Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 78 de 121

Páginas do PDF

Um Mundo à Parte

Jacob

 

Meu irm ão não é tão inteligente quanto eu.

Não digo isso com m aldade; só estou declarando um fato. Por exem plo, ele tem que estudar todas as palavras do vocabulário para ir bem em um teste; eu posso olhar para a página e j á está tudo gravado em m inha cabeça, pronto para ser recuperado facilm ente depois dessa prim eira olhada. Ele sairia da sala se dois adultos com eçassem a falar sobre coisas de adultos, com o atualidades; eu puxaria um a cadeira e entraria na conversa. Ele não se preocupa em arm azenar inform ações com o um esquilo arm azena nozes para o inverno; Theo só se interessa por aquilo que tem aplicação prática na vida real.

No entanto, não estou nem perto de ser intuitivo com o m eu irm ão. É por isso que, quando com eço a deixar escoar parte dessa inform ação arm azenada — por exem plo, com o Steve Jobs e Steve Wozniak lançaram o com putador Apple I no Dia da Mentira, em 1976 — e a pessoa com quem estou falando com eça a ficar com o olhar perdido e procurar desculpas, eu continuo falando, enquanto Theo leria facilm ente as pistas e calaria a boca.

Ser um detetive tem tudo a ver com intuição. Ser um bom investigador de cenas do crim e, porém , requer m ais m eticulosidade e inteligência. E é por isso que, enquanto m inha m ãe fica im obilizada de pânico pelo desaparecim ento de Theo e Oliver faz coisas idiotas com o dar tapinhas no om bro dela, vou até o com putador dele.

Sou m uito bom com com putadores. Um a vez, desm ontei o laptop de m inha orientadora educacional e o m ontei de novo, placa-m ãe e tudo m ais. Provavelm ente poderia configurar um a rede sem fio até dorm indo. E esta é a outra razão de eu gostar de com putadores: quando se está falando com alguém online, não é preciso ler expressões em rostos ou interpretar tons de voz. O que se vê é o que é, e isso significa que não é preciso fazer tanto esforço para interagir. Há salas de bate-papo e fóruns para Aspergers com o eu, m as não os frequento. Um a das regras da casa é não entrar em sites que m inha m ãe não tenha exam inado. Quando eu lhe perguntei o m otivo, ela nos fez sentar j untos para assistir a um program a na televisão sobre predadores sexuais. Tentei explicar que o site que eu tinha escolhido para conversar não era desse tipo; que era só um punhado de pessoas com o eu, que tentavam se conectar sem toda essa bobagem que faz parte das reuniões cara a cara. Mas ela nem quis saber. Você não sabe como essas pessoas são, Jacob, ela m e disse. Na verdade, eu sabia. Eram as pessoas do m undo real que eu não entendia.

São só alguns poucos cliques para acessar o cache dele — em bora ele ache que esvaziou tudo, a verdade é que nada j am ais desaparece de um com putador — e ver por onde ele andou navegando ultim am ente. Orbitz.com , voos para San Jose.

Quando desço com a cópia im pressa da página que contém as inform ações da passagem que ele com prou, Oliver está tentando convencer m inha m ãe a procurar a polícia.

— Não posso — diz ela. — Eles não vão querer m e aj udar.

— Eles não podem escolher os casos...

— Mãe — interrom po.

— Jacob, agora não — diz Oliver.

— Mas...

Minha m ãe olha para m im e com eça a chorar. Vej o um a lágrim a fazer um a curva em S ao descer por seu rosto.

— Quero falar com você — digo.

— Vou pegar o telefone — avisa Oliver. — Tem os que ligar para a em ergência.

— Eu sei onde o Theo está — digo a eles.

Minha m ãe pisca.

— O quê?

— Achei no com putador dele. — E entrego a ela a página im pressa.

— Ah, m eu Deus — m inha m ãe m urm ura, levando a m ão à boca. — Ele foi atrás do Henry.

— Quem é Henry ? — pergunta Oliver.

— Meu pai — respondo. — Ele nos abandonou.

Oliver dá um passo para trás e esfrega o queixo.

— Ele vai fazer conexão em Chicago — acrescento. — O avião sai em quinze m inutos.

— Não tem os com o alcançá-lo antes que ele decole — diz Oliver. — O Henry sabe? Sobre o Jacob?

— Claro que ele sabe sobre m im . Ele envia um cheque todo ano no m eu aniversário e no Natal.

— Eu quis dizer se o Henry sabe sobre a acusação de hom icídio.

Minha m ãe olha para a linha entre as alm ofadas do sofá.

— Não sei. Talvez ele tenha lido nos j ornais, m as eu não falei nada — ela adm ite. — Não sabia com o contar.

Oliver entrega o telefone a ela.

— Agora é o m om ento de descobrir — diz ele.

Não gosto de pensar em Theo em um avião; não gosto de aviões. Entendo o princípio de Bernoulli, m as, pelo am or de Deus, sej am lá quais forem as forças físicas que estão sendo exercidas nas asas para dar sustentação, a m áquina pesa quinhentas toneladas. Para todos os efeitos, ela deveria cair do céu.

Minha m ãe pega o telefone e com eça a discar um núm ero de longa distância. Parecem as notas da m úsica-tem a de um gam e show da televisão, m as não lem bro qual.

— Meu Deus — Oliver m urm ura e olha para m im .

Não sei com o devo responder.

— Nós sempre teremos Paris — digo.

 

Quando Theo tinha oito anos, ele se convenceu de que tinha um m onstro m orando em baixo de casa. Ele achava isso porque ouvia a respiração dele todas as noites, quando o aquecedor do quarto acionava e zum bia. Eu tinha onze anos e adorava dinossauros na época, e, por m ais em polgante que fosse para m im im aginar que pudesse haver um saurópode entocado sob as fundações de nossa casa, eu sabia que isso não era possível:

 

1. Nossa casa foi construída em 1973.

2. Para construí-la, foi preciso fazer um a escavação. 3. A probabilidade de que o único dinossauro do m undo há m uito desaparecido sobrevivesse à escavação e m orasse debaixo do piso do porão era m ínim a.

4. Mesm o que ele tivesse sobrevivido, o que estaria com endo?

 

— Folhas de gram a — respondeu Theo, quando eu disse a ele tudo isso. — Dãã.

Um a das razões de eu gostar de ter Asperger é que não tenho um a im aginação fértil. Para m uitas pessoas, inclusive professores, orientadores educacionais e psicólogos, isso é m uito ruim . Para m im , é um a bênção. O pensam ento lógico evita que percam os tem po com preocupações, ou com esperanças. Evita decepções. A im aginação, por outro lado, só faz a pessoa ficar excitada por causa de coisas que nunca vão acontecer de verdade.

Com o dar de cara com um hadrossauro quando se vai ao banheiro às três da m adrugada.

Theo passou duas sem anas entrando em pânico no m eio da noite quando ouvia o zum bido do aquecedor em seu quarto. Minha m ãe tentou de tudo: de leite quente antes de dorm ir, a um diagram a ilustrado do sistem a de aquecim ento da casa, a um a dose desnecessária de Benadry l infantil à noite para nocautear Theo, m as, com o um relógio, ele com eçava a gritar no m eio da noite, corria para fora do quarto e acordava nós dois.

Aquilo j á estava ficando cansativo, francam ente, e foi por isso que fiz o que fiz.

Depois que m inha m ãe m e pôs na cam a, continuei acordado com um a lanterna escondida sob o travesseiro e fiquei lendo até perceber que ela tam bém tinha ido dorm ir. Então, peguei m eu travesseiro, m eus cobertores e o saco de dorm ir e acam pei do lado de fora do quarto de Theo. Naquela noite, quando ele acordou gritando e tentou correr para o quarto de m inha m ãe e acordá-la tam bém , acabou tropeçando em m im .

Ele ficou parado piscando por um segundo, tentando descobrir se estava sonhando.

— Volte para a cam a — eu disse. — Não tem dinossauro nenhum aqui.

Percebi que ele não acreditou em m im , então acrescentei:

— E, se tivesse, ele ia m e m atar prim eiro antes de chegar até você.

Isso funcionou. Theo voltou para a cam a e nós dois dorm im os de novo. Foi m inha m ãe que m e encontrou estendido no chão na m anhã seguinte.

Ela se apavorou. Im aginando que eu tinha tido um a crise, com eçou a m e sacudir.

— Pare, m ãe — eu disse, por fim . — Eu estou bem !

— O que você está fazendo aqui?

— Eu estava dorm indo...

— No corredor?

— Não no corredor — corrigi. — Na frente do quarto do Theo.

— Ah, Jacob. Você estava tentando fazer com que ele se sentisse seguro, não é? — Ela m e abraçou com tanta força que achei que poderia m esm o ter um a crise. — Eu sabia, eu sabia! Todos esses livros, todos esses m édicos idiotas que disseram que crianças com Asperger não usam a teoria da m ente e não podem se solidarizar com os outros... Você ama o seu irm ão. Você quis protegê-lo.

Deixei que ela m e abraçasse, porque parecia ser o que ela queria fazer. Atrás da porta do quarto do Theo, ouvi que ele com eçava a se m ovim entar.

O que m inha m ãe disse não era tecnicam ente incorreto. O que todos aqueles m édicos e livros dizem sobre com o pessoas com Asperger com o eu não podem sentir nada pelos outros é um a besteira total. Nós com preendem os quando outra pessoa está sofrendo; isso apenas nos afeta de form a diferente do que afeta outros hum anos. Vej o isso com o o próxim o passo na evolução: se não posso elim inar sua tristeza, então por que devo dem onstrar que a reconheço?

Mas eu não havia dorm ido na frente da porta do quarto do Theo porque queria protegê-lo. Eu dorm i ali porque estava exausto depois de um a sem ana de gritos no m eio da noite e só queria ter um a boa noite de sono. Estava pensando em m eu próprio interesse.

Talvez se possa dizer, na verdade, que foi por isso que fiz o que fiz no caso de Jess tam bém .