Um Mundo à Parte
Jacob
Minha m ãe e eu estam os indo de carro para o consultório do psiquiatra do Estado, que, por acaso, trabalha em um hospital. Estou nervoso com isso porque não gosto de hospitais. Estive neles duas vezes: um a quando caí de um a árvore e quebrei o braço e outra quando Theo se m achucou porque eu derrubei seu cadeirão. O que eu m e lem bro de hospitais é que eles têm um cheiro branco e rançoso, as luzes são m uito brilhantes e sem pre que eu estive em um senti dor, ou vergonha, ou talvez am bos.
Isso faz m eus dedos com eçarem a balançar sobre m inha perna e eu olho para eles com o se estivessem desconectados de m eu corpo. Nos três últim os dias, venho m elhorando. Estou tom ando m eus suplem entos de novo, e m inhas inj eções, e j á não m e sinto m ais tanto com o se estivesse constantem ente nadando dentro de um a bolha de água que dificulta ainda m ais entender o que as pessoas dizem ou focá-las em m inha visão.
Acredite, eu sei que não é norm al bater as m ãos ou andar em círculos ou repetir palavras continuam ente, m as, às vezes, essa é a m aneira m ais fácil de eu m e sentir m elhor. É m ais ou m enos com o um m otor a vapor: agitar as m ãos na frente do rosto ou batê-las nas pernas é m inha válvula de escape e, talvez pareça estranho, m as é só com parar com as pessoas que se voltam para o álcool ou para a pornografia para aliviar a pressão.
Não saí m ais de casa desde que deixei a prisão. Mesm o a escola é proibida agora, então m inha m ãe arrum ou livros didáticos e está dando aulas em casa para m im e para Theo. Até é bom , para falar a verdade, não ter que m e estressar pensando na próxim a vez em que outro aluno vier falar com igo e eu tiver que interagir; ou se um professor disser algo e eu não entender; ou se eu sentir necessidade de usar m eu passe para sair da sala e parecer um fracasso total na frente de m eus colegas. Eu m e pergunto por que nunca pensam os nisso antes: aprender sem socialização. É o sonho de todo Asperger.
Vez por outra, m inha m ãe olha para m im pelo espelho retrovisor.
— Lem bra do que vai acontecer, certo? — ela pergunta. — O dr. Cohn vai fazer perguntas. Você só tem que dizer a verdade.
Essa é a outra razão de eu estar nervoso: na últim a vez em que saí para responder a perguntas sem m inha m ãe, acabei na prisão.
— Jacob — m inha m ãe diz —, você está agitando a m ão.
Seguro com a m ão livre a outra que está flutuando.
Quando chegam os ao hospital, cam inho com a cabeça abaixada para não ter que ver pessoas doentes. Não vom ito desde os seis anos de idade; só de pensar nisso j á com eço a suar. Um a vez, quando Theo ficou gripado, tive que pegar m eu saco de dorm ir e m eu cobertor e ficar na garagem , com m edo de pegar tam bém . E se vir aqui para essa porcaria de exam e de perícia acabar sendo m uito pior do que todo m undo im agina?
— Não entendo por que ele não pôde vir nos aj udar — m urm uro.
— Porque ele não está do nosso lado — m inha m ãe diz.
O j eito que a perícia funciona é assim :
1. O Estado de Verm ont contrata um psiquiatra, que vai m e entrevistar e dizer ao j uiz tudo que o prom otor público quer ouvir. 2. Meu advogado rebaterá isso com a dra. Moon, m inha própria psiquiatra, que dirá ao j uiz tudo o que Oliver Bond quer ouvir.
Francam ente, eu não entendo para que serve tudo isso, j á que todos sabem os que é assim que vai ser m esm o.
O consultório do dr. Martin Cohn não é tão bonito quanto o da dra. Moon. A decoração da dra. Moon é em tons de azul, porque essa cor é com provadam ente relaxante. A decoração do dr. Martin Cohn é em cinza industrial. A m esa de sua secretária parece a do m eu professor de m atem ática.
— Pois não? — ela nos atende.
Minha m ãe se aproxim a.
— Jacob Hunt está aqui para a consulta com o dr. Cohn.
— Pode entrar. — Ela aponta para outra porta.
Na dra. Moon é assim tam bém . A gente entra no consultório dela por um a porta e sai pela outra, para que ninguém que estej a na sala de espera nos vej a. Sei que a ideia é m anter a privacidade, m as, se quer saber, é com o se os próprios psiquiatras estivessem aceitando a crença idiota de que terapia é algo que se deve esconder.
Ponho a m ão na m açaneta e respiro fundo. Desta vez você vai voltar, prom eto a m im m esm o.
Um a piada:
Um hom em está voando em um balão de ar quente e se perde. Ele baixa o balão sobre um cam po de m ilho e grita para um a m ulher:
— A senhora pode m e dizer onde estou e para onde estou indo?
— Claro — a m ulher responde. — O senhor está quarenta e um graus, dois m inutos e catorze segundos ao norte, cento e quarenta e quatro graus, quatro m inutos e dezenove segundos a leste, a um a altitude de setecentos e sessenta e dois m etros acim a do nível do m ar e, neste instante, está pairando, m as estava em um vetor de duzentos e trinta e quatro graus a doze m etros por segundo.
— Incrível! Obrigado! A propósito, a senhora tem síndrom e de Asperger?
— Tenho! — a m ulher responde. — Com o o senhor sabe?
— Porque tudo o que a senhora disse é verdadeiro, é m uito m ais detalhado do que eu preciso e não vai ter nenhum a utilidade para m im .
A m ulher franze a testa.
— Hum m ... O senhor é psiquiatra?
— Sou — o hom em diz. — Com o a senhora sabe?
— O senhor não sabe onde está. Não sabe para onde está indo. Chegou até onde está todo cheio de vento. Coloca rótulos nas pessoas depois de fazer um as poucas perguntas e continua exatam ente no m esm o lugar onde estava cinco m inutos atrás, m as isso de repente é culpa m inha!
O dr. Martin Cohn é m ais baixo que eu e tem barba. Usa óculos sem aros e, assim que entro na sala, vem ao m eu encontro.
— Olá — ele diz. — Sou o dr. Cohn. Puxe um a cadeira para você.
As cadeiras são estruturas de m etal com alm ofadas de couro sintético. Um a é laranj a, e está totalm ente fora de questão. A outra é cinza e tem um círculo afundado no m eio, com o se a alm ofada tivesse cedido.
Quando eu era m ais novo e alguém m e dizia para puxar um a cadeira, eu a puxava pela sala. Agora sei que isso significa que devo m e sentar. Há m uitas afirm ações que não significam o que dizem : Pode escrever o que estou dizendo. Vá ver se eu estou na esquina. Só um segundo. Largue do meu pé.
O psiquiatra tira um a caneta do bolso. Ele se senta tam bém e coloca um bloco de notas am arelo no colo.
— Com o é seu nom e?
— Jacob Thom as Hunt — respondo.
— Quantos anos você tem , Jacob?
— Dezoito.
— Você sabe por que está aqui?
— Você não sabe?
Ele anota algo no papel.
— Você sabe que está sendo acusado de um crim e?
— Sim . Estatuto de Verm ont, capítulo 13, seção 2.301. Hom icídio com etido por m eio de envenenam ento, ou tocaia, ou por ato intencional, deliberado e prem editado, ou com etido durante perpetração ou tentativa de perpetração de incêndio crim inoso, estupro, estupro qualificado, roubo ou violação de propriedade, será hom icídio qualificado. Todos os outros tipos de hom icídio serão privilegiados.
Achei que citar o estatuto inteiro im pressionaria o dr. Cohn, m as ele não dem onstra nenhum a em oção.
Vai ver ele tam bém tem Asperger.
— Você entende se essa é um a acusação grave ou não, Jacob?
— É um delito que envolve um a sentença m ínim a de trinta e cinco anos a prisão perpétua.
O dr. Cohn olha por cim a dos óculos.
— E quanto à suspensão condicional da pena? — ele indaga. — Você sabe o que é?
— É quando a pessoa tem que com parecer diante do j uiz de tem pos em tem pos — digo. — Tem que seguir regras e apresentar relatórios, precisa ter um em prego, m orar em endereço fixo e conhecido, não se envolver em problem as, não ingerir álcool...
— Certo — o dr. Cohn interrom pe. — Diga-m e, Jacob, em que seu advogado deve focar para defendê-lo?
Ergo os om bros.
— Em m inha inocência.
— Você entende o que significa um a confissão da acusação ou um a negação da acusação?
— Sim . A confissão significa que você adm ite que com eteu o crim e e que deve ser punido por ele. A negação da acusação significa que você não adm ite que com eteu o crim e e não acha que deve ser punido por ele... m as isso não é o m esm o que ser inocente, porque, no nosso sistem a j urídico, a pessoa é considerada culpada ou não culpada. Não é considerada inocente, m esm o que sej a, com o eu.
O dr. Cohn olha atentam ente para m im .
— O que é um acordo com a prom otoria?
— Quando o prom otor conversa com o advogado e eles concordam quanto a um a sentença, e então am bos a com unicam ao j uiz para ver se ele aceita o acordo tam bém . Isso significa que não é preciso ter um j ulgam ento, porque a pessoa j á adm itiu o crim e ao aceitar o acordo.
Todas essas perguntas são fáceis, porque, no final de cada episódio de CrimeBusters, há um j ulgam ento em que as provas são apresentadas a um j uiz e ao j úri. Se eu soubesse que as perguntas seriam tão sim ples assim , não teria ficado tão nervoso. Eu estava esperando que o dr. Cohn fosse m e perguntar sobre Jess. Sobre o que aconteceu naquela tarde.
E, claro, eu não poderia contar a ele, o que significaria que eu teria que m entir, e isso seria quebrar as regras.
— O que é um a alegação de inim putabilidade? — o dr. Cohn pergunta.
— Quando a pessoa afirm a que não é culpada porque estava dissociada da realidade no m om ento em que com eteu o crim e e não pode ser legalm ente responsabilizada por suas ações. Com o Edward Norton em As duas faces de um crime.
— Ótim o film e — o psiquiatra diz. — Jacob, se seu advogado achar que você não deveria depor, você concordaria com isso?
— Por que eu não iria querer depor? Vou dizer a verdade.
— Quando você pode falar no tribunal?
— Não posso. Meu advogado m e disse para não falar com ninguém .
— Quais você acha que são suas chances de não ser considerado culpado?
— Cem por cento — digo —, j á que eu não fiz aquilo.
— Você sabe com o as evidências contra você são fortes?
— Obviam ente não, um a vez que eu não vi a exibição de provas...
— Você sabe o que é um a exibição de provas? — o dr. Cohn pergunta, surpreso.
Reviro os olhos.
— De acordo com a Regra Dezesseis das Regras de Exibição de Provas de Verm ont, Regras de Procedim ento para o Tribunal de Prim eira Instância, a prom otoria é obrigada a apresentar antecipadam ente todas as provas que tem no caso, incluindo fotografias, docum entos, declarações, exam es físicos e qualquer outro m aterial que pretenda usar no j ulgam ento e, se isso não for feito, eu posso sair livre.
— Você entende a diferença entre defesa, prom otoria, j uiz, j úri, testem unhas...?
Faço um sinal afirm ativo com a cabeça.
— A defesa é a m inha equipe: m eu advogado, as testem unhas e eu, porque estam os nos defendendo contra o crim e de que a prom otoria m e acusou. O j uiz é o hom em ou a m ulher que tem autoridade sobre todos no tribunal. Ele dirige o j ulgam ento, ouve as provas e tom a decisões sobre a lei, e o j uiz com quem estive alguns dias atrás não foi m uito bom e m e m andou para a cadeia. — Paro para respirar. — O j úri é um grupo de doze pessoas que ouvem os fatos e as provas e argum entos dos advogados e, então, vão para um a sala onde ninguém pode ouvi-los ou vê-los e decidem o resultado do caso. — Pensando m elhor, eu acrescento: — O princípio do j úri é que o acusado sej a j ulgado por seus pares, m as, tecnicam ente, isso significaria que todos os doze j urados deveriam ter síndrom e de Asperger, porque assim eles poderiam realmente m e com preender.
O dr. Cohn faz outra anotação.
— Você confia em seu advogado, Jacob?
— Não — digo. — Na prim eira vez em que o encontrei, acabei na prisão por três dias.
— Você concorda com a form a com o ele está lidando com o caso?
— Obviam ente não. Ele precisa dizer a verdade para que as acusações sej am retiradas.
— Não é assim que funciona — diz o dr. Cohn.
— Funcionou assim em Meu primo Vinny — eu lhe digo. — Quando Joe Pesci diz ao tribunal que o carro não é o m esm o que foi identificado pela testem unha porque os pneus são diferentes. E funcionou assim em CrimeBusters, episódio oitenta e oito. Quer que eu conte com o foi?
— Não, não há necessidade — o dr. Cohn responde. — Jacob, o que você faria se um a testem unha dissesse um a m entira no tribunal?
Sinto m eus dedos com eçarem a se agitar, então os prendo com a outra m ão.
— Com o eu poderia saber? — digo. — Só o m entiroso sabe que está m entindo.