Um Mundo à Parte
Emma
No cam inho da escola para casa, seguro o volante com tanta força que m inhas m ãos trem em . De tem pos em tem pos, olho para Jacob pelo espelho retrovisor. Ele parece igualzinho a com o estava hoj e cedo: a cam iseta verde-clara, o cinto de segurança firm em ente preso sobre o peito, o cabelo escuro caindo nos olhos. Não apresenta m ovim entos repetitivos, não está retraído nem exibe qualquer sinal típico de com portam ento que dá o alerta para o fato de algo o estar incom odando. Isso significa que ele não teve nada a ver com a m orte de Jess? Ou teve, m as isso sim plesm ente não o afeta da m aneira com o afetaria outra pessoa?
Theo está falando sobre m atem ática; um problem a que ele solucionou e ninguém m ais na classe tinha conseguido entender. Não estou absorvendo nem um a palavra.
— O Jacob e eu tem os que dar um a passada na delegacia — digo, controlando a voz para ser o m ais natural possível. — Então, Theo, vou deixá-lo em casa prim eiro.
— Para quê? — Jacob pergunta. — O detetive j á tem os resultados sobre a m ochila?
— Ele não disse.
Theo olha para m im .
— Mãe, tem algum a coisa acontecendo?
Por um m om ento, tenho vontade de rir: tenho um filho que não consegue m e ler de j eito nenhum e outro que m e lê bem até dem ais. Não respondo enquanto paro o carro em frente à nossa caixa de correio.
— Theo, pegue a correspondência e entre. Volto assim que puder.
Eu o deixo parado no m eio da calçada e saio com Jacob.
Mas, em vez de ir para a delegacia, paro no estacionam ento de um conj unto de loj as.
— Vam os com er algum a coisa? — Jacob pergunta. — Estou m orrendo de fom e.
— Talvez m ais tarde. — Saio do banco do m otorista e m e sento ao lado dele no banco de trás. — Quero te contar um a coisa. Um a notícia m uito ruim .
— Com o quando o vovô m orreu.
— É, m ais ou m enos isso. Você sabe que a Jess está desaparecida há um tem po e por isso vocês não puderam se encontrar no dom ingo, certo? A polícia achou o corpo. Ela está m orta. — Eu o observo com atenção enquanto falo, pronta para um pestanej ar dos olhos ou um trem or da m ão que eu possa ler com o um sinal. Mas Jacob, com pletam ente im passível, só olha para o encosto do banco à sua frente.
— Está bem — ele diz após um m om ento.
— Você tem algum a pergunta?
Jacob faz que sim com a cabeça.
— Podem os com er algum a coisa agora?
Olho para m eu filho e vej o um m onstro. Só não tenho certeza se esse é seu rosto verdadeiro ou se é um a m áscara feita de Asperger.
Sinceram ente, nem sei se isso im porta.
Quando chego à delegacia com Jacob, m eus nervos estão tão tensos quanto as cordas de um violino. Eu m e sinto um a traidora, trazendo m eu próprio filho para o detetive Matson, m as havia outro j eito? Um a j ovem está m orta. Eu não poderia viver com igo m esm a, carregando esse segredo, se não prestasse contas do envolvim ento de Jacob.
Antes m esm o de eu pedir para cham á-lo, o detetive entra na recepção da delegacia.
— Jacob — cum prim enta ele e, então, vira-se para m im . — Em m a. Obrigado por trazê-lo.
Não tenho nada para dizer. Em vez disso, só desvio o olhar.
Com o Jacob.
O detetive pousa a m ão em m eu om bro.
— Sei que isso não é fácil... m as foi a coisa certa.
— Então por que não parece ser? — m urm uro.
— Confie em m im — diz Matson.
E porque eu quero, porque eu preciso que outra pessoa assum a a direção por apenas um m om ento enquanto tento respirar, faço um sinal afirm ativo com a cabeça.
Ele vira para Jacob.
— A razão de eu ter pedido para sua m ãe trazê-lo — diz Matson — é que quero conversar com você. Seria m uito bom ter sua aj uda em alguns casos.
Minha boca se abre de espanto. Isso é um a com pleta m entira.
Previsivelm ente, Jacob se enche de orgulho.
— Acho que tenho algum tem po para isso.
— Ótim o — Matson responde —, porque estam os em pacados. Tem os alguns casos arquivados, e alguns casos pendentes tam bém , que nos deixaram num beco sem saída. Depois de ter visto você chegar àquelas conclusões sobre o hom em hipotérm ico, sei que é incrivelm ente entendido em crim inologia forense.
— Tento m e m anter atualizado — diz Jacob. — Assino três periódicos.
— É m esm o? Im pressionante. — Matson abre a porta que leva para os fundos da delegacia. — Por que não vam os para algum lugar m ais reservado?
Usar o am or de Jacob pela investigação policial para induzi-lo a dar um a declaração sobre a m orte de Jess é com o m ostrar um a seringa de heroína para um viciado. Estou furiosa com Matson por ser tão traiçoeiro; estou furiosa com igo m esm a por não ter percebido que ele teria suas próprias prioridades, com o eu tive as m inhas.
Verm elha de raiva, cruzo a porta para segui-los, m as sou im pedida pelo detetive.
— Na verdade, Em m a — diz ele —, você vai ter que esperar aqui.
— Eu preciso ir j unto. Ele não vai entender suas perguntas.
— Legalm ente, ele j á é adulto. — Matson sorri, m as o sorriso não chega aos seus olhos.
— Por favor, m ãe — Jacob intervém , com a voz cheia de im portância. — Está tudo bem .
O detetive olha para m im .
— Você é guardiã legal dele?
— Eu sou mãe dele.
— Não é a m esm a coisa — Matson diz. — Sinto m uito.
Pelo quê?, eu m e pergunto. Por induzir Jacob a acreditar que estão do m esm o lado? Ou por fazer o m esm o com igo?
— Então nós vam os em bora — insisto.
Matson aceita com a cabeça.
— Jacob, a decisão é sua. Você quer ficar com igo ou quer ir para casa com a sua m ãe?
— Está brincando? — Jacob diz, radiante. — É claro que quero conversar com você.
Antes que a porta se feche atrás deles, saio correndo com o um a louca para o estacionam ento.