Um Mundo à Parte
Jacob
Odiei Mark Maguire antes m esm o de pôr os olhos nele. Jess havia m udado. Em vez de se concentrar apenas em m im durante nossas sessões, ela atendia o celular ou respondia rapidam ente a um a m ensagem de texto e, toda vez que fazia isso, ela sorria. Im aginei que fosse eu que a estivesse deixando distraída. Afinal, todo m undo parecia enj oar depressa de m im quando estávam os no m eio de um a conversa e era m esm o provável que isso viesse a acontecer tam bém com Jess, em bora esse fosse o m eu m aior m edo. Então, um dia, ela disse que queria m e contar um segredo.
— Acho que estou apaixonada — ela disse, e j uro que m eu coração parou de bater por um segundo.
— Eu tam bém — deixei escapar.
ESTUDO DE CASO 1: Vou fazer um a pausa para falar um pouco sobre os arganazes-da-pradaria. Eles são parte de um a m inúscula fração do reino anim al que pratica a m onogam ia. Eles se acasalam por vinte e quatro horas e então, sim ples assim , ficam j untos pelo resto da vida. No entanto, o arganaz-da-m ontanha, que é um parente próxim o que com partilha noventa e nove por cento da configuração genética do arganaz-da-pradaria, não tem interesse em nada além de um fuc-fuc rápido e até a próxim a. Com o pode ser? Quando os arganazes-da-pradaria têm um a relação sexual, os horm ônios oxitocina e vasopressina inundam seu cérebro. Se os horm ônios fossem bloqueados, eles se com portariam m ais com o os prom íscuos arganazes-da-m ontanha. Mais interessante ainda, se os arganazes-da-pradaria receberem inj eções desses horm ônios e depois forem im pedidos de fazer sexo, eles se tornam ainda m ais servilm ente devotos ao potencial parceiro. Em outras palavras, é possível fazer um arganaz-da-pradaria se apaixonar.
O oposto, no entanto, não se aplica. Não se pode dar um a inj eção de horm ônios em um arganaz-da-m ontanha e torná-lo am oroso. Ele sim plesm ente não tem os receptores certos no cérebro. Mas ele recebe um fluxo de dopam ina no cérebro quando acasala, o que seria o equivalente horm onal a Cara, isso é bom. Ele sim plesm ente não tem os outros dois horm ônios, aqueles que aj udam a associar esse êxtase a um indivíduo específico. Claro que, se os roedores forem geneticam ente m odificados com a rem oção dos genes que afetam a oxitocina e a vasopressina, eles não conseguem m ais reconhecer outros roedores com que j á se encontraram .
Eu sou um arganaz-da-pradaria preso no corpo de um arganaz-da-m ontanha. Se acho que m e apaixonei, é porque exam inei isso analiticam ente. (Palpitações no coração? Confere. Ausência de tensão na com panhia dela? Confere.) E essa m e parece ser a explicação m ais provável para o que sinto, em bora eu não saiba realm ente definir a diferença entre os sentim entos por alguém que m e interesse rom anticam ente e os sentim entos por um a am iga próxim a. Ou, no m eu caso, m inha única am iga.
E foi por isso que, quando Jess m e disse que estava apaixonada, eu retribuí.
Os olhos dela se am pliaram , assim com o o sorriso.
— Ai, m eu Deus, Jacob! — disse ela. — Tem os que sair de casais!
Foi quando percebi que não estávam os falando da m esm a coisa.
— Eu sei que você gosta que a gente fique sozinhos nas nossas sessões, m as é bom para você conhecer pessoas, e o Mark quer m uito conhecer você. Ele é instrutor de esqui em m eio período em Stowe e pensou que talvez pudesse lhe dar um a aula grátis.
— Não acho que eu seria m uito bom em esquiar. — Um a das características do Asperger é que m al podem os cam inhar e m ascar chiclete ao m esm o tem po. Estou sem pre tropeçando nos m eus pés ou na beira da calçada; podia facilm ente m e ver caindo de um teleférico ou rolando em um a bola de neve pela encosta de um a m ontanha.
— Vou estar lá para aj udar tam bém — Jess prom eteu.
E assim , no dom ingo seguinte, Jess m e levou de carro para Stowe e m e equipou com esquis, botas e capacete alugados. Saím os arrastando os pés e ficam os esperando perto da placa da escola de esqui até que um a m ancha escura veio zunindo colina abaixo e nos cobriu de um tsunam i de partículas de neve.
— E aí, linda — disse Mark, tirando o capacete para poder agarrar Jess e lhe dar um beij o.
Em um único olhar, eu j á pude perceber que Mark Maguire era tudo que eu não era:
1. Coordenado
2. Atraente (para as garotas, claro)
3. Popular
4. Musculoso
5. Autoconfiante
Pude perceber tam bém que eu era um a coisa que Mark Maguire não era:
1. Inteligente
— Mark, este é m eu am igo Jacob.
Ele se inclinou bem diante do m eu rosto e gritou:
— E aí, cara, legal conhecer você!
Eu gritei de volta:
— Eu não sou surdo!
Ele sorriu para Jess. Tinha dentes brancos e perfeitos.
— Você tem razão. Ele é mesmo divertido.
Jess tinha dito a ele que eu era divertido? Será que a intenção era dizer que eu a fazia rir porque contava boas piadas ou porque eu era um a piada?
Naquele instante, odiei Mark Maguire visceralm ente, porque ele m e tinha feito duvidar de Jess e, até aquele m om ento, eu sem pre soubera, inequivocam ente, que éram os am igos.
— Então, que tal a gente experim entar a pista de iniciantes? — Mark perguntou e m e estendeu um bastão para poder m e puxar até o cabo. — É assim — disse ele, m e m ostrando com o segurar no cabo em m ovim ento, e eu achei que tinha acertado, m as m inha m ão esquerda se atrapalhou com a m ão direita e acabei m e desequilibrando e caindo em cim a de um m enininho que vinha atrás de m im . O funcionário que acionava o cabo teve que desligá-lo enquanto Mark m e aj udava a levantar.
— Tudo certo com você, Jacob? — Jess perguntou, m as Mark a afastou.
— Ele está indo m uito bem — disse ele. — Relaxa, Jake. Eu ensino garotos retardados o tem po todo.
— O Jacob é autista — Jess corrigiu, e eu m e virei tão depressa que m e esqueci dos esquis e caí de novo.
— Eu não sou retardado — gritei, m as essa afirm ação é um pouco m enos convincente quando não se consegue sequer desem aranhar as próprias pernas.
Vou dizer isto em favor de Mark Maguire: ele m e ensinou a desacelerar e a parar com eficiência suficiente para eu conseguir descer sozinho a pista de iniciantes duas vezes. Depois, perguntou a Jess se ela queria ir até a colina m ais alta enquanto eu ficava treinando. Eles m e deixaram na com panhia de crianças de sete anos com roupas de neve cor-de-rosa.
ESTUDO DE CASO 2: Em estudos de laboratório, cientistas descobriram que, em questões de am or, um a parte m uito pequena do cérebro está de fato envolvida. Por exem plo, a am izade aciona receptores em todo o córtex cerebral, m as isso não acontece com o am or, que ativa partes do cérebro m ais com um ente associadas a reações em ocionais, com o m edo e raiva. O cérebro de um a pessoa apaixonada apresentará atividade na am ígdala cerebelar, que está associada a em oções viscerais, e no núcleo accum bens, um a área associada a estím ulos prazerosos que tende a estar ativa em usuários de drogas. Ou, recapitulando: o cérebro de um a pessoa apaixonada não parece o cérebro de alguém tom ado por profunda em oção. Parece o cérebro de um a pessoa que andou cheirando cocaína.
Naquele dia em Stowe, desci a pista duas vezes com a aj uda de um m enino que estava aprendendo snowboard, depois cam inhei com cuidado até o teleférico principal. Eu m e apoiei em um arm ário onde as pessoas podem deixar seus esquis enquanto entram no aloj am ento para tom ar chocolate quente e com er nuggets de frango, e esperei Jess voltar para m im .
Mark Maguire está usando terno. Tem círculos escuros sob os olhos e quase m e sinto m al por ele, porque tam bém deve estar sofrendo com a falta de Jess, até m e lem brar de com o ele a m achucou.
— Pode nos dizer seu nom e? — a prom otora pergunta.
— Mark Maguire.
— Onde m ora, sr. Maguire?
— Green Street, 44, em Burlington.
— Qual é sua idade?
— Vinte e cinco anos — responde ele.
— Qual sua ocupação?
— Sou estudante de pós-graduação na UVM e instrutor de esqui em m eio período em Stowe.
— Com o conhecia Jess Ogilvy, sr. Maguire?
— Ela era m inha nam orada há cinco m eses.
— Onde estava no dom ingo, 10 de j aneiro de 2010? — Helen Sharp indaga.
— Na cantina da Mam a, em Townsend. A Jess tinha um a sessão de orientação com Jacob Hunt e eu gostava de ir j unto de vez em quando.
Isso não é verdade. Ele sim plesm ente não gostava que ela passasse tem po comigo e que não desistisse de m im por causa dele.
— Então o senhor conhece Jacob?
— Sim .
— O senhor o vê aqui no tribunal hoj e?
Baixo os olhos para a m esa, para não sentir o olhar afiado de Mark.
— Ele está sentado ali.
— Que fique registrado que a testem unha identificou o réu — diz a prom otora. — Quantas vezes, antes de 10 de j aneiro, o senhor tinha encontrado Jacob?
— Não sei. Um as cinco ou seis.
A prom otora cam inha até o banco da testem unha.
— O senhor se dava bem com ele?
Mark está olhando para m im outra vez, posso senti-lo.
— Na verdade, eu não prestava m uita atenção nele.
Estamos no alojamento de Jess vendo um filme na TV sobre o caso do assassinato de JonBenét Ramsey, que, claro, foi um dos que tiveram a participação do dr. Henry Lee. Digo a Jess o que é verdade e o que foi alterado por Hollywood. Ela não para de checar suas mensagens de voz, mas não há nenhuma. Estou tão entusiasmado com o filme que demoro um tempo para perceber que ela está chorando.
— Você está chorando — digo, o óbvio, e não entendo o motivo, porque ela não conhecia JonBenét, e geralmente as pessoas choram pela morte de alguém que conheciam muito bem.
— Só não estou muito feliz hoje — Jess responde e se levanta. Ao fazer isso, dá um gemido, como um cachorro que levou um chute. Ela tem que subir em uma cadeira para alcançar uma prateleira alta onde guarda o papel higiênico, saquinhos plásticos de embalagem e lenços de papel. Quando pega a caixa de lenços de papel, seu blusão sobe na lateral e eu os percebo, vermelhos, roxos e amarelos como uma tatuagem, mas tenho experiência suficiente de Crim eBusters para reconhecer hematomas quando os vejo.
— O que aconteceu com você? — pergunto, e ela diz que caiu.
Tenho experiência suficiente de Crim eBusters para saber que é isso que as moças sempre dizem quando não querem confessar que alguém anda batendo nelas.
— Pedim os pizza — diz Mark —, do tipo que o Jacob pode com er, sem trigo na m assa. Enquanto esperávam os, ele convidou a Jess para sair. Com o se fosse um encontro. Foi hilário, m as, quando eu ri dele, a Jess ficou irritada com igo. Eu não tinha que ficar ali sentado aguentando aquilo, então fui em bora.
Pior ainda que o olhar de Mark, com o descubro neste m om ento, é o de m inha m ãe.
— O senhor falou com Jess em algum m om ento depois disso? — Helen pergunta.
— Sim , na segunda-feira. Ela m e ligou e im plorou para que eu fosse lá naquela noite, então eu fui.
— E qual era o estado de espírito dela?
— Ela achou que eu estivesse bravo...
— Protesto — diz Oliver. — Especulação.
O j uiz concorda.
— Deferido.
Mark parece confuso.
— Qual era o estado em ocional dela? — indaga Helen.
— Ela estava aflita.
— Vocês continuaram discutindo?
— Não — responde Mark. — A gente se beij ou e fez as pazes, se entende o que quero dizer.
— Então o senhor passou a noite lá?
— Sim .
— O que aconteceu na terça-feira de m anhã?
— Estávam os tom ando o café da m anhã e com eçam os a brigar outra vez.
— Sobre o quê? — Helen Sharp pergunta.
— Nem lem bro. Mas eu fiquei m uito bravo e... m eio que a em purrei.
— Está dizendo que a briga se tornou física?
Mark olha para as m ãos.
— Não foi por querer. Mas estávam os gritando e eu a segurei e em purrei contra a parede. Parei na m esm a hora e pedi desculpas. Ela m e m andou ir em bora e eu fui. Minhas m ãos só estiveram nela por um m inuto.
Levanto rápido a cabeça. Pego a caneta na m inha frente e escrevo com tanta força no bloco de notas que rasgo o papel. “ELE ESTÁ MENTINDO”, escrevo e em purro o bloco na direção de Oliver.
Ele olha para o bilhete e escreve: “?”
“HEMATOMAS NO PESCOÇO DELA.”
Oliver arranca a folha de papel do bloco e a coloca no bolso. Enquanto isso, Mark cobre os olhos e sua voz falha.
— Liguei para ela o dia inteiro, para pedir desculpas de novo, e ela não atendia. Achei que estivesse m e ignorando, e eu m erecia, m as na quarta-feira de m anhã estava ficando preocupado e fui até a casa dela, pensando em vê-la antes que ela saísse para a faculdade, m as ela não estava.
— Notou algum a coisa fora do com um ?
— Encontrei a porta aberta. Entrei e o casaco dela estava pendurado, e a bolsa sobre a m esa, m as ela não respondeu quando cham ei. Procurei em toda a parte, m as ela não estava em casa. Tinha roupas espalhadas pelo quarto e a cam a estava desarrum ada.
— O que o senhor pensou?
— Prim eiro achei que ela podia ter ido viaj ar. Mas ela teria m e dito. Além disso, a Jess tinha um exam e naquele dia. Liguei para o celular dela e ninguém atendeu. Telefonei para os pais dela e para os am igos, e ninguém a tinha visto, e ela não tinha dito a ninguém que ia viaj ar. Então, fui à polícia.
— O que aconteceu?
— O detetive Matson disse que eu não poderia dar queixa de pessoa desaparecida antes de trinta e seis horas, m as foi com igo até a casa da Jess. Mas, para ser sincero, não achei que ele estivesse m e levando a sério. — Mark olha para os j urados. — Faltei à aula e fiquei na casa, para o caso de ela voltar. Mas ela não voltou. Estava sentado na sala de estar quando percebi que alguém tinha organizado todos os CDs em ordem alfabética, e contei isso à polícia tam bém .
— Quando a polícia com eçou as investigações form ais — pergunta Helen Sharp —, o senhor cooperou no fornecim ento de am ostras forenses?
— Eu dei m inhas botas para eles — responde Mark.
A prom otora se vira e olha para o j úri.
— Sr. Maguire, com o descobriu o que havia acontecido a Jess?
Ele aperta a boca.
— Alguns policiais vieram ao m eu apartam ento e m e prenderam . Quando o detetive Matson m e interrogou, ele m e contou que a Jess estava... estava m orta.
— O senhor foi liberado pouco depois?
— Sim . Quando eles prenderam Jacob Hunt.
— Sr. Maguire, o senhor teve algum a coisa a ver com a m orte de Jess Ogilvy ?
— Absolutam ente nada.
— O senhor sabe por que ela estava com o nariz quebrado?
— Não — Mark responde, tenso.
— Sabe por que ela estava sem um dente?
— Não.
— Sabe por que ela tinha abrasões nas costas?
— Não.
— O senhor a socou no rosto?
— Não. — A voz de Mark soa com o se estivesse envolta em algodão. Ele estava olhando para o chão, m as, quando levanta o rosto agora, todos podem ver que seus olhos estão m olhados, que ele está engolindo com dificuldade. — Quando a deixei, ela parecia um anj o.
Quando Helen Sharp term ina, Oliver se levanta e abotoa o paletó. Por que advogados sem pre fazem isso? Em CrimeBusters, os atores que interpretam os advogados fazem assim tam bém . Talvez sej a para parecerem profissionais. Ou porque precisam de algo para fazer com as m ãos.
— Sr. Maguire, o senhor acabou de contar que chegou a ser preso pelo assassinato de Jess Ogilvy.
— Sim , m as eles tinham pegado a pessoa errada.
— Ainda assim ... por algum tem po a polícia acreditou que o senhor estivesse envolvido, não é verdade?
— Im agino que sim .
— O senhor tam bém contou em seu depoim ento que agarrou Jess Ogilvy durante a briga, certo?
— Sim .
— Onde a agarrou?
— Nos braços. — Ele toca o m úsculo do bíceps. — Aqui.
— O senhor apertou o pescoço dela tam bém , não foi?
Ele fica com pletam ente verm elho.
— Não.
— O senhor sabe, sr. Maguire, que a autópsia revelou hem atom as no pescoço de Jess Ogilvy e tam bém em seus braços?
— Protesto — a prom otora diz. — Testem unho indireto.
— Deferido.
— O senhor está ciente de que está testem unhando aqui hoj e sob j uram ento?
— Sim ...
— Então vou perguntar novam ente se o senhor apertou o pescoço de Jess Ogilvy.
— Eu não apertei! — Mark afirm a. — Eu só... pus as m ãos no pescoço dela. Por um segundo!
— Enquanto estavam brigando?
— Sim — diz Mark.
Oliver levanta as sobrancelhas.
— Sem m ais perguntas — ele declara e se senta novam ente ao m eu lado.
Eu baixo a cabeça e sorrio.