Um Mundo à Parte

Jodi Picoult · Capítulo 103 de 121

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Um Mundo à Parte

Oliver

 

O que aconteceu na noite passada foi a experiência m ais m arcante de m eu histórico sexual, a m enos que se considere a vez em que eu estava no segundo ano da faculdade e tive um a carta publicada na Penthouse — com a diferença, é claro, de que aquilo foi ficção, enquanto ontem à noite foi real.

Estive pensando sobre isso. (Tudo bem , estive pensando apenas sobre isso.) Depois que Em m a e eu adm itim os nossos m aiores m edos um para o outro, estávam os em pé de igualdade. A vulnerabilidade passa por cim a da idade. Quando se está em ocionalm ente nu, o salto para estar fisicam ente nu não é m uito grande.

Acordei hoj e de m anhã com o cabelo dela solto sobre o m eu braço e seu corpo quente encostado no m eu, e decidi que não m e im porto se ela dorm iu com igo por desespero, frustração ou m esm o distração — eu não ia perdê-la. Havia m apeado cada centím etro dela na noite anterior; queria retornar a esse território até conhecê-lo m elhor que qualquer pessoa j am ais o conhecera ou viria a conhecer.

O que significava que eu precisava conseguir que o filho dela fosse absolvido, caso contrário ela nunca m ais ia querer m e ver.

Por esse m otivo, vim para o tribunal esta m anhã com a intenção de dar a Jacob a m elhor defesa da história do estado de Verm ont. Estava concentrado, focado e determ inado, até que a vi sair do carro de outro hom em .

De seu ex.

Ele tem o direito de estar aqui, im agino, afinal é o pai de Jacob. Mas Em m a havia m e levado a acreditar que ele não era de fato parte do cenário.

Não gosto do j eito com o Henry a segurou quando estávam os subindo os degraus do tribunal. Não gosto de ele ser m aior que eu. Não gosto do fato de que, na única vez em que toquei o braço de Em m a, quando estávam os prestes a entrar na sala do tribunal, Theo reparou e suas sobrancelhas subiram até a linha dos cabelos, fazendo-m e fingir im ediatam ente que tinha sido um roçar acidental da m ão.

E eu realmente não gosto do fato de estar preocupado com Em m a quando deveria focar unicam ente em seu filho.

Quando os j urados entram , sento em m eu lugar ao lado de Jacob. Ele parece ter tom ado sessenta xícaras de café. Está pulando sentado na cadeira à m esa da defesa. Em m a está à sua direita, e j uro que posso sentir o calor de sua pele m esm o com seu filho entre nós.

— Não gosto disso — Jacob m urm ura.

Somos dois, garoto, penso.

— Do que você não gosta?

— Do cabelo dela.

— De quem ?

— Dela. — Jacob aponta para Helen Sharp, sem olhá-la.

Hoj e, a prom otora está usando o cabelo solto. É castanho-averm elhado e chega à altura dos om bros. Na verdade, isso até a faz parecer m ais com passiva, em bora eu saiba m uito bem que é só im pressão.

— Bom , podia ser pior — digo.

— Com o?

— Podia ser m ais com prido.

O que m e faz pensar em Em m a ontem à noite, com seus cabelos soltos descendo pelas costas. Eu nunca os tinha visto assim , por causa de Jacob.

— É um m au presságio — diz ele, e seus dedos com eçam a bater na coxa.

— Parece ter m uito disso hoj e — com ento e m e viro para Em m a. — O que o Henry está fazendo aqui?

Ela sacode a cabeça.

— Ele apareceu hoj e de m anhã enquanto eu estava correndo — ela enfatiza e não m e olha de frente. Fim de conversa.

— Diga a verdade — Jacob declara, e Em m a e eu olham os depressa para ele. Será que Jacob é m ais intuitivo do que nós dois im aginam os que ele poderia ser?

— Todos de pé — diz o oficial de j ustiça, e o j uiz entra de seus aposentos.

— Se a defesa estiver pronta para sua declaração inicial — o j uiz Cuttings anuncia —, pode com eçar.

Eu preferia ter feito m inha declaração inicial quando Helen fez a dela, para que, em todo o tem po que os j urados ficassem observando as reações de Jacob durante a fala da prom otoria, eles pudessem ter pensado que seu com portam ento inadequado se devia ao Asperger, e não a ele ser um assassino sociopata. Mas o j uiz não m e deu essa oportunidade, então agora preciso deixar um a im pressão duas vezes m ais profunda.

— A verdade — Jacob sussurra outra vez. — Você vai contar a eles o que aconteceu, certo?

Percebo que ele está falando sobre o j úri; está falando sobre o assassinato de Jess. E há tanta coisa envolvida nessa única pergunta que, de repente, não tenho ideia de com o responder a Jacob sem que isso se torne um a m entira. Hesito e respiro fundo.

— Olá. Meu nome é Inigo Montoya — m urm uro para Jacob. — Você matou meu pai. Prepare-se para morrer.

Sei que ele está sorrindo quando m e levanto e olho para o j úri.

— Durante um j ulgam ento, os advogados pedem aos j urados que vej am as nuances do caso. Os senhores devem olhar para am bos os lados de um a questão. Não devem prej ulgar nada. Devem esperar até ter ouvido todos os argum entos para tom ar um a decisão. O j uiz os instruiu a fazer isso e os instruirá novam ente nesse sentido no final do j ulgam ento.

Cam inho em direção a eles.

— Mas Jacob Hunt não sabe fazer isso. Ele não sabe ver as nuances. Para ele, o m undo é preto e branco. Por exem plo, se pedirem a Jacob para lhes dar um a m ãozinha, ele vai lhes estender a m ão. Parte do diagnóstico da síndrom e de Asperger de Jacob significa que ele não com preende o conceito de m etáforas. Para ele, o m undo é literal. — Dou um a olhada para Jacob, que está com os olhos fixos na m esa. — Os senhores tam bém devem ter notado que ontem , durante este j ulgam ento, Jacob não olhou as testem unhas de frente. Ou que ele não dem onstrou m uita em oção quando a prom otoria enum erou os horrores de um a cena de hom icídio. Ou que não consegue ficar sentado durante os depoim entos por longos períodos e que precisa de um intervalo naquela sala nos fundos. Na verdade, pode haver m uitos m om entos durante este j ulgam ento em que pareça aos senhores que Jacob está agindo de form a rude, ou im atura, ou m esm o de um m odo que o faça parecer culpado. Mas, senhoras e senhores, isso não está sob o controle de Jacob. Esses com portam entos são todos características da síndrom e de Asperger, um distúrbio neurológico no espectro do autism o com que Jacob foi diagnosticado. Pessoas com Asperger podem ter QI norm al ou m esm o excepcional, m as tam bém apresentam deficiências sérias em habilidades sociais e com unicacionais. Podem ser obcecados por rotinas ou regras, ou por determ inado tem a. Não conseguem identificar expressões m uito bem , assim com o não conseguem interpretar a linguagem corporal. São excessivam ente sensíveis a luzes, texturas, cheiros e sons. Os senhores vão ouvir dos m édicos e da m ãe de Jacob sobre suas lim itações e com o eles têm tentado, com m uito em penho, aj udar Jacob a superá-las. Parte do que vão ouvir aqui diz respeito à noção m uito concreta que Jacob tem do que é certo e do que é errado. No m undo dele, regras não são apenas im portantes; elas são infalíveis. No entanto, ele não tem entendim ento das bases dessas regras. Ele não saberia dizer com o seu com portam ento poderia afetar outra pessoa, porque é im possível para Jacob se colocar no lugar do outro. Ele pode ser capaz de recitar todas as falas do episódio quarenta e quatro de CrimeBusters, m as não sabe dizer por que a m ãe está aflita na cena sete do program a ou com o a perda de um filho afetou os pais nesse m esm o program a. Se perguntarem a Jacob, ele não saberá explicar. Não porque não queira, e não por ser um sociopata, m as porque o cérebro dele sim plesm ente não funciona desse j eito.

Cam inho para trás da m esa da defesa e coloco a m ão de leve sobre o om bro de Jacob. Im ediatam ente ele se esquiva, com o im aginei que faria, sob o olhar atento dos j urados.

— Se os senhores passarem algum tem po com Jacob — digo —, provavelm ente vão pensar que existe algo... diferente nele. Algo que não conseguem identificar com exatidão. Ele pode parecer estranho, ou excêntrico... m as provavelm ente não vão pensar nele com o insano. Afinal, ele é capaz de m anter um a conversa; sabe m ais sobre determ inados assuntos do que eu j am ais saberei; não corre por aí ouvindo vozes ou pondo fogo em anim ais. Mas a definição de insanidade legal, senhoras e senhores, é m uito diferente do que habitualm ente pensam os quando ouvim os a palavra insanidade. Essa definição diz que, no m om ento em que um ato foi com etido, o réu, com o resultado de um a deficiência ou doença m ental grave, era incapaz de avaliar que seus atos eram errados. O que isso significa é que um a pessoa com um distúrbio neurológico com o o Asperger que com ete um crim e, um a pessoa com o Jacob, não pode ser considerada responsável da m esm a m aneira com o eu ou os senhores seríam os considerados responsáveis. E o que os senhores vão ouvir das testem unhas da defesa é prova de que ter síndrom e de Asperger torna im possível para Jacob com preender com o suas ações poderiam causar danos a outra pessoa. Vão ouvir com o ter síndrom e de Asperger poderia levar um a pessoa com o Jacob a ter um interesse idiossincrático que se torna irresistível e obsessivo. E vão ver tam bém , senhoras e senhores, que ter síndrom e de Asperger prej udicou a capacidade de Jacob de com preender que o que ele fez com Jess Ogilvy foi errado.

Atrás de m im , ouço sussurros. De canto de olho, vej o um a dezena de bilhetes, em pilhados do m eu lado da m esa. Jacob está balançando para frente e para trás, com a boca apertada. Depois de um m inuto, ele com eça a escrever bilhetes para Em m a tam bém .

— Ninguém está sugerindo que a m orte de Jess Ogilvy sej a nada m enos que um a tragédia, e expressam os nossos sentim entos à sua fam ília. Mas não aum entem essa tragédia criando um a segunda vítim a.

Aceno com a cabeça, indicando que term inei, e volto a m e sentar. Os bilhetes são curtos e furiosos:

 

“NÃO.”

 

“VOCÊ PRECISA DIZER A ELES.”

 

“O QUE EU FIZ FOI CERTO.”

 

Eu m e inclino para o m eu cliente.

— Apenas confie em m im — digo.