Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 58 de 121

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Um Mundo à Parte

Theo

 

 

Se um dia de escola tem sete horas de duração, seis delas são consum idas em blocos de tem po cheios de inutilidades: professores gritando com alunos que se com portam m al, fofocas a cam inho do arm ário, recapitulação de um conceito de m atem ática que você entendeu da prim eira vez que foi explicado. O que aprender em casa m e ensinou, m ais do que qualquer outra coisa, foi a perda de tem po que é o ensino m édio na escola.

Quando som os apenas eu e Jacob, sentados à m esa da cozinha, consigo acabar m eu trabalho em cerca de m eia hora se deixar as leituras para antes de dorm ir. Tam bém aj uda o fato de m inha m ãe questionar bastante o currículo. (“Vam os pular essa parte. Se núm eros im aginários fossem para ser aprendidos, eles iam dar um j eito de se tornar reais”, ou “Caram ba, quantas vezes você j á estudou os puritanos desde o prim eiro ano? Um as cem ? Vam os passar direto para a Reform a.”) Sej a com o for, eu gosto de estudar em casa. Por definição, j á se é um m arginalizado m esm o, então não é preciso se preocupar por parecer burro se der a resposta errada ou se aquela m enina gata de sua sala de inglês vai ficar te analisando quando você for até a lousa escrever sua equação da lição de casa de m atem ática. Nem temos um a lousa aqui.

Com o Jacob trabalha com um conteúdo diferente do m eu, ele está ocupado com sua lição de um lado da m esa e eu do outro. Term ino antes dele, m as j á era assim m esm o quando fazíam os nossa lição de casa com um antes. Ele pode ser incrivelm ente inteligente, m as, às vezes, o que acontece em seu cérebro não se traduz bem no papel. Acho que é um pouco com o ser o trem -bala m ais rápido do m undo, m as as rodas não se encaixarem nos trilhos.

Assim que acabo m inha lição de francês (Que fait ton frère? Il va à la prison!), fecho o livro. Minha m ãe levanta os olhos de sua xícara de café. Ela geralm ente está digitando sem parar em seu com putador, m as não conseguiu nem se concentrar nisso hoj e.

— Term inei — anuncio.

Ela alarga os lábios e sei que isso pretende ser um sorriso.

— Muito bem .

— Quer que eu faça algum a coisa? — pergunto.

— Voltar o tem po seria bom .

— Eu estava pensando em algo com o superm ercado — sugiro. — Nós, hã... não tem os nada para com er aqui.

É verdade e ela sabe disso. Ela não pode sair de casa enquanto Jacob estiver retido aqui e isso significa que estam os cam inhando a passos lentos para m orrer de fom e, a m enos que eu faça algum a coisa a respeito.

— Você não pode dirigir — diz ela.

— Posso ir de skate.

Ela levanta um a sobrancelha.

— Theo, não dá para andar de skate com as com pras do superm ercado.

— Por que não? Posso usar aquelas sacolas ecológicas, prender no om bro e não com prar nada pesado.

Não dem oro m uito a convencer m inha m ãe, m as aí a gente esbarra em outro problem a: ela só tem dez dólares na carteira e eu não posso fingir ser Em m a Hunt quando entregar ao caixa seu cartão de crédito.

— Ei, Jacob — digo. — Precisam os de algum dinheiro em prestado.

Ele não levanta os olhos de seu livro de história.

— Eu tenho cara de banco?

— Está de gozação? — Tenho certeza de que m eu irm ão guardou cada dólar que j á ganhou de aniversário, Natal, o que for. Só o vi gastar dinheiro um a vez, para com prar um chiclete de trinta e cinco centavos.

— Deixe — m inha m ãe diz baixinho. — Não vam os aborrecê-lo. — Em vez disso, ela procura na carteira e tira o cartão do banco. — Pare no banco do shopping e saque algum dinheiro. Minha senha é 4550.

— Jura? — digo, sorrindo. — Você está m e dando sua senha?

— Estou, e não faça eu m e arrepender disso.

Pego o cartão e vou saindo da cozinha.

— Essa é sua senha do com putador tam bém ?

— Leite de soj a — diz ela. — E pão sem glúten e presunto sem sal. E qualquer outra coisa que você queira.

Tom o a decisão prática de não levar m eu skate e, em vez disso, vou andando para o banco. Afinal, são só uns três quilôm etros. Mantenho a cabeça abaixada e digo a m im m esm o que é por causa do vento, m as, na verdade, é porque não quero m e encontrar com ninguém que eu conheça. Passo por dois praticantes de esqui cross-country no cam po de golfe e por um a dupla correndo. Quando chego ao banco, vej o que j á está fechado e eu não sei com o entrar no pequeno saguão onde estão os caixas eletrônicos. Em vez disso, dou a volta até os fundos do prédio, onde há um caixa para m otoristas. Fico atrás de um Honda e espero m inha vez.

DIGITE A QUANTIA, diz a tela. Digito 200, então hesito e cancelo a transação. Em vez de fazer o saque, dou um a olhada no saldo.

Será possível que só tem os 3.356 dólares na poupança? Tento lem brar se m inha m ãe recebe extratos de m ais algum banco além desse. Ou se há algum cofre em casa onde ela guarda dinheiro.

Sei que o Hotel Townsend contrata m eninos de quinze anos com o aj udantes de garçom para o restaurante. E tenho certeza de que, se conseguir um a carona até Burlington, poderia trabalhar no McDonald’s. É evidente que, se alguém precisa arrum ar um trabalho, esse alguém sou eu, j á que m inha m ãe não pode sair de casa no m om ento e Jacob j á se m ostrou patologicam ente incapaz de se m anter em um em prego.

Ele teve três. O prim eiro foi trabalhando em um pet shop na cidade, na época em que estava obcecado por cachorros. Foi dem itido por dizer à sua chefe que ela era burra de guardar os sacos de ração nos fundos da loj a, j á que eles eram tão pesados. O segundo em prego que ele teve foi com o em balador em um a cooperativa de alim entos, onde os caixas lhe diziam para “apertar o passo” conform e os itens iam chegando na esteira e ficavam furiosos porque ele não obedecia, quando, na verdade, Jacob provavelm ente apenas não tinha entendido o que era para fazer. O terceiro em prego foi com o aj udante em um a lanchonete durante o verão na piscina m unicipal. Acho que tudo funcionou bem por um a ou duas horas, m as, quando chegou a hora do alm oço e seis crianças com eçaram a gritar na frente dele pedindo sorvete e cachorro-quente e nachos, todas ao m esm o tem po, ele tirou o avental e sim plesm ente foi em bora.

Um carro para atrás de m im , e m e sinto um idiota. Constrangido, aperto o botão de saque, depois digito 200 no teclado. Quando o dinheiro sai da m áquina, eu o enfio no bolso. E então ouço m eu nom e sendo cham ado.

— Theo? Theo Hunt, é você?

Eu m e sinto culpado, com o se tivesse sido pego fazendo algo que não deveria. Mas não é ilegal estar a pé em um caixa eletrônico para carros, é?

A porta do carro atrás de m im se abre e dele sai m eu professor de biologia, sr. Jennison.

— Com o vai? — ele pergunta.

Lem bro que um a vez, quando m inha m ãe se zangou com Jacob porque ele se recusava a falar com os parentes no casam ento de um a prim a distante, ele disse que teria perguntado à tia Marie com o ela estava se realm ente se im portasse com isso... m as não se im portava, então fingir que estava interessado seria um a grande m entira.

Há ocasiões em que o m undo de Jacob faz m uito m ais sentido para m im do que aquele em que o resto de nós vive. Por que perguntam os às pessoas com o elas têm passado se não estam os nem aí para a resposta? O sr. Jennison está m e fazendo essa pergunta porque se preocupa com igo ou porque é algo para preencher o vazio entre nós?

— Tudo bem — digo, por força do hábito. Se eu fosse com o Jacob, teria respondido diretam ente: Não consigo dormir à noite. E às vezes, quando corro depressa demais, não consigo respirar. Mas, na realidade, alguém que lhe pergunta com o você está não quer ouvir a verdade. Ele quer a resposta pronta, a resposta esperada, para poder continuar em seu cam inho feliz.

— Precisa de um a carona? Está congelando aqui fora.

Há alguns professores de que eu realm ente gostava, e outros de que eu realm ente não gostava, m as o sr. Jennison não está em nenhum a dessas duas categorias. Ele é indiferente, de seu cabelo ralo às suas aulas, o tipo de professor cuj o nom e provavelm ente j á vou ter esquecido quando entrar na faculdade. Tenho certeza de que, até recentem ente, ele podia dizer o m esm o de m im : eu era o aluno m ediano da classe, que não era bom nem ruim o bastante para causar um a im pressão. Até, claro, tudo isso acontecer.

Agora, eu sou o m enino no centro dos seis graus de separação: Ah, sim, minha tia foi professora do Theo no terceiro ano. Ou Eu sentei atrás dele em uma reunião da escola uma vez. Eu sou o m enino cuj o nom e vai aparecer em coquetéis daqui a anos: Aquele garoto autista assassino? Eu estudei com o irmão dele no Colégio Townsend.

— Minha m ãe está parada em fila dupla do outro lado da rua — m urm uro, percebendo tarde dem ais que, se nosso carro estivesse m esm o aqui, provavelm ente estaria neste caixa agora. — Obrigado m esm o assim — digo, e saio tão apressado que quase m e esqueço de pegar o recibo da transação.

Corro todo o cam inho até o superm ercado, com o se estivesse esperando que o sr. Jennison m e seguisse com seu carro e m e cham asse de m entiroso na m inha cara. Só um a vez penso em pegar os duzentos dólares, entrar em um ônibus e ir em bora para sem pre. Eu m e im agino sentado no banco de trás, ao lado de um a garota bonita que divide seus am endoins com igo, ou de um a velha senhora que está tricotando um gorrinho para seu neto recém -nascido e m e pergunta para onde vou.

Im agino dizer a ela que estou indo visitar m eu irm ão m ais velho na faculdade. Que som os m uito próxim os e que sinto m uito sua falta quando ele está longe.

Im agino com o seria legal se as conversas não fossem m entiras.

 

Quando estou m e aprontando para dorm ir naquela noite, dou por falta de m inha escova de dentes. Furioso — não é a prim eira vez que isso acontece, acredite —, vou pelo corredor até o quarto de m eu irm ão. Jacob está ouvindo um a fita do quadro “Who’s on First”, de Abbott e Costello, em um velho toca-fitas.

— O que você fez com a m inha escova de dentes dessa vez? — pergunto.

— Nem toquei na sua droga de escova de dentes.

Mas não acredito nele. Olho na direção do velho aquário que ele usa com o câm ara de vaporização, m as não está lá. Foi levado com o prova.

As vozes de Abbott e Costello são tão baixinhas que m al posso distinguir as palavras.

— Você está escutando algum a coisa? — pergunto.

— Está bom assim .

Lem bro de um a vez, no Natal, em que m inha m ãe com prou um relógio para Jacob e depois teve que devolvê-lo, porque o tique-taque o enlouquecia.

— Eu não sou louco — Jacob diz e, por um segundo, eu m e pergunto se falei em voz alta.

— Eu nunca disse que você era!

— Disse, sim — Jacob responde.

Provavelm ente ele está certo. Jacob tem um a m em ória de elefante.

— Considerando todas as coisas que você rouba do m eu quarto para sua câm ara de vaporização e suas cenas de crim es, acho que podem os nos considerar quites.

 

Qual é o nome do cara na primeira base?

Não. Qual está na segunda.

Quem está na segunda não me importa.

Quem está na primeira.

Não sei.

Ele está na terceira, não estamos falando dele.

Sei que algum as pessoas acham esse quadro hilariante, m as nunca fui um a delas. Acho que a razão de Jacob gostar tanto é que faz perfeito sentido para ele, porque os nom es são tom ados literalm ente.

— Vai ver que j ogaram fora — diz Jacob e, a princípio, acho que é um a fala de Costello, até perceber que ele se refere à m inha escova de dentes.

— Foi você? — pergunto.

Jacob olha diretam ente para m im . Sem pre m e dá um choque quando isso acontece, porque ele passa tanto tem po não m e olhando nos olhos.

— Foi você? — ele responde.

De repente, não tenho certeza do que estam os falando, m as não acho que sej a de higiene bucal. Antes que eu possa responder, m inha m ãe aparece na porta.

— De quem é isto? — ela pergunta, segurando m inha escova de dentes. — Estava no m eu banheiro.

Eu a pego da m ão dela. No toca-fitas, Abbott e Costello continuam discutindo na m esm a trilha de com édia enlatada.

 

Essa é a primeira coisa certa que você disse.

Eu nem sei do que estou falando!

 

— Eu te falei — Jacob diz.