Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 5 de 121

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Um Mundo à Parte

Jacob

 

Posso ser autista, m as não sei dizer em que dia da sem ana caiu o aniversário de trinta e dois anos da sua m ãe. Não sei fazer logaritm os de cabeça. Não posso olhar para um punhado de solo e afirm ar que ele contém 6.446 folhas de gram a. Por outro lado, eu posso dizer tudo que você quiser saber sobre relâm pagos, reações em cadeia da polim erase, citações fam osas de film es e saurópodes do Cretáceo Inferior. Mem orizei a tabela periódica sem nem tentar, aprendi sozinho a ler egípcio m édio e aj udei m eu professor de cálculo a consertar o com putador dele. Poderia ficar falando eternam ente sobre detalhes de cristas de fricção em análise de im pressões digitais e se essa análise é um a arte ou um a ciência. (Por exem plo, o DNA de gêm eos idênticos é idêntico; sabem os disso com base em análise científica. Mas as im pressões digitais de gêm eos idênticos diferem em seus detalhes de Galton — que tipo de prova você preferiria ter se fosse um prom otor? Mas estou fugindo do assunto.)

Im agino que esses talentos fariam de m im um sucesso em um coquetel se (a) eu bebesse, o que não faço, ou (b) eu tivesse tido algum am igo que m e convidasse para um a festa, coquetel ou não. Minha m ãe m e explicou isso desta m aneira: im agine com o é a sensação de ver um a pessoa com um olhar intenso vir até você e com eçar a falar sobre padrões de respingos de sangue em im pactos de velocidade m édia causados por obj etos que se m ovem entre 1,5 e 7,5 m etros por segundo e com o eles diferem de respingos de im pactos de alta velocidade resultantes de tiros ou explosivos. Ou, pior ainda, im agine ser a pessoa que está falando e não perceber os sinais de quando a vítim a de sua conversa está desesperadam ente tentando escapar.

Fui diagnosticado com síndrom e de Asperger m uito antes de ela se tornar o transtorno de saúde m ental da m oda, usado em abundância por pais para descrever seus filhos m al-educados, para que as pessoas achem que eles são supergênios em vez de sim plesm ente antissociais. Para ser sincero, a m aioria dos alunos da m inha escola hoj e sabe o que é Asperger, graças a um a candidata de America’s Next Top Model. Tantas pessoas j á m e falaram dela que devem achar que tem os algum a relação. Quanto a m im , procuro não dizer a palavra em voz alta. Asperger. Não parece um corte de carne de qualidade inferior? Asno em um churrasco?

Moro com m inha m ãe e m eu irm ão, Theo. O fato de term os saído do m esm o pool de genes é um m istério para m im , porque não poderíam os ser m ais diferentes um do outro, nem se tivéssem os tentado ativam ente. Parecem os opostos totais: o cabelo dele é fino e tão loiro que poderia passar por prateado; o m eu é escuro e fica cheio dem ais se eu não o corto religiosam ente a cada três sem anas (na verdade, parte da razão de eu ir cortá-lo a cada três sem anas é que três é um núm ero bom e seguro, ao contrário de quatro, por exem plo, e a única m aneira de eu conseguir lidar com alguém tocando m eu cabelo é se souber com antecedência que isso vai acontecer). Theo é sem pre surpreendido com o que as outras pessoas pensam dele, enquanto eu j á sei o que elas pensam de m im — que sou um garoto esquisito que fica perto dem ais das pessoas e fala sem parar. Theo praticam ente só ouve rap, o que m e dá dor de cabeça. Ele anda de skate com o se as rodinhas estivessem presas na sola dos pés, e digo isso com o um elogio, porque m al consigo andar e m ascar chiclete ao m esm o tem po. Ele tem que aguentar m uita coisa, im agino. Eu fico perturbado se os planos não dão certo ou se algum a coisa m uda na m inha agenda, e às vezes sim plesm ente não consigo controlar o que acontece. Eu viro Hulk — grito, xingo, bato nas coisas. Nunca bati no Theo, m as j á j oguei coisas nele e j á quebrei alguns obj etos dele, principalm ente um violão, que m inha m ãe depois m e fez pagar em prestações por três anos seguidos. Theo tam bém é quem m ais sofre com a m inha sinceridade:

 

EXEMPLO 1

Theo entra na cozinha com o jeans tão baixo que aparece a cueca, uma camiseta tamanho GG e uma medalha estranha no pescoço. Theo: E aí?

Eu: Fala, bro, acho que você ainda não se tocou, mas nós moramos no subúrbio, não no gueto. É Dia de Homenagem ao Tupac ou algo assim?

 

Eu digo à m inha m ãe que nós não tem os nada em com um , m as ela insiste que isso vai m udar. Acho que ela é m aluca.

Não tenho nenhum am igo. O bully ing com eçou na pré-escola, quando passei a usar óculos. A professora fez um m enino popular usar óculos falsos para eu ter alguém com quem m e relacionar, m as ele não queria discutir se o arqueópterix deveria ser caracterizado com o um a ave pré-histórica ou com o um dinossauro. Nem preciso dizer que a am izade durou m enos de um dia. Agora, j á m e acostum ei com os m eninos m e dizendo para sair de perto, para sentar em outro lugar. Nunca sou convidado para nada nos fins de sem ana. Não consigo entender os sinais sociais que as outras pessoas em item . Então, se estou conversando com alguém na classe e ele diz: “Puxa, j á é um a hora?”, eu olho para o relógio e digo que sim , j á é um a hora, quando, na verdade, ele está tentando encontrar um a m aneira educada de se livrar de m im . Eu não com preendo por que as pessoas nunca dizem o que estão querendo dizer. É com o um im igrante que vem para um país e aprende a língua, m as fica com pletam ente confuso com as expressões idiom áticas. (Sério, com o alguém que não é um falante nativo pode “quebrar um galho”, por exem plo, e não im aginar que isso tenha a ver com plantas?) Para m im , estar em situações sociais, na escola, num j antar de Ação de Graças ou na fila do cinem a, é com o m e m udar para a Lituânia sem ter estudado lituano. Se alguém m e pergunta o que vou fazer no fim de sem ana, não consigo responder tão facilm ente com o Theo faria, por exem plo. Sei que vou m e atrapalhar para perceber o que seria um excesso de inform ações e por isso, em vez de dar um a descrição detalhada de m eus planos futuros, uso as palavras de algum a outra pessoa. Fazendo m eu m elhor De Niro em Taxi Driver, digo: “Está falando com igo?” Vej a só, não são apenas m eus colegas que eu entendo m al. Um a vez, m inha professora de saúde pública teve que atender um telefonem a no escritório e disse para os alunos: “Não se m ovam , nem sequer respirem ”. As crianças norm ais ignoraram a frase; alguns m ais certinhos ficaram estudando em silêncio na carteira. E eu? Fiquei sentado com o um a estátua, com os pulm ões ardendo, até quase desm aiar.

Eu tive um a am iga. O nom e dela era Alexa, e ela m udou de cidade no sétim o ano. Depois disso, decidi tratar a escola com o um estudo antropológico. Tentei cultivar um interesse por assuntos sobre os quais as crianças norm ais conversavam . Mas era um tédio:

 

EXEMPLO 2

Menina: Ei, Jacob, esse MP3 player não é o máximo? Eu: Deve ter sido feito por crianças chinesas.

Menina: Quer um gole do meu suco?

Eu: Compartilhar bebidas pode dar mononucleose. Beijar também. Menina: Vou sentar em outro lugar...

Tenho culpa de tentar anim ar um pouco as conversas com m eus colegas, falando de assuntos com o o trabalho do dr. Henry Lee no assassinato de Laci Peterson? Eu acabei desistindo de participar das conversas m undanas; acom panhar um a discussão sobre quem estava saindo com quem era tão difícil para m im quanto catalogar os rituais de acasalam ento de um a tribo nôm ade de Papua-Nova Guiné. Minha m ãe às vezes diz que eu nem tento. Eu digo que tento o tem po todo e sem pre sou rej eitado. E nem fico triste com isso, sério. Afinal, por que ia querer ser am igo de gente que trata m al pessoas com o eu?

 

Estas são algum as coisas que eu não consigo m esm o suportar:

 

1. Som de papel sendo am assado. Não sei dizer por quê, m as isso m e faz sentir com o se alguém estivesse fazendo o m esm o com todos os m eus órgãos internos.

2. Barulho dem ais ou luzes piscando.

3. Mudanças de planos.

4. Perder CrimeBusters, que passa na USA Network às quatro e m eia da tarde todos os dias, graças às m aravilhas da venda dos direitos de reexibição. Em bora eu saiba todos os cento e catorze episódios de cor, vê-los diariam ente é tão im portante para m im quanto aplicar insulina seria para um diabético. Todo o m eu dia é planej ado em torno disso e, se eu não tiver a m inha dose diária, com eço a trem er. 5. Quando m inha m ãe guarda m inhas roupas. Eu as deixo na ordem do arco-íris, VLAVAIV, e as cores não podem se tocar. Ela faz o m elhor que pode, m as, da últim a vez, esqueceu com pletam ente do índigo. 6. Se alguém dá um a m ordida na m inha com ida, eu tenho que cortar a parte em que a saliva tocou antes de continuar com endo. 7. Cabelos soltos. Eles m e dão nervoso, e é por isso que m eu cabelo é curto, no estilo m ilitar.

8. Ser tocado por alguém que não conheço.

9. Com idas com um a m em brana em volta, com o pudim ; ou com idas que explodem na boca, com o ervilhas.

10. Núm eros pares.

11. Quando as pessoas m e cham am de retardado, o que eu não sou. 12. A cor laranj a. Ela significa perigo, e a palavra em inglês, “orange”, não tem rim a perfeita, o que a torna suspeita. (Theo quer saber por que

eu tolero coisas prateadas, então, j á que “silver” tam bém não tem rim a em inglês, m as não vou nem entrar nessa discussão.)

 

Passei boa parte dos m eus dezoito anos aprendendo com o existir em um m undo que é ocasionalm ente laranj a, caótico e m uito barulhento. Entre as aulas, por exem plo, uso fones de ouvido. Antes eu usava fones bem grandes, que m e faziam parecer um controlador de tráfego aéreo, m as Theo disse que todos riam de m im quando m e viam nos corredores, então m inha m ãe m e convenceu a usar fones pequenos. Quase nunca vou à cantina, porque (a) não tem ninguém para eu sentar j unto, e (b) todas aquelas conversas cruzadas parecem facas na m inha pele. Em vez disso, fico na sala dos professores, onde, se por acaso eu m encionar que Pitágoras não descobriu de fato o teorem a de Pitágoras (os babilônios j á o usavam m ilhares de anos antes de Pitágoras ser sequer um brilho sedutor nos olhos de seus pais gregos), eles não olham para m im com o se eu fosse um m onstro de duas cabeças. Quando as coisas ficam realm ente ruins, algum a pressão aj uda — com o deitar sob um a pilha de roupa lavada ou em baixo de um cobertor com um peso em cim a (um cobertor com bolinhas de plástico no enchim ento que o tornam m ais pesado) —, porque o estím ulo sensorial de toque profundo m e acalm a. Um dos m eus terapeutas, um adm irador de Skinner, m e fez relaxar com m úsicas de Bob Marley. Quando fico perturbado, repito palavras seguidam ente e falo com um a voz m onotônica. Fecho os olhos e pergunto a m im m esm o: O que o dr. Henry Lee faria?

 

Não entro em apuros porque as regras m e m antêm são. Regras significam que o dia vai passar exatam ente do j eito com o eu prevej o que ele vai ser. Faço o que m e m andam ; só queria que todos fizessem isso tam bém .

Tem os regras em nossa casa:

 

1. Lim par a própria bagunça.

2. Falar a verdade.

3. Escovar os dentes duas vezes por dia.

4. Não se atrasar para a escola.

5. Cuidar do seu irm ão; ele é o único que você tem .

A m aioria dessas regras é natural para m im . Bem , exceto escovar os dentes, que eu detesto, e cuidar do Theo. Digam os sim plesm ente que m inha interpretação da regra núm ero cinco nem sem pre coincide com a interpretação do Theo. Vej a hoj e, por exem plo. Eu o incluí no papel de protagonista em m inha cena do crim e e ele ficou furioso. Ele foi escalado com o executor do crim e... com o pôde não ver isso com o a form a m ais alta de honraria?

 

Minha psiquiatra, dra. Moon Murano, m uitas vezes m e pede para avaliar situações que produzem ansiedade em um a escala de um a dez.

 

EXEMPLO 3

Eu: Minha mãe foi ao banco e disse que estaria de volta em quinze minutos. Quando deu dezessete minutos, comecei a entrar em pânico. Então telefonei para ela, que não atendeu o celular, e eu tive certeza de que ela estava morta em alguma vala por aí.

Dra. Moon: Em uma escala de um a dez, como isso fez você se sentir? Eu: Nove.

(Nota: Na verdade era dez, m as esse é um núm ero par, e dizê-lo em voz alta faria m eu nível de ansiedade sair dos lim ites.) Dra. Moon: Pode pensar em uma solução que talvez tivesse funcionado melhor do que telefonar para a emergência?

Eu (fazendo minha melhor expressão de Cher em Feitiço da lua): Cai na real!

 

Eu avalio m eus dias, tam bém , em bora não tenha contado isso à dra. Moon ainda. Núm eros altos são dias bons; núm eros baixos são dias ruins. E hoj e é um dia um , entre m inha briga com Theo e, depois, a ausência da Moça das Am ostras Grátis no superm ercado. (Em m inha defesa, tenho a dizer que fiz um algoritm o para prever o que ela vai servir, e talvez não tivesse ficado tão perturbado se hoj e fosse o prim eiro sábado do m ês, quando ela distribui produtos vegetarianos. Mas era um dia de sobremesa, pelo am or de Deus.) Fiquei em m eu quarto desde que chegam os em casa. Me enfiei em baixo das cobertas e pus o cobertor pesado por cim a de tudo. Coloquei “I Shot the Sheriff” no iPod para tocar repetidam ente e ouvi essa única m úsica até as quatro e m eia, quando é hora de ver CrimeBusters e tenho que ir para a sala, onde está a TV.

O episódio é o núm ero oitenta e dois, um dos m eus cinco favoritos de todos os tem pos. Envolve um caso em que um a das investigadoras do CSI, Rhianna, não aparece no trabalho. Ela foi tom ada com o refém por um hom em louco de dor pela m orte recente da esposa. Rhianna deixa pistas para o resto da equipe solucionar, a fim de levá-los até onde ela está presa.

Naturalm ente, descubro a conclusão m uito antes do resto da equipe do CSI.

A razão de eu gostar tanto do episódio é que eles, na verdade, fizeram algo errado. Rhianna é arrastada para um restaurante por seu sequestrador e deixa um cupom de sua loj a de roupas favorita sob o prato, quando term ina de com er. Os colegas o encontram e precisam provar que é realm ente dela. Eles o processam para encontrar im pressões digitais, usando um reagente de pequenas partículas, seguido por ninidrina, quando, na verdade, deve-se usar a ninidrina prim eiro. Ela reage com os am inoácidos e, depois, o reagente de pequenas partículas reage com gorduras. Se você usasse o reagente de pequenas partículas prim eiro, com o eles fizeram no episódio, isso arruinaria a superfície porosa para o procedim ento com a ninidrina. Quando identifiquei o erro, escrevi para os produtores de CrimeBusters. Eles m e enviaram um a carta de resposta e um a cam iseta oficial. A cam iseta não serve m ais em m im , m as ainda está guardada em m inha gaveta.

Depois de assistir ao episódio, m eu dia definitivam ente m elhora de um para três.

— Ei — diz m inha m ãe, aparecendo na entrada da sala. — Com o você está?

— Bem — respondo.

Ela se senta ao m eu lado no sofá, e nossas pernas se tocam . Ela é a única pessoa que suporto ter perto de m im . Se fosse qualquer outra pessoa, eu j á teria m e afastado alguns centím etros.

— Então, Jacob — diz ela. — Eu só queria lem brar que você sobreviveu ao dia sem a am ostra grátis de com ida.

É em m om entos com o esse que fico feliz por não olhar as pessoas nos olhos. Se eu olhasse, com certeza elas iam m orrer fulm inadas com o raio de desprezo saindo dos m eus olhos. É claro que eu sobrevivi. Mas a que custo?

— Mom ento para aprendizagem — m inha m ãe explica, dando um a palm adinha em m inha m ão. — Só estou falando.

— Francamente, minha querida — m urm uro —, eu não estou nem aí.

Minha m ãe suspira.

— Jantar às seis, Rhett — diz ela, em bora sej a sem pre às seis e em bora m eu nom e sej a Jacob.

Em diferentes m om entos, os m eios de com unicação diagnosticaram postum am ente algum as pessoas fam osas com Asperger. Estes são apenas alguns exem plos:

 

1. Wolfgang Am adeus Mozart

2. Albert Einstein

3. Andy Warhol

4. Jane Austen

5. Thom as Jefferson

 

Tenho noventa e nove por cento de certeza que nenhum deles teve um surto em um superm ercado e acabou quebrando um a prateleira inteira de potes de picles e condim entos.

 

O j antar acaba sendo um a situação difícil. Minha m ãe parece decidida a iniciar um a conversa, em bora nem Theo nem eu estej am os inclinados a lhe dar corda. Ela acabou de receber m ais um pacote de cartas do Burlington Free Press que, às vezes, lê em voz alta no j antar, e dam os respostas politicam ente incorretas que m inha m ãe j am ais, nem em um m ilhão de anos, escreveria em sua coluna de conselhos.

 

EXEMPLO 4

Cara Tia Em,

Minha sogra insiste em fazer rosbife toda vez que eu e meu marido vamos visitá-la, mesmo sabendo que eu sempre fui vegetariana. O que devo fazer na próxima vez em que isso acontecer?

Cozida no Vapor em South Royalton

 

Cara Cozida no Vapor,

Alfaça uma careta para ela e vá embora.

 

Às vezes as perguntas que ela recebe são m uito tristes, com o a m ulher que havia sido abandonada pelo m arido e agora não sabia com o contar aos filhos. Ou a m ãe que estava m orrendo de câncer de m am a e escreveu um a carta para sua filha, ainda bebê, ler quando crescesse, sobre com o desej ava ter podido estar presente na form atura dela na escola, em seu noivado, por ocasião do nascim ento de seu prim eiro filho. Na m aioria das vezes, porém , as perguntas vêm de um punhado de idiotas que fizeram escolhas ruins. Como faço para meu marido voltar, agora que percebo que não deveria tê-lo traído? Tente ser fiel, m inha senhora. Qual é a melhor maneira de reconquistar um amigo que a gente magoou com um comentário agressivo? Com ece por não fazer com entários agressivos, ora. Juro que às vezes não consigo acreditar que m inha m ãe é paga para dizer o óbvio.

Esta noite, ela tem um a carta de um a m enina adolescente. Sei disso porque a tinta da caneta é lilás e porque o i em Tia Em tem um coração no lugar do pingo.

— Querida Tia Em — ela lê, e, com o sem pre, im agino um a senhorinha de coque e sapatos baixos, e não m inha própria m ãe. — Gosto de um garoto que já tem namorada. Sei que ele gosta de mim pq... Meu Deus, não ensinam m ais com o escrever direito hoj e em dia?

— Não — respondo. — Ensinam a usar o corretor ortográfico.

Theo levanta os olhos do prato para grunhir na direção do suco de uva.

— Sei que ele gosta de mim porque — m inha m ãe corrige — ele me acompanha até em casa depois da escola e nós conversamos horas no telefone e ontem eu não aguentei mais e beijei ele e ele me beijou de volta... Ah, por favor, alguém arrum a um a vírgula para essa m enina. — Então ela franze a testa para a folha de papel. — Ele diz que não podemos ficar juntos mas podemos ser amigos coloridos. Acha que devo aceitar? Atenciosamente, Florzinha de Burlington. — Minha m ãe olha para m im . — O que é isso de am igos coloridos?

Olho de volta para ela com cara de quem não entendeu.

— Theo? — pergunta ela.

— É um a expressão — ele m urm ura.

— Que quer dizer o que exatam ente?

O rosto de Theo fica m uito verm elho.

— Procure no Google.

— Você não pode m e dizer?

— É quando um cara e um a m enina que não estão nam orando ficam j untos, entendeu?

Minha m ãe pensou um pouco.

— Você quer dizer... fazem sexo?

— Entre outras coisas...

— E aí o que acontece?

— Sei lá! — exclam a Theo. — Eles voltam a se ignorar, eu acho.

Minha m ãe fica boquiaberta.

— É a coisa m ais degradante que j á ouvi. Essa pobre m enina não só devia dizer a esse suj eito para ir plantar batatas, m as tam bém rasgar os quatro pneus do carro dele e... — De repente, ela fixa os olhos em Theo. — Você não tratou nenhum a m enina desse j eito, não é?

Theo vira os olhos.

— Será que você não pode ser com o as outras m ães e só m e perguntar se eu não estou fum ando m aconha?

— Você está fum ando m aconha? — ela pergunta.

— Não!

— Você tem am igas coloridas?

Theo afasta a cadeira e se levanta em um único m ovim ento ágil.

— Tenho. Milhares. Elas fazem fila na porta da frente, ou você não reparou nisso ultim am ente? — Ele põe o prato na pia e sobe a escada correndo.

Minha m ãe pega um lápis que tinha prendido no rabo de cavalo (ela sem pre usa rabo de cavalo, porque sabe com o eu m e sinto com cabelos soltos balançando sobre seus om bros) e com eça a rabiscar um a resposta.

— Jacob — diz ela —, sej a bonzinho e lim pe a m esa para m im , pode ser?

E lá se vai m inha m ãe, defensora dos confusos, decana dos sem -noção. Salvando o m undo um a letra por vez. Eu m e pergunto o que todos esses leitores devotos pensariam se soubessem que a verdadeira Tia Em tem um filho que é praticam ente um sociopata e outro que é um desaj ustado social.

Eu gostaria de ter um a am iga colorida, em bora sej a algo que eu nunca adm itiria para m inha m ãe.

Eu gostaria de ter um am igo, ponto.

 

No m eu aniversário no ano passado, m inha m ãe m e com prou o presente m ais incrível de todos os tem pos: um rádio scanner de polícia. Ele funciona recebendo frequências que rádios com uns não conseguem captar — frequências atribuídas pelo governo federal na faixa de VHF e UHF, acim a das estações de FM, e que são usadas pela polícia, bom beiros e equipes de resgate. Sem pre sei quando a patrulha rodoviária está enviando cam inhões para j ogar sal e areia nas pistas em dias de neve antes de eles chegarem ao local; recebo alertas especiais de clim a quando um a tem pestade está se aproxim ando. Mas, principalm ente, ouço os cham ados da polícia e do serviço de em ergências, porque, m esm o em um lugar pequeno com o Townsend, acontece um a cena de crim e de vez em quando.

Só do Dia de Ação de Graças para cá, j á fui a duas cenas de crim es. A prim eira era um arrom bam ento em um a j oalheria. Fui de bicicleta até o endereço que ouvi no scanner e encontrei vários policiais vasculhando a loj a em busca de pistas. Foi a prim eira vez em que vi cera em spray ser usada para fazer o m olde de um a pegada na neve, o que foi verdadeiram ente um ponto alto. A segunda cena do crim e não era de fato um a cena de crim e. Era a casa de um garoto que estuda na m inha escola e é um im becil com igo. A m ãe dele tinha ligado para a em ergência, m as, quando chegaram lá, ela estava de pé na porta da frente, com o nariz ainda sangrando, dizendo que não queria registrar queixa contra seu m arido.

Esta noite, m al acabei de vestir o pij am a quando ouço um código no scanner diferente de qualquer outro que j á ouvi, e j á ouvi m uitos:

 

10—52 NECESSIDADE DE AMBULÂNCIA.

10—50 ACIDENTE COM VEÍCULO MOTORIZADO.

10—13 CIVIS PRESENTES E ESCUTANDO.

10—40 ALARME FALSO, LOCAL SEGURO.

10—54 ANIMAL NA PISTA.

 

Neste m om ento, porém , o que ouço é isto:

 

10—100

 

Que significa Corpo encontrado.

Acho que nunca m e vesti tão rápido na vida. Pego um caderno usado, porque não quero perder tem po procurando um novo; anoto o endereço que é m encionado repetidam ente no scanner. Depois desço as escadas na ponta dos pés. Com algum a sorte, m inha m ãe j á deve estar dorm indo e nem vai saber que eu saí.

Está um frio cortante aqui fora e tem uns cinco centím etros de neve no chão. Estou tão excitado por causa da cena do crim e que saí de tênis em vez de botas. As rodas da m inha m ountain bike deslizam toda vez que faço um a curva.

O endereço é um a rodovia estadual, e sei que cheguei ao lugar certo porque tem quatro carros de polícia com as luzes azuis piscando. Tem um a estaca de m adeira com um a fita da polícia (am arela, não laranj a) flutuando ao vento e um a trilha visível de pegadas. Um carro abandonado, um Pontiac, está no acostam ento da estrada, coberto de gelo e neve.

Pego m eu caderno e escrevo: “Veículo abandonado há pelo m enos doze horas, antes da tem pestade”.

Eu m e agacho entre as m oitas quando outro carro de polícia chega. Ele não tem nenhum a m arca e é com um , exceto pelo lum inoso preso m agneticam ente em cim a. O hom em que sai dele é alto e ruivo. Está usando um sobretudo preto e botas pesadas. Em um a das m ãos, tem um band-aid de Dora, a Aventureira.

Anoto isso em m eu caderno tam bém .

— Capitão — diz um dos policiais, aparecendo entre as árvores. Ele está de uniform e, com luvas e botas pesadas tam bém . — Desculpe por ter cham ado o senhor.

O capitão sacode a cabeça.

— O que tem os aqui?

— Um rapaz saiu para correr e encontrou um corpo no m ato. O cara está sem inu e cheio de sangue.

— Que m aluco sai para correr à noite, em pleno inverno?

Eu os sigo para dentro do m ato, com cuidado para ficar no escuro. Há holofotes ilum inando a área em volta do corpo, para que todas as pistas possam ser coletadas.

O m orto está de costas. Com os olhos abertos. Suas calças estão abaixadas em volta dos tornozelos, m as ele está de cueca. Há sangue nos nós dos dedos de suas m ãos, assim com o na parte inferior das palm as, nos j oelhos e panturrilhas. O casaco está aberto, e um pé está sem sapato e sem m eia. Ao redor dele, a neve está tingida de cor-de-rosa.

— Caram ba — diz o capitão, aj oelhando-se e vestindo um par de luvas de borracha que tirou do bolso. Então exam ina o corpo com m uita atenção.

Ouço os passos de m ais duas pessoas, e outro hom em aparece no m eio da luzes, escoltado por um policial uniform izado. O policial uniform izado olha para o m orto, fica totalm ente pálido e vom ita.

— Meu Deus! — o outro diz.

— E aí, chefe — o capitão o cum prim enta.

— Suicídio ou hom icídio?

— Não sei ainda. Mas parece que foi violentado.

— Rich, o cara está coberto de sangue da cabeça aos pés e está deitado aqui só de cueca. Você acha que ele foi violentado e depois com eteu haraquiri? — O chefe de polícia faz um som de desdém . — Sei que não tenho sua vasta experiência de detetive depois de quinze anos de trabalho na m etrópole de Townsend, m as...

Olho para m inhas anotações no caderno. O que o dr. Henry Lee faria? Bem , ele exam inaria os ferim entos com atenção. Analisaria por que havia apenas sangue superficial, aquelas m anchas por contato rosadas na neve, sem nenhum respingo ou borrifo. Repararia nas pegadas na neve: um par de pegadas que com bina com o único tênis que a vítim a usava, e outro, que foi identificado com o sendo do rapaz que encontrou o corpo. Perguntaria por que, depois de violentado, a vítim a ainda estaria de cueca, se as outras peças de roupa continuavam largadas.

Tenho tanto frio que estou trem endo. Bato os pés, congelados dentro dos tênis. Então olho para o chão e, de repente, tudo fica perfeitam ente claro.

— Na verdade — digo, saindo de m eu esconderij o — os dois estão errados.