Um Mundo à Parte
Oliver
A orientadora educacional do m eu colégio, sra. Inverholl, um a vez m e deu um teste vocacional para prever m eu futuro. A recom endação de trabalho núm ero um para m eu conj unto de habilidades era investigador de acidentes de tráfego aéreo, profissão em que havia m enos de cinquenta pessoas no m undo. A profissão núm ero dois era curador de m useu em estudos sino-am ericanos. A núm ero três era palhaço de circo.
Tenho certeza absoluta de que advogado nem sequer estava na lista.
Depois que m e form ei na faculdade, fiquei sabendo que essa m esm a orientadora havia se aposentado m ais cedo e se m udado para um a com unidade utópica em Idaho, onde alterou seu nom e para Bênção e cria alpacas.
Frances Grenville não parece correr nenhum risco de iniciar um a criação de lham as no futuro próxim o. Está vestindo um a blusa azul abotoada até o pescoço e aperta as m ãos tão firm em ente sobre o colo que im agino se suas unhas não estão deixando m arcas na pele.
— Sra. Grenville — digo —, onde a senhora trabalha?
— No colégio local de Townsend.
— Há quanto tem po é orientadora educacional lá?
— Há dez anos.
— Quais são suas responsabilidades? — pergunto.
— Aj udo alunos a procurar e a escolher faculdades. Escrevo recom endações para que eles se candidatem . E trabalho com alunos que enfrentam problem as de com portam ento durante o período escolar.
— A senhora conhece o Jacob?
— Sim . Com o ele está em um program a de educação especial, participei ativam ente da organização de seu cotidiano escolar, para acom odar suas necessidades especiais.
— Pode nos explicar em que consiste esse program a?
— Trata-se de um program a de educação individualizado — responde ela. — É um plano educacional exigido pela lei federal am ericana para m elhorar os resultados educacionais de alunos com deficiências. É diferente para cada aluno. Para o Jacob, por exem plo, criam os um a lista de regras a serem obedecidas no am biente escolar, porque ele funciona bem com lim itações e rotinas.
— A senhora encontrou o Jacob por outras razões além das necessidades de aprendizado dele?
— Sim — responde a sra. Grenville. — Houve casos em que ele teve problem as com professores pelo com portam ento em classe.
— Com o assim ?
— Em um caso, ele insistiu em dizer ao professor de biologia que ele estava errado em certas afirm ações feitas em classe. — Ela hesita. — O sr. Hubbard estava ensinando a estrutura do DNA. Ele pareou adenina com adenina em vez de pareá-la com tim ina. Quando o Jacob lhe disse que aquilo estava incorreto, o sr. Hubbard ficou bravo. O Jacob não percebeu que o professor estava bravo e continuou apontando o erro. O sr. Hubbard o m andou para a diretoria por perturbar o andam ento da aula.
— Ele explicou à senhora por que não sabia que o professor estava bravo?
— Sim . Ele disse que o rosto bravo do sr. Hubbard parece o de outras pessoas quando estão contentes.
— E parece?
A sra. Grenville aperta os lábios.
— Eu reparei que o sr. Hubbard tem um a tendência a sorrir quando está irritado.
— A senhora por acaso sabe se de fato está incorreto parear adenina com adenina?
— Sim , o Jacob estava certo.
Dou um a olhada para a m esa da defesa. Jacob está sorrindo de orelha a orelha.
— Houve algum outro incidente em que teve que aj udar o Jacob?
— No ano passado, ele teve problem as com um a m enina. Ela estava m uito irritada por causa de um a nota baixa e, de algum a m aneira, com unicou ao Jacob que, se ele realm ente queria ser am igo dela, teria de ir dizer ao professor de m atem ática para ir... — Ela baixa os olhos para o colo. — Fornicar consigo m esm o. O Jacob ficou de castigo por isso e, m ais tarde, confrontou a m enina e a segurou pelo pescoço.
— O que aconteceu depois?
— Um professor viu e o afastou da m enina. O Jacob foi suspenso por duas sem anas. Teria sido expulso se não fosse seu program a de educação especial e o entendim ento de que ele havia sido provocado.
— O que a senhora fez para m odificar o com portam ento social do Jacob na escola?
— Ele frequentou aulas de habilidades sociais, m as depois Em m a Hunt e eu consideram os que seria m ais adequado ter um a orientadora particular para o Jacob. Acham os que assim ele poderia trabalhar m elhor situações específicas que tendiam a perturbá-lo, para poder lidar com elas de m aneira m ais construtiva.
— Vocês encontraram um a orientadora?
— Sim . Entrei em contato com a universidade e eles puseram anúncios no departam ento de pedagogia. — Ela olha para o j úri. — Jess Ogilvy foi a prim eira aluna a responder.
— O Jacob vinha se encontrando com ela?
— Sim , desde o outono passado.
— Sra. Grenville, desde que o Jacob com eçou sua orientação com Jess Ogilvy, houve algum incidente em que ele tenha perdido o controle?
Ela sacode a cabeça.
— Não, nenhum .
— Pode interrogar a testem unha — digo a Helen.
A prom otora se levanta.
— O sr. Hubbard, o professor de biologia, estava bravo e o Jacob não percebeu?
— Correto.
— A senhora diria que essa é um a dificuldade para o Jacob? Saber quando alguém está bravo com ele?
— Pelo que sei do Asperger, sim .
— O outro incidente que a senhora citou envolveu Jacob xingando um professor após ter sido desafiado por um a aluna e, depois, agredindo a m enina que o havia desafiado, certo?
— Sim .
— O Jacob j á havia sido alertado anteriorm ente a não usar violência física para resolver problem as?
— Certam ente — responde a orientadora. — Ele sabia que essa era um a regra escolar.
— Ele quebrou essa regra? — pergunta Helen.
— Sim .
— Apesar de ser m uito im portante para ele seguir regras, de acordo com o seu próprio depoim ento?
— Apesar disso — diz a sra. Grenville.
— Ele lhe deu algum a explicação sobre o m otivo de ter quebrado essa regra?
A sra. Grenville sacode a cabeça lentam ente.
— Ele disse que sim plesm ente se descontrolou.
Helen reflete sobre isso.
— A senhora tam bém disse, sra. Grenville, que, desde que iniciou as sessões de orientação em habilidades sociais, o Jacob nunca m ais perdeu o controle na escola.
— Exatam ente.
— Aparentem ente, ele estava guardando isso para depois da escola — diz Helen. — Sem m ais perguntas.
A sessão é suspensa m ais cedo hoj e porque o j uiz Cuttings tem um a consulta m édica. Enquanto a sala se esvazia, j unto m eus arquivos e obj etos e os coloco na pasta.
— Gostaria de ir até sua casa para conversarm os sobre o seu depoim ento — digo a Em m a.
De canto de olho, vej o Theo e Henry vindo em nossa direção.
— Achei que j á tínham os falado sobre isso — Em m a responde secam ente.
Já falam os. Mas de j eito nenhum vou voltar para o m eu escritório sabendo que Henry está sob o m esm o teto que ela.
— Nunca é dem ais — digo. — Estam os em dois carros. Não há necessidade de irem todos esprem idos em um só. Alguém quer vir com igo?
Olho direto para Em m a.
— É um a boa ideia — diz ela. — Jacob, por que não vai você?
E é por isso que acabo seguindo o carro alugado de Henry com Jacob sentado ao m eu lado no banco do passageiro da picape, e só depois de um a pequena crise, porque ele prefere ir no banco traseiro, que eu não tenho. Ele m exe no rádio, que só pega estações AM, porque a cam inhonete é tão velha que poderia ter sido construída por Moisés.
— Você sabe por que dá para sintonizar m elhor estações AM à noite? — pergunta Jacob. — Porque a ionosfera reflete m elhor os sinais de rádio quando o sol não está radiando tudo na atm osfera superior.
— Obrigado — digo. — Eu não ia conseguir dorm ir hoj e à noite sem saber disso.
Jacob olha para m im .
— Sério?
— Não, estou brincando.
Ele cruza os braços.
— Você não ouviu o que disse no tribunal? Eu não entendo ironias. Sou totalm ente autocentrado. Ah, e a qualquer m om ento posso ficar totalm ente louco.
— Você não é louco — digo a ele. — Eu só estava tentando fazer o j úri ver você com o legalm ente insano.
Jacob se afunda no assento.
— Não sou fã de rótulos.
— Com o assim ?
— Quando recebi m eu diagnóstico, m inha m ãe ficou aliviada, porque achou que seria algo útil. Quer dizer, os professores não olham para crianças que leem textos oito níveis acim a do que deveriam e fazem exercícios de m atem ática com plexos no terceiro ano e pensam que elas precisam de algum a aj uda especial, m esm o que elas sejam hostilizadas o tem po todo. O diagnóstico m e aj udou a obter um program a de educação personalizado, o que é ótim o, m as tam bém m udou as coisas de um j eito ruim . — Jacob ergue os om bros. — Acho que eu esperava que fosse com o aquela m enina no m eu ano que tem um a m ancha da cor de vinho do Porto na m etade do rosto. As pessoas vão direto para ela e perguntam o que é aquilo e ela diz que é um a m arca de nascença e não dói. Fim da história. Ninguém pergunta se podem pegar aquilo com o se fosse um vírus e ninguém deixa de querer brincar com ela por causa disso. Mas é só dizer para alguém que você é autista e eles passam m etade do tem po falando m ais alto com você, com o se você fosse surdo. E as poucas coisas que m e faziam receber algum crédito, com o ser inteligente, ou ter um a m em ória excelente, de repente passaram a ser coisas que m e faziam ainda m ais estranho. — Ele fica quieto por um m om ento, depois se vira para m im . — Eu não sou autista, eu tenho autism o. Tam bém tenho cabelo castanho e pé chato. Então não entendo por que tenho que ser sem pre “o m enino com Asperger”.
Mantenho os olhos na rua.
— Porque é m elhor do que ser o m enino que m atou Jess Ogilvy — respondo, e depois disso não conversam os m ais.
Henry por acaso apareceu em um dia em que a com ida não é perceptivelm ente de Asperger. Em m a fez filé com m olho, batatas assadas e brownies sem glúten. Se Henry repara na falta de algum vegetal verde, ou de qualquer coisa no prato que não sej a m arrom , ele não com enta.
— Então, Henry — digo —, você trabalha com program ação?
— Sim . No m om ento, estou fazendo um a análise de XML para um aplicativo de iPhone com interface de apontar e clicar que vai tem perar quatrocentos pratos étnicos contem porâneos com ervas e m olhos chineses. — Ele em barca em um a exposição esotérica de quinze m inutos sobre program ação de com putador que nenhum de nós consegue acom panhar.
— Parece que a m açã não cai longe da árvore — digo.
— Na verdade, não é a m açã. Eu trabalho para a Adobe — Henry com enta.
Theo e eu som os os únicos a achar isso engraçado. Eu m e pergunto se Henry nunca foi diagnosticado.
— E você se casou de novo? — Olho para Em m a quando pergunto isso.
— Sim . Tenho duas m eninas — ele diz, e se apressa em acrescentar: — Além dos m eninos, claro.
— Claro — respondo e quebro um brownie na m etade. — E quando você vai em bora?
— Oliver! — Em m a exclam a.
Henry ri.
— Bom , acho que depende de quanto tem po durar o j ulgam ento. — Ele se recosta na cadeira. — Em m a, o j antar estava ótim o.
Espere só até a Sexta-Feira Azul, penso.
— É m elhor eu ir procurar um hotel. Estou acordado há trinta e seis horas, daqui a pouco vou entrar em curto-circuito — diz Henry.
— Você vai ficar aqui — Em m a anuncia, e Henry e eu olham os para ela, surpresos. — É bobagem ficar a m eia hora de distância quando vam os todos para o m esm o lugar am anhã cedo, não é? Theo, seu pai pode dorm ir no seu quarto e você fica no sofá.
— O quê? — Theo protesta. — Por que eu tenho que ceder o m eu quarto? E o do Jacob?
— Pense nestes term os — responde Em m a. — Você prefere dorm ir no sofá ou m e aj udar quando o Jacob tiver um a crise?
Ele em purra a cadeira para sair da m esa, irritado.
— Onde estão as drogas dos travesseiros extras?
— Eu não quero desaloj ar ninguém ... — diz Henry.
— Em m a — interrom po —, pode m e dar alguns m inutos?
— Ah, tudo bem . Você queria falar do depoim ento, não é? — Ela se vira para Jacob. — Querido, pode lim par a m esa e pôr os pratos na lavadora?
Ele se levanta e com eça a tirar os pratos da m esa enquanto levo Em m a para cim a.
— Precisam os de um lugar sossegado — digo e a conduzo ao quarto dela.
Nunca estive aqui. Tem um a atm osfera de paz, todo em tons suaves de verde e azul-m ar. Há um j ardim zen sobre a côm oda, com um rastelo e três pedras negras. Na areia, alguém escreveu S-O-S.
— A única parte que ainda está m e deixando nervosa é a inquirição da prom otora — Em m a com eça, e é tudo o que consegue dizer antes de eu agarrá-la e beij á-la. Não é com gentileza. É o equivalente físico de despej ar todos os sentim entos que não posso pôr em palavras.
Quando ela se afasta de m im , sua boca está rosada e intum escida, e isso m e faz dar um passo em sua direção outra vez, m as ela põe a m ão em m eu peito para m e deter.
— Meu Deus — diz ela, com um sorriso lento. — Você está com ciúm e.
— O que foi aquela história de que “é bobagem você ficar a m eia hora de distância...”?
— Mas é m esm o. Ele é o pai dos m eninos, e não um estranho que acabou de chegar da rua.
— Quer dizer que ele vai dorm ir bem aqui do outro lado do corredor?
— Dormir é a palavra que define a situação — diz Em m a. — Ele está aqui por causa do Jacob. Pode acreditar, o Henry não tem nenhum a outra intenção.
— Mas você o am ava.
Ela ergue as sobrancelhas.
— Você acha que eu fiquei sentada aqui quinze anos chorando por ele? Esperando o m om ento em que ele entraria por aquela porta outra vez para que eu pudesse enfiá-lo em um quarto aqui em cim a e seduzi-lo?
— Não — eu lhe digo. — Mas não sei quanto a ele.
Ela fica m e olhando por um m om ento antes de com eçar a rir.
— Você não viu a esposa perfeita e as filhinhas perfeitas dele. Acredite, Oliver, eu não sou o grande am or da vida dele, aquela pessoa que ele nunca vai esquecer.
— Para m im você é — digo.
O sorriso som e do rosto de Em m a. Ela se ergue na ponta dos pés e m e beij a de volta.
— Era disso que você estava precisando?
Ao som da voz de Jacob, nós nos separam os depressa, pondo m eio m etro de distância entre nós. Ele está parado à porta, com um a das m ãos ainda na m açaneta e a outra segurando m inha pasta.
— Vocês estavam ... — Ele hesita. — Vocês dois estão...
Sem dizer m ais nada, ele j oga a pasta com força contra m im , com tanta força que gem o ao segurá-la. Depois atravessa o corredor até seu quarto e bate a porta.
— O que ele viu? — Em m a pergunta, frenética. — Quando ele entrou?
De repente, Henry está parado na porta, olhando interrogativam ente para o corredor onde Jacob desapareceu e depois para Em m a.
— Está tudo bem por aqui?
Em m a olha para m im .
— Acho m elhor você ir em bora — ela diz.