Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 120 de 121

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Um Mundo à Parte

CASO 11: O guardião do meu irmão

CASO 11: O G UARDIÃO DO MEU IRMÃO

 

Theo Hunt vem adotando um comportamento de risco. Suas escapadas voyeurísticas evoluíram para entrar em casas vazias e levar recordações: jogos eletrônicos e aparelhos de MP3. Na tarde de 12 de janeiro de 2010, ele entrou na casa de um professor da faculdade local. Sem que ele soubesse, a pessoa que tomava conta da casa — a estudante de pós-graduação Jess Ogilvy — estava no andar superior tomando banho. Ele preparou uma xícara de chá, então ouviu barulho no andar de cima e foi investigar.

É difícil saber quem ficou mais surpreso: Ogilvy, que deu de cara com um menino estranho no banheiro enquanto estava completamente nua, ou Theo Hunt, que percebeu que conhecia a moça no chuveiro, que era orientadora de seu irmão mais velho, Jacob. Ogilvy pegou uma toalha e saiu do boxe, mas escorregou e bateu a cabeça na borda da pia. Enquanto ela tentava se levantar, Theo Hunt saiu correndo e, durante sua fuga apressada, derrubou uma estante de CDs, vários bancos da cozinha e a correspondência que estava sobre o balcão.

Duas horas mais tarde, o irmão de Theo, Jacob, chegou para sua sessão de orientação semanal. Estudante de ciência forense, ele se surpreendeu ao notar uma pegada conhecida na varanda, que trazia a marca de um tênis Vans igual ao de seu irmão. A porta estava aberta e, quando entrou na casa, Jacob a encontrou toda desarrumada. Chamou sua orientadora, mas ela não respondeu. A investigação no andar superior levou à descoberta de Jess Ogilvy, caída nua em uma poça de sangue.

Supondo que seu irmão estivesse envolvido na morte — talvez durante uma discussão em meio a uma tentativa frustrada de roubo —, Jacob resolveu alterar a cena do crime para que não apontasse para Theo. Então ele limpou e vestiu o corpo e o moveu para o andar de baixo (tropeçando uma vez na escada, o que resultou na perda post-mortem de um dente da frente de Ogilvy). Usando água sanitária, ele limpou o banheiro para remover os traços de sangue. Levantou os bancos que haviam sido derrubados, recolheu os CDs e a correspondência e passou a criar uma cena de crime que poderia ser interpretada pelas autoridades, à primeira vista, como sequestro e, depois, como uma tentativa de encobrimento preparada pelo obtuso namorado de Ogilvy, Mark Maguire. Para isso, Hunt teve que se colocar na mente de um idiota limítrofe que tentasse (muito mal) fazer um assassinato parecer um sequestro. Guardou algumas roupas e artigos de higiene de Ogilvy em uma mochila, mas se assegurou de que não fossem roupas rotineiramente usadas pela moça, o que alguém menos astuto (como Mark Maguire) nunca teria percebido. Deixou um bilhete digitado — supostamente pela própria Ogilvy — pedindo que a entrega da correspondência fosse momentaneamente suspensa, como se ela tivesse decidido viajar. Depois cortou com uma faca a tela de uma janela da cozinha, para criar uma pista falsa de invasão de domicílio. Por fim, caminhou do lado de fora sob essa janela usando as botas de Mark Maguire, para que a polícia pudesse associar a tentativa de “encobrimento” ao namorado de Ogilvy. Em seguida, Hunt carregou o corpo de Ogilvy até uma galeria pluvial a centenas de metros de distância da casa e esperou que os investigadores montassem o quebra-cabeça com as informações que ele lhes deixara.

Jacob Hunt não se deu conta, na ocasião, que poderia estar envolvendo a si mesmo no assassinato. Deixou de considerar a possibilidade de que a cena que ele encontrara (na pior das hipóteses, assassinato cometido por seu irmão e, na melhor, uma morte causada acidentalmente por Theo) poderia ser, em vez disso, uma morte por causas naturais: um piso escorregadio, uma fratura de crânio e um hematoma. Nada disso, porém, de fato importa.

Nos anos que se seguiram, a motivação de Jacob para reestruturar a cena do crime e mover o corpo foi calorosamente debatida. Alguns achavam que, da mesma forma como pode haver crime passional, também pode haver cenas de crime de amor fraternal. Outros consideravam que a fixação de Jacob por ciência forense foi determinante: ele queria experimentar a emoção que um assassino poderia sentir enquanto esperava que as autoridades desvendassem a trilha que ele havia deixado.

Pense o que quiser. A única coisa que realmente importa é isto:

Eu faria tudo outra vez.