Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 16 de 121

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Um Mundo à Parte

Emma

 

Eu posso trabalhar em casa para escrever m inha coluna, m as, todas as tardes de terça-feira, tenho que ir à cidade m e encontrar com m inha editora. É basicam ente um a sessão de terapia: ela m e conta o que está errado em sua vida e espera que eu lhe distribua conselhos, com o faço com o público no j ornal.

Não m e im porto, porque acho que um a hora por sem ana de aconselham ento é um a troca j usta por um salário e um seguro-saúde. Mas tam bém significa que, às terças-feiras, quando Jacob se encontra com Jess, ela é responsável por levá-lo de volta para casa.

Nesta terça, assim que entro em casa, encontro Theo na cozinha.

— Com o está se sentindo? — pergunto, levando a m ão à testa dele. — Está com febre?

Eu tinha ligado de Burlington, com o sem pre faço antes de sair do escritório, e fiquei sabendo que Theo estava doente e desesperado por ter ido em bora da escola sem se lem brar de que hoj e é o dia em que ele leva Jacob à consulta com Jess. Um segundo telefonem a, agora para a coordenação da escola, evitou que eu entrasse em pânico: a sra. Grenville havia conversado com Jacob sobre com o pegar o ônibus para a nova casa de Jess e disse que ele estava se sentindo seguro para ir sozinho.

— É só um resfriado — diz Theo, esquivando-se de m im . — Mas o Jacob ainda não chegou em casa, e j á passa das quatro e m eia.

Ele não precisa dizer m ais nada: Jacob preferiria decepar um braço com um a faca de cozinha a perder um episódio de CrimeBusters. Mas Jacob está apenas quinze m inutos atrasado em relação a seu horário norm al.

— Bem , ele encontrou a Jess em um lugar novo hoj e. Vai ver que é um pouco m ais longe que o antigo aloj am ento dela.

— Mas e se ele nem tiver chegado lá? — diz Theo, visivelm ente nervoso. — Eu devia ter ficado na escola e ido j unto com ele, com o sem pre.

— Querido, você estava doente. Além disso, a sra. Grenville achou que essa poderia ser um a boa oportunidade para Jacob ser independente. E acho que tenho o novo núm ero de telefone da Jess em m eu e-m ail. Posso ligar para ela, se isso fizer você se sentir m elhor. — Envolvo Theo em m eus braços. Faz m uito tem po que não o abraço; aos quinze anos, ele se esquiva de qualquer dem onstração física de afeto. Mas é bom vê-lo preocupado com Jacob. Pode haver atrito entre eles, m as, em seu coração, Theo o am a. — Tenho certeza de que o Jacob está bem , m as fico contente por ele ter você, que se preocupa. — Nesse instante, tom o a súbita decisão de valorizar os bons sentim entos de Theo por Jacob. — Vam os sair para j antar com ida chinesa hoj e — sugiro, em bora com er fora sej a um luxo com o qual não podem os arcar; além disso, é m ais difícil encontrar com ida que Jacob possa com er se não for preparada por m im .

Um a expressão indecifrável passa pelo rosto de Theo, m as então ele concorda.

— Seria legal — diz rispidam ente, escapando de m eu abraço.

A porta da frente se abre.

— Jacob? — cham o, e vou encontrá-lo.

Por um m om ento, fico sem fala. Os olhos dele estão arregalados, o nariz, escorrendo. Ele levanta e abaixa as m ãos ao lado do corpo, enquanto m e em purra para a parede e sobe correndo para o quarto.

— Jacob!

A porta do quarto dele não tem fechadura; eu a tirei anos atrás. Em purro a porta e encontro Jacob dentro do arm ário, sob os tentáculos das m angas de cam isa e das calças de m oletom , balançando para frente e para trás e em itindo um som alto e agudo da garganta.

— O que aconteceu, m eu querido? — digo, enquanto fico de quatro e entro no arm ário tam bém . Eu o abraço com força e com eço a cantar: — I shot the sheriff... but I didn’t shoot the deputy.

As m ãos de Jacob estão balançando com tanta força que ele m e m achuca.

— Fale com igo. Aconteceu algum a coisa com a Jess?

Ao som do nom e dela, ele arqueia o corpo para trás com o se tivesse sido atingido por um tiro. Com eça a bater a cabeça na parede com tanta força que faz um a m arca no estuque.

— Não faça assim — im ploro, usando toda a m inha força para puxá-lo para a frente e não deixar que se m achuque.

Lidar com um surto autista é com o lidar com um tornado. Quando se está perto o bastante para vê-lo chegando, não há nada m ais a fazer a não ser enfrentar. Ao contrário de um a criança com um ataque de birra, Jacob não se im porta se seu com portam ento está provocando algum a reação em m im . Ele não tom a cuidado para não se m achucar. Não está fazendo isso para conseguir algum a coisa. Na verdade, ele não tem nenhum controle de si m esm o. E, ao contrário de quando ele tinha quatro ou cinco anos, não sou m ais suficientem ente forte para controlá-lo.

Levanto, apago todas as luzes, fecho as cortinas e ponho o CD de Bob Marley para tocar. Então, com eço a tirar as roupas dos cabides e a em pilhá-las sobre o corpo dele, o que, a princípio, o faz gritar ainda m ais, m as depois, conform e o peso aum enta, passa a acalm á-lo. Quando ele finalm ente adorm ece em m eus braços, m inha blusa e m inhas m eias estão rasgadas. O CD j á tocou inteiro quatro vezes. O visor digital de seu despertador m arca 20h35.

— O que desencadeou isso? — m urm uro. Pode ter sido qualquer coisa: um a discussão com Jess, ou o fato de ele não ter gostado da disposição da cozinha em sua nova casa, ou a constatação tarde dem ais de que estava perdendo seu program a de TV favorito. Beij o a testa de Jacob. Então, com cuidado, eu m e solto do nó de seus braços e o deixo enrolado no chão, com um travesseiro sob a cabeça. Eu o cubro com a colcha de retalhos com as cores do arco-íris que estava dobrada dentro do arm ário.

Com os m úsculos endurecidos, desço as escadas de novo. As luzes estão todas apagadas, exceto um a na cozinha.

Vamos sair para jantar comida chinesa hoje.

Mas isso foi antes de eu saber que seria sugada pelo buraco negro que Jacob pode se tornar a qualquer m om ento.

Há um a tigela de cereal m atinal no balcão, com um a poça de leite de soj a ainda no fundo. A caixa de cereal está ao lado dela, com o um a acusação.

Ser m ãe é um a tarefa de Sísifo. Você term ina de fechar um a costura e outro rasgo aparece. Passei a acreditar que essa vida que estou vestindo nunca vai estar na m edida exata.

Levo a tigela para a pia e engulo as lágrim as que descem pela m inha garganta. Ah, Theo, me desculpe.

Mais uma vez.