Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 40 de 121

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Um Mundo à Parte

Rich

 

Tudo é válido no am or, na guerra e no interrogatório. Com isso quero dizer que, se eu conseguir convencer um suspeito de que sou a reencarnação de sua avó m orta há m uito tem po e que o único cam inho para a salvação é se confessar com igo, que assim sej a. Nada disso explica o fato de que não consigo tirar da cabeça o rosto de Em m a Hunt no m inuto em que ela percebeu que eu a havia traído e que não ia deixá-la acom panhar m inha conversinha com seu filho.

Não posso levar Jacob para a sala de interrogatório, porque Mark Maguire ainda está lá esquentando a cadeira. Eu o deixei com um sargento que está fazendo um estágio de seis m eses com igo para decidir se quer ou não fazer o teste para detetive. Não posso liberar Mark até saber com certeza se tenho o suspeito certo sob m inha m ira.

Então levo Jacob para m inha sala. Não é m uito m aior que um arm ário, m as tem caixas de arquivos de casos por todos os lados e algum as fotos de cenas de crim es pregadas no painel de cortiça atrás da m inha cabeça — o que deve ser bom para estim ular sua adrenalina.

— Quer um a Coca-Cola ou outra coisa? — pergunto, fazendo um sinal para ele se acom odar na única outra cadeira livre na sala.

— Não estou com sede — Jacob diz. — Mas gostaria de algo para com er.

Procuro nas gavetas algum doce de em ergência. Se aprendi algum a coisa nesse trabalho é que, quando tudo parece estar indo de m al a pior, às vezes um chocolate pode aj udar a vislum brar um a saída. Eu lhe j ogo um pacote de m eu estoque de sobras do Halloween e ele franze a testa.

— Esse tem glúten — Jacob diz.

— E isso é ruim ?

— Você não tem Skittles?

Não posso acreditar que estam os negociando doces, m as procuro dentro da vasilha e encontro um pacote de Skittles.

— Beleza! — exclam a Jacob, rasgando um canto da em balagem e colocando a ponta direto na boca.

Recosto-m e na cadeira.

— Você se im porta se eu gravar a conversa? Assim posso m andar digitar depois, para o caso de term os algum a ideia fantástica.

— Ah, tudo bem . Se isso for útil.

— Será — digo e aperto o botão do gravador. — Com o você sabia, afinal, que aquele hom em tinha m orrido de hipoterm ia?

— Fácil. Não havia nenhum ferim ento de defesa nos braços dele; havia sangue, m as não feridas abertas... e, claro, o fato de ele estar de cueca foi um sinal evidente.

Sacudo a cabeça.

— Você m e fez parecer um gênio na frente do legista — digo.

— Qual é o caso m ais estranho que você j á ouviu?

Penso por um m om ento.

— Um rapaz pula do alto de um prédio, em um a tentativa de suicídio, m as passa por um a j anela aberta no exato m om ento em que disparam um tiro lá de dentro.

Jacob sorri.

— Isso é lenda urbana. Esse fato foi desm entido pelo Washington Post em 1996 com o parte de um discurso feito por um ex-presidente da Academ ia Am ericana de Ciências Forenses, para m ostrar as com plicações j urídicas da análise forense. Mas é um a história boa m esm o assim .

— E você?

— Charles Albright, que ficou conhecido com o Assassino do Globo Ocular, no Texas. Ele dava aula de ciências, m atava prostitutas e rem ovia o globo ocular delas cirurgicam ente com o troféu. — Ele faz um a careta. — Obviam ente é por isso que eu nunca gostei m uito do m eu professor de ciências.

— Tem m uitas pessoas neste m undo que a gente nunca im aginaria que pudessem ser assassinos — com ento, observando Jacob com atenção. — Você não acha?

Por um centésim o de m ilésim o de segundo, um a som bra passa por seu rosto.

— Você deve saber m elhor do que eu — diz ele.

— Jacob, estou com um a dificuldade. Gostaria de usar seu cérebro para um caso atual.

— Jess — ele pronuncia.

— Sim . Mas é com plicado, porque você a conhecia. Então, se vam os conversar abertam ente, você vai ter que abdicar de seu direito de não falar sobre esse assunto. Entende o que estou dizendo?

Ele faz que sim com a cabeça e com eça a recitar o Aviso de Miranda.

— Eu tenho o direito de perm anecer calado. Qualquer coisa que eu disser pode e será usado contra m im em um tribunal. Tenho o direito de ter um advogado presente durante o interrogatório. Se eu não puder pagar um advogado, vão m e indicar um ...

— Exatam ente — m urm uro. — Na verdade, tenho um a cópia do texto aqui. Se puder rubricar nesse espaço e assinar no fim , posso provar para o m eu chefe que você não decorou sim plesm ente, m as entendeu o significado.

Jacob pega a caneta que lhe entrego e assina rapidam ente seu nom e no docum ento que preparei.

— Podem os conversar agora? — ele pergunta. — O que vocês j á têm ?

— Bom , a m ochila foi um a decepção.

— Nenhum a im pressão digital?

— Só as da própria Jess — digo. — Outra coisa interessante apareceu na casa: há um a tela cortada e a j anela foi arrom bada.

— Você acha que foi assim que o crim inoso entrou?

— Não, porque a porta não estava trancada. Mas encontram os im pressões de bota sob a j anela que correspondem às do nam orado da Jess.

— Teve um episódio incrível em CrimeBusters em que as im pressões de pegadas no lado de fora não apareceram até que nevou... — Jacob se interrom pe e volta ao assunto. — Então, o Mark m ata a Jess e depois tenta fazer parecer que foi outra coisa, um assalto, cortando a tela e derrubando os bancos, a correspondência e os CDs?

— Mais ou m enos isso. — Olho para as m ãos dele. Com o as de Maguire, não há nenhum ferim ento nelas. — O que você acha? Seria m uito difícil reorganizar a cena do crim e para confundir os investigadores?

Antes de ele responder, m eu celular toca. Reconheço o núm ero; é Basil, que acom panhou o m édico-legista no hospital.

— Pode m e dar licença um m inuto? — peço a Jacob e saio no corredor, fechando a porta atrás de m im antes de atender. — O que encontraram ?

— Além dos arranhões nas costas e das contusões na garganta e na parte superior dos braços, há m ais algum as na região periorbital...

— Em linguagem de gente, Basil.

— Hem atom as em volta dos olhos — ele diz. — Ela teve o nariz quebrado e fratura no crânio. A causa da m orte é hem atom a subdural.

Tento im aginar Jacob Hunt dando um gancho de direita no rosto de Jess Ogilvy com força suficiente para quebrar seu crânio.

— Ótim o. Obrigado.

— Tem m ais — Basil continua. — A roupa de baixo estava vestida ao contrário, m as não há sinais de violência sexual. O rosto dela foi lavado. Há traços de sangue na linha de im plantação dos cabelos. E aquele dente faltando? Nós o encontram os.

— Onde?

— Em brulhado em papel higiênico e guardado no bolso da frente da calça dela — Basil responde. — Quem fez isso não largou sim plesm ente Jess Ogilvy naquele lugar. Ele cuidou dela.

Desligo o telefone e penso im ediatam ente em Sasha, que perdeu um dente um m ês atrás quando estava em m inha casa. Nós o em brulham os em um lenço de papel e o colocam os em um envelope com o nom e da Fada dos Dentes, para garantir. Claro que tive que ligar para m inha ex e saber qual era o valor atual: cinco dólares, pode acreditar, o que significa que m inha boca inteira vale cento e sessenta dólares. Depois que Sasha dorm iu e eu troquei o envelope por um a nota de cinco dólares estalando de nova, eu o segurei pensando o que deveria fazer com um dente de leite. Im aginei a Fada dos Dentes com um daqueles abaj ures feitos de j arras de vidro vazias com conchas do m ar dentro, só que o dela contém m ilhares de pequenos dentinhos. Com o não m e agrada esse tipo de decoração, pensei em sim plesm ente j ogar aquela coisa fora, m as, no últim o m inuto, não consegui. Era a infância de m inha filha, guardada em um envelope. Quantas chances eu ainda teria de m e segurar a um pedaço da vida dela?

Teria Jacob Hunt se sentido da m esm a m aneira quando segurou o dente de Jess?

Respiro fundo e volto à m inha sala. O tem po das sutilezas acabou.

— Você j á esteve em um a autópsia, Jacob?

— Não.

Eu m e sento novam ente atrás da m esa.

— A prim eira coisa que o m édico-legista faz é pegar um a agulha enorm e e espetá-la no globo ocular para coletar o hum or vítreo. Quando se faz um a análise toxicológica desse m aterial, é possível identificar o que estava no organism o da vítim a no m om ento da m orte.

— Que tipo de teste toxicológico? — Jacob pergunta, nem um pouquinho abalado pela im agem m acabra que acabei de apresentar. — Álcool? Rem édios controlados? Ou drogas ilegais?

— Depois o legista abre o tronco com um a incisão em Y e afasta a pele. Ele serra as costelas para cortar um a pequena cúpula que possa ser levantada com o a tam pa de um frasco e então com eça a tirar os órgãos, um por um ... pesando-os... cortando fatias para poder exam inar em um m icroscópio.

— Um pesquisador do censo uma vez tentou me testar. Eu comi o fígado dele com feijão preto e um bom Chianti.

— Em seguida, o legista pega a serra, corta todo o alto do crânio e o abre com um form ão. Enfia a m ão lá dentro e puxa o cérebro para fora. Você sabe o som que um cérebro faz quando está sendo puxado para fora de um crânio, Jacob? — Eu im ito, com o um lacre sendo rom pido.

— Então ele é pesado, certo? — Jacob pergunta. — O cérebro hum ano m édio pesa um quilo e m eio, m as o m aior j á registrado tinha dois quilos e trezentos.

— Todas essas coisas que acabei de descrever — digo, inclinando-m e para a frente —, todas elas acabaram de acontecer com sua am iga Jess. O que você pensa disso?

Jacob afunda m ais na cadeira.

— Eu não quero pensar nisso.

— Quero lhe contar algum as coisas que foram encontradas na autópsia da Jess. Talvez você possa m e dizer com o elas teriam acontecido.

Ele se anim a consideravelm ente, pronto para j ogar.

— Havia hem atom as indicando que alguém a agarrou pelos braços e a sufocou, apertando o pescoço dela.

— Bom — Jacob reflete —, havia im pressões de pontas de dedo ou de m ão?

— Me diga você, Jacob. Foi você quem agarrou a Jess pelos braços, não foi?

Ao perceber que caiu em um a arm adilha, o rosto dele fica m uito parecido com o de sua m ãe. Suas m ãos se enroscam nos braços da cadeira e ele sacode a cabeça.

— Não.

— E quanto a sufocá-la? Você não vai m entir para m im sobre ter feito isso, vai?

Ele fecha os olhos e faz um a careta, com o se estivesse sentindo dor.

— Não...

— O que fez você sufocá-la?

— Nada!

— Vocês brigaram ? Ela disse algum a coisa que você não gostou? — pressiono.

Jacob fica na ponta da cadeira e com eça a balançar o corpo. Ele não m e olha nos olhos, por m ais que eu levante a voz. Gostaria de ter tido a ideia de film ar essa conversa em vez de gravá-la. Se o com portam ento desse garoto não for um a declaração de culpa, francam ente, não sei o que m ais seria.

— Nada m e fez sufocar a Jess — Jacob diz.

Ignoro isso com pletam ente.

— Você a sufocou até ela parar de respirar?

— Não...

— Você deu um soco no rosto dela?

— O quê? Não!

— Então com o ela perdeu o dente?

Ele olha para m im e isso m e pega de surpresa. O olhar dele é direto, aberto, com a em oção em estado tão bruto que m e sinto com pelido a desviar o olhar, com o ele geralm ente faz.

— Isso foi um acidente — Jacob confessa baixinho, e só então percebo que eu estava segurando a respiração.