Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 44 de 121

Páginas do PDF

Um Mundo à Parte

Rich

 

No m inuto em que decreto a prisão de Jacob Hunt, o m undo cai. Sua m ãe protesta em voz alta e com eça a gritar no m om ento em que ponho a m ão no om bro de Jacob para conduzi-lo à sala em que tiram os as im pressões digitais e fotos; m as, pela reação dele, é com o se eu o tivesse transpassado com um a espada. Ele vira um soco em m im , o que alarm a seu advogado, que, sendo advogado, sem dúvida j á está pensando em com o im pedir seu cliente de ser denunciado por agressão a um policial tam bém .

— Jacob! — sua m ãe grita e segura m eu braço. — Não toque nele. Ele não gosta de ser tocado.

Testo cuidadosam ente m eu queixo onde ele m e acertou.

— Bom , e eu não gosto de ser socado — m urm uro, e viro os braços de Jacob para trás e o algem o. — Preciso digitar alguns papéis para seu filho. Depois nós o levarem os ao tribunal para a audiência prelim inar.

— Ele não consegue lidar com isso — Em m a argum enta. — Pelo m enos m e deixe ir j unto, para ele saber que vai estar tudo bem ...

— Não posso — digo categoricam ente.

— Você não interrogaria alguém surdo sem um intérprete!

— Com todo o respeito, senhora, seu filho não é surdo. — Eu a olho de frente. — Se não sair, vou prendê-la tam bém .

— Em m a — o advogado m urm ura, segurando seu braço.

— Me largue — diz ela, soltando-se. Ela dá um passo na direção do filho, que não para de se debater, m as um policial a detém .

— Tire-os daqui — ordeno, enquanto com eço a arrastar Jacob pelo corredor até a sala de processam ento da ficha policial.

É com o tentar enfiar um touro no banco de trás de um carro.

— Escute — digo —, você tem que se acalm ar. — Mas ele ainda está lutando para se livrar de m inha m ão quando o em purro para dentro do pequeno espaço. Há um scanner de im pressões digitais lá dentro e um a câm era que usam os para as fotos da ficha policial, equipam entos caros que j á estou im aginando esm igalhados pelo chilique de Jacob.

— Fique parado ali — digo, apontando para um a linha branca no chão. — Olhe para a câm era.

Jacob levanta o rosto e fecha os olhos.

— Abra os olhos — ordeno.

Ele abre e os vira para o teto. Depois de um m inuto, tiro a droga da foto assim m esm o e, em seguida, as fotos de perfil.

É quando ele vira para a direita que percebe o scanner de im pressões digitais e fica totalm ente quieto.

— Isso é um a LiveScan? — Jacob m urm ura, as prim eiras palavras coerentes que disse desde que eu lhe dei voz de prisão.

— É. — De pé em frente ao teclado, percebo de repente que há um a m aneira bem m ais fácil de fazer a ficha de Jacob. — Quer ver com o funciona?

É com o se eu tivesse acionado um interruptor, e o turbilhão descontrolado se transform a em um garoto curioso. Ele chega m ais perto.

— São arquivos digitais, certo?

— Sim . — Digito o nom e de Jacob no teclado. — Qual é a inicial de seu nom e do m eio?

— T.

— Data de nascim ento?

— Vinte e um de dezem bro de 1991 — ele responde.

— Por acaso você sabe sua identidade?

Ele dispara um a fileira de núm eros, olhando sobre m eu om bro qual é o próxim o item .

— Peso: oitenta e quatro quilos — diz Jacob, cada vez m ais anim ado. — Profissão: estudante. Local de nascim ento: Burlington, Verm ont.

Pego um frasco de loção que usam os para garantir que as cristas fiquem ligeiram ente úm idas e todas as linhas de fricção sej am capturadas e percebo que as m ãos de Jacob ainda estão algem adas nas costas.

— Quero lhe m ostrar com o essa m áquina funciona — digo lentam ente —, m as não posso fazer isso se você estiver com algem as.

— Claro, eu entendo — diz Jacob, m as seu olhar está fixo na LiveScan e acho que, se eu tivesse lhe dito que precisaria abdicar de um de seus m em bros para ver o scanner em ação, ele aceitaria ansiosam ente.

Abro as algem as e um edeço seus dedos com a loção antes de segurar sua m ão direita.

— Prim eiro, fazem os os polegares planos — digo, pressionando os de Jacob, um por vez. — Depois, fazem os as im pressões planas dos outros dedos. — É um a im pressão sim ultânea, com os quatro dedos de cada m ão pressionados ao m esm o tem po na superfície do vidro. — Depois que elas estiverem carregadas no com putador, ele faz a correspondência com as outras im agens. Os dedos são rolados lado a lado, os polegares para dentro, os outros dedos para fora — explico, ilustrando com o prim eiro dos dedos dele e seguindo com o resto.

Quando a m áquina rej eita um a das im pressões roladas, Jacob ergue as sobrancelhas.

— Isso é incrível — diz ele. — O scanner não aceita um a im pressão ruim ?

— Não. Ele avisa quando levantei o dedo cedo dem ais, ou se a im pressão ficou m uito escura, para eu refazer a im agem . — Ao term inar os dedos, pressiono sua palm a sobre a superfície. É um tipo de im pressão que encontram os com m ais frequência em vidraças, se um crim inoso tiver ficado observando o lado de dentro. Depois escaneio um a im pressão do lado externo da m ão, que é a borda da m ão em curva da ponta do dedo m ínim o até o pulso. Quando m udo para a m ão esquerda de Jacob, ele j á está praticam ente fazendo sozinho. — Viu, é fácil — digo, enquanto as im agens se alinham na tela.

— Depois você vai enviar um a solicitação de busca no AFIS direto daqui? — Jacob pergunta.

— Esta é a ideia. — Ter um LiveScan digital que se conecta com o AFIS, ou Sistem a Autom atizado de Identificação de Im pressões Digitais, é um a bênção; tenho idade suficiente para lem brar de quando era m uito m ais com plicado do que hoj e. As im pressões são enviadas para o banco de dados central do Estado, que docum enta a prisão e envia o arquivo para o FBI. Depois que eu estiver com Jacob preso, vou voltar aqui para verificar se há algum outro crim e em seu passado pelo qual ele tenha sido fichado.

Não acredito que haverá outro registro, m as isso não significa que tenha sido a prim eira ação de Jacob. Quer dizer apenas que é a prim eira vez que ele foi pego.

A im pressora solta um a ficha que vou pôr na pasta de Jacob, j unto com as fotografias. No alto, estão todas as inform ações biográficas dele. Abaixo, há dez pequenos quadrados, cada um com um a im pressão rolada. Sob eles, estão as dez digitais planas, alinhadas com o um exército de soldados.

Nesse instante, reparo por acaso no rosto de Jacob. Seus olhos estão brilhando, e sua boca se curva em um sorriso. Ele foi preso por assassinato, m as está nas nuvens porque pôde ver um sistem a LiveScan funcionando ao vivo.

Aperto um botão e um segundo cartão é im presso.

— Tom e. — Eu o entrego a ele.

Jacob com eça a balançar nas pontas dos pés.

— Quer dizer... que eu posso ficar com ele?

— Por que não? — digo. Enquanto ele está hipnotizado pela ficha im pressa, seguro em seu cotovelo para conduzi-lo à cela. Desta vez, ele não entra em surto quando o toco. Na verdade, nem percebe.

 

Um a vez, fui cham ado para um caso de suicídio. O cara tinha tom ado um a overdose de com prim idos para dorm ir quando deveria estar servindo de babá para os gêm eos de sua irm ã. Os m eninos de dez anos eram um com pleto terror. Quando não conseguiram acordar o tio, decidiram brincar com ele. Cobriram seu rosto de chantili e puseram um a cerej a em seu nariz, que foi a prim eira coisa que notei quando vi o corpo estendido no sofá da sala de estar.

Aqueles m eninos em nenhum m om ento se deram conta de que o cara estava m orto.

Claro que, m ais tarde, devem ter contado a eles. E, em bora m eu trabalho tenha term inado nesse ponto, pensei m uito nos gêm eos. Dá para im aginar que eles nunca m ais foram os m esm os depois de saberem . Provavelm ente fui um a das últim as pessoas a ver aqueles m eninos quando eles ainda eram apenas duas crianças, quando a m orte era a coisa m ais distante da m ente deles.

Isso é o que m e assom bra à noite. Não os m ortos que encontro, m as os vivos que deixo para trás.

 

Quando fecho Jacob na cela, ele não reage, e isso m e assusta m ais do que seu acesso anterior.

— Já volto para buscar você — digo. — Só tenho que term inar a papelada, e então vam os para o tribunal. Está bem ?

Ele não responde. Em sua m ão direita, segura com força a ficha com as im pressões digitais. A m ão esquerda está batendo contra a coxa.

— Por que não se senta? — sugiro.

Em vez de se sentar no banco, Jacob im ediatam ente desce até o chão de concreto.

Tem os um a câm era de vídeo apontada para a cela, para que alguém sem pre vigie o preso. Eu deveria estar cuidando da papelada, que leva um século, m as, em vez disso, vou até a sala de controle olhar o m onitor. Por dez m inutos inteiros, Jacob Hunt não se m exe, a não ser que se conte o m odo com o sua m ão balança. Então, m uito lentam ente, ele recua até encostar na parede, pressionado contra o canto da cela. Sua boca está se m exendo.

— O que ele está falando? — pergunto ao agente do controle.

— Sei lá.

Saio da sala e abro um a fresta da porta que leva à cela. A voz de Jacob soa baixinho:

 

All around in my hometown,

They’re trying to track me down.

They say they want to bring me in guilty

For the killing of a deputy.

 

Abro a porta e cam inho até a cela. Jacob ainda está cantando, sua voz subindo e descendo. Meus passos ecoam no concreto, m as ele não para, nem m esm o quando estou de pé diante das barras, diretam ente à sua frente, de braços cruzados.

Ele canta o refrão m ais duas vezes antes de parar. Não olha para m im , m as sei pelo m odo com o seus om bros se endireitam que ele sabe que estou aqui.

Com um suspiro, percebo que não vou deixar esse garoto sozinho outra vez. E não vou term inar os papéis a m enos que possa convencê-lo de que essa é m ais um a lição de procedim entos policiais.

— Então — digo, abrindo a porta da cela —, j á preencheu algum a vez um form ulário de adm issão?