Um Mundo à Parte
Oliver
O que eu sei é isto:
Antes de fazerm os esse últim o intervalo de descanso sensorial, Jacob estava um a pilha de nervos.
Agora que estam os de volta à sessão, Em m a está no banco das testem unhas e ela é um a pilha de nervos.
Depois de term os passado pelas perguntas básicas sobre sua identidade e sua relação com Jacob, cam inho até o banco das testem unhas e finj o ter deixado cair m inha caneta. Quando m e inclino para pegá-la, digo a ela:
— Respire.
O que pode ter acontecido nos quinze m inutos que eles ficaram fora?
— Qual sua ocupação, sra. Hunt?
Ela não responde, apenas fica olhando para o colo.
— Sra. Hunt?
Em m a levanta a cabeça.
— Poderia repetir a pergunta?
Foco, querida, penso.
— Seu trabalho. O que a senhora faz?
— Eu escrevia um a coluna de conselhos em um j ornal — ela diz baixinho. — Eles pediram que eu tirasse um a licença depois da prisão do Jacob.
— Com o entrou nesse tipo de trabalho?
— Por desespero. Eu era um a m ãe sozinha com um filho recém -nascido e outro de três anos que de repente com eçou a apresentar com portam entos autistas. — Conform e ela fala, sua voz fica m ais alta e pega ritm o. — Havia terapeutas entrando e saindo da m inha casa o dia inteiro para tentar im pedir que o Jacob escapasse com pletam ente de m im . Eu tinha que arrum ar trabalho, m as não podia sair de casa.
— Com o aconteceu o diagnóstico do Jacob?
— Ele era um bebê perfeitam ente saudável e feliz — diz Em m a, e olha para Jacob. Por um m om ento, ela não consegue falar e sacode a cabeça. — Nós lhe dem os as vacinas e, no prazo de um a sem ana, esse m enino afetuoso, interativo e falante deixou de ser a criança que eu conhecia. De repente, estava deitado de lado no chão, girando as rodas de seus cam inhõezinhos de brinquedo em vez de fazê-los andar pela sala.
— O que a senhora fez?
— Tudo — responde Em m a. — Pus o Jacob em análise do com portam ento aplicada, terapia ocupacional, fisioterapia, fonoaudiologia. Estabeleci um a dieta sem glúten e sem caseína. Dei a ele todo um exército de vitam inas e suplem entos que haviam apresentado bons resultados para outros pais de crianças autistas.
— E funcionou?
— Em algum a m edida. O Jacob passou a não se isolar m ais. Passou a funcionar no m undo, m as com lim itações. Por fim , seu diagnóstico m udou de um transtorno no espectro geral do autism o para transtorno global do desenvolvim ento e depois para Asperger.
— Há lados positivos nesse diagnóstico?
— Sim — diz Em m a. — O Jacob tem um senso de hum or obj etivo que é incrível. É a pessoa m ais inteligente que j á conheci. E, se eu quiser que alguém m e faça com panhia quando tenho que resolver algum a coisa fora de casa, ou esvaziar a lavadora de louças, ou sim plesm ente dar um a cam inhada, ele logo se oferece. Ele faz qualquer coisa que eu lhe pedir. E tam bém não faz o que eu lhe pedir para não fazer. Provavelm ente sou a única m ãe que nunca precisou se preocupar se o filho está usando drogas ou consum indo bebidas alcoólicas antes da idade.
— Mas deve haver m om entos em que é difícil para a senhora, com o m ãe.
— Todas as coisas que eu citei, que fazem do Jacob um m enino perfeito, bem , são tam bém as coisas que o fazem diferente da média dos garotos. Toda a sua vida, o Jacob quis se encaixar com os colegas e, toda a sua vida, eu o vi sofrer gozações ou ser rej eitado. Não dá para im aginar o que é forçar um sorriso quando seu filho ganha um a m edalha na festa de encerram ento da equipe de beisebol infantil por ter sido o que foi acertado m ais vezes por lançam entos. É preciso fechar os olhos quando eu o deixo na escola e ele sai do carro usando um grande par de fones de ouvido para bloquear o barulho dos corredores cheios de gente e, enquanto ele se afasta, vej o outros garotos rindo pelas suas costas.
— Se eu chegasse à sua casa em um a terça-feira — digo —, em que repararia?
— Na com ida. Se for terça-feira, a com ida tem que ser verm elha. Fram boesas, m orangos e sopa de tom ate. Atum para sushi. Fatias finas de rosbife m alpassado. Beterraba. Se não for verm elho, o Jacob fica m uito agitado e, às vezes, vai para o quarto e para de falar conosco. Há um a cor para cada dia da sem ana, para com idas e para roupas. No arm ário dele, as roupas estão penduradas pela ordem das cores do arco-íris, e cores diferentes não podem se tocar. — Ela vira para os j urados, com o havíam os com binado. — O Jacob valoriza m uito a rotina. Ele se levanta às seis e m eia todas as m anhãs, sej a dia de escola ou fim de sem ana, e sabe exatam ente a hora em que tem que sair para ir à escola e a hora em que vai estar de volta. Jam ais perde um episódio de CrimeBusters, que passa na USA Network às quatro e m eia da tarde todos os dias. Ele faz anotações em seus diários enquanto está assistindo, ainda que j á tenha visto o m esm o episódio um a dúzia de vezes. Sem pre coloca a escova de dentes do lado esquerdo da pia quando term ina de usá-la e senta no banco atrás do m otorista no carro, m esm o quando é o único passageiro.
— O que acontece quando a rotina do Jacob é alterada?
— Isso é m uito perturbador para ele — responde Em m a.
— Poderia explicar?
— Quando era pequeno, ele gritava ou tinha um acesso de raiva. Agora, é m ais provável que se recolha em si m esm o. A m elhor m aneira de explicar isso é que a gente olha direto para Jacob e ele parece não estar ali.
— A senhora tem outro filho, não é?
— Sim . O Theo tem quinze anos.
— O Theo tem Asperger?
— Não.
— As roupas do Theo são arrum adas na ordem das cores do arco-íris?
Ela sacode a cabeça.
— Na m aior parte das vezes, as roupas dele estão am ontoadas num a pilha, no chão do quarto.
— Ele só com e com ida verm elha nas terças-feiras?
— Ele com e qualquer coisa que puder levar à boca — diz Em m a, e algum as das m ulheres no j úri riem .
— E há vezes em que o Theo não quer conversar com você?
— Claro. Ele é um adolescente com o qualquer outro.
— Há algum a diferença entre o m odo com o o Theo evita o contato e o m odo com o o Jacob faz isso?
— Sim — diz Em m a. — Quando o Theo não se com unica com igo, é porque não quer. Quando o Jacob não se com unica com igo, é porque não consegue.
— A senhora tom ou providências para aj udar o Jacob a se adaptar m elhor a situações sociais?
— Sim — responde Em m a. Ela faz um a pausa e pigarreia. — Contratei um a orientadora particular para aj udá-lo a praticar essas habilidades. Jess Ogilvy.
— O Jacob gostava da Jess?
Os olhos de Em m a se enchem de lágrim as.
— Sim .
— Com o a senhora sabe?
— Ele se sentia à vontade com ela, e não há m uitas pessoas com quem ele se sinta à vontade. Ela o aj udou a fazer... ela o aj udou a fazer coisas que ele não faria norm alm ente... — Em m a para e cobre o rosto com as m ãos.
Que porra é essa?
— Sra. Hunt — digo —, obrigado. Sem m ais...
— Espere — ela interrom pe. — Eu... eu não term inei.
Isso é novidade para m im . Sacudo a cabeça só um pouquinho, m as Em m a está olhando fixam ente para Jacob.
— Eu só... queria dizer que... — Ela olha para o j úri. — O Jacob m e disse que não queria que ela m orresse, que não foi culpa dele...
Arregalo os olhos. Esse é um território inexplorado, um terreno perigoso.
— Protesto — exclam o. — Testem unho indireto!
— O senhor não pode protestar contra sua própria testem unha — diz Helen, exultante.
Mas tam bém não preciso dar à m inha própria testem unha corda para se enforcar, e ao resto de nós tam bém .
— Então eu acabei — digo, sentando-m e ao lado de Jacob, de repente com m edo de que não estej a acabado só para m im .