Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 21 de 121

Páginas do PDF

Um Mundo à Parte

Theo

 

Um a vez, um a m enina veio até m im na cantina e m e perguntou se eu queria ir ao Acam pam ento de Jesus. Você será salvo, ela m e disse, e, cara, fiquei tentado a ir. Quer dizer, está bem claro para m im j á há algum tem po que vou para o inferno, por causa de todos os pensam entos secretos que eu não deveria ter sobre Jacob.

A gente sem pre lê esses livros sobre garotos que têm irm ãos autistas e que estão constantem ente cuidando deles, que os am am até a m orte, que sabem lidar com seus surtos m elhor que os adultos. Bom , eu não sou um a dessas pessoas. É verdade que, quando Jacob costum ava sair andando a esm o e se perder, eu sentia um frio no estôm ago, m as não era por estar preocupado com ele. Era porque eu tinha que ser um irm ão m uito ruim para estar pensando o que eu pensava: Quem sabe ele nunca seja encontrado e eu possa seguir com a minha vida.

Eu às vezes sonhava que m eu irm ão era norm al. Sabe com o é, que nós podíam os brigar por causa de coisas com uns, com o de quem é a vez de usar o controle rem oto da televisão, ou quem ia sentar no banco da frente no carro. Mas nunca tive perm issão para brigar com Jacob. Nem quando eu m e esquecia de trancar a porta do m eu quarto e ele entrava e roubava m eus CDs para algum proj eto forense; nem quando éram os pequenos e ele andava em volta da m esa na minha festa de aniversário com endo bolo do prato dos m eus am igos. Minha m ãe dizia que era um a regra da casa e a explicava assim : Jacob é diferente de nós. Dá para acreditar? E, a propósito, desde quando ser diferente lhe garante um passe livre na vida?

O problem a é que a diferença de Jacob não se restringe a Jacob. É com o naquela vez em que saiu tinta da blusa verm elha de m inha m ãe na m áquina de lavar e todas as m inhas roupas ficaram cor-de-rosa: o Asperger de m eu irm ão fez com que eu ficasse diferente tam bém . Eu nunca podia trazer am igos em casa — e se Jacob tivesse um surto? Se eu achava estranho ver m eu irm ão fazendo xixi no aquecedor para observar o vapor subindo, o que alguém da escola iria pensar? Sem dúvida que eu tam bém era um m aluco, por associação.

Confissão da verdade núm ero um : quando estou andando por um corredor na escola e vej o Jacob do outro lado, desvio do cam inho intencionalm ente para evitá-lo.

Confissão da verdade núm ero dois: um a vez, quando um bando de m eninos de outra escola com eçou a zoar Jacob enquanto ele tentava j ogar beisebol — e era m esm o a coisa m ais bizarra do universo —, fingi que não o conhecia e ri j unto com eles.

Confissão da verdade núm ero três: eu realm ente acredito que isso tudo é pior para m im do que para Jacob, porque ele, na m aior parte do tem po, nem se dá conta de que as pessoas não querem nada com ele; m as eu estou cem por cento consciente de que todos estão olhando para m im e pensando: Ah, é o irmão daquele menino esquisito.

Confissão da verdade núm ero quatro: eu não fico norm alm ente pensando em ter filhos, m as, quando isso acontece, m e dá um puta m edo. E se m eu filho acabar sendo com o Jacob? Já passei m inha infância inteira lidando com autism o; não sei se consigo lidar com isso pelo resto da vida.

Toda vez que penso em um a dessas coisas, m e sinto um lixo. Na verdade, eu sou bem inútil: não sou pai de Jacob nem um de seus professores. Só estou aqui com o um a referência, para que m inha m ãe possa olhar de Jacob para m im e m edir a distância entre um garoto com síndrom e de Asperger e outro considerado norm al.

Quando aquela m enina m e convidou para ir ao Acam pam ento de Jesus, eu perguntei a ela se Jesus ia estar lá. Ela pareceu confusa e disse que não.

— Bom — respondi —, isso não é m ais ou m enos com o ir para um acam pam ento de hóquei e não j ogar hóquei?

Enquanto eu m e afastava, a m enina disse que Jesus m e am ava.

— Com o você sabe? — perguntei.

Um a vez, depois de Jacob ter entrado no m eu quarto com a fúria de um a tem pestade tropical e destruído a m aior parte das coisas que eram im portantes para m im , m inha m ãe veio se com padecer.

— No fundo, ele am a você — ela disse.

— Com o você sabe? — perguntei.

— Eu não sei — ela adm itiu. — Mas é nisso que preciso acreditar para seguir em frente.

 

Procurei na m inha j aqueta, nas calças. Vasculhei a entrada da casa, m as não consigo encontrar o iPod. Isso significa que o perdi em algum lugar entre aqui e a casa dela.

E se ela souber que eu tentei pegá-lo?

E se contar para alguém ?

 

Quando chego em casa da escola, a vida está de volta ao norm al. Minha m ãe está escrevendo em seu laptop na m esa da cozinha e Jacob está no quarto com a porta fechada. Preparo m acarrão instantâneo e com o no m eu quarto, com Coldplay tocando no m áxim o enquanto faço a lição de francês.

Minha m ãe vive m e dizendo que não posso ouvir m úsica enquanto faço a lição de casa. Um a vez, ela entrou de repente e m e acusou de não fazer m eu trabalho de inglês quando era exatam ente isso que eu tinha estado fazendo. E como pode sair alguma coisa boa, disse ela, se você não se concentra?

Eu falei para ela sentar e ler o m aldito trabalho no m eu com putador.

Ela leu e calou a boca rapidinho. Tirei um A naquele proj eto, pelo que m e lem bro.

Acho que, por algum a razão, o pool de genes em nossa fam ília se m isturou todo e, com o resultado, Jacob só consegue focar um a coisa, um a obsessão extrem a, enquanto eu posso fazer dezesseis m il coisas ao m esm o tem po.

Quando term ino a lição de casa, ainda estou com fom e, então desço as escadas. Minha m ãe não está em nenhum lugar à vista, e não tem nenhum a droga de com ida em casa, só para variar, m as vej o Jacob sentado na sala de estar. Olho para o relógio, m as nem precisava: se são quatro e m eia em nossa casa, só pode ser CrimeBusters.

Hesito na porta, vendo-o debruçado sobre seus cadernos. Metade de m im está decidida a escapar sem ser visto por Jacob, m as a outra m etade lem bra com o ele estava esta m anhã. Apesar de tudo o que eu disse sobre querer que ele nunca tivesse nascido, vê-lo daquele j eito — m eio com o se a luz tivesse sum ido de dentro dele — m e fez sentir com o se estivesse levando socos no estôm ago.

E se eu tivesse nascido prim eiro e fosse eu que acabasse com Asperger? Ele tam bém estaria aqui parado, desej ando que eu não o notasse?

Antes m esm o de eu ter a chance de m e sentir culpado, Jacob com eça a falar. Ele não olha para m im — ele nunca olha — m as isso provavelm ente significa que todos os seus outros sentidos estão m ais aguçados.

— É o episódio vinte e dois hoj e — ele diz, com o se estivéssem os no m eio de um a conversa. — É antigo, m as é bom .

— Quantas vezes você j á viu esse? — pergunto.

Ele dá um a olhada no caderno.

— Trinta e oito.

Não sou m uito fã de CrimeBusters. Para com eçar, acho as atuações ruins. Em segundo lugar, esse deve ser o laboratório forense m ais rico de todos os tem pos, com toda aquela parafernália. Algo m e diz que a câm ara de vaporização do laboratório estadual em Verm ont é bem m ais parecida com o velho aquário de peixes rem endado com fita adesiva de Jacob do que com a versão de CrimeBusters, que é toda increm entada com luzes neon azuis e m uito m aterial crom ado. Além disso, os investigadores parecem passar m uito m ais tem po decidindo quem vai para a cam a com quem do que resolvendo crim es.

Mesm o assim , sento ao lado de m eu irm ão no sofá. Há um bom palm o de espaço entre nós, porque Jacob não gosta da ideia de ser tocado. Sei que não devo falar no m eio do program a, por isso, lim ito m eus com entários aos m om entos dos com erciais de rem édios para disfunção erétil e produtos de lim peza.

O enredo envolve um a garota que foi encontrada m orta depois de um acidente em que o m otorista fugiu sem prestar socorro. Há um a m ancha de tinta em sua m otocicleta, então a policial sexy leva a am ostra ao laboratório. Enquanto isso, o cara que faz as autópsias encontra um hem atom a no corpo da m oça que parece um a im pressão digital. O policial velho m al-hum orado a fotografa, leva ao laboratório e encontra um a correspondência: um funcionário público aposentado, que está bebendo suco de am eixa quando Mal-Hum orado e Sexy chegam . Os policiais perguntam se ele sofreu algum acidente de carro ultim am ente e ele diz que seu carro foi roubado. Infelizm ente para ele, os policiais o encontram estacionado na garagem ao lado da casa. Pego em flagrante, ele adm ite que estava dirigindo e que apertou o acelerador em vez do freio. Porém , quando Sexy exam ina o carro, percebe que o banco do m otorista está posicionado m uito para trás para a altura do velho funcionário público e que o som estéreo está sintonizado em hip-hop. Sexy pergunta se m ais alguém dirige o carro do vovô bem no m om ento em que um garoto adolescente entra. Vovô adm ite que, depois de atingir a garota na m oto, ele bateu a cabeça, então seu neto o levou para casa. Nem é preciso dizer que ninguém acredita, m as é a palavra dele contra a dos policiais, até que Mal-Hum orado encontra um fragm ento de dente preso no volante, que com bina com o do neto. O garoto é preso e seu avô é libertado.

Durante todo o tem po em que estou assistindo a isso, Jacob escreve em seus cadernos. Ele tem prateleiras cheias deles, todos preenchidos com cenários de crim es que apareceram nessa série de TV.

— O que você escreve aí? — pergunto.

Jacob dá de om bros.

— As evidências. Então tento deduzir o que vai acontecer.

— Mas você j á viu esse trinta e oito vezes — digo. — Já sabe com o vai acabar.

A caneta de Jacob continua correndo pela página.

— Mas talvez acabe diferente desta vez — diz ele. — Talvez hoj e o garoto não sej a pego.