Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 106 de 121

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Um Mundo à Parte

Emma

 

O espaço debaixo do cobertor parece ter um batim ento cardíaco. No escuro, encontro a m ão de Jacob e a aperto.

— Querido — digo —, precisam os ir.

Ele se vira para m im . Na escuridão, vej o o reflexo de seus olhos.

— Eu não perdi o controle com a Jess — ele m urm ura.

— Podem os conversar sobre isso m ais tarde...

— Eu não a m achuquei — diz Jacob.

Paro e fico olhando para ele. Quero acreditar. Ah, m eu Deus, com o quero acreditar. Mas então im agino aquela colcha feita à m ão enrolada no corpo de um a garota m orta.

— Eu não queria m achucá-la — Jacob corrige.

Ninguém olha no rosto de um filho recém -nascido e im agina tudo o que vai dar errado na vida dele. Em vez disso, vem os apenas as possibilidades: seu prim eiro sorriso, seus prim eiros passos, a form atura, o baile de casam ento, seu rosto quando estiver segurando seu próprio bebê. Com Jacob, eu estava constantem ente revisando os m arcos de desenvolvim ento: quando ele m e olha voluntariam ente nos olhos, quando consegue aceitar um a m udança de planos sem que seu m undo desabe, quando veste um a cam isa sem cortar m eticulosam ente a etiqueta atrás. Não se am a um filho pelo que ele faz ou deixa de fazer; se am a pelo que ele é.

E, m esm o que ele sej a um assassino, por prem editação ou acidente, ainda é m eu filho.

 

— Não se conectar com as outras pessoas — diz Helen Sharp. — Ser o centro do próprio universo. Autopreservação é a única regra inviolável. Acessos de irritação e problem as de controle da raiva... Parece-m e, dra. Murano, que Asperger é o novo nom e dado para egoísmo.

— Não. Não é falta de vontade de levar em consideração os sentim entos de outra pessoa. É incapacidade de fazer isso.

— No entanto, esse é um diagnóstico relativam ente novo, não?

— Apareceu pela prim eira vez no m anual DSM-IV em 1994, m as não era de form a algum a novo. Havia m uitas pessoas com Asperger antes disso que sim plesm ente não tinham esse diagnóstico.

— Por exem plo?

— Steven Spielberg, o diretor. John Elder Robison, o escritor. Satoshi Taj iri, criador do fenôm eno Pokém on. Peter Tork, da banda The Monkees. Todos foram diagnosticados form alm ente com Asperger depois de adultos.

— E todos eles são extrem am ente bem -sucedidos, não é? — Helen pergunta.

— É o que parece.

— Levaram um a vida m uito produtiva interagindo com outras pessoas?

— Im agino que sim .

— A senhora acha que algum deles tem problem as para se relacionar socialm ente com os outros?

— Sim , eu acho.

— Acha que algum deles pode ter tido m om entos em que foram hostilizados ou se sentiram m arginalizados?

— Eu não sei, sra. Sharp.

— É m esm o? A senhora j á viu o antigo corte de cabelo de Peter Tork? Aposto um braço que sim , eles foram hostilizados. No entanto, nenhum desses hom ens com Asperger está em j ulgam ento por hom icídio, está?

— Não. Com o eu disse, não há um a ligação causal entre Asperger e violência.

— Se o Asperger não torna alguém violento, com o essa pode ser um a desculpa para um a pessoa com o Jacob com eter um pavoroso ato de violência?

— Protesto! — diz Oliver. — Isso é prej ulgam ento.

— Deferido — o j uiz responde.

A prom otora dá de om bros.

— Eu retiro. Dra. Murano, com o a senhora form alizou seu diagnóstico do Asperger de Jacob?

— Solicitei um teste de QI e um a avaliação de capacidades adaptativas, para ver com o Jacob lidava com certas situações sociais. Fiz entrevistas com Em m a Hunt e com os professores dele, para ter um a ideia do histórico de com portam ento de Jacob. O Asperger não aparece da noite para o dia. Vi vídeos dele antes dos dois anos de idade, quando ainda estava alcançando os m arcos de desenvolvim ento de crianças neurotípicas e, depois, o declínio subsequente em com portam ento e conexões interpessoais. E o observei durante várias sessões, tanto no m eu consultório com o na escola dele, e em am bientes sociais.

— Não existe um exam e de sangue, ou algum outro teste científico, que possa ser feito para verificar se um a criança tem Asperger, existe?

— Não. O diagnóstico se baseia na observação de com portam entos e interesses repetitivos e em um a falta de interação social que prej udica o funcionam ento cotidiano, sem um atraso significativo na linguagem .

— Então... é um j ulgam ento pessoal?

— Sim — diz a dra. Murano. — Um j ulgam ento inform ado.

— Se Jacob tivesse consultado outro psiquiatra, não é possível que ele houvesse determ inado que Jacob não tem Asperger?

— Duvido m uito. O diagnóstico m ais frequentem ente confundido com Asperger é o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade e, quando se põe um a criança com Asperger sob m edicação para TDAH, ela não responde ao tratam ento. Com frequência fica claro que o diagnóstico precisa ser revisto.

— Portanto, os critérios que a senhora usou para diagnosticar Jacob foram a incapacidade dele de se com unicar com outras pessoas, a dificuldade para interpretar pistas sociais, o desej o de rotina e estruturação e a fixação por determ inados assuntos?

— Sim , basicam ente isso — responde a psiquiatra.

— Digam os que eu tenha um filho de sete anos com pletam ente obcecado por Power Rangers, que tom e leite com biscoito todas as noites antes de dorm ir, que não sej a m uito bom em m e contar o que acontece na escola no dia a dia ou em dividir seus brinquedos com o irm ão m ais novo. Meu filho de sete anos tem Asperger?

— Não necessariam ente. Vam os supor que tenham os duas crianças de três anos em um a caixa de areia. Um a diz: “Olha o m eu cam inhão”. A outra responde: “Eu tenho um a boneca”. Trata-se de brincadeira paralela, norm al nessa idade. Mas, se estudarm os essas m esm as duas crianças aos oito anos e um a disser: “Olha o m eu cam inhão”, a resposta apropriada é algo com o “Que legal” ou “Posso brincar com ele?”, ou algum a outra frase que dê continuidade à interação com a criança que iniciou a conversa. No entanto, um a criança com Asperger poderia continuar dizendo em resposta: “Eu tenho um a boneca”. Quando o coleguinha levantar e for em bora, a criança com Asperger não vai entender a razão. Na cabeça dela, ela respondeu à frase inicial e continuou a conversa. Ela não com preende que o que disse não foi um a resposta válida.

— Ou — diz Helen Sharp — a criança com a boneca poderia apenas ser excessivam ente autocentrada, certo?

— Com Asperger, é o que frequentem ente acontece.

— Mas, sem Asperger, acontece ocasionalm ente tam bém . Meu argum ento, doutora, é que o diagnóstico que a senhora faz e as ideias que tem sobre o Jacob não se baseiam em nada além de sua própria opinião. A senhora não está se apoiando em um a análise toxicológica, ou em ondas cerebrais...

— Há vários transtornos psiquiátricos em que a observação clínica é o único m étodo de diagnóstico, sra. Sharp. Este é um deles. E qualquer psiquiatra neste país lhe dirá que a síndrom e de Asperger é um transtorno válido. Pode ser difícil descrever em term os concretos, m as, quando vem os, sabem os o que é.

— Só para deixar claro, a senhora acha que a síndrom e de Asperger afetou o com portam ento do Jacob no dia em que Jess Ogilvy foi assassinada.

— Sim .

— Porque o Jacob não sabe lidar bem com situações sociais. E porque não dem onstra em patia. E a frustração dele às vezes leva a problem as de controle da raiva.

— Sim — a dra. Murano responde.

— Que são traços encontrados em alguém com Asperger.

— Correto.

— Que coincidência — diz a prom otora, cruzando os braços. — Esses traços tam bém são encontrados em assassinos cruéis.

 

Um a vez, Jacob m e disse que podia ouvir plantas m orrendo. Elas gritam, ele disse. Achei que isso certam ente era ridículo, até que conversei com a dra. Murano a respeito. Pessoas com Asperger, ela explicou, têm sensações que não podem os sequer im aginar. Sons e visões que nós conseguim os filtrar estão constantem ente bom bardeando o cérebro delas, e é por isso que, às vezes, parece que elas estão isoladas em seu próprio m undinho. Mas não estão, disse ela. Elas estão no nosso m undo, porém m ais sintonizadas nele do que nós j am ais estarem os.

Fui para casa naquele dia e procurei sobre m orte de plantas na internet. Descobri que plantas sob estresse em item gás etileno e que cientistas na Alem anha criaram um aparelho que m ede a energia dessas m oléculas com o vibrações — ou sons.

Agora eu m e pergunto se não acaba se tornando cansativo ser testem unha do últim o suspiro da natureza. Se não são apenas plantas que m eu filho ouve, m as tam bém o ranger de dentes de um oceano bravio. Um nascer do sol tím ido. Um coração partido.