Um Mundo à Parte
Oliver
No papel, Jacob Hunt não só parece capaz de enfrentar um j ulgam ento com o poderia bem passar por um estudante de direito, provavelm ente m ais qualificado para defender a si próprio do que eu.
Só o mentiroso sabe que está mentindo.
É a terceira vez que leio as respostas de Jacob para o dr. Cohn, o psiquiatra do Estado, e a terceira vez que essa afirm ação salta diante de m im . Será que Jacob Hunt é m esm o um garoto brilhante com um a m em ória fotográfica que teria sido m uito útil para m im na faculdade de direito? Ou será que está apenas enrolando sua m ãe... e todo m undo?
Sej a com o for, enquanto term ino de ler o laudo pela últim a vez, adm ito que não tenho a m ais ínfim a chance de questionar sua com petência, especialm ente em um lugar com o Verm ont. Se alguém está se sentindo incom petente neste m om ento, sou eu — porque tenho de dizer a Em m a que não vou nem brigar com o Estado quanto a essa questão.
Pego m eu carro e vou até a casa dos Hunt. Com o Em m a e Jacob estão basicam ente em prisão dom iciliar, não posso lhes pedir que m e encontrem no escritório. Thor está em m eu colo, m eio enfiado em baixo do volante.
Paro diante da casa, desligo o m otor, m as não m e m exo para sair do carro.
— Se ela ficar m uito brava — digo ao cachorro —, conto com você para m e defender.
Com o é um dia frio — dezessete graus negativos —, ponho Thor dentro do casaco e m e dirij o à porta da frente. Em m a atende antes m esm o de eu bater.
— Oi — diz ela. — É bom te ver. — Ela até sorri um pouco, o que lhe dá um a expressão m uito suave. — Sinceram ente, quando se está presa dentro de casa, até a visita do leitor do relógio de luz é um grande acontecim ento.
— E eu que pensei que você estava com eçando a gostar de m im . — Thor enfia a cabeça entre os botões de m eu casaco. — Tudo bem trazê-lo para dentro? Está m uito frio no carro.
Ela exam ina o cachorro com ar preocupado.
— Ele não vai fazer xixi no m eu tapete?
— Só se você continuar olhando para ele desse j eito.
Ponho Thor no chão e o observo entrar.
— Não gosto de pelo de cachorro — Em m a m urm ura.
— Que sorte você não ter nascido um spaniel, hein? — Tiro o casaco e o dobro no braço. — Recebi o laudo da perícia psicológica.
— E? — Em um piscar de olhos, Em m a está focada, intensa.
— O Jacob é capaz de enfrentar um j ulgam ento.
Ela sacode a cabeça, com o se não tivesse ouvido direito.
— Você viu o que aconteceu na audiência prelim inar!
— Sim , m as essa não é a definição j urídica de incapacidade e, de acordo com o psiquiatra do Estado...
— Pouco m e im porta o psiquiatra do Estado. Claro que eles vão encontrar alguém que diga o que a prom otora quer. Você não vai nem recorrer?
— Você não está entendendo — digo-lhe. — Em Verm ont, acho que até Charlie Manson seria considerado capaz de enfrentar um j ulgam ento. — Sento-m e em um dos bancos perto da porta da entrada. — Já ouviu falar de um cara cham ado John Bean?
— Não.
— Em 1993, ele am arrou a m ãe e construiu um a pira fúnebre para ela com a m obília da casa, que havia cortado em pedaços. Ele j ogou água sanitária nos olhos dela, que conseguiu escapar. Em sua prim eira apresentação no tribunal, Bean anunciou ao j uiz que era a reencarnação de Jesus Cristo. O j uiz decidiu que as declarações dele eram confusas e indicavam incapacidade de com preender o que estava acontecendo. Quando foi denunciado por sequestro pelo m esm o evento, ele recusou advogado e quis se declarar culpado, m as o j uiz não aceitou e lhe foi designada um a defensora pública. Bean contou a um avaliador que achava que era pai dos filhos da defensora pública e que ela era autora de um a história em quadrinhos e um cruzam ento de Janet Reno com Janet Jackson. Nos oito anos que se seguiram , ele nunca discutiu o caso com a advogada, que solicitou ao tribunal que o declarasse incapaz...
— Não entendo o que isso tem ...
— Calm a, ainda não term inei — digo. — O psiquiatra da defesa disse que Bean afirm ava ter chips de com putador no corpo que perm itiam que ele fosse program ado. O psiquiatra do Estado o diagnosticou com o psicótico. Durante o j ulgam ento, Bean arrancou o aquecedor da parede, j ogou no chão a televisão do tribunal e pegou o revólver de um dos oficiais de j ustiça. Disse à advogada que estava vendo serpentes saindo da cabeça das pessoas na sala e que anj os estavam controlando a testem unha. Foi condenado e, antes da definição da sentença, disse ao tribunal que um a pedra com em orativa tinha sido erguida em Riverside Park em nom e da Fundação Freddie Mercury depois que o cantor m atou um padre católico. Depois disso, falou que Tony Curtis disse que era pai dele e usou o poder m aior do Porco Sim on, o m esm o poder que havia criado o governo nazista, para levá-lo à sua casa e alim entá-lo com carne hum ana. Ah, e um gato falou com ele sublim inarm ente.
Em m a fica olhando para m im .
— Nada disso tem a ver com o Jacob.
— Tem , sim — respondo —, porque, no estado de Verm ont, apesar de tudo que acabei de lhe contar, John Bean foi considerado capaz de enfrentar um j ulgam ento. Isso é um precedente j urídico.
Em m a cai pesadam ente no banco ao m eu lado.
— Ah — diz, com a voz fraca. — Então o que vam os fazer agora?
— Eu... hã... acho que devem os alegar insanidade.
Ela levanta a cabeça na m esm a hora.
— O quê? Do que você está falando? O Jacob não é insano!
— Você acabou de m e dizer que ele não é capaz de enfrentar um j ulgam ento e agora diz que ele é capaz dem ais para usar um a estratégia de defesa por insanidade. Não dá para ser as duas coisas! — argum ento de volta. — Podem os analisar a exibição de provas quando ela chegar... Mas, pelo que você m e contou, os argum entos contra o Jacob são bem fortes, incluindo um a confissão. Eu realm ente acredito que essa é a m elhor m aneira de m antê-lo fora da cadeia.
Em m a se põe a andar de um lado para o outro. Um a risca de sol bate em seu cabelo e em seu rosto, e de repente m e lem bro de um curso de história da arte que fiz na faculdade: na Pietà, de Michelangelo, em A virgem com o menino, de Rafael, em A virgem dos rochedos, de Da Vinci, Maria nunca estava sorrindo. Seria por saber o que vinha pela frente?
— Se a defesa por insanidade funcionar — Em m a pergunta —, ele vem para casa?
— Depende. O j uiz tem o direito de m andá-lo para um a unidade psiquiátrica de custódia até ter certeza de que o Jacob não vai m achucar m ais ninguém .
— Com o assim , unidade psiquiátrica de custódia? Está falando de hospital psiquiátrico?
— É, por aí — adm ito.
— Então m eu filho pode ir ou para a cadeia ou para um hospital psiquiátrico? E quanto à terceira opção?
— Que terceira opção?
— Ficar livre — diz Em m a. — Ser absolvido.
Abro a boca para dizer a ela que essa é um a aposta m uito alta, que ela teria um a chance m aior se ensinasse Thor a tricotar, m as em vez disso respiro fundo.
— Por que não perguntam os ao Jacob?
— De j eito nenhum — Em m a responde.
— Infelizm ente, essa não é um a escolha sua. — Levanto e cam inho até a cozinha. Jacob está com um a vasilha de m irtilos, escolhendo os m enores para Thor.
— Sabia que ele gosta de frutas? — pergunta Jacob.
— Ele com e qualquer coisa que não estej a pregada no chão — digo. — Tem os que conversar sobre o seu caso, cara.
— Cara? — Em m a entra e para atrás de m im , com os braços cruzados.
Eu a ignoro e m e aproxim o de Jacob.
— Você passou no teste de capacidade.
— Ah, é? — diz ele, radiante. — Fui bem m esm o?
Em m a chega m ais perto.
— Você foi ótimo, querido.
— Precisam os com eçar a pensar em sua defesa — digo.
Jacob larga a vasilha de m irtilos.
— Tenho algum as ideias m uito boas. Teve um a vez em CrimeBusters que...
— Isso aqui não é um program a de TV, Jacob — eu o interrom po. — É m uito im portante. É a sua vida.
Ele senta à m esa da cozinha e pega Thor no colo.
— Você sabia que o cara que inventou o Velcro teve a ideia quando levou o cachorro para passear nos Alpes? Quando viu os carrapichos grudarem no pelo do cachorro, ele pensou em com o algo com ganchos poderia se prender em algo com anéis.
Eu m e sento na frente dele.
— Você sabe o que é um a defesa afirm ativa?
Ele faz que sim com a cabeça e solta a definição j urídica:
— É um a razão para considerar que o réu não é culpado, com o legítim a defesa, defesa de outra pessoa ou insanidade. O réu precisa alegá-la algum tem po antes do j ulgam ento, geralm ente por escrito.
— O que eu estava pensando, Jacob, é que sua m elhor chance nesse j ulgam ento seria um a defesa afirm ativa.
Seu rosto se ilum ina.
— Sim ! Claro! Em defesa de outra pessoa...
— Quem você estava defendendo? — interrom po.
Jacob baixa os olhos para Thor e brinca com as plaquinhas de identificação em sua coleira.
— Você não pode estar falando sério — diz ele. — Estou falando sério... e não me chame de Shirley.
— Você acha m esm o que é hora de fazer piadas?
— É de Apertem os cintos, o piloto sumiu — Jacob responde.
— Tá, m as não tem graça. O Estado tem provas m uito fortes contra você, Jacob, e por isso acho que precisam os usar a defesa por insanidade.
Ele levanta a cabeça depressa.
— Eu não sou louco!
— Não significa isso.
— Eu sei o que significa — diz ele. — Significa que um a pessoa não é responsável pela conduta crim inal se, com o resultado de doença ou distúrbio m ental, não tivesse capacidade de diferenciar o certo do errado no m om ento em que o ato foi com etido. — Ele se levanta, derrubando Thor no chão. — Eu não tenho um a doença ou um distúrbio m ental. Eu tenho um a peculiaridade. Certo, m ãe?
Olho para Em m a.
— Isso só pode ser brincadeira.
Ela ergue um pouquinho o queixo.
— Sem pre dissem os que o Asperger não é um m au funcionam ento... é só um funcionam ento diferente.
— Ah, que ótim o — digo. — Bom , Jacob, ou eu uso a defesa por insanidade ou você pode levar essa sua peculiaridade diretam ente de volta para a prisão.
— Só que não é bem assim . No estado de Verm ont, você não pode alegar defesa por insanidade se eu lhe disser que não quero — Jacob responde. — Está tudo no caso Estado contra Bean na Suprem a Corte de Verm ont, Arquivos de Verm ont 171 290, Relatos de Jurisprudência Atlantic 762, segunda série, 1259, arquivado no ano 2000.
— Caram ba, você conhece esse caso?
— Você não? — Ele levanta as sobrancelhas. — Por que não pode sim plesm ente dizer a verdade para eles?
— Certo, Jacob. Qual é a verdade?
Nem bem fiz a pergunta e j á m e dei conta de m eu erro. Qualquer advogado sabe que deve ter cuidado com o que pergunta ao representar um réu em um processo crim inal, j á que qualquer coisa que ele disser pode incrim iná-lo. Se o réu chegar no tribunal m ais tarde e negar o que lhe disse antes, você fica em um dilem a e tem que decidir entre se retirar do caso (o que prej udicaria o réu) ou dizer ao j uiz que ele não está falando a verdade (o que o prej udicaria ainda m ais). Em vez de perguntar o que aconteceu, deve-se dançar em torno da verdade e dos fatos. Pergunta-se ao cliente com o ele responderia a determ inadas perguntas.
Ou, em outras palavras, eu sim plesm ente fiz m erda. Agora que lhe perguntei a verdade, não posso deixar que ele suba ao tribunal e incrim ine a si m esm o.
Por isso eu o im peço de responder.
— Espere, eu não quero ouvir — digo.
— Com o assim não quer ouvir? Você é m eu advogado!
— Nós não podem os apenas dizer a verdade ao j uiz, porque os fatos falam m uito m ais alto em um tribunal.
— Você não consegue lidar com a verdade — Jacob grita. — Eu não sou culpado. E definitivamente não sou insano!
Pego Thor no colo e saio, com Em m a atrás de m im .
— Ele está certo — diz ela. — Por que tem que alegar insanidade? Se Jacob não é culpado, o j uiz não deveria ouvir isso?
Viro tão depressa que ela se desequilibra.
— Quero que você pense em um a coisa. Digam os que você estej a no j úri deste caso e tenha acabado de ouvir um a longa lista de fatos que associam Jacob ao assassinato de Jess Ogilvy. Aí você vê o Jacob lá na frente explicando sua versão da verdade. Em que história você acreditaria?
Ela engole em seco, em silêncio, porque este ponto (pelo m enos) ela não pode contestar: Em m a sabe m uito bem a im pressão que Jacob produz nas outras pessoas, em bora o próprio Jacob não saiba.
— Escute — eu lhe digo —, o Jacob tem que aceitar que a defesa por insanidade é a m elhor chance que tem os.
— Com o você vai convencê-lo?
— Eu não vou — respondo. — Você vai.