voz cai com o um m achado. — Não quero sua caridade.
— Ótim o, porque eu tam bém não tenho condições de oferecê-la — diz Oliver. — Talvez você possa fazer algum trabalho paralegal para m im , um a revisão, ou qualquer outra coisa.
— Não sei nada sobre direito.
— Som os dois — ele responde, depois sorri. — Brincadeira.
— Estou falando sério. Não vou deixar você levar esse caso até o fim se não puderm os organizar um tipo de cronogram a de pagam entos.
— Tem um a coisa em que você poderia m e aj udar — Oliver adm ite. Ele parece um gato que devorou toda a caixa de leite. Ou um hom em sob as cobertas, assistindo enquanto um a m ulher se despe.
De onde fui tirar essa ideia?
De repente, sinto o rosto em brasas.
— Espero que não estej a sugerindo que a gente...
— Jogue um a partida virtual de tênis? — Oliver interrom pe e m ostra um pequeno cartucho de j ogo eletrônico que tirou do bolso. Ele arregala os olhos, a própria im agem da inocência. — O que você achou que eu ia dizer?
— É bom você saber — digo, pegando o cartucho da m ão dele — que eu tenho um saque diabólico.