Um Mundo à Parte
Emma
Não sei o que esperar quando entro no quarto de Jacob na m anhã seguinte. Ele dorm iu a noite toda — eu chequei de hora em hora —, m as sei, por experiências passadas, que ele não será expressivo até que esses neurotransm issores parem de correr sem controle por sua corrente sanguínea.
Liguei para Jess duas vezes, em seu celular e no fixo da nova residência, m as só obtive caixa postal. Mandei um e-m ail para ela, pedindo que m e contasse o que aconteceu na sessão de ontem , se houve algo fora do habitual. Mas, enquanto não recebo algum a notícia dela, tenho que lidar com Jacob.
Quando espio, às seis horas da m anhã, ele não está m ais dorm indo. Está sentado na cam a com as m ãos no colo, olhando fixo para a parede em frente.
— Jacob? — digo, hesitante. — Querido? — Chego m ais perto e o sacudo com delicadeza.
Jacob continua olhando fixam ente para a parede, em silêncio. Balanço a m ão diante de seu rosto, m as ele não reage.
— Jacob! — Seguro seus om bros e o sacudo. Ele cai para o lado e fica im óvel, na posição em que caiu.
O pânico com eça a subir pela m inha garganta.
— Fale com igo — peço. Penso em catatonia. Penso em esquizofrenia. Penso em todos os lugares perdidos para onde Jacob poderia deslizar em sua própria m ente e não voltar m ais.
Subo na cam a com um a perna de cada lado de seu grande corpo e bato-lhe no rosto com força suficiente para deixar a m arca verm elha de m eus dedos ali, m as ainda assim ele não reage.
— Não — digo, com eçando a chorar. — Não faça isso com igo.
Ouço um a voz na porta.
— O que aconteceu? — Theo pergunta, com a expressão ainda confusa de sono e o cabelo levantado com o espinhos de ouriço.
Nesse instante, percebo que Theo talvez possa ser m eu salvador.
— Diga algum a coisa que possa irritar seu irm ão — ordeno.
Ele m e olha com o se eu estivesse louca.
— Tem algo errado com ele — explico, m inha voz falhando. — Só quero que ele volte. Eu preciso fazê-lo voltar.
Theo olha para o corpo largado de Jacob, seus olhos vazios, e percebo que fica apavorado.
— Mas...
— Faça isso, Theo — digo.
Acho que é o trem or em m inha voz, e não a ordem , que o faz concordar. Hesitante, Theo se inclina para perto de Jacob.
— Acorde!
— Theo — suspiro. Nós dois sabem os que ele está se controlando.
— Você vai chegar atrasado na escola — ele diz.
Observo atentam ente, m as não há sinal de entendim ento nos olhos de Jacob.
— Vou entrar no banho prim eiro — Theo acrescenta. — E depois vou m isturar todas as roupas no seu arm ário.
Com o Jacob continua em silêncio, a raiva que Theo costum a m anter escondida o arrebata com o um tsunam i.
— Seu m aluco! — ele grita, tão alto que os cabelos de Jacob se agitam com a força de sua respiração. — Maldito m aluco idiota!
Jacob nem pisca.
— Por que você não pode ser norm al? — Theo grita, batendo no peito do irm ão. Ele bate de novo, m ais forte desta vez. — Só quero que você sej a norm al! — ele continua a gritar, e percebo as lágrim as descendo pelo seu rosto. Por um m om ento, ficam os presos naquele inferno, com Jacob inerte entre nós.
— Pegue o telefone — digo, e Theo sai correndo pela porta.
Quando desabo ao lado de Jacob, o peso de seu corpo oscila sobre m im . Theo reaparece com o telefone e ligo para o pager da psiquiatra de Jacob, dra. Murano. Ela retorna a ligação em trinta segundos, com a voz ainda rouca de sono.
— Em m a — diz ela. — O que foi?
Explico o surto de Jacob na noite passada e sua catatonia esta m anhã.
— E você não sabe o que desencadeou isso? — ela pergunta.
— Não. Ele teve um a sessão com a instrutora de habilidades sociais ontem . — Olho para Jacob, e ele tem um a linha de saliva escorrendo pelo canto da boca. — Telefonei para ela, m as ainda não tive retorno da ligação.
— Ele parece estar com algum a dor física?
Não, penso. Essa seria eu.
— Não sei... Acho que não.
— Está respirando?
— Sim .
— Ele sabe quem você é?
— Não — adm ito, e isso é o que realm ente m e apavora. Se ele não sabe quem eu sou, com o posso aj udá-lo a lem brar quem ele é?
— Confira os batim entos cardíacos e a respiração.
Largo o telefone, olho para o relógio de pulso e faço um a contagem .
— Noventa de pulsação e vinte de frequência respiratória.
— Em m a — a m édica diz —, estou a um a hora de distância. Acho que você precisa levar o Jacob ao pronto-socorro.
Eu sei o que vai acontecer nesse caso. Se Jacob não conseguir acordar, será internado na ala psiquiátrica do hospital.
Desligo e aj oelho na frente de Jacob.
— Meu querido, só m e dê um sinal. Só m e m ostre que está aí.
Jacob nem pisca.
Enxugando os olhos, vou para o quarto de Theo. Ele se entrincheirou lá dentro. Tenho que bater forte na porta para que ele m e ouça por sobre as batidas da m úsica. Quando ele finalm ente abre, está com os olhos verm elhos e a boca tensa.
— Preciso de aj uda para carregar seu irm ão — digo sim plesm ente, e desta vez Theo não reclam a. Juntos, tentam os puxar o grande corpo de Jacob para fora da cam a, para o andar de baixo e para o carro. Eu pego os braços; Theo segura as pernas. Arrastam os, em purram os, puxam os. Quando chegam os à porta de entrada, estou m olhada de suor e as pernas de Theo estão m achucadas das duas vezes em que ele tropeçou sob o peso de Jacob.
— Vou abrir a porta do carro — Theo diz, e corre pela frente da casa, com as m eias rangendo levem ente na neve.
Juntos, conseguim os pôr Jacob no carro. Ele não faz nenhum barulho, nem quando seus pés descalços tocam o chão gelado. Nós o colocam os no banco de trás, a cabeça prim eiro, e então faço força para levantá-lo até que fique sentado, e praticam ente subo em seu colo para prender o cinto de segurança. Com a cabeça pressionada no peito de Jacob, ouço o clique do fecho de m etal.
— Aquiiiiiii está Johnny.
As palavras não são dele. São de Jack Nicholson, em O iluminado. Mas a voz é dele, sua voz bela, instável e áspera.
— Jacob? — Seguro o rosto dele entre as m ãos.
Ele não está olhando para m im , m as, enfim , ele nunca olha para m im .
— Mãe — diz Jacob —, m eus pés estão m uito frios.
Com eço a chorar e o abraço com força.
— Ah, m eu am or. Vam os cuidar disso agora m esm o.