Um Mundo à Parte
Theo
Aos cinco anos, eu j á sabia que havia diferenças entre m im e Jacob.
Eu tinha que com er tudo que estivesse no prato, m as Jacob podia deixar coisas com o ervilhas e tom ates, porque não gostava da sensação delas dentro da boca.
Qualquer fita de m úsica infantil que eu estivesse ouvindo no carro tinha que dar preferência a qualquer m úsica de Bob Marley.
Eu precisava recolher todos os m eus brinquedos depois de term inar de brincar, m as a fila de dois m etros de carrinhos Matchbox que Jacob tinha passado o dia organizando em um a reta perfeita podia ficar estendida pelo corredor um m ês inteiro, até que ele se cansasse dela.
Na m aior parte do tem po, porém , eu tinha consciência de ser o deslocado na fam ília. Porque, no m inuto em que Jacob tinha qualquer tipo de crise — e isso acontecia constantem ente —, m inha m ãe largava tudo e corria para ele. E, de m odo geral, quem ela largava era eu.
Um a vez, quando eu tinha uns sete anos, m inha m ãe m e prom eteu que nos levaria para ver Pequenos espiões 3D em um a tarde de sábado. Passei a sem ana toda m uito entusiasm ado, porque não era frequente irm os ao cinem a, quanto m ais para ver film es 3D. Não tínham os dinheiro para isso, m as consegui um óculos 3D grátis em um a caixa de cereal m atinal e im plorei m uito até que m inha m ãe concordasse. No entanto — que grande surpresa —, tudo acabou dando em nada. Jacob tinha acabado de ler todos os seus livros de dinossauros e com eçou a bater as m ãos e a balançar o corpo diante da ideia de não ter algo novo para ler na hora de dorm ir, e m inha m ãe tom ou a decisão prática de nos levar à biblioteca em vez de ao cinem a.
Talvez eu até tivesse aceitado bem isso, m as, na biblioteca, havia um a grande e vistosa estante que fazia um a associação do tem a do film e com a leitura em geral. SEJA UM PEQUENO ESPIÃO!, dizia no alto, e estava cheia de livros com o A espiã e histórias sobre os Hardy Boy s e Nancy Drew. Vi m inha m ãe levar Jacob para a seção de não ficção: núm ero 567 no m undo da classificação decim al de Dewey, que até eu sabia que significava dinossauros. Eles se sentaram bem à vontade ali no corredor, com o se m e arrastar para a biblioteca e arruinar m eu dia não tivesse nenhum a im portância, e com eçaram a ler um livro sobre ornitópodes.
De repente, eu soube o que deveria fazer.
Se m inha m ãe só tinha olhos para Jacob, então era isso que eu ia m e tornar.
Provavelm ente foram sete anos de frustração que explodiram naquele m om ento, pois não posso explicar de fato por que fiz o que fiz. Quer dizer, eu sabia bem que não deveria ter feito.
Bibliotecas são lugares onde se deve ficar em silêncio.
Livros de biblioteca são sagrados e não pertencem a nós.
Em um m inuto, eu estava sentado na sala infantil, na confortável poltrona verde que parecia o punho de um gigante, e, no m inuto seguinte, estava gritando com toda a força de m eus pulm ões, puxando livros das prateleiras e arrancando páginas, e, quando a bibliotecária disse: De quem é essa criança?, eu chutei seus tornozelos.
Eu tinha talento para ficar fora de controle. Afinal, passei m inha vida toda observando um m estre.
Um a m ultidão se j untou. Outros bibliotecários correram para ver o que estava acontecendo. Eu só hesitei um a vez durante m eu acesso, e foi quando vi o rosto de m inha m ãe aparecendo no m eio do grupo que olhava para m im . Ela ficou branca, com o um a estátua.
Obviam ente, ela teve que m e tirar dali. E, obviam ente, isso significou que Jacob não pôde escolher os livros que queria levar para casa. Ela o segurou pelo pulso enquanto ele com eçava a ter sua própria crise, e m e ergueu no colo com o outro braço. Meu irm ão e eu fom os nos debatendo e gritando durante todo o cam inho até o estacionam ento.
Quando chegam os ao carro, ela m e pôs no chão. Eu fiz o que j á tinha visto Jacob fazer m il vezes: fiquei m ole com o um espaguete e desabei no piso do estacionam ento.
De repente, ouvi algo que nunca tinha ouvido antes. Era m ais alto que os m eus gritos e os de Jacob com binados e vinha da boca da m inha m ãe.
Ela gritou e bateu os pés no chão. Aaaaaaaaaaaaaah, berrou, agitando os braços, dando chutes e balançando a cabeça para frente e para trás. As pessoas no estacionam ento inteiro olhavam espantadas para ela.
Eu parei na m esm a hora. A única coisa pior do que ver o m undo inteiro olhando para mim em m eio a um acesso de loucura era ver o m undo inteiro olhando para m inha mãe em m eio a um acesso de loucura. Fechei os olhos, desej ando fervorosam ente que o chão se abrisse e m e engolisse ali m esm o.
Jacob, por outro lado, continuou gritando e tendo seu ataque.
— Você acha que eu não tenho vontade de perder o controle de vez em quando? — m inha m ãe gritou e, então, se recom pôs e afivelou um esperneante Jacob em seu assento no carro. Depois m e levantou do chão e fez o m esm o com igo.
Mas não estou contando essa história por causa disso. É porque esse foi o prim eiro dia em que m inha m ãe chorou na m inha frente, em vez de tentar bravam ente conter tudo dentro de si.