Um Mundo à Parte
Emma
Ninguém sonha ser um a conselheira sentim ental quando crescer.
Secretam ente, todos nós lem os as colunas de conselhos nos j ornais e revistas. Quem nega isso? Mas ficar rem exendo os problem as de outras pessoas para ganhar a vida? Não, obrigada.
Achei que, a essa altura, eu seria um a escritora de verdade. Teria livros na lista do New York Times e seria festej ada pelos críticos literários por m inha capacidade de inserir tem as im portantes em livros com os quais a população em geral conseguia se identificar. Com o m uitos outros pretendentes a escritor, eu tinha seguido a rota alternativa da edição — livros didáticos, no m eu caso. Eu gostava de editar. Havia sem pre um a resposta certa e um a resposta errada. E havia planej ado voltar ao trabalho quando Jacob estivesse na escola em período integral, m as isso foi antes de eu saber que ser um a defensora da educação de seu filho autista é, por si só, um a profissão de quarenta horas por sem ana. Todo tipo de adaptação tinha que ser pleiteado com argum entos e m onitorado vigilantem ente: um a autorização para Jacob sair um pouco da sala de aula se algum a situação ficasse excessiva para ele; um a sala de descanso sensorial; um profissional que pudesse aj udá-lo, no ensino fundam ental, a expressar seus pensam entos por escrito; um plano de educação individualizado; um orientador escolar que não fizesse cara de desespero cada vez que Jacob tivesse um a crise.
Eu fazia alguns trabalhos freelance de revisão à noite, encam inhados a m im por um ex-chefe que com preendia m inha situação, m as isso não era suficiente para nos sustentar. Então, quando o Burlington Free Press abriu um concurso para um a nova coluna, resolvi tentar. Com o eu não sabia nada de fotografia, xadrez ou j ardinagem , escolhi algo que eu conhecia: criação de filhos. Minha prim eira coluna perguntava por que, por m ais que nos esforcem os com o m ães, sem pre sentim os que não estam os fazendo o suficiente.
O j ornal teve um retorno de m ais de trezentas cartas em resposta a essa coluna de teste e, de repente, eu m e tornei a especialista em conselhos sobre criação de filhos. Isso se am pliou para conselhos para pessoas sem filhos, para os que queriam ter filhos, para os que não queriam . As assinaturas aum entaram quando m inha coluna passou a sair duas vezes por sem ana em vez de um a. E esta é a coisa realm ente notável: todas essas pessoas que confiam em m im para dar um j eito nas dificuldades de sua vida supõem que eu tenha algum a pista quando se trata de dar um j eito em m inha própria vida.
A pergunta de hoj e vem de Warren, Verm ont.
Socorro! Meu maravilhoso, educado e doce filho de doze anos se transformou em um monstro. Já tentei lhe dar castigos, mas nada funciona. Por que ele é tão difícil?
Eu m e inclino sobre o teclado e com eço a escrever.
Sempre que uma criança se comporta mal, há alguma coisa mais profunda que motiva a ação. É claro que você pode dar castigos, cortando privilégios, mas isso é como pôr um band-aid sobre uma ferida aberta. Você vai ter que dar uma de detetive e descobrir o que realmente o está perturbando.
Releio o que escrevi e apago o parágrafo inteiro. Quem estou tentando enganar?
Bom , toda a região de Burlington, parece.
Meu filho sai de casa escondido à noite para ir a cenas de crim es, e eu sigo m eu próprio conselho? Não.
Sou salva de m inha hipocrisia pelo som do telefone tocando. É segunda-feira à noite, um pouco depois das oito, então im agino que sej a para Theo. Ele atende na extensão no andar de cim a e, um m om ento depois, aparece na cozinha.
— É pra você — Theo diz. Ele espera até eu atender e desaparece no santuário de seu quarto novam ente.
— Aqui é Em m a — digo no fone.
— Sra. Hunt? É Jack Thornton... O professor de m atem ática do Jacob.
Trem o por dentro. Há alguns professores que veem a parte m elhor em Jacob, apesar de todas as suas esquisitices, e há outros que sim plesm ente não o entendem e não fazem questão de tentar. Jack Thornton esperava que Jacob fosse um gênio em m atem ática, quando isso nem sem pre é parte do Asperger, apesar do que Holly wood parece pensar. Em vez disso, ele se frustrou com um aluno que tem um a caligrafia ruim , troca núm eros de lugar ao fazer cálculos e é literal dem ais para com preender alguns dos conceitos teóricos da m atem ática, com o núm eros im aginários e m atrizes.
Se Jack Thornton está m e telefonando, não podem ser boas notícias.
— O Jacob lhe contou o que aconteceu hoj e?
Jacob tinha m encionado algum a coisa? Não, eu lem braria. Mas é verdade que ele provavelm ente não confessaria, a m enos que lhe fosse perguntado diretam ente. Era m ais provável que eu tivesse lido as pistas pelo seu com portam ento, que teria parecido um pouco incom um . Geralm ente, quando Jacob está ainda m ais arredio ou com m ovim entos repetitivos, ou, inversam ente, falante dem ais ou m uito agitado, eu sei que há algo errado. Ou sej a, sou um a cientista forense m elhor do que Jacob poderia im aginar.
— Pedi ao Jacob para vir até a lousa escrever a resposta da lição de casa — Thornton explica — e, quando eu lhe disse que estava m alfeito, ele m e em purrou.
— Empurrou?
— Sim — diz o professor. — A senhora pode im aginar a reação do resto da classe.
Bem , isso explica por que não vi um a piora no com portam ento de Jacob. Quando a classe com eçou a rir, ele deve ter im aginado que tinha feito um a coisa boa.
— Sinto m uito — respondo. — Vou conversar com ele.
Mal desligo o telefone e Jacob aparece na cozinha e pega um pacote de leite na geladeira.
— Aconteceu algum a coisa na aula de m atem ática hoj e? — pergunto.
Os olhos de Jacob se alargam .
— Você não aguenta a verdade — diz ele, em um a im itação precisa de Jack Nicholson, sinal garantido de que está constrangido.
— Já falei com o sr. Thornton. Jacob, você não pode ficar em purrando os professores.
— Foi ele que com eçou.
— Ele não em purrou você!
— Não, m as ele disse: “Jacob, m eu filho de três anos escreve m elhor do que isso”. E você sem pre diz que, quando alguém fizer piada com igo, eu tenho que m e defender.
A verdade é que eu disse m esm o isso a Jacob. E há um a parte de m im se alegrando por ele ter iniciado um a interação com outro ser hum ano, em vez do contrário — ainda que a interação não tenha sido socialm ente apropriada.
O m undo, para Jacob, é verdadeiram ente preto e branco. Um a vez, quando ele era m enor, o professor de ginástica telefonou porque Jacob teve um a crise durante um j ogo de queim ada, quando um a criança j ogou a grande bola verm elha nele para elim iná-lo. Não se deve jogar coisas nas pessoas, Jacob explicou, chorando. É uma regra!
Por que um a regra que funciona em um a situação não deveria funcionar em outra? Se alguém m etido a besta o provoca e eu lhe digo que é certo revidar — porque às vezes essa é a única m aneira de fazer esses garotos o deixarem em paz —, por que ele não deveria fazer o m esm o com um professor que o hum ilha em público?
— Professores m erecem respeito — explico.
— Por que eles m erecem de graça se todas as outras pessoas têm que fazer por m erecer?
Eu pisco diante dele, sem saber o que dizer. Porque o mundo não é justo, penso, m as Jacob j á sabe disso m elhor do que a m aioria de nós.
— Está brava com igo? — Im perturbável, ele pega um copo e despej a nele o leite de soj a.
Acho que esse é o atributo que m ais sinto falta de ver em m eu filho: em patia. Ele se preocupa em não m e m agoar ou não m e deixar aborrecida, m as isso não é a m esm a coisa que sentir visceralm ente a dor da outra pessoa. Ao longo dos anos, ele aprendeu em patia da m aneira com o eu poderia aprender grego: traduzindo um a im agem ou situação no banco de trocas de seu cérebro e tentando vincular o sentim ento apropriado a ela, m as nunca se tornando realm ente fluente no idiom a.
Na prim avera passada, estávam os na farm ácia com prando os rem édios de um a de suas receitas e notei um estande de cartões do Dia das Mães.
— Só um a vez, eu gostaria que você com prasse um desses para m im — eu disse.
— Por quê? — Jacob perguntou.
— Para eu saber que você m e am a.
Ele deu de om bros.
— Você j á sabe disso.
— Mas seria bom acordar no Dia das Mães e, com o todas as outras m ães neste país, receber um cartão do m eu filho.
Jacob refletiu um pouco.
— Quando é o Dia das Mães?
Eu disse a ele, depois m e esqueci dessa conversa, até 10 de m aio. Nesse dia, quando desci e com ecei m inha rotina de preparar o café da m anhã de dom ingo, encontrei um envelope apoiado na garrafa térm ica de café. Nele, havia um cartão de Dia das Mães.
Não dizia Querida mamãe. Não estava assinado. Na verdade, não tinha nada escrito, porque Jacob tinha feito apenas o que eu lhe dissera para fazer e nada m ais.
Naquele dia, eu m e sentei à m esa da cozinha e ri. Ri até com eçar a chorar.
Agora, olho para m eu filho, que não está olhando para m im .
— Não, Jacob — digo —, não estou brava com você.
Um a vez, quando Jacob tinha dez anos, estávam os andando pelos corredores de um a loj a de brinquedos em Williston quando um m enininho pulou do fim de um a estante usando um a m áscara de Darth Vader e brandindo um sabre de luz. “Bang, você está m orto!”, o m enino gritou, e Jacob acreditou. Ele com eçou a gritar e a balançar o corpo, e derrubou com o braço os produtos de um a prateleira. Estava fazendo isso para se certificar de que não era um fantasm a, para ter certeza de que ainda podia ter um im pacto neste m undo. Ele virou e saiu batendo os braços e pisando em caixas enquanto corria de m im .
Quando consegui alcançá-lo na seção de bonecas, ele estava com pletam ente descontrolado. Tentei cantar Bob Marley. Gritei com ele para fazê-lo reagir à m inha voz. Mas Jacob estava em seu próprio pequeno m undo e, por fim , o único j eito que tive de acalm á-lo foi m e tornar um cobertor hum ano, segurá-lo de encontro ao piso da loj a com os braços e pernas abertos.
Nessa altura, a polícia havia sido cham ada por suspeita de m aus-tratos contra um a criança.
Levei quinze m inutos para explicar aos policiais que m eu filho era autista e que eu não estava tentando m achucá-lo, m as aj udá-lo.
Muitas vezes, desde então, pensei no que aconteceria se Jacob fosse parado pela polícia quando estivesse sozinho, com o nos dom ingos, em que ele vai de bicicleta para a cidade para se encontrar com Jess. Com o os pais de m uitos autistas, fiz o que os grupos de discussão sugerem : na carteira de Jacob há um cartão que inform a que ele é autista e explica ao policial que todos os com portam entos que ele está apresentando — expressão facial lim itada, incapacidade de olhar nos olhos, até m esm o um a reação de fuga — são características da síndrom e de Asperger. E, m esm o assim , eu m e perguntava o que aconteceria se a polícia entrasse em contato com um garoto de um m etro e oitenta e três de altura e m ais de oitenta quilos, descontrolado, que levasse a m ão ao bolso de trás da calça. Esperariam que ele m ostrasse a identidade, ou atirariam prim eiro?
É em parte por isso que Jacob não tem perm issão para dirigir. Ele decorou o m anual para m otoristas desde os quinze anos, e eu sei que ele respeitaria as leis de trânsito com o se sua vida dependesse disso. Mas e se ele fosse parado por um policial? Você sabe o que estava fazendo?, o policial perguntaria, e Jacob responderia: Dirigindo. Então seria tachado de insolente na hora, quando, na verdade, estava apenas respondendo à pergunta literalm ente.
Se o policial lhe perguntasse se ele tinha passado um sinal verm elho, Jacob diria que sim , m esm o que isso tivesse acontecido seis m eses antes, quando o policial nem estava por perto.
Sei perfeitam ente que não devo perguntar a ele se m eu bum bum fica m uito gordo em determ inada calça j eans, porque ele vai m e dizer a verdade. Um policial não teria esse histórico para aj udá-lo a entender a resposta de Jacob.
Bem , de qualquer m odo, não é provável que o parem enquanto ele estiver indo para a cidade de bicicleta — a m enos que fiquem com pena dele por estar tão frio. Aprendi há m uito tem po a parar de perguntar a Jacob se ele quer um a carona. A tem peratura im porta m enos para ele do que sua independência, nessa única pequena coisa.
Levo o cesto de roupas lavadas para o quarto de Jacob e coloco suas roupas dobradas sobre a cam a. Quando ele chegar da escola, se encarregará de guardá-las ele m esm o, com os decotes todos precisam ente alinhados e as berm udas arrum adas por estam pa (listras, cor lisa, bolinhas). Sobre sua m esa há um aquário virado ao contrário com um pequeno aquecedor de xícara de café, um prato de alum ínio e um de m eus batons dentro dele. Suspirando, levanto a câm ara de vaporização de im pressões digitais e tiro m inha m aquiagem , com cuidado para não m exer no resto dos obj etos, precisam ente organizados.
O quarto de Jacob tem a precisão ordenada de um a edição da Architectural Digest: tudo tem seu lugar; a cam a é im pecavelm ente arrum ada; os lápis sobre a m esa ficam em ângulos retos perfeitos com as riscas da m adeira. O quarto de Jacob é o lugar em que a entropia m orre.
Por outro lado, Theo é bagunceiro o suficiente pelos dois. Mal consigo encontrar espaço para atravessar a trilha de roupas usadas j ogadas pelo tapete e, quando coloco o cesto sobre a cam a, algum a coisa range. Tam bém não guardo as roupas de Theo, m as é porque não suporto ver as gavetas entupidas de qualquer j eito com roupas que eu m e lem bro distintam ente de ter dobrado sobre o balcão da lavanderia.
Dou um a olhada em volta e vej o um copo com algo verde apodrecendo dentro, ao lado de um pote de iogurte tom ado pela m etade. Coloco-os no cesto vazio para levar para baixo e, então, em um acesso de bondade, tento puxar a roupa de cam a para dar algum a aparência de ordem . É quando sacudo a fronha para encaixá-la direito no travesseiro que a caixa plástica cai e bate em m eu tornozelo.
É um j ogo, algo cham ado Naruto, com um personagem de m angá brandindo um a espada na capa.
É j ogado em Wii, um console de j ogo que nunca tivem os.
Eu poderia perguntar a Theo por que ele tem isso aqui, m as algo m e diz que não quero ouvir a resposta. Não depois desse fim de sem ana, quando soube que Jacob vem fugindo de casa à noite. Não depois da noite passada, quando seu professor de m atem ática m e telefonou para dizer que ele tem se com portado m al na classe.
Às vezes, acho que o coração hum ano é apenas um a prateleira. Há um a quantidade lim itada que se pode em pilhar sobre ele antes que algo caia por um a das bordas e a gente tenha que recolher os cacos.
Fico olhando para o j ogo de videogam e por um m om ento, depois o recoloco dentro da fronha antes de sair do quarto de Theo.