Um Mundo à Parte
Oliver
Na delegacia, Jacob adm itiu que o dente arrancado de Jess Ogilvy foi um acidente. E que ele m oveu o corpo e m ontou um a cena de crim e em volta.
Qualquer j urado que ouvir isso vai tirar a conclusão m uito sim ples e lógica de que ele confessou o assassinato. Afinal, não se encontram corpos por aí à vontade para satisfazer as paixões de garotos autistas obcecados por crim inologia.
E é por isso que m inha m elhor esperança de m anter Jacob fora da prisão é elim inar todo esse interrogatório policial antes que ele possa ser aceito com o prova. Para isso, precisam os de um a audiência de exclusão de provas, o que significa que, m ais um a vez, Em m a, Jacob e eu terem os que enfrentar o j uiz.
O único problem a é que, na última vez em que estive com Jacob em um tribunal, as coisas não foram exatam ente tranquilas.
É por isso que estou tenso com o um a m ola apertada ao lado de m eu cliente enquanto vem os Helen Sharp fazer a inquirição do detetive.
— Com o foi o início de seu envolvim ento neste caso? — ela pergunta.
— Na m anhã de quarta-feira, 13 de j aneiro, recebi a inform ação do desaparecim ento de Jess Ogilvy por m eio do nam orado dela, Mark Maguire. Fiz as investigações e, em 18 de j aneiro, após intensas buscas, o corpo da srta. Ogilvy foi encontrado em um a galeria pluvial. Ela havia m orrido de hem orragia interna com o resultado de um golpe na cabeça, apresentava m últiplas contusões e abrasões e estava enrolada na colcha do réu.
Jacob escreve algo furiosam ente no bloco de notas que coloquei na frente dele e o vira para m im . “Ele está errado.”
Pego o bloco dele, com um a súbita esperança. Um lapso com o esse indício equivocado seria exatam ente o tipo de detalhe que Jacob poderia ter esquecido de m encionar. “Não era sua colcha?”
“Tecnicam ente, não foi hem orragia interna”, ele rabisca. “Foi sangue acum ulado entre a dura-m áter que cobre o cérebro e a aracnoide, que é a cam ada m édia das m eninges.”
Reviro os olhos. “Obrigado, dr. Hunt”, escrevo.
Jacob franze a testa. “Não sou doutor”, responde.
— Vam os voltar um pouquinho — diz Helen. — O senhor falou com o réu antes de encontrar o corpo da srta. Ogilvy ?
— Sim . Ao exam inar a agenda da vítim a, interroguei todas as pessoas que entraram em contato com ela no dia em que foi vista pela últim a vez, e as que deveriam se encontrar com ela naquele dia. Jacob Hunt tinha um a sessão de orientação com a srta. Ogilvy às 14h35, na tarde de seu desaparecim ento. Eu o procurei para perguntar se essa sessão havia ou não ocorrido.
— Onde se encontrou com o réu?
— Na casa dele.
— Quem estava presente quando o senhor foi à casa dele naquele dia? — indaga Helen.
— Jacob Hunt e a m ãe dele. Acredito que o irm ão m ais novo estivesse no andar de cim a.
— O senhor j á havia encontrado Jacob antes desse dia?
— Um a vez — diz o detetive. — Ele apareceu na cena de um crim e em que eu estava trabalhando, alguns dias antes.
— O senhor achou que ele poderia ser um suspeito?
— Não. Outros policiais tam bém j á o tinham visto em outros lugares antes. Ele gostava de aparecer e oferecer conselhos sobre a análise da cena do crim e. — Ele levanta os om bros. — Achei que era apenas um garoto querendo brincar de policial.
— Quando esteve com o Jacob pela prim eira vez, alguém lhe disse que ele tinha síndrom e de Asperger?
— Sim — diz Matson. — A m ãe dele. Ela falou que o Jacob tinha m uita dificuldade para se com unicar e que boa parte de seus com portam entos, que poderiam parecer atitudes culpadas para um observador externo, eram na verdade sintom as do autism o.
— Ela algum a vez lhe disse que o senhor não poderia falar com o filho dela?
— Não — responde Matson.
— O réu lhe disse que não queria falar com o senhor?
— Não.
— Ele lhe deu algum a indicação, nesse prim eiro dia em que conversaram , de que não entendia o que o senhor estava dizendo ou quem o senhor era?
— Ele sabia exatam ente quem eu era — diz Matson. — Queria conversar sobre ciência forense.
— O que discutiram durante esse encontro inicial?
— Eu lhe perguntei se ele havia encontrado a Jess para a sessão e ele disse que não. Tam bém m e disse que conhecia o nam orado da Jess, Mark. Foi essencialm ente isso. Deixei m eu cartão com a m ãe dele e pedi a ela que m e ligasse se surgisse m ais algum fato ou se o Jacob se lem brasse de algo.
— Quanto tem po durou essa conversa?
— Não sei, talvez uns cinco m inutos — responde Matson.
A prom otora assente com a cabeça.
— Quando o senhor soube que Jacob Hunt sabia m ais sobre esse caso?
— A m ãe dele ligou e disse que o Jacob tinha algum as inform ações novas sobre Jess Ogilvy. Aparentem ente, ele havia se esquecido de nos contar que, quando esteve na casa dela, arrum ou algum as coisas e pôs os CDs em ordem alfabética. O nam orado da vítim a tinha m encionado que os CDs haviam sido reorganizados e isso m e fez querer conversar um pouco m ais com o Jacob.
— A m ãe do Jacob lhe disse que ele não entenderia se o senhor lhe fizesse perguntas?
— Ela disse que ele poderia ter dificuldade para entender perguntas que fossem form uladas de determ inadas m aneiras.
— Durante essa segunda conversa, o Jacob disse que não queria falar com o senhor ou que não entendia suas perguntas?
— Não.
— A m ãe do réu teve que traduzir para ele ou lhe pedir para reform ular suas perguntas?
— Não.
— E quanto tem po durou essa segunda conversa?
— Dez m inutos, no m áxim o.
— O senhor teve outra conversa com Jacob Hunt? — indaga Helen.
— Sim , na tarde em que encontram os o corpo de Jess Ogilvy na galeria pluvial.
— Onde essa conversa com o réu aconteceu?
— Na delegacia.
— Por que Jacob foi conversar com o senhor outra vez?
— A m ãe dele m e ligou — diz Matson. — Ela estava m uito nervosa, porque achava que seu filho tinha algo a ver com o hom icídio de Jess Ogilvy.
De repente, Jacob levanta e vira para a galeria, de m odo a poder ver Em m a.
— Você achou isso? — pergunta, com as m ãos fechadas em punhos nas laterais do corpo.
Em m a parece ter levado um soco no estôm ago. Ela olha para m im em busca de aj uda, m as, antes que eu possa dizer ou fazer qualquer coisa, o j uiz bate o m artelo.
— Sr. Bond, controle seu cliente.
Jacob com eça a agitar a m ão esquerda.
— Preciso de um descanso sensorial!
Concordo im ediatam ente.
— Excelência, precisam os de um a pausa.
— Concedido. Cinco m inutos — diz o j uiz, deixando seu assento.
Assim que ele sai, Em m a vem até nós.
— Jacob, escute.
Mas Jacob não está ouvindo; ele está em itindo um zum bido agudo que faz Helen cobrir os ouvidos.
— Jacob — Em m a repete, e segura o rosto dele com as duas m ãos, forçando-o a encará-la. Ele fecha os olhos. — I shot the sheriff — ela canta —, but I didn’t shoot the deputy. I shot the sheriff, but I did not shoot the deputy. Reflexes got the better of me... and what is to be must be.
O oficial de j ustiça que está de pé dentro da sala lança a ela um olhar de desaprovação, m as a tensão vai deixando os om bros de Jacob.
— Every day the bucket a-go a well — ele canta, em seu tom plano. — One day the bottom a-go drop out.
— Isso, querido — Em m a m urm ura.
Helen observa cada m ovim ento, ligeiram ente boquiaberta.
— Eu, hein — diz ela. — Meu filho só sabe a letra de “Dona Aranha”.
— Que m úsica para cantar quando se está sendo j ulgado por hom icídio — o oficial de j ustiça m urm ura.
— Não ouça o que ele diz — Em m a pede. — Escute a m im . Eu acredito em você. Eu acredito que você não fez aquilo.
É interessante que ela não olha Jacob nos olhos ao dizer isso. Mas ele j am ais teria notado, porque tam bém não está olhando nos olhos dela. No entanto, pela explicação da própria Em m a ao detetive, se considerarm os que alguém que não olha nos olhos está m entindo ou está no espectro do autism o — e Em m a não está no espectro do autism o —, o que isso significa?
Antes que eu possa levar adiante m inha interpretação, o j uiz volta, e Helen e Rich Matson reassum em seus lugares.
— Sua única tarefa aqui é m anter a cabeça fria — sussurro para Jacob, enquanto o conduzo de volta à m esa da defesa. E, então, eu o vej o pegar um pedaço de papel, dobrá-lo com o as pregas de um acordeão e com eçar a se abanar.
— Com o o Jacob foi para a delegacia? — Helen pergunta.
— A m ãe dele o levou.
Jacob se abana um pouco m ais depressa.
— Ele estava sob m andado de prisão?
— Não — diz o detetive.
— Foi levado em um a viatura?
— Não.
— Algum policial acom panhou a m ãe dele até a delegacia?
— Não. Ela trouxe o filho voluntariam ente.
— O que o senhor disse quando o viu lá?
— Perguntei se ele poderia m e aj udar com alguns casos.
— Qual foi a reação dele?
— Ficou extrem am ente anim ado e m uito ansioso para ir com igo — diz Matson.
— Ele deu algum a indicação de que queria que a m ãe dele fosse j unto ou de que não se sentia à vontade sem ela?
— Muito pelo contrário. Ele disse que queria m e aj udar.
— Onde o interrogatório aconteceu?
— Na m inha sala. Com ecei falando sobre a cena do crim e em que ele havia aparecido um a sem ana antes, que envolvia um hom em que m orreu de hipoterm ia. Depois lhe disse que realm ente gostaria de usar sua inteligência no caso de Jess Ogilvy, m as que isso era um pouco m ais com plicado, porque era um a investigação que ainda estava aberta. Disse que ele teria que renunciar a seus direitos de não falar sobre o caso e Jacob recitou para m im o Aviso de Miranda. Fui acom panhando no papel enquanto ele citava palavra por palavra, então pedi que ele lesse, rubricasse e assinasse no fim do docum ento para indicar que havia com preendido e não só m em orizado palavras aleatórias.
— Ele foi capaz de responder às suas perguntas de form a inteligível? — pergunta Helen.
— Sim .
Helen apresenta o docum ento com o Aviso de Miranda assinado com o prova.
— Sem m ais perguntas, Excelência — ela declara.
Fico de pé e abotoo m eu terno.
— Detetive, na prim eira vez em que o senhor esteve com Jacob, a m ãe dele estava presente, certo?
— Sim .
— Ela perm aneceu o tem po todo?
— Sim .
— Muito bem . E quanto à segunda vez que o senhor conversou com Jacob? A m ãe dele estava presente?
— Sim .
— E foi ela m esm a quem o levou à delegacia, por solicitação do senhor, correto?
— Exato.
— Mas, quando ela pediu se podia ficar com ele, o senhor recusou?
— Bem , sim — diz Matson —, j á que o filho dela tem dezoito anos.
— Sim , m as o senhor tam bém estava ciente de que o Jacob está no espectro do autism o, não é verdade?
— É verdade, m as nada do que ele havia dito anteriorm ente m e levou a acreditar que não pudesse ser interrogado.
— No entanto, a m ãe dele o havia avisado de que Jacob tinha dificuldade com perguntas. Que ele ficava confuso sob pressão e que não conseguia entender corretam ente as sutilezas da linguagem .
— Ela explicou algum a coisa sobre a síndrom e de Asperger, m as eu não prestei m uita atenção. Para m im , ele parecia perfeitam ente capaz. Conhecia todos os term os j urídicos im agináveis, m eu Deus, e estava m ais do que disposto a falar.
— Detetive, quando o senhor contou a Jacob o que acontece durante um a autópsia, ele não citou O silêncio dos inocentes?
Matson se agita na cadeira.
— Sim .
— E isso indica que ele realm ente entendia o que estava fazendo?
— Eu achei que ele estava tentando ser engraçado.
— Não foi a prim eira vez que Jacob usou um a citação de film e para responder a um a de suas perguntas, foi?
— Não lem bro.
— Deixe-m e aj udá-lo, então — digo, agradecido por Jacob ter se lem brado da conversa palavra por palavra. — Quando o senhor lhe perguntou se Jess e o nam orado, Mark, tinham brigado, ele disse: Hasta la vista, baby, não foi?
— É, parece que sim .
— E ele citou um a terceira fala de film e para o senhor em um determ inado ponto do interrogatório, não foi, detetive?
— Sim .
— Quando foi isso?
— Eu perguntei por que ele tinha feito aquilo.
— E ele respondeu...
— Amar é nunca ter que pedir perdão.
— O único crim e que Jacob Hunt com eteu — argum ento — foi fazer um a citação de um film e tão piegas com o Love Story.
— Protesto — diz Helen. — Já estam os nos argum entos finais? Porque ninguém m e m andou o m em orando.
— Deferido — o j uiz responde. — Sr. Bond, guarde os com entários para si.
Eu m e volto para Matson.
— Com o esse terceiro interrogatório, na delegacia, term inou?
— De form a abrupta — o detetive responde.
— Na verdade, a sra. Hunt chegou com igo, dizendo que o filho dela queria um advogado, não foi?
— Isso m esm o.
— E, assim que ela fez essa declaração, o que o Jacob disse?
— Que queria um advogado — responde Matson. — E foi quando eu parei de interrogá-lo.
— Sem m ais perguntas — digo, e m e sento outra vez ao lado de Jacob.
Freddie Soto é um ex-policial cuj o filho m ais velho é profundam ente autista. Depois de trabalhar por anos para a polícia do estado da Carolina do Norte, ele voltou à faculdade e se form ou em psicologia. Atualm ente, é especialista em ensinar sobre autism o para autoridades policiais. Escreveu artigos para o FBI Law Enforcement Bulletin e para a revista Sheriff. Foi consultor da ABC News para um program a especial sobre autism o, direito e confissões falsas. Aj udou a desenvolver o currículo de 2001 do estado da Carolina do Norte sobre por que a polícia precisa reconhecer o autism o, um program a que está hoj e em uso em departam entos policiais de todo o m undo.
Seus honorários para testem unhar com o especialista são de quinze m il dólares, m ais passagem aérea de prim eira classe, o que eu não tinha. Mas com eçam os a conversar pelo telefone e, quando ele soube que eu havia sido ferrador, contou que era um dos donos de um cavalo de corrida que tinha ficado com os pés chatos. O cavalo era tudo para seu filho, então ele estava lutando para evitar que o anim al fosse enviado para eutanásia. Quando eu sugeri alm ofadas para im pedir que as solas ficassem m achucadas, calços nos cascos com apoio de ranilha integrado e um m aterial de revestim ento inferior m acio para realinhar os m etacarpos, a fim de reduzir o peso sobre os calcâneos sem esm agar as cartilagens, ele disse que testem unharia de graça se eu concordasse em ir até a Carolina do Norte dar um a olhada em seu cavalo depois que o caso estivesse encerrado.
— Poderia nos dizer, sr. Soto, se alguém com síndrom e de Asperger teria as m esm as dificuldades que um autista com os procedim entos policiais? — indago.
— Naturalm ente, um a vez que o Asperger está no espectro do autism o. Por exem plo, um a pessoa com Asperger pode não se com unicar verbalm ente. Pode ter dificuldade para interpretar a linguagem corporal, com o um a postura de liderança ou um a atitude defensiva. Pode ter um a crise se confrontado com luzes piscando ou sirenes. Sua falta de contato visual pode levar um policial a achar que ele não está ouvindo. Ele pode parecer teim oso ou irritado. Em vez de responder a um a pergunta feita por um policial, pode repetir de volta o que o policial disse. Terá problem as para ver pela perspectiva de outra pessoa. E dirá a verdade, inexoravelm ente.
— O senhor conheceu o Jacob, sr. Soto?
— Não.
— Teve a oportunidade de exam inar seus registros m édicos feitos pela dra. Murano?
— Sim , todos os quinze anos — diz ele.
— O que nesses registros m édicos se encaixa nos possíveis indicadores de Asperger?
— Pelo que percebo — Soto responde —, é um j ovem m uito inteligente, que tem dificuldade para fazer contato visual, não se com unica m uito bem , fala por m eio de citações de film es de vez em quando, exibe com portam ento autoestim ulatório, com o balançar as m ãos, e canta certas m úsicas repetitivam ente com o m odo de se acalm ar. Tam bém não consegue decom por perguntas com plexas, tem dificuldade para avaliar o espaço pessoal e interpretar a linguagem corporal e é extrem am ente sincero.
— Sr. Soto — pergunto —, teve tam bém a oportunidade de ler os relatórios policiais e a transcrição das declarações gravadas de Jacob com o detetive Matson?
— Sim .
— Em sua opinião, Jacob com preendeu seus direitos de Miranda no m om ento em que eles lhe foram apresentados?
— Protesto! — diz Helen. — Excelência, o Aviso de Miranda tem a função de evitar violações propositais dos direitos do indivíduo garantidos na quinta em enda, porém não há nada que exij a que a polícia conheça todo o funcionam ento interno das capacidades desenvolvim entais de qualquer réu individual específico. O que está em teste em um pedido de exclusão de provas é se o policial cum priu sua obrigação, e isso não deve ser invertido para perguntar se Jacob Hunt tem algum distúrbio desconhecido que o policial deveria ter identificado.
Sinto um puxão na ponta do terno e Jacob m e passa um bilhete.
— Excelência — digo, e leio exatam ente o que Jacob escreveu: — O que está em teste sob o Aviso de Miranda é se o réu, consciente e voluntariamente, renunciou a seu direito de se manter em silêncio.
— Indeferido — o j uiz diz.
Dou um a olhada para Jacob, que sorri.
— É altam ente duvidoso que o Jacob tenha realm ente com preendido o Aviso de Miranda, dada a m aneira com o o detetive Matson se com portou. Existem coisas que as autoridades policiais podem fazer para garantir que pessoas autistas com preendam seus direitos nesse tipo de situação, e essas m edidas não foram utilizadas — Soto responde.
— O quê, por exem plo?
— Quando vou a delegacias e trabalho com os policiais, recom endo que eles usem frases m uito curtas e diretas e não tentem apressar as respostas às perguntas. Digo para evitar expressões figuradas, com o Está me achando com cara de palhaço? ou Está querendo me passar para trás? Sugiro que evitem linguagem e com portam ento am eaçadores, que esperem por um a resposta ou contato visual e que não pressuponham que um a falta de resposta ou de contato visual sej a prova de desrespeito ou culpa. Digo a eles que evitem tocar a pessoa e que estej am cientes de um a possível sensibilidade a luzes, sons ou cães policiais.
— Apenas para deixar claro, sr. Soto, algum desses protocolos foi seguido, em sua opinião?
— Não.
— Obrigado — digo, e m e sento ao lado de Jacob enquanto Helen se levanta para inquirir m inha testem unha. Estou entusiasm ado. Não, estou mais do que entusiasm ado. Eu arrasei de verdade dessa vez. Sinceram ente, quais são as chances de encontrar um especialista com o este, em um cam po de que ninguém nunca ouviu falar, que pode ganhar o caso para você?
— Que estím ulos dentro da sala do detetive Matson teriam perturbado Jacob? — Helen pergunta.
— Não sei, eu não estava lá.
— Então o senhor não sabe se havia barulhos altos ou luzes brilhantes, não é?
— Não, m as estou para ver um a delegacia que sej a um espaço agradável e acolhedor — diz Soto.
— Em sua opinião, sr. Soto, para interrogar efetivam ente um a pessoa com síndrom e de Asperger é preciso levá-la ao Starbucks e com prar-lhe um frappuccino de baunilha?
— É evidente que não. Só estou dizendo que existem m edidas que poderiam ter sido adotadas para deixar Jacob m ais confortável e, estando m ais confortável, ele poderia ter m ais consciência do que estava acontecendo no m om ento, em vez de se tornar sugestionável o bastante para dizer ou fazer qualquer coisa que pudesse tirá-lo dali o m ais rápido possível. Um garoto com Asperger é particularm ente suscetível a fazer um a falsa confissão se achar que é isso que a figura de autoridade quer ouvir.
Ah, quero abraçar Freddie Soto. Quero fazer seu cavalo de corrida correr outra vez.
— Por exem plo — ele acrescenta —, quando Jacob disse: Já terminamos? Porque eu preciso ir, essa é um a reação clássica à agitação. Alguém que soubesse sobre o Asperger teria reconhecido isso e recuado. Em vez disso, de acordo com a transcrição, o detetive Matson alvej ou Jacob com um a série de perguntas que só o confundiram ainda m ais.
— Quer dizer que o senhor espera que os policiais saibam o que perturba cada réu a fim de interrogá-lo efetivam ente?
— Isso sem dúvida não seria ruim .
— O senhor sabe, sr. Soto, que, quando o detetive Matson perguntou a Jacob se ele conhecia seus direitos de Miranda, Jacob os recitou palavra por palavra em vez de esperar que o detetive os lesse em voz alta?
— Perfeitam ente — Soto responde. — Mas Jacob provavelm ente tam bém poderia recitar todo o roteiro de O poderoso chefão II. Isso não significa que ele tenha algum entendim ento real desse film e ou algum a ligação em ocional com ele.
Ao m eu lado, vej o Jacob abrir a boca para protestar e im ediatam ente seguro seu braço sobre a m esa. Surpreso, ele se volta para m im e eu sacudo a cabeça com força.
— Mas com o o senhor sabe que ele não com preende seus direitos de Miranda? — pergunta Helen. — O senhor m esm o disse que ele é m uito inteligente. E ele disse ao detetive que os com preendia, não é?
— Sim — Soto adm ite.
— E, em seu testem unho, o senhor não disse tam bém que o Jacob é extrem am ente sincero?
Minha brilhante testem unha, m inha descoberta estelar, abre e fecha a boca sem responder.
— Sem m ais perguntas — diz Helen.
Estou prestes a dizer ao j uiz que a defesa term inou quando, em vez disso, algo inteiram ente diferente sai de m inha boca.
— Sr. Soto — digo, levantando-m e —, o senhor concorda que há um a diferença entre um entendim ento verdadeiro da lei e um a m em ória fotográfica da lei?
— Sim . Essa é exatam ente a diferença entre alguém com Asperger e alguém que verdadeiram ente com preende os direitos de Miranda.
— Muito obrigado, sr. Soto, pode voltar ao seu lugar — digo, e m e viro para o j uiz. — Gostaria de cham ar Jacob Hunt para depor.
Ninguém está contente com igo.
Durante o intervalo que pedi antes do depoim ento de Jacob, eu lhe disse que tudo o que ele precisava fazer seria responder a algum as perguntas. Que ele podia falar em voz alta quando eu fizesse perguntas, ou se o j uiz ou Helen Sharp fizessem perguntas, m as que ele não deveria dizer nada além das respostas a essas perguntas.
Enquanto isso, Em m a ficou andando ao nosso redor em círculos, com o se estivesse tentando encontrar o m elhor ponto para enfiar um a faca em m im .
— Você não pode pôr o Jacob na frente do tribunal — argum entou ela. — Isso vai traum atizá-lo. E se ele desm oronar? Que im pressão isso vai passar?
— Seria o m elhor que poderia acontecer — eu disse.
Isso a calou no m esm o instante.
Agora, Jacob está visivelm ente nervoso. Sentado na cadeira das testem unhas, está balançando o corpo e tem a cabeça inclinada em um ângulo estranho.
— Pode nos dizer seu nom e? — pergunto.
Jacob faz que sim com a cabeça.
— Jacob, você tem que falar em voz alta. A estenógrafa está registrando suas palavras e precisa ouvi-lo. Pode nos dizer seu nom e?
— Sim — diz ele. — Eu posso.
Suspiro.
— Qual é o seu nom e?
— Jacob Hunt.
— Quantos anos você tem ?
— Dezoito.
— Jacob, você sabe o que o Aviso de Miranda diz?
— Sim .
— Pode m e dizer?
— Você tem o direito de permanecer calado. Qualquer coisa que diga pode e será usada contra você em um tribunal. Tem o direito de falar com um advogado e de ter um advogado presente durante o interrogatório. Se não puder pagar um advogado, o Estado lhe indicará um.
— Agora, Jacob — pergunto —, você sabe o que isso significa?
— Protesto! — intervém Helen, enquanto Jacob com eça a bater o punho contra a lateral da cadeira.
— Retiro a pergunta — digo. — Jacob, você sabe o que diz a segunda em enda à Constituição am ericana?
— Sendo necessária uma milícia bem regulamentada à segurança de um Estado livre, o direito do povo de possuir e portar armas não deve ser infringido — Jacob recita.
Grande garoto, penso.
— O que isso significa, Jacob?
Ele hesita.
— Você vai atirar no seu olho, rapaz!
O j uiz franze a testa.
— Isso não é de Uma história de Natal?
— É — Jacob responde.
— Jacob, você não sabe o que a segunda em enda realm ente significa, não é?
— Eu sei, sim : Sendo necessária uma milícia bem regulamentada à segurança de um Estado livre, o direito do povo de possuir e portar armas não deve ser infringido.
Olho para o j uiz.
— Excelência, sem m ais perguntas.
Helen j á está pronta para dar o bote. Vej o Jacob se encolher no assento.
— Você sabia que o detetive Matson queria conversar com você sobre o que aconteceu com a Jess?
— Sim .
— Você estava disposto a falar com ele sobre isso?
— Sim .
— Pode m e dizer o que significa renunciar a seus direitos?
Seguro a respiração quando Jacob hesita. E então, lentam ente, belam ente, o pulso direito que ele estava batendo na lateral de m adeira se abre, se levanta sobre sua cabeça e com eça a se m over para frente e para trás com o um m etrônom o.