Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 15 de 121

Páginas do PDF

Um Mundo à Parte

Jacob

 

O tem po todo as pessoas dizem coisas que querem dizer, m as os neurotípicos conseguem entender a m ensagem m esm o assim . Por exem plo, a Mim i Scheck, na escola. Ela disse que m orreria se Paul McGrath não a convidasse para o Baile de Inverno, m as, na verdade, ela não teria m orrido — só teria ficado m uito triste. Ou o j eito com o o Theo às vezes bate no om bro de outro garoto e diz: “Para com isso!”, quando na verdade isso significa que ele quer que seu am igo continue falando. Ou a vez em que m inha m ãe m urm urou: “Ah, que m aravilha”, quando furou um pneu de nosso carro na estrada, em bora claram ente não fosse nenhum a m aravilha, m as um a am olação colossal.

Então, talvez quando Jess m e disse para dar um tem po no dom ingo, ela estivesse de fato querendo dizer algum a outra coisa.

 

Acho que posso estar m orrendo de m eningite. Dor de cabeça, confusão m ental, rigidez no pescoço, febre alta. Tenho dois dos quatro sintom as. Não sei se deveria pedir à m inha m ãe para ir fazer um a punção lom bar ou se sim plesm ente vou levando até m orrer. Já preparei um bilhete explicando com o gostaria de estar vestido em m eu funeral, com o precaução.

É igualm ente possível, im agino, que a razão de eu estar com um a dor de cabeça terrível e com rigidez do pescoço sej a o fato de não ter conseguido dorm ir desde dom ingo, quando vi Jess pela últim a vez.

Ela não m e enviou as fotos de sua nova casa com antecedência, com o tinha prom etido. Eu lhe m andei quarenta e oito e-m ails ontem para lem brá-la, e ela não respondeu a nenhum deles. Não posso ligar para lem brá-la de m e enviar as fotos porque o celular dela ainda está com igo.

Ontem à noite, por volta das quatro da m anhã, eu m e perguntei o que o dr. Henry Lee faria, caso se visse diante das evidências de que:

 

1. Nenhum a foto chegou por e-m ail.

2. Nenhum a de m inhas quarenta e oito m ensagens foi respondida.

 

A Hipótese Um seria que a conta de e-m ail de Jess não está funcionando, o que parece im provável, porque é a m esm a conexão de toda a UVM. A Hipótese Dois seria que ela escolheu não se com unicar com igo, o que indicaria raiva ou desgosto (vide acim a: Dá um tempo). Mas isso não faz sentido, j á que ela m e disse claram ente em nosso últim o encontro que eu deveria contar a ela o que eu tinha aprendido... o que im plica um novo encontro.

A propósito, fiz um a lista do que aprendi em nosso últim o encontro:

 

1. Pizza sem glúten tem um gosto noj ento.

2. Jess não está disponível para ir ao cinem a na próxim a sexta-feira à noite.

3. O telefone dela faz um som com o o gorj eio de um passarinho quando é desligado.

4. Mark é um babaca im becil. (Em bora, na verdade, isso sej a (a) redundante e (b) algo que eu j á sabia.)

 

A única razão de eu ter ido para a escola hoj e, sentindo-m e assim tão m al, é que, se eu ficasse em casa, sei que m inha m ãe insistiria para que eu faltasse à aula com Jess tam bém , e não posso fazer isso. Tenho que devolver seu celular, afinal. E, se eu a vir cara a cara, posso perguntar por que ela não respondeu m eus e-m ails.

Norm alm ente é responsabilidade do Theo m e acom panhar até o cam pus da UVM, que fica a apenas oitocentos m etros da escola. Ele vai com igo até o aloj am ento de Jess, que ela sem pre deixou destrancado para m im , assim posso ficar esperando até que ela saia de sua aula de antropologia. Às vezes, faço m inha lição de casa enquanto a espero, e às vezes olho os papéis em cim a de sua m esa. Um a vez borrifei o perfum e dela em m inhas roupas e andei cheirando com o ela pelo resto do dia. Então Jess chega, e vam os até a biblioteca para trabalhar, ou ao centro acadêm ico, ou a um café na Church Street.

Acho que conseguiria chegar ao aloj am ento de Jess m esm o em estado de com a, m as hoj e, quando realm ente preciso da aj uda do Theo para encontrar o cam inho para o novo local, ele sai da escola m ais cedo porque está doente. Ele m e procura depois da penúltim a aula e m e avisa que está se sentindo um lixo e vai para casa m orrer.

— Não — digo a ele. — Isso ia aborrecer m uito a nossa m ãe.

Meu prim eiro instinto é perguntar a ele com o vou chegar à casa de Jess se ele for em bora doente, m as então m e lem bro de Jess dizendo que nem tudo gira em torno de m im e que se colocar na pele dos outros (não literalm ente, claro) faz parte das interações sociais. Daí digo ao Theo que desej o que ele m elhore e, em seguida, procuro a orientadora, a sra. Grenville. Exam inam os o m apa que Jess m e deu e decidim os que devo pegar o ônibus H-5 e descer na terceira parada. Ela até desenha um a rota em caneta m arca-texto da parada de ônibus até a casa.

O m apa acaba se revelando m uito bom , em bora não tenha sido desenhado em escala. Depois que saio do ônibus, viro à direita no hidrante de incêndio e, então, conto seis casas à esquerda. O novo lar tem porário de Jess é um a velha casa de tij olos com trepadeiras nas laterais. Eu m e pergunto se ela sabe que as gavinhas de trepadeiras podem quebrar argam assa e tij olos. Não sei se devo avisar a ela. Se alguém m e contasse, eu ia ficar na cam a à noite im aginando se a casa inteira ia desabar à m inha volta.

Ainda estou m uito nervoso quando toco a cam painha na porta da frente, porque nunca vi o interior dessa casa e isso m e faz sentir com o se m eus ossos tivessem virado geleia.

Ninguém atende, então vou até os fundos.

Olho para baixo na neve e tom o nota m entalm ente do que vej o, m as isso não é de fato im portante, porque A Porta Está Destrancada, o que deve significar que Jess está m e esperando. Já m e sinto relaxar: é com o em seu aloj am ento na universidade; vou entrar e esperar e, quando ela chegar, tudo vai voltar ao norm al.

 

Jess ficou brava com igo só duas vezes, e am bas aconteceram enquanto eu a esperava. A prim eira vez foi quando tirei todas as roupas dela do arm ário e as organizei de acordo com o espectro eletrom agnético de cores, com o as m inhas. A segunda foi quando m e sentei à m esa dela e reparei nos problem as de cálculo em que ela estava trabalhando. Ela tinha errado m etade dos problem as, então eu corrigi.

 

Theo é a pessoa que m e fez entender que as regras da violência são baseadas em am eaça. Se há um problem a real, existem apenas duas opções:

 

1. Retaliação

2. Confronto

 

Isso m e arrum ou confusão.

Fui m andado para a sala do diretor por bater em um m enino que j ogou um aviãozinho de papel em m im durante a aula de inglês. Quando Theo arruinou um a de m inhas experiências forenses em andam ento, eu fui ao quarto dele com um a tesoura e piquei sistem aticam ente em pedacinhos sua coleção de gibis. Um a vez, no oitavo ano, descobri que um grupo de m eninos estava rindo de m im e, com o se alguém tivesse ligado um interruptor elétrico em m eu interior, tive um ataque de fúria. Eu m e enfiei em um cubículo na biblioteca da escola e fiz um a lista das pessoas que eu odiava e com o eu gostaria que a vida delas term inasse: facada no vestiário do ginásio, bom ba dentro do arm ário na escola, cianeto na Diet Coke. Com o é da natureza do Asperger, sou fanaticam ente organizado em algum as coisas e desorganizado em outras, e, por um acaso do destino, eu perdi aquele papel. Im aginei que alguém (talvez eu) o tivesse j ogado fora, m as m eu professor de história o encontrou e o entregou ao diretor, que cham ou m inha m ãe.

Ela gritou com igo por setenta e nove m inutos seguidos, basicam ente sobre com o se sentia violentada por m inhas ações, e depois ficou ainda m ais irritada porque eu não conseguia entender com o algo que eu tinha feito a incom odava. Então ela pegou dez de m eus cadernos do CrimeBusters e os passou pelo triturador de papel, folha por folha, e de repente seu argum ento ficou perfeitam ente claro. Aquilo m e deixou tão furioso que, naquela noite, despej ei todo o cesto de papel triturado em cim a da cabeça da m inha m ãe enquanto ela dorm ia.

Por sorte, não fui suspenso — a m aioria da adm inistração da escola m e conhecia suficientem ente bem para saber que eu não era um a am eaça à segurança pública —, m as a lição de m inha m ãe bastou para m e fazer ver por que eu j am ais poderia fazer algo com o aquilo de novo.

Digo tudo isso com o um a explicação: a im pulsividade é parte do que significa ter Asperger.

E nunca acaba bem .