Um Mundo à Parte
Emma
Na quinta-feira, Jacob j á está com a aparência do Jacob de sem pre, m as ainda não voltou ao norm al. Sei pelo j eito com o está distraído — coloco o prato de j antar cheio à sua frente na m esa e ele não com eça a com er até eu o lem brar de que está na hora de pegar o garfo e usá-lo — e pelos m om entos em que o pego balançando o corpo ou subindo e descendo na ponta dos pés. Seus rem édios não parecem estar aj udando.
E soube pelos professores da escola que ele tem passado quase m etade do período de aulas na sala de descanso sensorial.
Liguei duas vezes para Jess Ogilvy, m as sua caixa postal está lotada. Tenho receio de m encionar o nom e dela para Jacob, m as não sei m ais o que fazer. Assim , depois do j antar na quinta-feira, bato na porta de seu quarto e entro.
— Oi — digo.
Ele levanta os olhos do livro que está lendo.
— Oi.
Levei dois anos para perceber que Jacob não havia aprendido a ler com o restante de sua classe da pré-escola. Sua professora dizia que ele estava entre os m elhores alunos de leitura e, de fato, todas as noites ele pegava um livro de um grande cesto que havia em seu quarto e o lia em voz alta. Mas, um dia, notei que o que todos acreditavam que fosse leitura era, na verdade, apenas a m em ória fotográfica de Jacob. Se ouvisse o livro um a vez, ele podia recitá-lo.
— Leia isto — eu lhe disse, entregando-lhe um livro do dr. Seuss, e ele o abriu e com eçou a história.
Eu o interrom pi e apontei para um a letra.
— Que letra é esta?
— Um B.
— E que som tem um B?
Ele hesitou e disse:
— Buzz.
Agora, sento ao lado dele na cam a.
— Com o está se sentindo?
— Interrom pido — Jacob diz.
Tiro o livro de suas m ãos.
— Podem os conversar? — pergunto. Ele faz que sim com a cabeça e eu prossigo. — Você e a Jess brigaram terça-feira?
— Não.
— Quando você foi à casa dela, ela disse algum a coisa que o aborreceu?
Ele sacode a cabeça.
— Não, ela não disse nada.
— Bom , é que estou um pouco perdida, Jacob, porque você voltou para casa de sua aula de orientação m uito perturbado... e acho que ainda tem algum a coisa que o está incom odando.
Essa é um a característica da síndrom e de Asperger: Jacob não m ente. Então, quando ele diz que não brigou com Jess, acredito nele. Mas isso não significa que não estej a traum atizado por causa de algo relacionado a ela. Talvez a tenha encontrado fazendo sexo com o nam orado. Talvez tenha entrado em pânico por causa de sua nova residência.
Ou talvez não tenha nada a ver com Jess e ele tenha dado de cara com um a faixa laranj a de interdição em algum a construção que o obrigou a fazer um desvio.
Então suspiro.
— Você sabe que estou aqui quando quiser falar sobre isso. E a Jess tam bém . Ela está lá se você precisar.
— Vou vê-la outra vez dom ingo.
— Na mesma bat-hora, no mesmo bat-canal — digo.
Devolvo-lhe o livro e percebo que ele está com a velha Pata Jem im a, o brinquedo que costum ava carregar quando criança, enfiada em baixo do braço. Jacob a segurava com tanta força que tive que costurar um a capa de tecido de oncinha em suas costas de tanto que a pelúcia havia ficado gasta. Era um obj eto ritual, segundo a dra. Murano — algo que Jacob podia segurar para se acalm ar. Ela descreveu o brinquedo com o um a m aneira de ele se reinicializar, de lem brar que estava tudo bem . Ao longo dos anos, Jem im a foi aposentada para dar espaço a obj etos m ais discretos que pudessem ser colocados nos bolsos: um a tirinha de fotos de nós dois, daquelas tiradas em um a cabine, tão dobrada e gasta que m al dava para ver nosso rosto; um a pedrinha verde que um a professora lhe trouxe de Montana; um pedacinho de vidro do m ar que Theo lhe deu de Natal certa vez. Na verdade, eu não via esse bichinho de pelúcia há séculos; ele estava enfiado no arm ário de Jacob.
É difícil ver seu filho de dezoito anos agarrado a um brinquedo de pelúcia. Mas o autism o é assim , um a encosta escorregadia. Em um m inuto, você se convence de que j á está tão no alto da colina que não pode m ais ver a base, e, no seguinte, o chão está coberto de um gelo tão liso que faz você deslizar com o um raio lá para baixo.
Coluna da Tia Em, quinta-feira, 14 de janeiro, Edição Adolescentes:
Os m elhores conselhos para pais que j á recebi foram de um a enferm eira obstetra que m e disse o seguinte:
1. Depois que seu bebê chegar, o cachorro será apenas um cachorro. 2. Os terríveis dois anos continuam nos três.
3. Nunca faça a seu filho um a pergunta aberta, com o: “Quer ir para a cam a agora?” Você não vai querer ouvir a resposta, acredite em m im . “Quer que eu o leve para cim a ou prefere subir as escadas sozinho para ir dorm ir?” Desse m odo, você consegue o resultado que desej a e a criança sente que tem poder.
Agora que m eus filhos são m ais velhos, as coisas não m udaram m uito.
Exceto por não term os um cachorro.
Os terríveis dois anos continuam até os dezoito.
E as perguntas ainda não devem ser abertas, porque não vou receber um a resposta para “Onde você esteve ontem até as duas da m adrugada?” ou “Com o você tirou um D na prova de m atem ática?”.
Há duas deduções a se tirar disso. Que maternidade não é um fato, m as um processo contínuo. E que, por m ais anos que se tenha nesse trabalho, a curva de aprendizagem é, bem , quase plana.
Saio do quarto de Jacob com a intenção de assistir ao telej ornal da noite. Mas, quando chego à sala, Theo está sintonizado em um program a podre da MTV sobre m eninas m im adas que são m andadas por seus pais para países do terceiro m undo para aprender sobre hum ildade.
— Você não tem lição de casa para fazer? — pergunto.
— Já fiz.
— Eu quero ver o j ornal.
— Cheguei prim eiro.
Fico olhando enquanto um a m enina recolhe cocô de elefante com um a pá para colocar em um grande saco plástico em Burm a.
— Eca — ela gem e, e eu m e viro para Theo.
— Por favor, diga que você prefere abrir sua m ente para assuntos atuais em vez de ver isso.
— Mas eu tenho que falar a verdade — Theo diz, sorrindo. — Regras da casa.
— Certo, então vam os tentar assim : se eu assistir a esse program a com você, talvez fique suficientem ente convencida a m andar você para Burm a para am pliar seus horizontes lim pando cocô de elefante.
Ele m e j oga o controle rem oto.
— Isso é chantagem .
— Mas funcionou — digo, m udando de canal para um noticiário local. Um hom em está gritando em um m icrofone.
— Tudo o que eu sei — ele grita — é que é um crime o departamento de polícia ficar fazendo corpo mole com o desaparecimento de uma jovem em vez de conduzir uma investigação séria!
Um letreiro branco aparece no rodapé: SENADOR CLAUDE OGILVY.
— Ei — diz Theo. — Esse não é o nom e...
— Shhh...
O rosto da repórter preenche a tela.
— O chefe de polícia de Townsend, Fred Huckins, diz que o desaparecimento de Jess Ogilvy é prioridade e solicita que qualquer pessoa que tenha alguma informação entre em contato com o departamento pelo telefone 802-555-4490.
E um a fotografia da instrutora de habilidades sociais de Jacob aparece, com o núm ero de telefone em baixo.